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2.2 Conceitos de base da heterogeneidade enunciativa

2.2.1 Interdiscurso

A noção de interdiscurso, proposta por Pêcheux, leva em consideração três momentos da Análise do Discurso (AD), como foi explicitado anteriormente. No primeiro, a produção discursiva é vista como uma máquina autodeterminada e fechada sobre si mesma. Nele, o sujeito acredita ser produtor de seus discursos, quando, na verdade, ele é apenas assujeitado. O segundo postula um conceito de língua natural como “a base invariante sobre a qual se des- dobra uma multiplicidade heterogênea de pessoas discursivas justapostas”. (PÊCHEUX, 1993b, p 314). E, no, terceiro, tem importância fundamental, dentre outros aspectos, o diálogo que Pêcheux travou com Authier-Revuz (1998) sobre os processos enunciativos, por conse- guinte sobre a subjetividade. Nessa fase, a concepção de sujeito é marcada pela posição que este assume no discurso, ou seja, pelo lugar de onde ele fala, o qual é caracterizado como uma formação discursiva, de ordem discursiva e ideológica.

Essa terceira fase é fortemente influenciada pela noção de sujeito clivado pelo incons- ciente, que leva à heterogeneidade constitutiva do discurso. A partir disso, a Análise do Dis- curso abre espaço para a reflexão sobre o discurso como acontecimento na estrutura, possibili- tando refletir, então, sobre a relação entre discurso e fala: o discurso visto como a instância que comporta a ordem da estrutura, e a fala como instância que comporta o acontecimento.

Nesse âmbito, Authier-Revuz (1998, p. 169-170) se propõe discutir a questão da autor- representação do dizer a partir da noção de interdiscurso, postulada por Pêcheux (2010, p.154), para quem o lugar de constituição de um sentido escapa à intencionalidade do sujeito, e da teoria lacaniana, de um sujeito produzido pela linguagem, estruturalmente clivado pelo inconsciente.

A partir desse contexto, a autora deparou com a problemática do sujeito. Assim, ela sistematiza duas concepções de sujeito: uma que chama sujeito-origem do dizer e outra que chama de sujeito-efeito do dizer. Segundo ela, apoiamo-nos em um sujeito-origem, aquele da psicologia e de suas variantes neuronais ou sociais, fonte intencional do sentido que ele ex- prime, através de uma língua, instrumento de comunicação das abordagens pragmático- comunicacionais, é então coerente considerar que o enunciador tem possibilidade de represen- tar sua enunciação e o sentido que ele nela produz, e que pode ser-lhe transparente. Nesse caso, é possível considerar que as formas de representação que os enunciadores têm de seu próprio dizer sejam um reflexo direto do real do processo enunciativo. (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 169).

Esse é o sujeito-origem do dizer, o sujeito que controla a enunciação, o enunciado e os sentidos por ele expressos, um sujeito intencional, com propósito comunicativo definido. Su- jeito que tem condições de, intencionalmente, representar-se em seu dizer, manipulando os sentidos, moldando-os para suas intenções discursivas. Nesse caso, é preciso reconhecer o caráter pragmático da linguagem e, consequentemente, a concepção de sistema de comunica- ção da língua, entendida como um instrumento através do qual o sujeito efetiva suas intenções e materializa seus objetivos.

A Outra concepção é a de sujeito efeito do dizer, incapaz de controlar totalmente os sentidos que pretende expressar, aquele assujeitado ao inconsciente, da psicanálise, despossu- ído do controle de seu dizer (isso também se coloca para o quadro da teoria do discurso de- senvolvida por M. Pêcheux, lugar de constituição de um sentido que escapa à intencionalidade do sujeito). Consideramos que o dizer não poderia ser transparente ao enunciador, a quem escapa, irrepresentável, sendo determinado pelo inconsciente (e o interdiscurso). Impõe-se, então, a necessidade de repensar – de outra maneira que não simples reflexo – o estatuto dos fatos, observáveis, de autorrepresentação, em que a categoria lacaniana do imaginário permite compreender a posição metaenunciativa ocupada pelo sujeito que se representa acima do seu dizer, como que sob o domínio de um imaginário da enunciação, preenchendo para o enunci- ador uma necessária função de desconhecimento no que se refere ao real da enunciação, que, de múltiplas maneiras, escapa-lhe. (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 170)

No primeiro caso, a metaenunciação, as heterogeneidades enunciativas e as não coin- cidências do dizer devem ser interpretadas como manifestações explícitas do controle discur- sivo exercido pelo enunciador. Tem-se como referência um sujeito fonte intencional de senti- do, que fala por meio de uma língua, compreendida como instrumento de comunicação. Sujei- to considerado capaz de representar sua enunciação e o sentido que ela produz. As formas de representação que esse sujeito usa para representar seu próprio dizer são um reflexo da reali- dade do processo enunciativo.

Na segunda concepção, os exteriores teóricos tiram o sujeito do centro de seu dizer. Tem-se, nesse caso, um sujeito produzido pela linguagem e estruturalmente clivado pelo in- consciente. O dizer, nesse sentido, não é transparente para o enunciador.

Para estudar a subjetividade desse sujeito não intencional do seu dizer, a AD considera os dois níveis do discurso propostos por Pêcheux (2010), o intradiscursivo e o interdiscurso. O intradiscurso remete à dimensão linear da linguagem. Consiste no funcionamento do dis- curso em relação a si mesmo, um conjunto de fenômenos de “correferência” que garante aqui-

lo que se pode chamar de “fio do discurso”, enquanto discurso do sujeito. (PÊCHEUX, 2010,

p. 153).

De acordo com Serrani (apud BERTOLDO, 2011), no intradiscurso estuda-se a cons- trução de representações de semelhanças e diferenças. Tomando-se como referência a teoria lacaniana da subjetividade, pode-se dizer que essas representações correspondem predomi- nantemente ao registro do imaginário do eu do dizer.

O interdiscurso envolve a dimensão vertical não linear do dizer em relação à rede de formações discursivas em que este se insere. Para se compreender esse nível, Pêcheux (2010) formula duas noções que são articuladas: a do pré-construído e a da articulação. Nas palavras do autor,

O “pré-construído” corresponde ao “sempre já-aí” da interpelação ideológica que fornece-impõe a “realidade” e seu “sentido” sob a forma da universalidade (“o mun- do das coisas”), ao passo que a “articulação” constitui o sujeito em sua relação com o sentido, de modo que ela representa, no interdiscurso, aquilo que determina a do- minação da forma-sujeito. (PÊCHEUX, 2010, p. 151).

Esses níveis Authier-Revuz toma para fundamentar sua teoria no que diz respeito ao conceito de modalização autonímica, configuração enunciativa da reflexibilidade metaenunci- ativa da linguagem.

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