• Nenhum resultado encontrado

4.2 Tessitura hosteleira: Mas, afinal, como o hostel é compreendido?

4.2.1 Interações humanas no contexto hosteleiro

Postulado como um fenômeno regido pelas interações humanas, o hostel carrega em si aspectos como: socialização, diversidade, troca subjetiva, desenvolvimento humano, entendimento entre os sujeitos, contato com a cidade visitada, mescla de pessoas, culturas e histórias de vidas. Infinitas são as práticas que podem emergir desse emaranhado de noções que juntos formam um “caldeirão polissêmico”:

São pessoas de línguas, idades, opções [sic] sexuais e ideologias diferentes, procurando conversar e estabelecer vínculos. Dividindo gostos, compartilhando culturas, mediando diferenças e semelhanças. Esses vínculos, muitas vezes fugazes e efêmeros, que se realizam pela motivação do encontro com o Outro, pelo desejo em conhecer o diferente, pela experiência da alteridade, fazem a circulação de ideias e sentimentos, propiciando aprendizagens. (FALCÃO, 2015, p.10).

Similarmente, a tendência para conhecer outros viajantes é para Abrantes (2016) umas das características inerentes a este tipo de hospedagem. E, para conseguir proporcionar essa interação, contam com uma estrutura voltada para o compartilhamento.

Nesse sentido, os hostels contemplam quartos coletivos, salas e os espaços de convivência para que os sujeitos tenham um convívio diário durante a permanência no local. Embora singularidades e regularidades possam ser percebidas em distintos hostels (SILVA, 2015).

Normalmente, este empreendimento oferece: “[...] mais e melhores oportunidades para os hóspedes socializarem e conhecerem pessoas de diferentes culturas, dada a existência de áreas comuns e dormitórios” (CRÓ, 2018, p. 42). Diversas são as facilidades oferecidas pelos hostels e parte delas consistem no convívio e partilha constante, como detalhado no excerto a seguir:

Os hostels são uma forma de alojamento temporário, onde backpackers e outros viajantes podem alugar uma cama (normalmente em beliche), num quarto com outros hóspedes. Além da cama, todas as outras facilidades são partilhadas entre os hóspedes, incluindo a casa de banho e a cozinha. Outras facilidades incluem, normalmente, computadores partilhados, acesso wi-fi, troca de livros e cadeados (lockers), assim como, piscina, bar/restaurante (ou zona de refeições), aluguel de bicicletas e zona de reserva de viagens.

(ABRANTES, 2016, p.189). (Grifo da autora).

Para além da questão estrutural compartilhada, cinco são os aspectos tidos como básicos que um hostel deve oferecer aos hóspedes: a) segurança; b) higiene; c) conforto;

d) hospitalidade; e, e) bom preço (FALCÃO, 2015). Embora já existam outros, tais pontos segundo a autora, são determinantes para um espaço ser considerado ou não um hostel, porém, a autora garante que nem sempre estes itens são cumpridos pelo meio de hospedagem com rigor. Mediante a isso, transtornos podem surgir durante a estadia quando o espaço não propicia com eficiência tais elementos.

Além dos aspectos básicos, há ainda aqueles conhecidos como essenciais, presentes na “matriz classificatória de áreas físicas” de hostels, proposta por Bahls no ano de 2015. Pautada em pesquisas realizadas em nível nacional e internacional, o autor detectou os itens essenciais, básicos e opcionais que este tipo de alojamento deve contemplar. Dito isso, uma exemplificação será citada para aqueles considerados

essenciais, a saber: 1) área social externa; 2) banheiro para cada dormitório; 3) cozinha comunitária; 4) dormitório; 5) guarda-volumes; 6) lavanderia; e, 7) sala de estar.

Por tais razões, alguns autores sinalizam a perspectiva do hostel como espaço híbrido no que diz respeito à estrutura e à oferta diversificada de serviços e produtos38.

