2 CENA TEÓRICO-CONCEITUAL: apontamentos e reflexões
2.1 O conceito de latinidade
2.1.2 Interculturalidade e hibridação cultural na AL
Analisando a representação social que latino-americanos usuários de sites de redes sociais constroem sobre o que significa ser latino11, tomamos como pressuposto que a latinidade é definidora de diversas questões no cenário sociocultural da modernidade, tais como a expansão dos domínios latinos marcada pela propagação das línguas portuguesa e espanhola pelo mundo e a repercussão do modo cultural e social de ser dos povos latinos nas mídias, no contexto dos meios de comunicação de massa.
Dada sua dinâmica dos dias de hoje, a identidade cultural da AL segue como um fenômeno em construção. Os meios de comunicação de massa e a velocidade com que se propagam as informações por estes meios tornaram visíveis as dimensões deste fenômeno em curso, no modo com os sujeitos se relacionam entre si e no modo com interagem, pela linguagem. Neste tocante, há de se levar em conta a necessidade de compreender as práticas discursivas contemporâneas ambientadas nos meios de comunicação, resultantes da propagação das tecnologias pelo mundo.
11 Referimo-nos à pesquisa de mestrado que resultou na dissertação intitulada “Representações sociais sobre a latinidade em sites de redes sociais contemporâneas: uma investigação discursivo-ideológica situada no Orkut”, defendida, em 2011, no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Ceará, sob a orientação da professora Dra. Lívia Márcia Tiba Rádis Baptista, com o apoio financeiro do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
Em nossa de pesquisa de mestrado (IRINEU, 2011, p. 38), advogamos que:
Todo o percurso histórico e todo o construto cultural dos países que compõem a América Latina têm repercussões significativas no modo como os sujeitos latino- americanos concebem a sua imagem e a imagem que formam do seu mundo no tocante as suas representações. E a imagem que se tem da latinidade se constitui ao certo em torno à identidade cultural, vista como elementar na constituição da reflexão latino-americana em torno de seu próprio ser, fazendo nascer, no discurso de latinos da América, um ethos específico de pertencimento àquela nação.
Em nossa proposta de investigação, compreendemos interculturalidade a partir de uma sinalização plausível ao modo de conceber essa nova cultura, híbrida e multifacetada, ou seja, interculturalidade “como um fenômeno que nos constitui como indivíduos e/ou grupos sociais singularmente latinos” (IRINEU, 2011, p. 38). Na mesma direção, compreendemos comunicação de massa como “a produção institucionalizada e a difusão generalizada de bens simbólicos através da transmissão e do armazenamento da informação/comunicação” (THOMPSON, 2009, p. 288).
Neste contexto, não há como negar que a WEB 2.012 fez com que indivíduos de todas as partes do mundo se integrassem e passassem a fazer parte de um mundo intercultural e globalizado, favorecendo a propagação da produção jornalística dos veículos de comunicação. A mídia, de modo especial a jornalística, passa a retratar em seus textos fenômenos socioculturais que, antes separados, passam a se combinar, no entrecruzar de culturas, entre a tradição e a modernidade, para gerar novas práticas.
Assim, no contexto de globalização, especialmente pelas redes migratórias, os latino-americanos se encontram e se tocam: globalizam-se como “produtores culturais migrantes” (GARCÍA CANCLINI, 2008a) em um fenômeno que singulariza o mundo latino- americano e sobre o qual nos debruçamos para compreendermos a identidade cultural desta parte da América: a hibridação cultural.
Reconhecido mundialmente por seus estudos sobre interculturalidade na América Latina, Néstor García Canclini dedicou parte significativa de sua produção intelectual aos Estudos Culturais de orientação antropológica e, de modo específico, aos estudos sobre hibridação cultural, termo este que, segundo o autor, modificou o modo de falar de cultura e de tradição/modernidade no cenário sociopolítico latino-americano principalmente a partir dos nos de 1990, quando a ideia de hibridação na Antropologia (GARCÍA CANCLINI, 2010).
12 Fazemos menção aqui ao termo criado em 2004 por um empresa americana de tecnologias digitais, para fazer referência à segunda geração de recursos da internet, sendo este espaço virtual visto como uma complexa plataforma de aplicativos. Refere-se o termo ainda a uma mudança na forma como a internet é vista por usuários e desenvolvedores: como ambiente de interação que engloba inúmeras linguagens e motivações de uso. Trata-se de uma superposição ao termo “ciberespaço” proposto por Lévy (1999).
Apesar de se tratar de um fenômeno que há muito está presente nas mais diversas sociedades em seus fluxos migratórios e na configuração de identidades culturais dos povos em geral, somente nos últimos anos as discussões sobre hibridação e interculturalidade chegaram aos estudos linguísticos, na abordagem de fenômenos relacionados à cultura e à linguagem, em interface.
