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1 REVISÃO DE LITERATURA

1.2 CIÊNCIA E TECNOLOGIA

1.2.2 Interdisciplinaridade

De acordo com Costa (2008), a interdisciplinaridade pode ser uma das possibilidades de transformação curricular que viabilize meios para a busca de melhor qualidade no ensino superior. Diante da opinião da autora e dada a importância de se difundir os conceitos de C&T na formação do professor de forma problematizadora, propomos nesta seção uma discussão sobre a prática da interdisciplinaridade.

Comumente, nos meios escolar e acadêmico, menciona-se a

interdisciplinaridade como o processo de ações que envolvem conhecimentos de várias disciplinas que podem ou não ser de diferentes áreas do conhecimento. São difundidos também no meio educacional os conceitos de pluridisciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, como diferentes formas de relacionar várias disciplinas em função de um mesmo projeto ou problema gerador. A esse respeito Silva (2006, p.5) afirma:

Vamos encontrar interdisciplinaridade como interação entre duas ou mais disciplinas, como método de pesquisa e de ensino promovendo a interação desde a simples comunicação das idéias até a integração mútua de conceitos, da epistemologia, da terminologia, dos procedimentos. Explica-se ainda que o interdisciplinar consiste num tema, objeto ou abordagem em que duas ou mais disciplinas intencionalmente relacionam-se entre si para alcançar maior abrangência de conhecimento. Interdisciplinaridade é também entendida como uma busca de “retotalização” do conhecimento.

Pombo (2004) discute amplamente tais conceitos e apresenta as consequências deste processo e também as necessidades que se originam a partir dele:

defende-se que a interdisciplinaridade é a manifestação de uma transformação epistemológica em curso e apontam-se aquelas que nos parecem ser as suas duas consequências principais: o alargamento do conceito de ciência e a transformação da Universidade. (POMBO, 2004, p.1).

Ao discorrer sobre o tema, a autora propõe ainda sua concepção sobre a interdisciplinaridade:

minha proposta como base de trabalho, como hipótese operatória, é aceitar que há qualquer coisa que atravessa a pluridisciplinaridade ou multidisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade. Que essa qualquer coisa é, em todos os casos, uma tentativa de romper o carácter estanque das disciplinas. (Ibid, p.5).

Relacionando o conceito de interdisciplinaridade apresentado pela autora com o tema central deste estudo, percebe-se uma necessidade de amadurecimento sobre a carência de ações interdisciplinares, que precisam ser vistas como necessárias para uma reconfiguração da educação nos diferentes níveis de ensino. Nesta ótica, a interdisciplinaridade não pode ser tratada apenas como uma metodologia a mais entre tantas outras, como se fosse uma questão de preferência promovê-la ou não. É preciso que haja consciência da necessidade desses conceitos para promoção de novas formas de construção do conhecimento. A esse respeito argumenta Pombo (2004, p.10):

Podemos compreender este processo e, discursivamente, desenhar projectos que visam acompanhar esse movimento, ir ao encontro de uma realidade que se está a transformar, para além das nossas próprias vontades e dos nossos próprios projectos. Ou podemos não perceber o que se está a passar e reagir pela recusa da interdisciplinaridade ou pela sua utilização fútil, superficial, como se se tratasse de um mero projecto voluntarista formulado no contexto de uma simples moda, passageira como todas as modas.

A ciência, apesar de não ser mais encarada como puramente benéfica e tampouco como responsabilidade única dos cientistas dentro de seus laboratórios, ainda é praticada e difundida em áreas específicas, não sendo promovida ainda a interação entre as diferentes áreas do conhecimento a ponto de fomentar a democratização dos conceitos apresentados na seção anterior. Segundo Pombo

(2004, p.8): "A ciência é hoje uma enorme organização dividida internamente por inúmeras comunidades de pares, cada uma com os seus congressos, as suas revistas, as suas bibliotecas, os seus territórios, os seus espaços institucionais, etc.". Ao abordar as questões de interdisciplinaridade, Pombo (2004) reflete sobre o avanço da ciência e como esse fenômeno precisa ser encarado além das disciplinas consideradas correlatas. Segundo a autora:

[...] num número cada vez maior de casos, o progresso da ciência, a partir sobretudo da segunda metade do século XX, deixou de poder ser pensado como linear, resultante de uma especialização cada vez mais funda mas, ao contrário e cada vez mais, depende da fecundação recíproca, da fertilização heurística de umas disciplinas por outras, da transferência de conceitos, problemas e métodos – numa palavra, do cruzamento interdisciplinar. (Ibid, p.9).