Falcão (2015), assim como Bahls e Pereira (2017b), notaram que diversos empreendimentos, especialmente os nacionais, não se adaptam a tais características tidas como essenciais para o cenário hosteleiro internacional, “[...] devido à sua formação socioespacial e conceitos de hospitalidade diferenciados” (BAHLS, PEREIRA, 2017b, p.2). Demonstrando assim, as diferenças existentes nos hostels em cada contexto no qual é inserido:

Algumas áreas físicas consideradas como essenciais no exterior, são negligenciadas por grande parte dos empreendimentos nacionais. Apenas 03 itens (área social externa; dormitório; sala de estar) considerados como essenciais, estão presentes em todos os estabelecimentos analisados, significando que apenas 40% dos requisitos essenciais estão sendo preenchidos pelos estabelecimentos. (BAHLS, 2015, p.156).

Satisfeitas as características básicas e essenciais ainda que parcialmente, um ambiente propício se forma, e com isso relações são construídas e práticas vivenciadas, o que possibilita a equiparação a uma casa. Tal como alguns autores defendem: “uma casa longe de casa para o ser acolhido e, em alguns casos é, realmente, a casa do ser acolhedor, cujos seus integrantes compõem uma grande família, família essa que era o intuito do criador dos hostels (Richard Schirrmann)” (BAHLS, 2015, p.302).

Igualmente para Toledo (2017), um hostel é uma casa, no entanto, está além das paredes, ou seja, é feita pelos sujeitos que a compõem e se apropriam do espaço e dão sentido a ela por meio das práticas e relações estabelecidas. A casa representa o “nosso canto no mundo”, o hostel enquanto casa torna-se o local de referência dos sujeitos ainda que temporariamente. É o local onde possibilita o viajante sentir-se seguro e acolhido durante a viagem pelo destino escolhido, podendo até mesmo ser chamado de lar.

Ser caracterizado como casa, então, incide na filosofia que remonta à gênese hosteleira, conforme afirma Bahls (2015), ideologia a qual perdura até os dias de hoje, especialmente no que se refere à hospitalidade destes ambientes. A qual está relacionada a forma de receber e hospedar os hóspedes por parte dos anfitriões. Onde a proximidade estabelecida entre o ser acolhedor e o ser acolhido se desenrola, muitas vezes, de forma tão íntima que amizades surgem dessa interação.

38 DOUGLASS, 2013; BROCHADO et al. 2015; ABRANTES, 2016; MANÉ, 2017; CRÓ, 2018.

Sob essa lógica, Thomazi e Baptista (2018) constataram em suas pesquisas certa emergência nos sujeitos em vivenciar nos hostels uma hospitalidade denominada “real”, a qual para a autora nada mais é do que uma troca significativa de cultura regida pela prática da amorosidade nas relações estabelecidas com o outro. Ou seja, relações voltadas para a valorização da ética relacional humana, regida pelo amor:

[...] o amor é o reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência.

Essa é a concepção que sustenta também os neologismos ecoamoroso e socioamoroso. Significa, portanto, voltar-se para a sociedade, em sua ambiência ecossistêmica, marcada por relações éticas, de acolhimento mútuo e de estabelecimento de confiança plena. (THOMAZI; BAPTISTA, 2018, p.2).

Nesse sentido, sustentadas nos estudos de Humberto Maturana (1998), as autoras pontuam ser o amor, o laço que constitui as relações dentro destes espaços. Para elas, um hostel é uma espécie de mutação do modelo de hospedagem convencional, pois:

“entrelaça demandas por relações comprometidas com a cooperação, em detrimento da lógica competitiva presente no modelo tradicional de hospedagem” (THOMAZI;

BAPTISTA, 2018, p.1).

Confiança, então, é um vocábulo recorrente na obra de Thomazi (2019), pois demarca as relações sociais no contexto de um hostel, onde é preciso que os sujeitos confiem nos desconhecidos - uns nos outros, que dividem os mesmos ambientes.

