3 LINGUAGEM, CULTURA E AS RELAÇÕES INTERCULTURAIS NO ENSINO DE
3.2 INTERCULTURALIDADE E ENSINO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS
A ideia de interculturalidade é entendida como comunicação entre povos de diferentes culturas étnicas e sociais dentro dos limites de uma nação ou encontro de pessoas de diferentes culturas e línguas, que transcendem barreiras políticas de estados ou países (KRAMSCH, 2000). Vivemos rodeados por sociedades multiculturais. Os sujeitos são constituídos por diferentes vozes socioculturais, compartilham de diferentes origens e experiências fora e dentro de determinadas culturas.
Compreender interculturalidade por essa perspectiva se faz possível se entendermos que conceitos como dialogismo, hibridismo e exotopia cultural (apresentados no capítulo 2), relacionados com a noção do ILF, contribuem para que as diversas vozes sociais presentes nos discursos dos sujeitos sirvam como conceitos mediadores das experiências sociais em sala de aula de LE.
Meireles (2002), em seu artigo sobre ensino de LE para a revista EDUCAR, faz um resgate de diversos métodos de ensino, para em seguida discorrer sobre a abordagem intercultural e seu papel fundamental no ensino/aprendizagem de LE. Abaixo, a autora compara duas tendências mais recentes no ensino de línguas, o método comunicativo28 (abordagem comunicativa) e a abordagem intercultural. Segundo ela,
a abordagem intercultural tem muitos pontos em comum com o método comunicativo: ambos privilegiam o uso da língua estrangeira na comunicação, a aprendizagem cognitiva e criativa, a organização do conteúdo programático em grupos temáticos e da interação em sala de aula, com a mesma dinâmica de grupo. A principal diferença repousa no fato de que o método comunicativo ainda visa principalmente a capacitar o aluno a orientar-se e a integrar-se no cotidiano estrangeiro. A abordagem intercultural, por sua vez, visa propiciar ao aluno a oportunidade de ‘interpretar outras formas de comportamento, concepções e valores de uma cultura, tendo como pano de fundo sua própria cultura, suas experiências pessoais’. (2002, p.10)
28 Meireles (2002) utiliza o termo “método comunicativo” em seu artigo. Para aproximar da perspectiva do presente trabalho, o termo “abordagem comunicativa”.
Não discutirei aqui as características da abordagem comunicativa, apenas trago a fala da autora para esclarecer em quais pontos dessa abordagem (método comunicativo, nas palavras da autora) e a abordagem intercultural se diferem. De acordo com Meireles (2002), enquanto a abordagem comunicativa informa o aluno sobre a realidade nos países de língua em estudo, a abordagem intercultural parte de fatos da língua e da cultura do aluno – ou que esteja presente no universo de representações culturais próximo do aluno – para interpretar seus correspondentes em outras línguas e culturas (no escopo da presente pesquisa, na língua inglesa).
Meireles enfatiza também que a partir da discussão e compreensão do universo do aluno, as culturas da língua alvo e das línguas do aluno são contrastadas, não mais se fixando na situação do aprendiz como estrangeiro no país falante da LI, por exemplo, mas permitindo outras possibilidades. A autora acrescenta que,
o mais importante na abordagem intercultural é, a meu ver, a valorização da cultura do aluno como igualmente legitimada em relação à cultura da língua estrangeira. (...) Apenas no método intercultural o aprendiz não é convidado a despir-se de suas características culturais e assumir ou assimilar novas regras de conduta e pensamento. Na abordagem intercultural, o aprendiz vê sua cultura e sua língua como uma dentre várias possibilidades igualmente desejáveis e válidas.
Levando em consideração a visão de interculturalidade no ensino de LE apresentada acima, podemos aproximá-la da perspectiva dialógica de linguagem do Círculo de Bakhtin. A teoria bakhtiniana nos permite analisar os processos interculturais na linguagem e interação dos sujeitos para além do espaço literário, que é um dos focos centrais de Bakhtin em suas obras mais importantes. É claro que para além da Literatura, o autor reflete sobre o sujeito e suas atitudes responsivas no mundo concreto, transcendendo a estética literária.
A visão de língua/linguagem como discurso e o processo da exotopia e do excedente de visão na relação entre o “eu” e o “outro” são sinais latentes de uma teoria da alteridade/interculturalidade. O ensino de línguas estrangeiras, assim como os estudos literários, estudos linguísticos, teológicos, etc., abre espaço para as relações interculturais como um dos princípios norteadores do trabalho em sala de aula.
Os conceitos que Voloshinov e Bakhtin (1979, p.5) apontam no texto “Discurso na vida e discurso na arte” são considerados aqui como fundamentais para o processo de ensino/aprendizagem de língua inglesa na perspectiva dialógica de linguagem, e apontam para elementos constitutivos - de caráter linguístico-cultural – das relações humanas e da(s) identidade(s) dos sujeitos e que, na presente pesquisa, serão mobilizados como substrato na compreensão das relações interculturais que envolvem os diversos atores sociais.
Alguns fatores essencialmente interculturais que mudam a visão da relação entre os sujeitos em sala de aula de língua estrangeira são resumidos a seguir:
a) O horizonte espacial comum dos interlocutores, ou seja, aquilo que se localiza no eixo axiológico dos sujeitos e que de alguma maneira é conhecido e compartilhado entre eles;
b) O conhecimento e a compreensão comum da situação por parte dos interlocutores, ou seja, o contexto verbal e extraverbal, de acordo com a teoria bakhtiniana;
c) Sua avaliação comum desta situação, os julgamentos de valor e o acabamento dado à situação por meio da exotopia cultural.
Na sala de aula de língua estrangeira, esses fatores permitem que a língua não seja apenas vivenciada e aprendida como um código abstrato, mas sim como o elemento vivo de compreensão do mundo e das relações sociais. Para a discussão dos processos de ensino/aprendizagem da língua inglesa e a formação de professores numa perspectiva intercultural (escopo da presente pesquisa), é necessária, além da apropriação da visão de língua como discurso, permeado de múltiplos sentidos de acordo com o seu contexto de uso (entre diferentes povos, culturas, instâncias institucionais e relações de poder), uma definição de qual visão de escola/educação embasa essa discussão.
3.3 INTERCULTURALIDADE CRÍTICA E PEDAGOGIA CRÍTICA NA FORMAÇÃO DE