A fragmentação disciplinar que conhecemos teve origem no século XVII, quando a disciplinarização dos saberes ocorreu em função do nascimento da ciência moderna. Essa disciplinarização se aprofundou no século XIX, quando “Comte estabeleceu uma estrutura hierárquica das ciências com o intuito de reorganizar os saberes, depois dos movimentos sociais e intelectuais gerados pela Revolução Francesa e o Iluminismo” (SILVA, 2006, p.4).

Depois dessa divisão, a partir da segunda metade do século XX, ocorreu o aprofundamento disciplinar chamado por Silva (2006) de hiperespecialização disciplinar, fenômeno decorrente principalmente do “crescimento cada vez maior do volume e da complexidade dos conhecimentos produzidos, e ainda pela multiplicação e sofisticação das tecnologias” (SILVA, 2006, p.4). Sobre a hiperespecialização e sua relação com o avanço da ciência, Pombo (2004, p.9) se posiciona:

Refiro-me a Gilbert Durand para quem ”a passividade monodisciplinar” é inibidora do “salto heurístico” de que a ciência moderna necessita, salto esse que, por natureza, sempre esteve e continua a estar “dependente de uma larga informação e cooperação interdisciplinar” (DURAND, 1991, p.40-1). Aliás, a interdisciplinaridade tem – e sempre teve – um lugar decisivo na criação científica.

Durand6 (1991, citado por POMBO, 2004) afirma existir um paradoxo sobre a realidade do ensino que está cada vez mais especializado e a necessidade da interdisciplinaridade.

Trata-se de compreender que o progresso do conhecimento não se dá apenas pela especialização crescente, como estávamos habituados a pensar. A ciência começa a aparecer como um processo que exige também um olhar transversal. Há que olhar para o lado para ver outras coisas, ocultas a um observador rigidamente disciplinar. (Ibid, p.10).

Na opinião da autora a interdisciplinaridade é algo que está posto, como um processo de transição que está se desenvolvendo, independente da vontade de se fazer ou não. A necessidade de promoção da interdisciplinaridade existe, mas cabe à academia a decisão de promovê-la ou ignorá-la.

Ao comentar sobre a constituição de novas disciplinas, originadas a partir da fusão de disciplinas tradicionais, ou ainda que se unem de forma assimétrica para resolução de algum problema, Pombo (2004) afirma ainda que a contemporaneidade traz novos problemas que apenas ações interdisciplinares seriam capazes de buscar soluções.

Novas disciplinas, novas práticas, novos problemas. Daqui decorrem duas consequências importantes: o alargamento do conceito de ciência e a necessidade de reorganização das estruturas da aprendizagem das ciências, nomeadamente, a universidade. (Ibid, p.11).

O conceito apresentado por Pombo (2004) possibilita reafirmar a ideia de que os avanços científico-tecnológicos estão além do laboratório e dos estudos das ciências exatas e biológicas.

Simultaneamente, a ciência passou a contaminar as mais reconditas dobras da nossa vida. É assim que, hoje, não apenas assistimos de fora ao épico, e por vezes trágico, "espectáculo da ciência", como, no interior das nossas vidas, somos constantemente convidados, não apenas a usar tudo que a ciência trouxe para facilitar a vida do homem, como a reconhecer a proximidade fundamental que nos liga à ciência e que liga a ciência ao nosso quotidiano. (Ibid, p.12).

6

DURAND, G. Multidisciplinarités et heuristique. In: PORTELLA, E. (Org.). Entre savoirs: l'interdisciplinarité en actes: enjeux, obstacles, résultats. Toulouse: Érès: Unesco, 1991. p.35-48.

Neste sentido, preparar os futuros docentes para o trabalho interdisciplinar passa a ser uma das necessidades dos cursos de licenciatura. Segundo Pombo (2004), o processo de expansão da ciência para além dos laboratórios precisa ser considerado pela universidade. A autora argumenta:

Mas, se a universidade não é apenas uma escola, a verdade que ela também é uma escola e, enquanto escola, ela tem que preparar para a interdisciplinaridade. Ela tem que perceber as transformações epistemológicas em curso e, de alguma maneira, ir ao seu encontro. Ela tem que se preparar, não apenas para não oferecer resistências ao trabalho interdepartamental, mas, para além disso, promover esse tipo de experiências, facilitar novos tipos de configurações disciplinares, aceitar fazer investigação sobre os novos problemas que se colocam à ciência contemporânea. (Ibid, p.12).

A partir das definições propostas pela autora, reafirmamos a necessidade de compreensão dos conceitos de ciência e tecnologia na formação para a criticidade. Ressaltando ainda o que dispõe a Lei de Diretrizes e Bases para a educação para o nível de ensino médio que terá como finalidade “a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina” (BRASIL, 1996, art. 35, inc. IV), compreendemos a necessidade desse entendimento também na formação dos futuros professores.

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