Desse modo, por serem espaços sociais desde sua constituição, conforme evidencia sua trajetória histórica, é comum no discurso da literatura a caracterização dos hostels enquanto locais propícios onde os sujeitos podem se expressar, dialogar, debater, expor opiniões e ideias, socializar, partilhar, associar-se, fazer amizades e estabelecer vínculos. Processo que pode culminar na construção do conhecimento e aprendizado, postulando os hostels: “[...] como agentes de construções sociais por promoverem a interação entre seus hóspedes, possibilitando uma convivência com pessoas de diferentes culturas e regiões do mundo e, além do mais, contribuir com seu desenvolvimento pessoal” (MANÉ, 2017, p. 66).

Não se pode deixar de mencionar, contudo, que o convívio com pessoas distintas pode igualmente contribuir para que seja um processo desafiador. Isto porque, observou-se no estudo de Bahls (2015), o desafio de grande parte dos anfitriões em relação ao acolhimento de três tipos de hóspedes: a) desconhecem as características de um hostel; b) focados no preço “acessível” da hospedagem e, c) aqueles com a crença de tudo ser liberado em um hostel.

O estudo demonstra certa necessidade do anfitrião em “educar” os hóspedes, especialmente os sujeitos que desconhecem o funcionamento e a dinâmica cotidiana de um hostel. Porém, mesmo “educando-os” e “impondo regras”, sejam elas visíveis ou invisíveis, o desafio para os anfitriões, está centrado em como alcançar o cumprimento delas com rigor, se o perfil dos sujeitos são diversos culturalmente, sobretudo, no que se referem a hábitos e costumes.

Outro aspecto amplamente veiculado pela bibliografia da área, diz respeito ao contato com a cultura local constituir-se como um discurso perene nos estudos de hostel.

Isso é devido ao potencial deste espaço de estimular os visitantes a dialogarem com o destino visitado.

Tal estímulo acaba por reverberar tanto no lazer quanto no turismo do local onde o hostel se encontra, impactando-os profundamente. Estudos39 referente ao perfil dos turistas desses ambientes, revelam a movimentação nas esferas econômicas, culturais, sociais e ambientais durante as práticas de lazer e turismo nas cidades visitadas. Tais práticas, além de serem veiculadas pelo perfil ativo desses hóspedes, são também estimuladas pelos anfitriões, o que ratifica dessa maneira, a estreita relação entre hóspedes, hostel e território.

Tal perspectiva fundamenta-se, frequentemente, nos ideais difundidos por Richard Schirrmann no processo de constituição dos hostels alemães. Já que uma das principais motivações do professor era o contato externo por meio de excursões e passeios escolares proporcionados aos estudantes. Basicamente conforme visto em momentos anteriores, a proposta do professor era promover o contato com a cultura das cidades e com a natureza, além da convivência entre pessoas com diferenças socioculturais (BAHLS; PEREIRA, 2018).

Com vistas a facilitar o contato extra hosteleiro de ir e vir dos grupos, nota-se na literatura da área, diversos hostels situando-se em locais estratégicos, ou seja, próximos aos lugares propícios para a realização dos trabalhos de campos e excursões escolares propostas pelo professor. A herança intrínseca entre hostel e cultura local, percorreu os séculos e se manifesta de forma continuada nos hostels contemporâneos, cada qual à sua maneira com características ímpares. A partir das contribuições bibliográficas, observa-se que a interação com a cidade local é ativada então, por dois agentes propulsores desobserva-se movimento, pelo hostel (representado pela figura do anfitrião) e pelo próprio hóspede.

