3.3 A vontade do ser racional e o interesse pela lei
3.3.2 O interesse: móbeis e motivos
Kant afirma que o ser racional não pode ser considerado um fim relativo, cuja existência tenha valor como efeito da ação, porque sua natureza o distingue já como fim em si, como algo que não pode ser tomado somente como meio, restringindo dessa maneira o arbítrio e constituindo um objeto do respeito36. Se esse fim objetivo que limita todo o arbítrio é, por isso mesmo, um objeto do respeito, isso vem a ser possível porque o ser racional, enquanto capaz de legislar de maneira independente da necessidade natural, mas em analogia com essa mesma lei, é capaz de legislar de maneira autônoma, de modo a adquirir por essa legislação sua dignidade enquanto ser racional.
Sobre o interesse, Kant afirma, já na terceira seção:
“Interesse é aquilo pelo que a razão se torna prática, isto é, se torna causa determinante da vontade. Por isso se diz só de um ser racional que ele toma interesse por qualquer coisa; as criaturas irracionais sentem apenas impulsos sensíveis. A razão só toma um interesse imediato na ação quando a validade universal da máxima desta ação é princípio suficiente de determinação da vontade. Só um tal interesse é puro”37.
Se o respeito pela lei se mostra como efeito da consciência da subordinação da vontade aos princípios da razão, da determinação imediata da vontade pela lei, por um lado, e se o interesse é aquilo por meio de que a razão se torna prática, isto é, aquilo por meio de que a razão determina a vontade, por outro lado, então é possível pensar não tanto uma identidade entre ambos, mas uma relação de implicação entre o interesse e o respeito pela lei: o respeito,
36 Cf. Fundamentação, p. 68, BA 65; p. 81, BA 82. 37 Fundamentação, p. 112, BA 122.
porque é o resultado da consciência da subordinação da vontade à lei da razão, deve preceder o interesse pela lei, porque este tem de pressupor aquela consciência, a qual apresenta a lei como resultado da atividade da razão sem a consideração de outros princípios como móbeis (ou, como Kant diz, como a representação de um valor que causa dano à inclinação38). Se o objeto de respeito “é simplesmente a lei” que o ser racional se impõe a si mesmo, ou seja, se o objeto do respeito é, propriamente falando, a autonomia do ser racional, então é preciso afirmar a liberdade como propriedade da vontade, pois liberdade e autonomia “são representações diferentes do mesmo objeto”39, e o sentimento de respeito seria o índice dessa propriedade, se compreendida como autolegislação. Se o interesse é aquilo pelo que a razão se torna causa determinante da vontade, é porque o interesse, podendo ser interesse somente pelos princípios da razão neles mesmos, ou seja, somente pela lei moral, torna tais princípios um motivo suficiente de determinação para a vontade do ser racional na medida em que é possível uma consciência desses princípios, consciência cujo efeito imediato é um sentimento de respeito pela lei moral enquanto produto da atividade racional.
De acordo com o que vem sendo desenvolvido até aqui, é a noção do ser racional como fim em si mesmo aquela que satisfaz a um só tempo tanto a necessidade de que, para um imperativo categórico, se estabeleça um fim que não pode ser dado a partir da sensibilidade (como uma “necessidade da inclinação”) e que, portanto, não seja um fim relativo, como também a exigência de que a vontade, porque volta-se sempre para a realização de objetos, tenha algo que lhe sirva como objeto, ainda que não possa ser visado como tal.
38 Cf. Fundamentação, p. 32, BA 16, nota. 39 Cf. Fundamentação, p. 99, BA 105.
Desse modo, esse objeto pode consistir um motivo e, assim, reivindicar para o querer, afastada já a possibilidade de sua contradição, toda a universalidade que a forma da lei exige do princípio da moralidade como uma das suas condições de possibilidade. Do princípio que afirma o ser racional como fim em si resulta a idéia da vontade do ser racional como legisladora universal, na medida em que
“nele a humanidade se representa não como fim dos homens, isto é, como objeto de que fazemos por nós mesmos um fim [...], o qual, sejam quais forem os fins que tenhamos em vista, deve constituir como lei a condição suprema que limita todos os fins subjetivos, e que por isso só pode derivar da razão pura. É que o princípio de toda a legislação prática reside objetivamente na regra e na forma da universalidade que a torna capaz [...] de ser uma lei (sempre lei da natureza); subjetivamente, porém, reside no fim; mas o sujeito de todos os fins é [...] todo o ser racional como fim em si mesmo: daqui resulta o terceiro princípio prático da vontade como condição suprema da concordância desta vontade com a razão prática universal, quer dizer, a idéia da vontade de todo ser racional concebida como legisladora universal”40. Ao se constituir ao mesmo tempo em fim subjetivo e fim objetivo para a vontade do ser racional, a idéia deste como fim em si mesmo a limitar a universalização das máximas (no que concerne o uso dos meios) se constitui o motivo possível para um interesse não patológico manifesto por essa mesma vontade em relação aos princípios da razão. Ou, por outras, se o imperativo constitui uma legislação para a ação dos seres racionais em geral, na medida em que exclui de seu princípio todo interesse como móbil, isto é considera o interesse somente como motivo, sua legislação implica a consideração do ser racional como fim que lhe é possível, uma vez que essa legislação se relaciona com a vontade, garantindo assim ao ser racional um privilégio de finalidade, porque somente desse ponto de vista seria cabível pensar uma ordenação de fins diferente daquela dada pelas leis naturais, embora análoga a ela. Se o princípio da moralidade, expresso na fórmula do imperativo categórico, vem a ser a liberdade (como sua condição de possibilidade), então é possível considerar que,
sendo excluído “de seu princípio de autoridade toda a mescla de qualquer interesse como móbil”, resta a esse princípio que ele contenha ao menos a idéia de um interesse como motivo e, portanto, a idéia de um interesse prático.
Formulados os termos segundo os quais o conceito positivo de liberdade poderia conter a idéia de um interesse prático (pela exclusão de todo interesse patológico, de todo interesse como móbil), resta saber como seria possível não propriamente um interesse prático — investigação impossível de ser levada a termo aos olhos da Fundamentação41 — mas como a idéia de um tal interesse possa tomar parte na dedução.
3.4 A coincidência de sujeito e objeto na fórmula do imperativo e a relação com o interesse