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CAPÍTULO 1 – AVALIANDO A PRESENÇA CHINESA NO SETOR DE

1.2. MARCO TEÓRICO

1.2.1. Interdependência Complexa e Interdependência Assimétrica

Na segunda metade da década de 1970, enquanto as empresas japonesas Sony e JVC disputavam o mercado de videocassetes nos Estados Unidos, dois pensadores norte-americanos das Relações Internacionais, Robert Keohane e Joseph Nye, disputavam espaço entre os filósofos dessa área do conhecimento para tentar estabelecer um novo quadro teórico capaz de explicar as transformações por que passavam as relações entre os diferentes países àquela época. Surgiram, então, os conceitos de Interdependência Complexa – que refletia uma nova forma de enxergar o mundo e as Relações Internacionais como um todo – e de Interdepedência Assimétrica – que buscava analisar como as desigualdades observadas nas relações de interdependência entre atores poderiam servir como fonte de poder a favor de um ou outro desses atores (KEOHANE; NYE, 1977, p. 3-32; 1987, p. 731-732).

O quadro de Interdependência Complexa que, segundo Keohane e Nye, passou a reger as Relações Internacionais, de forma mais evidente, a partir da década de 1960, apresenta três características básicas. Primeiramente, os canais que passaram a conectar as sociedades fizeram-se múltiplos, em especial pelos avanços na aviação civil e nas telecomunicações. Esses canais proliferaram-se enormemente a partir da década de 1980, com a revolução da informação promovida pela computação e pela internet. Os contatos, que, anteriormente, eram capitaneados pelos representantes máximos de diferentes países, passaram a incluir funcionários de vários níveis de governo, bem como empresas multinacionais, sindicatos, partidos políticos, etc. (KEOHANE; NYE, 1977, p. 4, 20-25; 1998, p. 82-85).

Uma segunda característica do mundo constituído por uma Interependência Complexa entre os atores é o fato de não haver hierarquia pré-definida quanto aos temas

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que ditam a agenda internacional. Neste caso, a discussão de temas relacionados à segurança militar, por exemplo, não necessariamente detêm, a priori, primazia sobre a discussão de uma série de outros temas nas áreas da economia, finanças e ecologia, por exemplo. Embora questões militares ainda requeiram especial atenção na esfera internacional, a multiplicidade de atores interconectados pode demandar soluções mais prementes em outras esferas de relacionamento (KEOHANE; NYE, 1977, p. 20-25; 1987, p. 727-733; 1998, p. 82-85).

Por fim, em um contexto de Interdependência Complexa, o uso da força militar como recurso de poder perde importância e pode se tornar mais oneroso e menos eficiente que outras formas de influência no cenário internacional, especialmente após a constatação da inviabilidade do emprego de arsenais nucleares. Desse modo, ganha destaque, na discussão apresentada por Keohane e Nye, a presença de assimetrias nas relações de interdependência, que surgem como eventuais fontes de poder nas relações entre atores (KEOHANE; NYE, 1977, p. 20-25; 1998, p. 82-85).

Keohane e Nye ressaltam que, enquanto a ideia de dependência refere-se à circunstância de um ator encontrar-se submetido ou significativamente afetado por forças externas, a ideia de interdependência diz respeito à dependência mútua entre atores, que sofrem efeitos recíprocos advindos da relação. Conforme os autores, entretanto, a ideia de interdependência não deve ser entendida somente sob o prisma de efeitos mutuamente benéficos ou uniformemente balanceados entre as partes. As relações de interdependência costumam apresentar características distributivas próprias, que alocam de forma desigual os ganhos obtidos com o intercâmbio. Essa distribuição desigual dos ganhos pode ser instrumentalizada em uma negociação para beneficiar um dos lados e surtirá maior ou menor efeito dependendo do grau de sensibilidade e de vulnerabilidade dos atores em relação ao tema em pauta (KEOHANE; NYE, 1977, p. 7- 10).

Sensibilidade e vulnerabilidade, para Keohane e Nye, são duas dimensões da relação de interdependência e se referem aos efeitos gerados sobre um ator por mudanças no quadro externo ocasionadas por outro ator. Tais efeitos são avaliados sob dois aspectos: a velocidade de transmissão e a magnitude dos impactos. A sensibilidade trata dos efeitos de curto prazo e é estimada, principalmente, pelo grau de exposição a que os atores se submetem na relação. Se um país A, por exemplo, importa de um país B a maior parte do petróleo que abastece seu mercado interno e esse mesmo volume de

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petróleo representa apenas um percentual reduzido do total das exportações do país B, então, pode-se dizer que o país A é mais sensível a variações nos preços e à própria relação de interdependência do que o país B. Neste caso, teoricamente, o país B poderia elevar o valor cobrado pelo petróleo sem grande receio de perder, de imediato, seu cliente. Neste caso, o país A deveria arcar, ao menos momentaneamente, com os custos mais elevados do petróleo a fim de manter seu abastecimento interno (KEOHANE; NYE, 1977, p. 10-17).

Este quadro, contudo, não necessariamente se mantém em longo prazo. Se o aumento no preço do petróleo tornar economicamente mais atraente para o país A iniciar atividades de pesquisa e de prospecção em seu próprio território, as importações do produto podem ser reduzidas com o tempo. Neste caso, o país A, embora altamente sensível ao preço estipulado pelo país B, seria menos vulnerável àquela fonte externa do que se não detivesse reservas próprias. A falta de alternativas viáveis elevaria demasiadamente os custos de mudança do quadro externo, forçando o país A a reorganizar suas finanças para arcar com o preço estabelecido com maior liberdade pelo país B, mesmo em longo prazo (KEOHANE; NYE, 1977, p. 10-17).

A assimetria na relação, portanto, pode constituir fonte de poder a ser instrumentalizada conforme cálculos estratégicos elaborados a partir da análise das dimensões da sensibilidade e da vulnerabilidade e pode afetar, inclusive, negociações entre empresas multinacionais e governos, como exemplificam os próprios autores. Keohane e Nye (1977, p. 15) apresentam situação hipotética em que uma companhia petrolífera multinacional, no momento da assinatura de acordo de concessão de exploração de petróleo com um governo estrangeiro, pode encontrar-se em melhor posição de barganha – por deter tecnologia não disponível ao governo, mas necessária à extração do produto, por exemplo. Neste caso, a partir de suas decisões em termos de volume de produção, a empresa teria condições de influenciar o preço do barril de petróleo e impactar as receitas obtidas pelo governo com a exploração daquela matéria prima em seu próprio território (KEOHANE; NYE, 1977, p. 15).

Contudo, os autores ressaltam que é temerário para a empresa tentar tirar vantagem da sensibilidade demonstrada pelo governo em uma relação como essa, pois o governo, em contrapartida, pode explorar uma vulnerabilidade da empresa:o fato de ela nem sempre não possuir meios suficientes para impor o cumprimento do contrato

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naquele território. Dessa forma, o governo poderia alterar as regras contratuais em seu benefício e em detrimento dos lucros da empresa (KEOHANE; NYE, 1977, p. 15).

Em verdade, esta discussão acerca da relação entre multinacionais e governos apresentada pelos autores deriva de teoria que vinha sendo desenvolvida, também na década de 1970, por Raymond Vernon e que ficou conhecida como Teoria da Barganha Obsolescente. Destarte, faz-se interessante apresentar não apenas uma breve introdução a essa teoria, mas também outras questões pertinentes relacionadas à interação entre multinacionais e governos.