2. CONCEPÇÕES TEÓRICAS
2.2 Interdiscurso e intertexto
A exposição dessas noções é fundamental para a compreensão do tema maior desta pesquisa: o fenômeno intergenérico nos anúncios. Em se tratando de comunicação e suas relações em sociedade, o interdiscurso e o intertexto são construtos que estão sempre presentes nas práticas discursivas humanas. A noção de interdiscurso nasce na compreensão de interação verbal e na relação dialógica que as pessoas constroem. Evocar outros textos e discursos valida e respalda o texto ou o discurso em construção.
Para Bakhtin (1986), a produção da linguagem e o profícuo exercício da língua se realizam na interação verbal, na constituição dos sujeitos como falante, na geração de texto, discurso e gêneros do discurso. A língua como fenômeno social de comunicação permite aos sujeitos a interação dos discursos produzidos em sociedade, e o seu cruzamento, uma relação dialógica para além da fala. O interdiscurso nasce na interação dialógica entre discursos produzidos e discursos a se produzir.
Apoiamo-nos na definição de Charaudeau e Maingueneau (2002), eles apresentam dois sentidos para o verbete “interdiscurso”, que pode constituir um “conjunto de discursos do
mesmo campo que mantêm relações de delimitação recíproca uns com os outros”, no sentido restritivo, e pode constituir um “conjunto das unidades discursivas com as quais um discurso entra em relação explícita ou implícita”, no sentido amplo.
Para Maingueneau (2000), o interdiscurso é referente ao discurso assim como o intertexto é referente ao texto. Essas correlações implicam que um conjunto de discursos configura a interdiscursividade, como igualmente, um conjunto de relações implícitas ou explícitas que um texto compartilha com outros textos configura a intertextualidade, conforme explica Maingueneau (2000). O interdiscurso pode aparecer em dois sentidos: sentido restritivo, um conjunto de discursos, do mesmo campo discursivo ou distinto, que mantêm relações recíprocas; e, sentido amplo, um conjunto de unidades discursivas que apela para um discurso particular numa relação implícita ou explícita (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2008).
Charaudeau e Maingueneau (2008) defendem que todo discurso é atravessado pela interdiscursividade e tem relação multiforme com outros discursos, portanto, o discurso está para interdiscurso assim como intertexto está para texto. E nós acrescentamos que, nesse mesmo raciocínio linguístico, o gênero está para intergênero, pois a relação compartilhada de espaço e traços genéricos constitui em si a forma intergenérica.
Uma visão que nos chama a atenção é a de Courtine (1981, p. 54), que considera o interdiscurso como “uma articulação contraditória de formações discursivas que se referem a formações ideológicas antagônicas, pois o interdiscurso apresenta uma lógica de produção de efeitos de sentidos capaz de construir e instituir ideologias nas sociedades”. Assim como a autora, consideramos que o interdiscurso é um construto estrategicamente ideológico, a construção torna-se antagônica ao produzir uma espécie de subestimação de um discurso por outro, ao recriar novos sentidos, valores e efeitos que pertencem ao interdiscurso subutilizado. Para Charaudeau (1993d), no interdiscurso há um jogo de reenvios entre discursos que tem um suporte textual, mas dele não se tem memória, como por exemplo os slogans de marcas, que são enunciados com carga discursiva que podem atuar como interdiscurso cujos sentidos vão sempre remeter àquela marca. Na prática, os efeitos de sentidos são construídos no discurso através de representações cristalizadas de um determinado interdiscurso, como defende Charaudeau (1993b, p. 316). O autor acrescenta que o sentido interdiscursivo que se apoia nas locuções ou nos enunciados cristalizados ligados normalmente às palavras para abstrair deles um valor simbólico.
Quando há interdiscursividade, o valor simbólico de um discurso constroi-se, principalmente, a partir do valor ideológico do interdiscurso subutilizado, muito fortemente, atrelado à identidade de quem o profere. Por isso, pesa sobre a escolha das palavras e dos enunciados a construção dos sentidos que um discurso deseja alcançar. A representação cristalizada que certas palavras ou enunciados já possuem no repertório enciclopédico social é que provoca determinados sentidos e efeitos quando tais são proferidos, possuem um valor simbólico comum ao público.