39 GIARETTA, 2003; NASH, THYNE, DAVIES, 2006; OMT, 2010.

Tratando-se do meio de hospedagem, por exemplo, variados hostels disponibilizam práticas de lazer aos hóspedes tanto internamente quanto externas ao ambiente hosteleiro. Isso contempla as três tipologias exemplificadas nos estudos de Oliveira-Brochado e Gameiro (2013); hostels familiares: oferecem tarifas reduzidas e quartos limpos e confortáveis, com vistas a atrair famílias que buscam férias mais baratas no destino, hostels de atividades: disponibilizam uma ampla oferta de práticas aos hóspedes tais como: surf, esqui, caminhadas, ciclismo, mergulho, entre outras possibilidades; hostels festivos: organizam festas, eventos e atividades noturnas internas e externas, voltados em especial, para os viajantes em busca de festas e de experienciar a vida noturna na cidade.

Cabe dizer que os festivos, geralmente, possuem bar interno, vendem bebidas e petiscos e ainda oferecem o pub crawl ou “tour etílico” uma atividade onde os hóspedes são guiados pelo anfitrião para conhecer os bares da cidade. Nesse viés, acabam por desempenhar um papel crucial no sentido de estimular práticas internas e externas ao meio de hospedagem.

Além disso, muitas vezes o anfitrião representa o contato inicial e mais direto do visitante com a cidade, devido ao fato de auxiliar os hóspedes nas mais variadas demandas acerca do destino. Logo ali é possível que o hóspede associe a forma de receber daquele hostel com a hospitalidade do destino e sobretudo do próprio alojamento.

Tal cenário vai ao encontro do posicionamento Bahls (2015), ao acreditar na estreita relação entre hostel e território reverberando na hospitalidade entre os sujeitos envolvidos. Basicamente, é estabelecida “[...] uma relação exclusiva com o território turístico que ocupa, que é traduzida em uma relação estreita entre ser acolhedor e ser acolhido. Essa relação, que tem seus serviços e infraestruturas representados na hospitalidade, aproxima hóspede e anfitrião” (BAHLS, 2015, p.8).

A partir desse panorama, identificou-se no estudo de Pereira (2019), práticas de lazer oferecidas por alguns hostels das cidades de Belo Horizonte e Lisboa. Constatando ser o lazer uma prática recorrente encontrada na realidade hosteleira de ambos cenários investigados pela autora. A pesquisa detectou práticas internas (em especial aquelas voltadas para promover a integração entre os hóspedes) similares aquelas expressas na referida categoria ‘hostels festivos’. Além disso, observou-se o prevalecimento de práticas de lazer externas promovidas pelos hostels, indo ao encontro da tipologia ‘hostels de atividades’.

Agrupadas nas categorias cultural, natural e vida noturna, a autora constatou diferenças nos hostels belo-horizontinos investigados, um ofertando atividades de aventura (trilhas, escaladas, travessias, passeios de bike e corridas) e o outro com o foco em atividades internas (shows, festivais, feiras, festas e bares); sinalizando um enfoque específico de práticas em cada um deles.

Já no contexto europeu, a autora verificou uma mescla de práticas internas (encontros para degustar a culinária local, festas de integração para hóspedes e noites de jantares) e externas tais como: surf, city tour, tour noturno de bares, walking tour e bike tour (PEREIRA, 2019). Igualmente Bahls e Pereira (2017b) averiguaram nos hostels de Florianópolis, uma oferta variada de atividades, e grande parte delas realizadas externas aos estabelecimentos tais como: surf, trilhas e jogos nas praias.

Nesse sentido, tais estudos ratificam o papel desempenhado por estes espaços de estimular o contato com a cultura local viabilizando práticas de lazer. Segundo Pereira (2019), a oferta de atividades por parte dos hostels tem o potencial de proporcionar ao hóspede formas de interação com o destino, bem como vivenciar novas experiências durante a viagem.

