1.2 A ANÁLISE DO DISCURSO
1.2.2 Interdiscurso e memória discursiva
Ao questionar a concepção “arquitetural” do discurso dos estudiosos da
época, Maingueneau (2008a) propõe um caminho diferente, de forma a atenuar as
lacunas em uma visão de discurso como totalidade estratificada. Para compor esse
novo caminho, considera o discurso como um sistema de regras que define a
especificidade de uma enunciação. Sistematiza suas ideias em sete hipóteses,
dentre as quais interessa, a este estudo, a primeira: o interdiscurso tem precedência
sobre o discurso
5.
Para Charaudeau e Maingueneau (2006: 286.), o “interdiscurso é um jogo
de reenvios entre discursos que tiveram um suporte textual, mas de cuja
configuração não se tem memória”. De acordo com os autores, o interdiscurso pode
ser considerado em sentido estrito e em sentido amplo. Em sentido estrito, é visto
como um conjunto de discurso de um campo discursivo ou de diferentes campos
que mantêm relações de limitação recíproca uns com os outros. Em sentido amplo,
chama-se de interdiscurso o conjunto das unidades discursivas com as quais um
discurso pode estar em relação implícita ou explícita.
Dessa forma, entende-se que a unidade de análise não é o discurso, mas
um espaço de trocas entre vários discursos convenientemente escolhidos, (o
5 As demais hipóteses são: 2ª- “O caráter constitutivo da relação interdiscursiva faz aparecer a interação semântica entre os discursos como um processo de tradução, de intercompreensão
regrada”. 3ª-“Para dar conta desse interdiscurso”, haveria “um sistema de restrições globais”. 4ª- “Esse sistema de restrições deve ser concebido como um modelo de competência interdiscursiva”. 5ª- “O discurso não deve ser pensado somente como um conjunto de textos, mas como uma prática discursiva” [esta entendida no sentido pensado por Foucault, em Arqueologia do saber]. 6ª- A prática discursiva pode ser considerada como uma prática intersemiótica: integra diferentes “domínios semióticos”, e não apenas enunciados verbais. 7ª- “O recurso a esses sistemas de restrições não implica de forma alguma uma dissociação entre a prática discursiva e outras séries de seu ambiente sócio-histórico.” (MAINGUENEAU, 2008a: 21-23, grifos do autor).
interdiscurso), de modo que o interdiscurso tem precedência sobre o discurso, isto é,
o discurso é construído a partir do “já dito”.
As palavras de Orlandi (2007a) podem esclarecer a teoria de Maingueneau
de que toda formação discursiva é atravessada pelos interdiscursos:
O interdiscurso é definido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente. Ou seja, é o que chamamos memória discursiva: o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sob a forma de o pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra. O interdiscurso disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito significa em
uma situação discursiva dada. (
ORLANDI, 2007a: 31).
Neste ponto, o interdiscurso
6seria o mesmo que memória discursiva, e seria
pré-construído, pois todos esses termos se referem ao caráter essencialmente
dialógico que qualquer enunciado do discurso possui. Nesse sentido, pode-se dizer
que a memória, quando pensada em relação ao discurso, é tratada como
interdiscurso.
De acordo com Charaudeau e Maingueneau (2006), o discurso tem relação
com a memória de maneira constitutiva em dois planos complementares: o da
textualidade e o da história. Ao se desenvolver como espaço textual, um discurso
constrói para si uma memória intratextual, isto é, ele pode sempre remeter a um
enunciado precedente. Já no plano da história, o discurso é dominado pela memória
de outros discursos. Maingueneau (2008: 116) explica a relação entre formação
discursiva e memória da seguinte forma:
Uma formação discursiva é tomada de uma dupla memória. Ela se
atribui uma memória externa colocando-se na filiação de formações discursivas anteriores. Com o tempo, cria-se também uma memória interna (com os enunciados produzidos anteriormente no interior da mesma formação discursiva). O discurso apoia-se na “tradição e cria a sua própria tradição”.
6
Possenti (2009: 162) comenta certos aspectos das definições de interdiscurso em Pecheux , em Courtine de um lado e em Maingueneau, de outro, afirmando que este último apresenta “uma noção de interdiscurso menos pomposa, mas mais operacional”.
Desse ponto de vista, a noção de memória não tem o mesmo sentido que
tem na Psicologia ou na Psicolinguística. Em análise do discurso, a memória
discursiva está relacionada com a existência histórica do enunciado dentro das
práticas discursivas reguladas por aparelhos ideológicos
7. De modo geral, qualquer
tipo de discurso mantém uma relação com a memória. Alguns enunciados são
concebidos como imediatamente perecíveis, tais como os jornais diários; outros são
conservados como os discursos constituintes. Os discursos literários, religiosos,
jurídicos e outros são destinados a suscitar “falas que os retomem, que os
transformem ou falem deles” (FOUCAULT, 1971 apud CHARAUDEAU,
MAINGUENEAU, 2006: 326)
A memória discursiva, como condição do funcionamento do discurso,
constitui um corpo sócio-histórico-cultural, uma vez que os discursos exprimem uma
memória coletiva na qual os sujeitos estão inscritos. São acontecimentos exteriores
e anteriores ao texto, enquanto a interdiscursividade reflete as materialidades que
intervêm na sua construção.
É pela memória discursiva que os enunciados anteriores, “já ditos”, podem
constituir uma formação discursiva. É a memória discursiva que possibilita, na rede
de formulações que constitui o intradiscurso de uma formação discursiva, o
aparecimento, a rejeição ou a modificação de enunciados pertencentes a formações
discursivas que são contemporâneas.
Os conceitos de interdiscurso e memória discursiva são utilizados nesta
análise do discurso sobre educação do MST para distinguir os outros discursos que
constituíram os fundamentos que norteiam a sua proposta pedagógica, assim como
para apreender a ideologia veiculada pelo enunciador desse discurso. Para analisar
como esse enunciador discursiviza e como expressa a sua ideologia, são tecidas, no
7 Segundo Althusser (1992:68) os AIE compreendem instituições como família, religião, sindicatos e
ainda veículos de comunicação que, por meio do jornalismo, são responsáveis por proporcionar aos cidadãos o direito à informação. Quanto aos discursos presentes nesses veículos, além de articularem outros que circulam na sociedade, fazem parte dos discursos que configuram um espaço social e atribuem valores e criam sentidos que organizam as relações de poder. O autor defende a “tese” de que o estudo das práticas e discursos dos aparelhos ideológicos do Estado permitiria o entendimento de como funciona a ideologia. Trata-se, portanto, de estudar a materialidade da ideologia, o que significa estudar a linguagem, lugar em que aquela se materializa.