3 INTERDISCIPLINARIDADE E ENSINO DE HISTÓRIA
3.1 CONHECIMENTO E TOTALIDADE
3.1.3 Interdisciplinaridade e enciclopedismo
Há um entendimento generalizado que distorce os termos “enciclopédico” e “enciclopedismo”, o que os afasta do conceito de interdisciplinaridade. Tem sido comum o uso desses termos a fim de se estabelecer esse afastamento conceitual; inversamente, aproximando enciclopedismo de uma compreensão de acúmulo fragmentado de informações, tal como ocorreu no desenvolvimento da ciência desde o século XIX e tal como vem acontecendo no ensino atualmente. Fialho, Machado e Sales (2016, p. 1053), por exemplo, aproximam enciclopedismo de positivismo:
Assim sendo, não se concebe mais uma práxis educativa baseada no modelo positivista em que a tendência pedagógica liberal, animada na transmissão verticalizada de informação, resume o processo educativo em operações mnemônicas descontextualizadas voltadas para a memorização e enumeração de caráter enciclopédico.
Japiassú (1976), entretanto, faz uso dos termos nos dois sentidos, o que leva o leitor a uma má compreensão e, consequentemente, ao equivocado uso do termo. Por exemplo, no trecho a seguir, ele contradiz Fialho, Machado e Sales (2016):
As tentativas das academias e das sociedades de sábios do século XVII, veio associar- se o movimento enciclopedista do século XVIII, cuja intenção foi a de congregar num único corpo os elementos dispersos do domínio da ciência. Todavia, o século XIX veio colocar um fim a essas esperanças de unidade, sobretudo com o surgimento das especialidades, verdadeiras cancerizações epistemológicas. [...] Retomemos o processo de desintegração dos conhecimentos a partir do século passado [XIX], sobretudo a partir de Comte (JAPIASSÚ, 1976, p. 48-49).
Nesse outro trecho: “a enkuklios paidéia não se reduzia a um mero saber enciclopédico tampouco a um acúmulo ou justaposição de conhecimentos” Japiassú, (1976, p. 47, grifos do autor), o autor concorda com Fialho, Machado e Sales (2016) ao tomar o termo “enciclopédico” como sinônimo de acúmulo não sistemático de informações ou conhecimentos.
Defende-se aqui o oposto, ou seja, que a proposta do enciclopedismo está muito afastada da equivocada noção de amontoamento desconexo de informações. Uma razão muito simples compromete esse entendimento equivocado. Sendo a interdisciplinaridade tomada como fundamento do processo cognitivo, este só pode ser compreendido numa teia; essa teia pressupõe uma relação fundamental entre as formas de conhecimento. Alguns autores denominam de enciclopedismo o acúmulo de conhecimentos. Isso é um erro. Esse termo
tornou-se conhecido para a contemporaneidade a partir do movimento intelectual ocorrido no século XVIII, como uma das manifestações inscritas no período iluminista.
A palavra enciclopédia tem origem na expressão grega "enkyklos paideia", que significa, literalmente, ensino circular; por extensão, ensino que abarca a totalidade. Estendendo um pouco mais, o significado pode ser traduzido como: "cultura geral", conforme assevera Japiassú (1976). Ou seja, nem literalmente, nem por extensão, nem filologicamente, enciclopédia remete à ideia de acúmulo desconexo de informações. Nem mesmo como projeto, enciclopedismo, derivado da expressão grega, traz em seu significado um sentido de aglomerado assistemático de saberes fragmentados. Tal como pensado pelos enciclopedistas, o projeto está fundamentado na ideia de que os conhecimentos participam de uma totalidade sistêmica. Segundo seus editores:
Como Enciclopédia, deve expor, tanto quanto possível, a ordem e o encadeamento dos conhecimentos humanos; [...]. Por pouco que se tenha refletido sobre a ligação entre as descobertas, é fácil perceber que as ciências e as artes se auxiliam mutuamente e que há, por conseguinte, uma cadeia que as une entre si (DIDEROT, D’ALEMBERT, 2015, p. 47, grifo dos autores).
Conclui-se, portanto, que essa aproximação equivocada entre enciclopedismo e “acúmulo desnecessário de saberes” é resultado de uma construção histórica decorrente do século XIX, que, em nome da especialização necessária ao desenvolvimento do capital, logrou às gerações posteriores a demanda pela especialidade em detrimento de um saber que permitisse a inserção consciente na totalidade do real. “Seu objetivo [da enkyklos paideia] era permitir a formação e o desabrochamento da personalidade integral” (JAPIASSÚ, 1976, p. 46, grifos do autor).
Para Japiassú (1976), tanto a "enkyklos paideia" grega quanto a do século XVIII foram marcadas por terem um fundamento que reunia os saberes numa totalidade coerente. No caso grego, o fundamento era o cosmos, a visão cosmológica de realidade. No século XVIII, a razão, segundo o Iluminismo.
Assim, enciclopedismo pensado nesses moldes está muito mais próximo, epistemologicamente, do que hoje se busca com a interdisciplinaridade do que com uma noção de conhecimento fragmentado. Além disso, quando se critica a apropriação, mesmo rasteira, de várias competências disciplinares, denominando-a de enciclopedismo, tal pensamento mostra- se incoerente para quem quer promover a interdisciplinaridade.
É impossível apropriar-se intelectualmente do mundo – finalidade do conhecimento – sem compreender os instrumentos conceituais que o manipulam racionalmente. Não podemos desconsiderar as especialidades porque elas são uma demanda de nosso tempo.
Interdisciplinaridade, à medida que é compreendida como fundamento, só se tornará uma realidade “visível” para o esclarecimento do processo de construção do conhecimento mediante o exercício do pensamento. “O projeto epistemológico interdisciplinar é o projeto de um saber, isto é, de um discurso crítico” (JAPIASSÚ, 1976, p. 59). Esse caminho passa necessariamente pela atividade filosófica. Hoje, no entanto, a própria filosofia tornou-se disciplinar, internamente fragmentada, repleta de especialidades em constante disputa.
Seus profissionais esqueceram de pensadores como Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant, Hegel, Marx, Heidegger, entre outros, que transitaram por várias áreas do conhecimento desenvolvendo seus sistemas filosóficos cujos meandros teóricos percorriam a cultura adentro num todo coerente. Não há dúvida de que estes filósofos marcaram a história do pensamento.
A visão interdisciplinar, conforme Japiassú (1976), presente desde os gregos, é a base em que o conhecimento se constrói. Em cada época, o princípio que a sustentou se modificou em congruência com a necessidade gnosiológica de cada tempo. Na antiguidade, esse fundamento era a compreensão cosmológica; na medievalidade, o teocentrismo; na modernidade, a razão iluminista. Na contemporaneidade, seria o sujeito. Se se transcender os fundamentos anteriores, perceber-se-á que se trata sempre do sujeito, porque cada um deles representava, como dito acima, uma necessidade gnosiológica axiomática de cada período. Quem ou o que precisa de um alicerce axiológico? O sujeito.
Hoje, o sujeito com sua pertinência tornou-se evidente em virtude das teorias fenomenológico-hermenêuticas e pós-estruturalistas. Elas demonstraram seu primado tornando patente que a realidade, dando-se no sentido, tem no sujeito seu sustentáculo axiológico e seu intérprete gnosiológico.