Perspectiva que dialoga com Mané (2017), ao constatar, em sua pesquisa, a importância da escolha por parte dos hóspedes de um ambiente onde seja possível vivenciar experiências memoráveis, para além de um local com a finalidade de satisfazer necessidades como: banho, repouso e alimentação. Afinal, estes sujeitos “[...] estão muito mais preocupados com a satisfação de suas viagens e hospedagem quando se pode ter e vivenciar experiências jamais vividas anteriormente” (MANÉ, 2017, p.71).

Em se tratando do hóspede, então, a literatura é taxativa em afirmar a predominância de um público em busca de conexão com pessoas e lugares. Embora categorizar este público seja desafiador, dada a essência pluralista, conforme discutido em momentos anteriores. Esta tendência “buscadora”, postula os hóspedes desse meio de hospedagem com um perfil que se aproxima ao aventureiro.

Nesse ângulo, remete-se aos Ideais, um dos componentes da tríplice gênese hosteleira, já mencionados. Ideais estes, inspirados na ideologia wandervogel que em essência carregava o espírito aventureiro. No entanto, não se classifica aqui o público de hostel sob tal enfoque, longe de categorizá-lo, propõe-se lançar pistas a fim de compreender as variadas facetas que o constitui. Dito isso, há ainda outra associação possível para identificar pistas referente a este perfil de hóspedes, retomando as características dos perfis de turistas.

Para isso ancora-se no perfil do turista consagrado no campo do turismo por Erik Coeh na década de 1970 por meio da sociologia do turismo, contribuições ainda perpetuadas em diversos estudos na contemporaneidade. Cró (2018, p. 43), por exemplo, retoma esses perfis, os quais se subdividem em: “(i) os turistas institucionalizados, que agrupa os turistas de massa organizados e os turistas de massa individual40, e (ii) os turistas não institucionalizados, que incorpora os turistas classificados na categoria de explorador e andarilho”.

Embora o público de hostel seja diversificado e abrangente, sendo difícil aferir com exatidão o perfil41 conforme citado em momentos anteriores. Nota-se nos mais variados estudos a tendência de um protagonismo orientado para os “exploradores e andarilhos”. Devido especialmente, às características da essência hosteleira, oriundo dos ideais wandervogel de espírito aventureiro, serem similares a tais perfis:

O explorador prefere uma mistura confortável de familiaridade e novidade. Ele tende a afastar-se dos percursos habituais e tende a explorar a cultura local, mas apenas a uma distância segura do ambiente familiar de ‘redoma’. O último tipo, o andarilho representa o extremo oposto do espectro do turista de massa organizado. Para eles, a novidade é um prêmio, pelo que evitam a rota turística regular, preferindo viagens sem itinerário fixo que proporcionem uma imersão na cultura local e uma integração com a comunidade residente.

As despesas são realizadas em estabelecimentos locais e determinadas pelas necessidades que surgem. (CRÓ, 2018, p.43-44, grifos da autora).

Movidos então por aspectos sociais e consciência cultural, esses sujeitos têm predisposição para imergir no destino visitado, para além do turismo convencional. O que revela ao denominado “novo consumidor” de hostel constatado por Mané (2017) a qual identificou 7 categorias para sua escolha: 1) Preço; 2) Possibilidade de trocas culturais;

3) Possibilidade de interação com outros hóspedes; 4) Possibilidade de ficar mais tempo hospedado; 5) Possibilidade de fazer a própria refeição; 6) Ambiente; 7) Experiência.

À guisa de conclusão, respondendo à pergunta que inaugura a presente seção:

Mas, afinal, como um hostel é compreendido? Pluralizado, difuso e complexo, o fenômeno de hostel, nesse sentido, é concatenado por múltiplas visões e interpretações.

40 “[...] o turista de massa organizado revela uma preferência elevada por familiaridade e tende a viajar num ambiente familiar de ‘redoma’ proporcionado pelo pacote turístico adquirido nas agências de viagem. O turista de massa individual apesar de também valorizar a questão da familiaridade gosta de viajar de forma independente, apesar de seguir as rotas turísticas regulares incorpora mais flexibilidade, permitindo alguma personalização mediante as opções disponíveis, em função da especificidade e unicidade da experiência turística procurada. ” (CRÓ, 2018, p.43).

