Diante de tantas denominações e sobreposições de conceitos e definições encontradas na literatura, verificamos o quanto ainda é difícil estabelecer conceitos definitivos sobre as diversas formas de integração do conhecimento. Apesar de reconhecermos as diversas dimensões e valorizarmos as diferentes terminologias, a presente tese adotará o termo
interdisciplinaridade, como sinonímia para o processo que visa (re)unificar a ciência.
Não obstante, buscarmos como meta final a instauração do paradigma da transdisciplinaridade, o termo interdisciplinaridade vem sendo adotado de forma mais genérica nas instâncias responsáveis pela ciência no Brasil. Ao adotarmos essa terminologia busca-se tão somente facilitar a pesquisa, padronizando a ideia de reintegração do conhecimento, sem contudo, excluir as outras denominações, conceituações ou aplicações. Fica evidente que conceituar interdisciplinaridade não é tarefa fácil. Conforme Klein (1990), qualquer tentativa para se entender o conceito complica-se pela considerável diferença de opinião sobre a sua origem. Para uns ela é antiga, com raízes nas ideias de Platão, Aristóteles, Rabelais, Kant, Hegel e outras figuras históricas que têm sido descritas a posteriori como pensadores interdisciplinares. Para outros, ela é um fenômeno inteiramente do século 20, enraizada nas reformas educacionais modernas, na pesquisa aplicada, e nos movimentos que transpõem as fronteiras disciplinares. O termo atual não emergiu até o século 20, sendo antigas, no entanto, as ideias básicas. É importante identificar o problema que conduz ao moderno conceito de interdisciplinaridade (KLEIN, 1990).
As raízes do conceito da interdisciplinaridade nascem em um número de ideias que ressoam através do discurso moderno – as ideias, hoje tão difundidas, de uma ciência unificada, de um conhecimento geral, de uma síntese e da integração do conhecimento nasceram já na Antiguidade Clássica. Platão foi o primeiro a advogar que a filosofia era uma ciência unificada e correspondentemente, nomeava os filósofos como aqueles que eram capazes de sintetizar o conhecimento. Platão notou também a proeminência de certas matérias, nomeadamente a Matemática e a Dialética, e arguiu que uma ideia geral ou um conceito são atemporais e imutáveis por existirem independentemente. Aristóteles aproximou-se mais da especificidade, por delinear e clarear divisões nos campos do conhecimento, como a “Política”, a “Poética” e a “Metafísica”. Como Platão, Aristóteles também acreditava que eram os filósofos que detinham a habilidade para reunir todas as formas de conhecimento, no sentido de organizar e conhecer tudo em um senso geral e enciclopédico. Mesmo que tenham
sido revistas e questionadas em períodos posteriores, estas ideias que remetem à noção de interdisciplinaridade permanecem como parte da herança cultural do Ocidente (KLEIN, 1990).
No decorrer da história da Ciência, sempre houve um movimento pendular no debate entre os conhecimentos denominados de geral e específico. No entanto, no século 20, com a emergência de problemas e questões de grande escala, com implicações e desdobramento complexos, surge com grande força a necessidade de respostas que incluíssem uma grande variedade de disciplinas, com abordagens múltiplas. Com isso iniciaram-se os primeiros debates sobre a questão da interdisciplinaridade, apoiados por organismos internacionais:
Apesar da falta de consenso quanto à definição do conceito de interdisciplinaridade, a UNESCO e a OCDE passaram a apoiar e a promover debates, seminários e colóquios de caráter internacional para promover a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade (TEIXEIRA, 2007).
Foram expressivos os eventos organizados ou apoiados pela Unesco:
Colóquio: A Ciência Diante das Fronteiras do Conhecimento (Veneza, Itália.1986).
Congresso Ciência e Tradição: Perspectivas Transdisciplinares para o século 21 (Paris, França. 1991).
I Congresso Mundial da Transdisciplinaridade (Arrábida, Portugal.1994).
