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CAPÍTULO 1: PERSPECTIVAS TEÓRICAS

1.1 Letramentos

1.2.2 Interculturalidade

Atenção ao prefixo presente nesse termo é essencial para seu entendimento. Ao longo das últimas décadas, alguns termos foram endereçados à compreensão da relação entre diferentes culturas por meio da língua/linguagem. Alguns pesquisadores utilizam o termo „multiculturalidade‟, assim como „pluriculturalidade‟, mostrando uma

13 Notemos que Kumaravadivelu (2008) apresenta o conceito, mas não concorda plenamente com tal, e

preocupação com a multiplicidade de culturas em um mesmo contexto. Mais recentemente, no entanto, uma preocupação não apenas com a convivência entre culturas foi tomada, buscando-se um termo que, semanticamente, se refira também à maneira como culturas de diversos contextos se modificam entre si. Temos, por exemplo, o termo „transculturalidade‟ (CAVALCANTI, BORTONI-RICARDO, 2007), que, em algumas pesquisas, se destinam às relações entre-línguas em contextos educionais de fronteiras políticas, e, portanto, linguísticas. A questão de sobreposição de uma cultura sobre outra através do ensino em uma lógica imperialista pode ser pesquisada neste quesito.

Quanto ao termo interculturalidade, sabemos que o sufixo “inter-“ tem a definição de „dentro‟ e „entre‟, evidenciando a relação de convivência entre culturas, e a conscientização sobre as diferenças que o termo multiculturalidade também traz. Entretanto, mais do que isso, traz em seu sentido a transformação inevitável das visões de mundo de um sujeito quando entra em contato com culturas diferentes, pois se trata de “aquisição de costumes” e não de mero “conhecimento” (KRAMSCH, 1995, p. 122 e 123).

Dessa forma, acreditamos que no contexto do ensino de línguas na escola pública, mesmo que o contato entre pessoas de culturas diferentes não seja direto, a aquisição de uma LE sempre se configura na tomada de conhecimento e aquisição de valores culturais diferentes, afinal, como discutimos anteriormente, língua e cultura são elementos indissociáveis (BARBOSA, 2009), assim como se propõe aqui tal indissociabilidade também com os letramentos, baseando-nos em Cope e Kalantzis (2012).

As relações interculturais das sociedades em todas as épocas sempre enfrentaram um dilema sobre a maneira como se interpretam e se influenciam. Por um lado, temos as relações de intolerância cultural advindas de um dogmatismo, em que apenas os valores da própria identidade cultural são levados em conta para um julgamento da cultura do outro. Esse comportamento é chamado de etnocentrismo e pode ser encontrado em exemplos como a da catequização dos índios, que se estende do período da colonização até os dias de hoje, e na imposição do regime democrático de algumas potencias mundiais sobre outras nações menos favorecidas.

Em outro extremo, encontramos o relativismo cultural, que se trata do comportamento em que não se julga nenhuma cultura com base em parâmetros pré- estabelecidos, reconhecendo-se sempre o direito de um povo de exercer qualquer prática

sem levar a denominação pejorativa de “bárbaro”. Um relativismo cultural extremo pode levar à descrença em quaisquer valores como sendo “corretos” ou “justos”. Dessa forma, atividades como crimes de guerra, sacrifícios humanos, tortura e escravidão não seriam julgados como atrocidades.

Todorov (2010) argumenta que vivemos em nossas culturas sempre a oscilar entre esses dois extremos, e que o exercício de qualquer um deles é nocivo às sociedades. Trata-se de um dilema que sempre estará presente no julgamento da alteridade, da visão de alguns indivíduos sobre outros.

A comunicação em LE é o principal veículo para o diálogo entre diferentes realidades culturais e, portanto, carrega sempre esse dilema.

Um etnocentrismo exacerbado torna o diálogo entre diferentes culturas impositivo. Sendo assim, a imposição do uso de uma língua por um governo ou “colonizador” é produto de uma prática etnocêntrica. A “construção” de diversos países e fronteiras políticas no mundo tem origem na imposição de uma língua.

Podemos reconhecer diversos exemplos nesse sentido, entre eles o de países que adotam apenas uma língua em seu sistema educacional, ao passo que diversos estratos da sociedade de tais países usam línguas diferentes. Evidencia-se, assim, uma prática etnocêntrica na escola.

No processo de ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras, necessariamente, sempre se proporciona o contato entre duas ou mais culturas. O juízo de valores sobre tais diferentes culturas adotado em sala de aula é, portanto, algo que merece atenção de pesquisas científicas.

Torna-se necessário também, em sala de aula, o reconhecimento das diversas variantes da língua-alvo de forma não relativista e também não etnocêntrica, almejando- se sempre o desenvolvimento da criticidade do falante de uma língua estrangeira. O foco excessivo em apenas uma variante do idioma-alvo prejudica a aprendizagem e favorece uma interpretação etnocêntrica do mundo. Por outro lado, um relativismo excessivo pode prejudicar o desempenho do falante, enfraquecendo-se sua identidade cultural.

Em um material didático de LI como os cadernos do Estado, podemos sempre atentar para a maneira como as culturas e identidades nacionais estrangeiras e locais são representadas. Para isso, questionamentos sobre aspectos de etnocentrismo ou relativismo cultural nos materiais podem ser levantados.

O eixo principal das discussões realizadas com os professores é sua relação com o material didático em sala de aula. Sabemos que a escolha e utilização do material é parte de grande importância para a abordagem de um professor em sala de aula. Por isso, considera-se aqui que a concordância entre a posição do professor e do material didático a respeito dos letramentos e da abordagem de questões culturais é aspecto fundamental.

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