2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.6. Interesse Temático, Extensão do Self e Self Expandido
O interesse do colecionador em determinado tema impulsiona sua vontade de colecionar. Os objetos de coleção materializam o interesse temático e são vistos como símbolos do self.
Belk (1988) usa os termos “self”, “senso do self” e “identidade” como sinônimos sobre como o indivíduo subjetivamente percebe quem ele ou ela é. Assim, o conceito de identidade tem caráter subjetivo, refletindo experiências psicológicas na autorrepresentação individual e em grupos, e não na essência objetiva de cada indivíduo (Oliveira, Troccoli, &
Altaf, 2012).
Os indivíduos possuem um self central que se expande para incluir itens que se tornam parte de um self estendido. O corpo, processos internos, ideias e experiências pertencem ao self central, enquanto pessoas, lugares e coisas com as quais os indivíduos estabelecem ligações fazem parte do self estendido (Belk, 1995).
Segundo Dittmar (1992), sentimentos de propriedade provocam nas pessoas uma visão de que posses tangíveis e intangíveis são partes do self estendido. Belk (1988) emprega então o termo “self estendido” para incluir o papel das posses na identidade do consumidor, destacando que conscientemente ou não, intencionalmente ou não, as pessoas associam suas posses como partes delas mesmas. O self estendido é aquilo que o indivíduo enxerga como seu, estendendo a sua identidade aos objetos que possui. Assim, um mesmo indivíduo tem
representações diferentes de sua identidade, de acordo com suas posses (Ponchio & Strehlau, 2012).
A noção de self por Belk (1995) significa que quanto mais o indivíduo acredita que possui ou é possuído por um objeto, mais esse objeto se torna parte do self. Quando se declara que alguma coisa é “minha”, também se passa a acreditar que o objeto “sou eu”.
Os objetos agem como repositórios de memória que confirmam as identidades dos indivíduos. Conforme aponta Rochberg-Halton (1984, p. 335), “posses materiais... agem como sinais do eu..., e do mundo de significados que criamos para nós mesmos, e que cria a nós mesmos”. O indivíduo expressa sua identidade por meio dos bens consumidos, os quais funcionam como receptáculos de crenças e valores intangíveis (Bacha, Santos, & Strehlau, 2009).
Greenwald (1988) aponta que o self se manifesta em quatro facetas: o self difuso, o self público, o self privado e o self coletivo. Todas essas facetas estão presentes em diferentes variações em pessoas adultas. Cada faceta reflete uma tarefa diferente do ego (Breckler &
Greenwald, 1986). O self difuso busca satisfação hedônica e bem estar. O self público busca reconhecimento social e status, e a base é a aprovação dos outros. O self privado almeja realização pessoal e o self coletivo procura atingir os objetivos de um grupo de referência. No colecionismo, essas facetas estão presentes nos colecionadores, pois há o interesse no entendimento do papel das posses na definição e manutenção do self.
Csikszentmihallyi (1990) e Rochberg-Halton (1984) afirmam que os indivíduos investem “energia psíquica” – esforço, tempo, atenção - num objeto, fazendo com que este seja lembrado como parte do self porque o vínculo com o objeto cresceu e emergiu a partir do próprio self. Logo, a extensão do self é importante na construção, manutenção e desenvolvimento de coleções, pois os objetos de coleção, como expressões do interesse temático do colecionador, transformam-se num discurso sobre si mesmo (Baudrillard, 2006).
Assim, estabelece-se como hipótese que:
H6: O interesse temático influencia positivamente na extensão do self.
Belk (1988) apoia-se no argumento de que o self estendido de uma pessoa é composto por objetos, lugares e outras pessoas. Quanto mais o indivíduo acredita controlar uma coisa ou pessoa, mais aquela coisa ou pessoa faz parte de sua identidade. O "ser" e o "ter" são distintos, mas inseparáveis, sendo que quanto maior a relação do sujeito com um objeto, mais o objeto se torna um bem “meu” (Abdalla, 2014). Por conta de um controle maior, bens são mais próximos do "eu" do que lugares e pessoas.
No que se refere à utilização de pessoas para a composição da identidade, Abdalla (2014) faz uma importante diferenciação entre os conceitos extensão do self (Belk, 1988) e self expandido (Aron, Aron, Tudor, & Nelson, 1991). Há uma característica projetiva na extensão do self: os indivíduos estendem sua identidade para objetos, lugares e outras pessoas que tenham significado simbólico para eles, inserindo aspectos da identidade própria em algo ou alguém. No self expandido, ocorre o inverso: o indivíduo absorve aspectos do self de outras pessoas para a sua identidade. O conceito de self expandido evoca uma metáfora de
‘inclusão interna’, enquanto que a extensão do self envolve uma metáfora de ‘extensão externa’ (Connell & Schau, 2013). Ahuvia, Batra e Bagozzi (2009) caracterizam o self expandido como incorporativo, no sentido de representar buscas afetivas que se iniciam para a melhoria ou expansão do self (Paniccia, 2011).