Congresso Internacional de Transdisciplinaridade: “Que Universidade para o amanhã? Em busca de uma evolução transdisciplinar da Universidade” (Locarno, Suíça,1997).
(TEIXEIRA, 2007) Conforme Duarte et al. (2009) são necessárias novas lentes conceituais e novos instrumentos metodológicos que permitam o avanço no conhecimento e na busca de soluções para os problemas da contemporaneidade. A realidade, por si só, é complexa e a interdisciplinaridade pode ser uma estratégia metodológica para sua compreensão, pressupondo movimentos de rupturas, de complementaridades e de criatividade e envolvendo processos cognitivos disciplinares, multidisciplinares e transdisciplinares.
O desafio da complexidade resume-se na capacidade de pensar o real como um todo e não reduzi-lo arbitrariamente. Significa perceber o real em sua unidade e multiplicidade ou, conforme Morin (2007), na sua “unitas multiplex” em vez de dividi-lo em diversas partes. O desafio consiste em saber pensar sobre aquilo que foge das concepções disciplinares e construir uma ciência pluridimensional e transdisciplinar.
Duarte et al. (2009) afirmam que “os pontos virtuais que surgem da interação entre as diferentes disciplinas e que se consolidam na prática cotidiana de ações integradoras
O reconhecimento da complexidade existente no mundo atual é o primeiro requisito para a interdisciplinaridade, também o reconhecimento das experiências e competências construídas disciplinar e multidisciplinarmente, “o estabelecimento de pontos virtuais de conexão entre essas competências, assim como a abertura para o exercício da transdisciplinaridade, são atitudes epistemológicas fundamentais para a ampliação e enriquecimento do horizonte cognitivo” (DUARTE et al., 2009).
Do constante debate sobre a interdisciplinaridade vem surgindo algumas ideias centrais das quais alguns consensos vêm se estabelecendo. Um primeiro foco deste debate refere-se à integração da ciência. No contexto da interdisciplinaridade, essa integração é um processo pelo qual ideias, informações, métodos, ferramentas e teorias oriundas de uma ou mais disciplinas são sintetizadas, conectadas ou misturadas (REPKO, 2008).
Existem duas formas de se compreender interdisciplinaridade, como (REPKO, 2008):
(i) Generalista - que percebe o fazer interdisciplinar como mera forma de diálogo ou interação entre duas ou mais disciplinas.
(ii) Integracionista - que acredita que a integração da ciência, pode ser um objetivo do trabalho interdisciplinar, pelo fato dela discutir o desafio da complexidade.
Da mesma forma, Bammer (2013) afirma que uma das evidências de quem lida com problemas complexos é que não há um termo abrangente e preciso que descreva as pesquisas envolvendo vários especialistas disciplinares. Bammer afirma que além de serem conhecidos como interdisciplinares, tais estudos são também comumente descritos pelos nomes multidisciplinares e transdisciplinares. Da mesma maneira que ocorre com o termo interdisciplinar, essas expressões podem ter vários outros significados adicionais.
Por isso, a autora propõe uma nova definição para o que ela considera um novo estilo de investigação, a pesquisa integrativa aplicada, que:
a) Refere-se a pesquisas envolvendo especialistas de várias disciplinas, interessados em problemas complexos, de forma que não apenas reúnem os seus conhecimentos, mas também os tratam de forma abrangente, conectando-os com outras ciências.
b) É um termo abrangente que pode acomodar uma variedade de opções para a realização de tais pesquisas, podendo abrigar várias formas de combinar conhecimentos disciplinares.
Para Bammer (2013), tal estilo de pesquisa pode ser utilizado para tratar diversos tipos de problemas complexos, como: o crime organizado, as mudanças climáticas e ainda aqueles relacionados à saúde. A pesquisa integrativa aplicada busca por mais visões e soluções ao invés de procurar por uma única "melhor" metodologia. A questão proposta pele autora não é encontrar uma receita para a realização de pesquisas integradas, mas reconhecer e apoiar a necessidade das múltiplas abordagens para a solução dos problemas complexos atuais.