41 ABRANTES, 2016; CRÓ, 2018; PEREIRA, BAHLS, 2018.

As compreensões incorrem sob as mais distintas possibilidades, relacionadas: 1) a estrutura física e mobiliária (quartos e demais áreas compartilhadas e ambiente informal e descontraído); 2) a precificação (low-cost, tarifas reduzidas, preço acessível, baixo custo, opção mais barata e/ou econômica, baixo orçamento financeiro); 3) um segmento de hotel (opção rudimentarizada de hotéis, derivação de hotel, um hotel mais barato e modesto); 4) ao perfil do público (backpackers/mochileiros, jovens, estudantes, turistas da juventude, diversificado e abrangente); 5) as interações humanas (relações entre os hóspedes e destes com os anfitriões, meio alternativo, social e propício a formação de amizades e vínculos); e, 6) as interações externas (contato com a comunidade e cultura local regido pela tríplice hostel/hóspede/território, provedor de experiências de lazer e turísticas).

Dotadas de um legado histórico, tais características, como visto, regem as acepções de hostel e reverberam na dinâmica do espaço. Evidenciando ser um fenômeno híbrido e perene, circunscrito às relações humanas, colocando o hostel, portanto, como um termo polissêmico, dotado de múltiplas facetas.

Logo, objetivando concluir o direcionamento discursivo exposto até aqui, parafraseando as palavras do filósofo francês Pêcheux (1969) reproduzidas por Rocha e Deusdará (2005, p.12) e adaptando-as ao contexto de hostel: não se tratou de dicotomizar visões tidas como centrais ou periféricas, “e menos ainda de estabelecer a primazia” de uma sobre a outra, pretendeu-se lançar luz à essas questões com vistas a ser um convite para (re) olhar “a natureza das relações” do fenômeno de hostel com as infindáveis possibilidades que o cerceiam.

No capítulo a seguir, portanto, serão tecidas as análises no contexto dos hostels investigados na cidade de Belo Horizonte, revelando a dinâmica destes espaços junto aos sujeitos envolvidos.

5 O MOVIMENTO HOSTELEIRO EM BELO HORIZONTE - MG

“Passar a entender o turismo, além do negócio e da gestão do negócio, como busca de indivíduos por um eu-diferente e de um outro-diferente em espaços cambiantes. [...] e de que maneira um espaço e a vida que nele habita aceitam dividir-se com estranhos.”

(Luiz Octávio de Lima Camargo)

O fragmento acima se caracteriza como uma exposição sumária do caminho percorrido no presente capítulo. Desvelando as incontáveis buscas dos sujeitos por um eu e outro diferente, em um contexto como o hostel, um espaço cambiante, complexificado pelas buscas humanas, pelas interações humanas. Afinal, recôndito nestas buscas encontra-se o interagir, o desejo de interagir dos indivíduos, seja com pessoas, lugares e práticas. Um interagir que se faz presente e demarca o dinamismo do contexto hosteleiro.

Como se estabelecem as interações entre anfitriões e hóspedes nos hostels? O que emerge de possibilidades e desafios das interações humanas nestes espaços? Como os hóspedes e anfitriões percebem este tipo de hospedagem? Quais as motivações desses sujeitos? De que maneira as práticas manifestadas nestes ambientes podem assumir feições de lazer?

A partir dessas indagações, o capítulo em questão propõe debruçar-se sobre as narrativas dos sujeitos entrevistados e sobre as observações realizadas durante as incursões de campo. Ser um convite para olhar e (re) olhar os sujeitos dentro deste contexto é o que se dedica neste momento, com vistas a trazer à tona a dinâmica relacional humana do fenômeno de hostel.