Belk (2014) em artigo recente questiona o conceito de self expandido, afirmando que o mesmo nada mais é do que uma conceitualização alternativa para a extensão do self. Contudo, autores como Aron et al. (1991), Aron e Aron (1996), Wright, Aron e Tropp (2002), Ahuvia, Batra e Bagozzi (2009), Paniccia (2011) e Connell & Schau (2013) sustentam a diferenciação entre os conceitos, já que no self expandido pessoas próximas interferem uma na identidade da outra, somando características uma ao self da outra, conforme o nível de proximidade do relacionamento entre elas.
Outro aspecto destacado por Aron et al. (1991) e Aron e Aron (1996) é que o self expandido também se manifesta de forma unilateral, ou seja, indivíduos buscam adicionar ao seu self características da identidade de seus ídolos, líderes dos grupos de referência que fazem parte da vida do indivíduo ou celebridades de quem são fãs. E isso sem que haja a transferência de aspectos do self do fã para o ídolo. O self se expande como um projeto simbólico (Wattanasuwan & Elliot, 1999), em que o indivíduo deve ativamente construir a partir dos objetos ou pessoas uma narrativa da sua própria identidade.
Especificamente no tocante ao objeto de estudo da tese, as coleções, e os itens que as compõem, explicitam o interesse temático do colecionador como um mosaico de objetos sacralizados, místicos e poderosos (Wallendorf, Belk, & Heisley, 1988). As estátuas e figuras de ação colecionáveis que retratam super-heróis, magos, bruxas, guerreiros e vilões, apesar de não serem pessoas reais, são reais no universo da ficção e veneradas como ídolos. Como fãs, os colecionadores assumem esses personagens ficcionais como os ‘olimpianos modernos’
(Morin, 2002), os ‘novos deuses’ do mundo contemporâneo. Diante disso, esses objetos são traduções de celebridades e ícones oriundos das revistas em quadrinhos, filmes, games,
desenhos animados, mangás e animês (revistas em quadrinhos e desenhos animados japoneses), fruto das novas narrativas midiáticas da modernidade.
Materializados sob a forma de estátuas e figuras de ação colecionáveis, os personagens representados nos objetos de coleção são imagens poderosas de ideias arquetípicas: por exemplo, heróis (o personagem Han Solo de Star Wars), vilões (o Coringa de Batman), o velho sábio (o mago Gandalf de Senhor dos Anéis), a criança divina (o personagem Superman).
Os arquétipos são imagens universais transmitidas pela tradição e pela história (Jung, 2013). Sua função é atrair, convencer, fascinar e subjugar. De acordo com Moxnes (2013), um arquétipo é a mais psicológica, universal e simbólica imagem conhecida pelo homem. Os arquétipos não são apenas ideias elementares, mas também sentimentos, fantasias, sonhos e visões, identificados através das suas representações simbólicas em histórias, mitos e contos de fadas. Por serem comuns à toda humanidade, há arquétipos ou imagens arquetípicas de conceitos gerais como “pai”, “mãe”, “criança”, “amante”, “explorador”, “criador”, “mágico”,
“aristocrata”, “homem sábio” ou “herói”, cujos significados impactam na experiência humana (Tsai, 2006).
Como objetos de coleção, as estátuas e figuras de ação exploram imagens arquetípicas, sendo grande parte delas ligadas à figura mitológica do herói. A trajetória do herói é o arquétipo de todos os mitos (Campbell, 1990), pois apresenta uma denotação ideal pura: o prazer em superar o monstro das trevas, um triunfo longo e esperado do consciente sobre o inconsciente (Jung, 2013). O herói atua como um símbolo de três ideais: o feito heroico, o lutar ao máximo para triunfar e ser aceito no Olimpo. Em última análise, o herói encena o sonho antigo do bem triunfar sobre o mal.
Assim, o status arquetípico de uma estátua ou figura de ação serve como um avatar para o indivíduo que possui uma peça colecionável. O indivíduo compra objetos icônicos para incorporar o simbolismo do arquétipo, e o usa na sua busca para construir o self e a sua identidade cultural e social (Tsai, 2006). O colecionador se expressa e se projeta na coleção (self estendido), mas a representação simbólica da coleção introjeta no colecionador os significados inerentes aos itens colecionáveis. Os objetos por si só criam e transferem seus significados (Miller, 2013) a quem os possui (self expandido), influenciando na extensão do self.
Os significados dos personagens ficcionais retratados nas estátuas e figuras de ação - personalidade, características, caráter, valores e atitudes - são apropriados (introjetados ou incluídos) no self dos indivíduos (Thompson, 1997), tornando-se parte de suas identidades.
Portanto, essa tese acredita que há uma conexão do interesse temático como forma de expansão do self, o qual impacta na extensão do self.
Face a todos esses apontamentos, destacam-se como hipóteses:
H7: O interesse temático influencia positivamente no self expandido.
H8: O self expandido influencia positivamente na extensão do self.