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CAP.3 CONTEXTO E APLICAÇÕES DA BIOTECNOLOGIA

3.2 BIOTECNOLOGIA, REGULAÇÃO E INTERESSE PÚBLICO

3.2.3 Interesse público como princípio constitucional

A posição ocupada pela teoria da prevalência do interesse público reflete questão basilar no sistema administrativista, preenchendo seus vazios, justificando racionalmente o direito e conferindo coesão teórica ao modelo jurídico, concentrando, legitimando e delimitando a esfera de poder do Administrador Público.115

Nessa nova realidade a questão imposta acerca da existência ou não de um princípio do interesse público constitucionalmente estabelecido tem despertado na doutrina posicionamentos dos mais diversos e nesse diapasão tem o presente trabalho a intenção de afirmar como de fato afirma que a prevalência do interesse público sobre o privado no Direito Administrativo brasileiro resulta implicitamente do sistema constitucional.

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política liga-se com a expectativa de um uso público da razão: como colegisladores democráticos, os cidadãos não podem fechar-se às exigências informais que resultam de uma orientação pelo bem comum. O que foi dito acima parece sugerir que a razão prática tem a sua sede exclusiva no exercício de uma autonomia política, que permite aos destinatários do direito entender-se, ao mesmo tempo, como seus autores. De fato, porém, a razão prática se realiza, tanto na figura da autonomia privada, como na pública, pois ambas constituem , de um lado, fins em si mesmas. Porém, de outro lado, uma é meio para a outra. A exigência da orientação pelo bem comum, que se liga com a autonomia pública, constitui expectativa racional na medida em que somente o processo democrático garante que os “cidadãos da sociedade” cheguem simetricamente ao gozo de iguais liberdades subjetivas. Inversamente, somente uma autonomia privada dos “cidadãos da sociedade”, assegurada, pode capacitar os “cidadãos do estado” a fazer uso correto de sua autonomia política. A interdependência da democracia e estado de direito transparece na relação de complementaridade existente entre a autonomia privada (cidadão da sociedade) e pública ou cidadã (cidadão do estado): uma serve de fonte para a outra.

115 MARQUES NETO, Floriano Peixoto de Azevedo. Regulação estatal e interesse público. São Paulo:

É pois, a verdadeira função administrativa que a atuação do Estado nasça do crivo constitucional que possibilitará, ultrapassados os momentos da compreensão e interpretação do que pode e deve ser feito, a efetivação dos valores, ali mesmo inseridos.

A partir do conceito estabelecido por Humberto Ávila116, vê-se que o princípio traça o fim ao qual se dirige a norma jurídica, um estado de coisas que deve ser buscado ao largo de preferências pessoais ou, melhor dizendo, é o diferencial a ponderar até que ponto o interesse de muitos deve obediência ao interesse de alguns.

No entender deste trabalho, a Constituição Federal de 1988 traz em vários pontos o mandamento nuclear do princípio a nortear a ação da Administração Pública, e no que concerne ao objetivo do presente trabalho, tem-se tal assertiva de forma clara nos artigos dedicados à Ordem Econômica, especialmente o art. 170, caput e inciso VI que trata sobre a defesa do Meio Ambiente de forma diferenciada, em função do impacto trazido por produtos e serviços, visando uma existência digna a todos.

A partir disso, a assertiva de Humberto Ávila expõe uma das nuanças da discussão sobre o tema, uma vez que, para este doutrinador, os interesses públicos e privados estão intimamente correlacionados, não podendo ser separadamente descritos na análise da atividade estatal como um todo.117

A própria atuação administrativa orientada na direção da promoção de um bem comum constitucionalmente previsto, justifica a adoção da prevalência do interesse público como princípio constitucional como defende Fábio Medina Osório118 a partir da sugestão de que o interesse público traduz a busca pelo bem estar e segurança almejado pelo grupo social. _______________

116 ÁVILA, Humberto.Teoria dos princípios: Da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 5 Edição. São

Paulo: Malheiros, 2008. p.78/79.

117 ÁVILA, Humberto. Repensando o “princípio da supremacia do interesse público sobre o particular”. Revista

Diálogo Jurídico. Ano I, vol. I, n º. 7, Salvador.

O interesse privado e o interesse público estão de tal forma instituídos pela Constituição brasileira que não podem ser separadamente descritos na análise da atividade estatal e de seus fins. Elementos privados estão incluídos nos próprios fins do Estado (p. ex. preâmbulo e direitos fundamentais.

118 OSÓRIO, Fábio Medina. Existe uma supremacia do interesse público sobre o privado no direito

Surge assim no âmbito constitucional, um modo de agir estatal que vai paulatinamente abandonando o individualismo e a excessiva separação público/privado na qual se amparava o Estádio liberal clássico para, a partir do advento do chamado Welfare State, passar a desempenhar novos papéis, num maior teor intervencionista.

Com a crise desse modelo, abalado pelo fenômeno da globalização, o Estado se vê frente a uma sociedade de consumo cujo traço maior é a queda das fronteiras e a massificação das relações contratuais, forçando mudanças nos paradigmas clássicos do direito privado, posto que já não mais se enxerga o contrato apenas à luz da autonomia da vontade das partes, mas sim, em relação a um supremacia do interesse social, da boa-fé e da equidade.

Nessa nova realidade, Daniel Sarmento opina que o Poder Público, de mero expectador, vai convertendo-se em protagonista das relações econômicas, passando a discipliná-las de forma cogente, através da multiplicação de normas de ordem pública, que se impõem diante da autonomia da vontade das partes119.

Nesse diapasão, o princípio da prevalência do interesse público merece igualmente novos contornos para, assim, fugir dessa relação verticalizada e, em consonância com a ordem jurídica, passar a Administração Pública a assumir um papel voltado para a produção de normas voltadas para as necessidades mundiais de organização econômica, social e política120. Não sendo refratária da nova dinâmica social, sob a alegação de uma supremacia que, em muitos casos nada mais é do que uma legitimação disfarçada do interesse do político, nada tendo a ver com o interesse coletivo, como se posiciona Jurgen Habermas ao tecer crítica no sentido de que “à luz da legitimação democrática, podemos dizer que existe um déficit de

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119 SARMENTO, Daniel. Interesses públicos vs. Interesses privados na perspectiva da teoria e da filosofia

constitucional. In: Interesses públicos versus interesses privados: Desconstruindo o princípio da supremacia do interesse público. 2ª Tiragem. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2007. pág. 23 a 116.

120 SUNDFELD, Carlos Ari. A administração pública na era do direito global. In: Direito Global. São Paulo:

legitimação, quando o círculo dos que participam de decisões democráticas não coincide exatamente com círculo dos atingidos por aquelas decisões”. 121.