García Canclini (2010) afirma que hibridação cultural é um fenômeno antigo cuja existência já havia sido estudada, mesmo que indiretamente ou sem nomeações conceituais precisas, por intelectuais como Mikhail Bakhtin ao caracterizar as linguagens culta e popular na Idade Média e no Renascimento. Mais recentemente, o termo tem-se feito presente em pesquisas de diversas áreas do conhecimento que tratam dos entrecruzamentos culturais e das novas formas globalizadas de comunicação.
Como um fenômeno presente nas artes, na música, na imprensa de rua que agora se insere na WEB 2.0 através de recursos de interatividade, ou seja, nas relações sociais, a hibridação cultural pode ser compreendida como um complexo de “processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam em formas separadas, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas” (GARCÍA CANCLINI, 2010, p. 02, tradução nossa13). Trata-se de um conceito que permite leituras múltiplas (entre elas a discursiva) de mesclas culturais que se estabelecem historicamente entre a tradição e a modernidade na AL.
Ainda segundo o antropólogo argentino, o fortalecimento das mídias impressas e eletrônicas no século XX favoreceu a evidência da hibridação cultural nos países latino- americanos através da instituição de uma cultura de massa internacional, principalmente no âmbito jornalístico. Basta pensar que, já a partir dos anos de 1980, intensifica-se o estabelecimento de escritórios internacionais de notícias, com jornalistas correspondentes, em todo o mundo, dando início à produção de material jornalístico de dado país para ser levado a diversos outros países, mundo afora.
Na visão de García Canclini (2008b, p. 79, tradução nossa14), nós, latino- americanos, “vivemos os anos oitenta e noventa tratando de nos globalizar”, destacando que mesmo os que à época não integravam os fluxos migratórios de um país a outro na AL protagonizam uma “globalização a domicílio”, caracterizada pela chegada dos meios de comunicação de massa no cotidiano das famílias por todo o mundo.
13 Tradução nossa de: “procesos socioculturales en los que estructuras o prácticas discretas, que existían en forma separada, se combinan para generar nuevas estructuras, objetos y prácticas”.
Neste contexto, a América Latina passa a integrar um mundo não mais multicultural, mas intercultural e globalizado, no qual as mais diversas culturas se tocam e se mesclam, como destaca García Canclini (2009, p. 17):
De um mundo multicultural – justaposição de etnias ou grupos em uma sociedade ou nação – passamos a outro, intercultural e globalizado. Sob concepções multiculturais, admite-se a diversidade de culturas, sublinhando sua diferença e propondo políticas relativistas de respeito, que frequentemente reforçam a segregação. Em contrapartida, a interculturalidade remete à confrontação e ao entrelaçamento, àquilo que sucede quando os grupos entram em relação e troca. Quando tratamos de interculturalidade em relação ao entrelaçamento do que é diverso, do que é heterogêneo, vemos na cultura um sistema de relações de sentido que identifica o diferente, o contraste, a comparação e que abarca os fenômenos sociais da significação. A partir desta visão de cultura, compreendemos os postulados de Peter Koch (1997, p. 60) ao afirmar que “tradições discursivas são, basicamente, apenas um tipo das multifacetadas tradições culturais do ser humano”, o que nos leva a acreditar que as mudanças pelas quais os ethé analisados nesta pesquisa passaram ao longo da história se explicam, em grande parte, pelas mudanças por que passaram os índices linguístico-discursivos pelos quais se concretizam os referidos ethé.
Como “coincidem na experiência de circular entre as matrizes culturais diversas que as línguas representam” (GARCÍA CANCLINI, 2009, p. 61), os latino-americanos acabam por compartilhar, ainda que não de modo homogêneo, danças, festas, formas de acesso aos meios de comunicação, práticas discursivas, modos de dizer. Desta questão nos interessa a ideia de que é possível que um sistema de signos transforme-se e constitua uma história, tal como acontece na formação e na propagação de TD.
Por fim, ao nos reportarmos aos fenômenos da hibridação cultural e da interculturalidade como constitutivos da latinidade da América Latina, queremos reforçar uma última questão: a relação entre a identidade cultural dos povos e seus signos identitários e os valores de tradição/modernidade que condicionam o funcionamento das manifestações culturais no mundo globalizado.
Neste contexto de tradição e de modernidade, as mídias retratam a sociedade em suas diversas faces, sempre criando identidades para si e para os objetos de que tratam. Assim, estabelecendo relação entre o modo cultual e social de ser dos povos latinos e sua identidade cultural, híbrida por natureza, e as imagens que os enunciadores constroem de si na enunciação, a seguir discutiremos a noção de ethos no campo dos estudos discursivos, a fim de delimitar e conceituar nosso objeto de pesquisa nesta investigação transdisciplinar.