Entre os discursos mais famosos da História estão dois discursos que marcaram o século XX, o discurso de Charlin Chaplin (1889-1977), ator e diretor inglês, proferido no final do filme “The Great Dictator” (1940)11,O grande ditador;e o discurso de Martin Luther King Jr. (1929-1968), um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, e no mundo, intitulado “I have a dream”(1963)12, Eu tenho um sonho. Ambos os discursos tratam de temas raciais e crimes hediondos contra a humanidade. Esses dois discursos, não obstante a polêmica temática, contrária aos interesses políticos e ideológicos, passaram a ser referência para outros discursos e causam grande comoção no público. O valor simbólico que eles carregam é holístico, pronunciá-los tornou uma estratégia retórica contundente, que abrilhanta qualquer discurso que os tomem por base ou referência, principalmente, na oralidade, em eventos de causas humanitárias e étnicas, ambientais, políticos, ou sobre conflitos civis etc. O valor simbólico que está por trás do interdiscurso, causa mais expectativa e impacto, prende a atenção do público e respalda o discurso e o seu orador.
O intertexto, por sua vez, é hoje um recurso constitutivo dos textos e dos processos linguísticos em torno do discurso, bastante presente nos gêneros textuais. Em anúncios publicitários, esse recurso é utilizado para focalizar o serviço ou produto anunciado, apoiando-se nas inferências que transcendem ao texto elaborado. Ao se apoiar em outros
textos, o anúncio transfere para si uma “carga textual” convencional que, para o texto
publicitário em si, é bastante conveniente, uma vez que ele retoma um sentido já subscrito para compor o seu próprio sentido.
Para Koch, Bentes e Cavalcante (2008, p. 121), o intertexto poderá constituir apenas
“co-incidências de fragmentos de textos”. No entanto, as autoras (2008, p. 01) ressaltam que “haverá intertextualidade sempre que, intencionalmente, o enunciador estabelecer um diálogo
11Ver este discurso em:
http://www.seufuturonapratica.com.br/portal/fileadmin/user_upload/POL/discurso_final.pdf
entre o texto que está produzindo e outro(s), supondo que o co-enunciador conseguirá reconhecer a interseção entre eles, ou seja, que será capaz de identificar o intertexto”.
Para as autoras,
O intertexto ocorre quando, em um texto, está inserido outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte da memória social de uma coletividade ou da memória discursiva dos interlocutores. Isto é, em se tratando de uma intertextualidade stricto sensu, é necessário que o texto remeta a outros textos ou fragmentos de textos efetiva mente produzidos, com os quais estabelece algum tipo de relação. (KOCH; BENTES; CAVALCANTE, 2007, p. 17).
Maia (2007, p. 193) chama de intertextual “toda referência – explícita ou implícita – a outros textos (ou paratextos) tomados esses num sentido bem amplo (orais, escritos, visuais, musicais, publicitários etc)”. Para tanto, o reconhecimento dos intertextos, pelo co- enunciador, depende da competência textual do leitor, depende dos seus conhecimentos enciclopédicos ou conhecimentos de mundo para tornar a transição interpretativa mais fluída e favorecer a compreensão dos sentidos construídos no novo texto. Para Maia (2007, p.193),
“a intertextualidade está ligada ao conhecimento dos códigos utilizados (entre eles, o código
linguístico) e ao conhecimento de mundo, que deve ser compartilhado, ou seja, comum ao produtor e ao receptor. A nossa compreensão de textos dependerá muito das nossas experiências, vivências e leituras”.
Essa concepção conflui com a análise de Fiorin (1996, p.10). Para o autor,
O texto pode ser abordado de dois pontos de vista complementares: de um lado, pode-se analisar os mecanismos sintáticos e semânticos responsáveis pela produção do sentido; de outro, pode-se compreender o discurso como objeto cultural, produzido a partir de certas condicionantes históricas em relação dialógica com outros textos.
Charaudeau (1993d) considera o intertexto como um jogo de retomadas de textos configurados e ligeiramente transformados. É nesse jogo que os sentidos do texto são construídos, a partir dos sentidos do intertexto. Contudo, acreditamos que os sentidos abstraídos do intertexto dão ao texto que o subutiliza efeitos de sentidos mais enfáticos e até mais persuasivos, porque o intertexto é um recurso textual incorporado para criar uma nova situação comunicativa, com novos propósitos comunicativos, a partir de “velhas” bases.
Contudo, frisamos que intertextualidade e intertexto são configurações distintas, a intertextualidade é o fenômeno textual em si, enquanto o intertexto é um elemento sobrejacente nesse fenômeno, e não o contrário. A remissão às expressões cristalizadas recebe um novo sentido a partir do valor simbólico original é o que acontece na construção de
sentidos e efeitos dos anúncios publicitários, em que os anunciantes se valem de enunciados tipificados para abstrair sentidos concernentes aos propósitos comunicativos dos anúncios e aos seus interesses discursivos.
Essas noções primárias são importantes para as discursões a seguir.