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3. O Patrimônio Cultural e seu valor na pós-modernidade

3.3 Interdependência entre bens Materiais e Imateriais

A partir da abordagem anterior, nota-se a amplitude da definição de patrimônio e verifica- se a importância de frisar que o bem material não há de ser analisado sem levar o imaterial em conta ou vice versa. Afinal, todos estão impregnados de significados, já que através deles existem formas de estabelecer um elo entre o passado e o presente, corroborar identidades, resgatar a história e fortalecer a memória.

Além disso, a reflexão proposta aqui pretende também embasar a análise do acontecimento que envolve nosso referencial empírico, o Largo e a Capela do Ó. Esta última, apesar de ser uma edificação tombada não possui representatividade se não considerarmos a relação que ela tem com a sociedade e o entorno, assim como o conjunto de práticas articuladas por meio das experiências cotidianas. Como aponta o arquiteto-urbanista Leonardo Castriota (2009, p. 89), não há que se pensar apenas na edificação, no monumento isolado, mas, antes de mais nada, perceber as relações que os bens culturais apresentam entre si e como o meio ambiente urbano é fruto dessas relações. O autor elucida que na questão patrimonial em sua extensão contemporânea não interessa apenas o valor arquitetônico, histórico ou estético, mas sim, pensar a articulação entre os elementos como um todo. Ou seja, preservar o equilíbrio da paisagem do ambiente urbano inter-relacionado com a linguagem, os usos, o perfil histórico e a própria paisagem natural que se trata de qualidade de vida e possibilidades de desenvolvimento do homem (CASTRIOTA, 2009, p.89).

Uma gama de conceitos envolve o patrimônio cultural e todos eles são costurados de forma única através de uma dada época, lugar, comunidade e seus valores, que por sua vez criam laços de identidade conforme as particularidades do contexto. A necessidade de aproximar o material do imaterial acontece no momento em que se compreende que ambas as categorias estão intrinsecamente ligadas pelo valor e expressão, assim como pelo ambiente fisicamente construído, que serve como um habitat próprio para sua manifestação. Lendas, cantigas, rezas, festas e rituais, assim como os lugares onde

esses eventos são realizados, são fragmentos de acontecimentos experienciados por grupos que se transformam em bens simbólicos e ancoram o patrimônio cultural.

Todos os rituais e modos de fazer instituídos como categorias especiais de expressão, estão vinculados a um espaço que propicia a evolução de tal costume. Arendt (2007, p. 17) acredita que a objetividade do mundo complementa-se à condição humana, onde as coisas seriam um amontoado de artigos incoerentes sem a existência humana, que acaba sendo condicionada pelos artigos. O contrário seria como desvincular forma e conteúdo. Portanto, o bem construído é a locação para uma dada manifestação, e a valorização só pode acontecer de forma única, que impossibilita separá-las. Como se uma dependesse da outra para existir e/ou acontecer, tornando suas formas híbridas. Ainda nesta acepção Arendt (2007, p. 31) propõe que o ambiente das atividades humanas é constituído por coisas e homens que só fazem sentido em uma dada localização. E esse mundo em que vivemos não existiria sem a atividade humana, sem as coisas fabricadas e a organização. É preciso reconhecer a importância do valor intangível do patrimônio, as ligações com a história local que um bem representa, assim como o valor da educação e o papel simbólico para a comunidade. Os valores sociais, culturais e ambientais são fundamentais para a preservação do ambiente construído, mas não podem ser dissociados (THROSBY, 2001, p.4). Esses valores podem servir para que a comunidade se aproxime das ações voltadas para a conservação dos bens locais. Engessar a patrimonialização das culturas colocaria em riscos os valores contemporâneos e a continuidade positiva dos mesmos. Tombamentos e registros devem ser consideradas ações que intervêm na manutenção de relações vividas por grupos e sociedades, mas que para se concretizar de maneira eficaz precisam ser pensadas em conjunto. A ação de preservação que considera anseios e expectativas para além de uma simples separação hierárquica, tende a fortalecer identidades, que por sua vez afastam o esquecimento e sentimento de pertença.

A mudança de valores que altera o foco rígido de sentir e perceber o patrimônio cultural são características relevantes quando se fala em hedonismo como uma propriedade transversal. Maffesoli (1996, p.52) propõe uma lógica do estar-junto centrada no cotidiano e que rompe com “uma certa falência dos grandes sistemas explicativos que regeram a modernidade”. Induzindo a “uma outra maneira de compreender a vida em sociedade”

que vai de encontro ao relativismo que envolve o pluralismo inerente a ideia de patrimônio cultural na pós modernidade. Um dos aspectos que rege seu pensamento é a saturação de uma dominação na vida social que cede lugar a outra postura. Mais precisamente direcionado a um paradigma estético, ele remete a um processo de extraversão generalizada os domínios da arquitetura e das relações com o ambiente social e natural. Maffesoli considera que o paradigma estético é o ângulo de ataque que permite justificar ações, sentimentos e ambientes específicos do tempo pós-moderno.

Estamos diante de outra configuração espaço-temporal, onde a proxêmica se reassume em um novo entendimento, o qual deve ser pensado em um patamar híbrido. Levando em conta as diferentes formas de comunicação que servirão de suporte para a continuidade dos bens patrimoniais, entende-se que eles sempre foram interdependentes, apesar de só recentemente receber tal ênfase.

Para além de um sentido estático, as relações entre ambiente e suas dinâmicas são campos complexos com diversas possibilidades de interpretação. Canclini (2000, p. 47) reforça dizendo que as tendências pós-modernas acentuam o sentido ritual que reduz a comunicação racional buscando formas subjetivas inéditas para expressar emoções em busca da manifestação original de cada sujeito. Diferente da lógica cartesiana que produz dicotomias e coloca em lados opostos aquilo que na prática é inseparável, a concepção atual sugere um processo circular e de retroalimentação na geração dos bens materiais e imateriais.