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Interesses e teses principais de orientalismo

A SITUAÇÃO PÓS-COLONIAL – OU DA EMERGÊNCIA DE UM DISCURSO CONTRAHEGEMÔNICO

1.2. CORRENTES NO DISCURSO PÓS-COLONIAL:

1.2.1 Edward W Said: do orientalismo ao paradigma do pós-colonial em Said

1.2.1.4 Interesses e teses principais de orientalismo

Quero deter-me neste momento para explicitar o que considero serem as principais teses e os principais princípios metodológicos e interesses de Orientalismo, para prosseguir mais a frente com conexões ulteriores da obra de Said. Já disse que a pergunta por trás deste empreendimento crítico é pelas alternativas à relação (hostil) entre culturas. Em termos de produção de conhecimento, como crítico cultural, Said procura as possibilidades de um conhecimento não dominador, e anti-hierárquico (cf. 1978:80). Esse interesse paira no ar, e compreende a obra como um marco geral abrangente. Porém, a pedra angular da sua análise, e a materialização específica de tal preocupação, está orientada por saber como a representação “ocidental” dos outros, “os orientais”, distorce a realidade, se alia às instituições de poder e à vontade de dominação, e se legitima a si mesma de formas muito sofisticadas. A pergunta mais geral sobre as relações entre diferentes se focaliza, em Orientalismo, em um assunto específico, como se este fosse um tipo de inicio de uma pesquisa que tenta responder a essa inquietação maior. Pois bem, quais outras ideias centrais podemos observar em Orientalismo?

De maneira interna à obra, o que guia o autor será o interesse de mostrar e compreender a “força do discurso cultural ocidental, uma força muitas vezes tomada erroneamente como apenas decorativa ou de ‘superestrutura’”; assim, ele pretende “... ilustrar a formidável estrutura de dominação cultural...”. (1978:56). Isto é, ele se concentra em explicitar uma das polaridades da relação. Conclui dizendo: “Gostaria de ter contribuído para uma melhor compreensão do modo como a dominação cultural tem operado (...) [e avançar no] processo do que Raymond Williams chamou de

‘desaprender’ o ‘modo dominador inerente’”. (1978:59-60). Propõe, portanto, realizar um diagnóstico do ‘modo dominador inerente’. Cabe perguntar se, ao se propor ‘desaprendê-lo’, não estaria também propondo um explícito interesse de resistência?77

Vinte cinco anos mais tarde, no prefácio à edição de 2003 (que aparece na edição de 2007 que cito aqui), Said explicita alguns outros interesses da sua obra. O intelectual e crítico devem pesquisar e tentar compreender com o objetivo da coexistência e de alargar horizontes, e não para dominar, controlar e governar aos outros (1978 [2003]:15). Portanto, sua pesquisa, à diferença da prática disciplinar dentro do campo do orientalismo, não procura estudar o outro para saber a melhor forma de governá-lo; os seus interesses são outros: coexistência e alargamento de horizontes. Ora, alargar horizontes (sem estabelecer limites conforme a autoridade predominante [p.20]) é dissolver os grilhões forjados pela mente, e reivindicar o uso histórico e racional do intelecto (1978 [2003]:19).

Os ‘grilhões’ e ‘limites’ são denunciados a partir de outro princípio metodológico, o de ‘fazer conexões’, baseado por sua vez em um axioma central, ‘a mundanalidade’ de todas as obras da cultura.78 Conectar as coisas e compreendê-las

como mundanas se contrapõe, ao mesmo tempo, a um tipo de pensamento que faz justamente o contrário: separa, isola, sublima e desconecta. Esta tendência contra a qual se contrapõe Said advoga pela especialização do conhecimento, e postula, através da retórica da sua especificidade (‘orientalismo’, diz Said, denota a existência de um campo específico, restrito, e um ar de seriedade científica), que existem conhecimentos a-políticos, e outros políticos. “Um humanista não é um politólogo”, e “uma obra literária de Shakespeare ou Wordsworth não reviste o caráter inerentemente político de um estudo sobre a China contemporânea, ou a União Soviética” (cf. 1978:36-7). Said se opõe a tais argumentos afirmando que tudo está interconectado, ‘nada está isento de influências’, e que cada campo individual está ligado aos outros. Exemplifica tais conexões através da análise crítica, não somente das obras históricas e documentos ‘políticos’, senão também através do estudo de obras literárias, contos, relatos de viagens, textos jornalísticos, etc.

77 Existe um certo consenso entre alguns leitores de Said para afirmar que não existe nele uma teoria da resistência. Por um lado, creio que tais leitores se limitam à obra Orientalismo; por outro lado, eles mesmos não conseguem interpretar os gestos desconstrutivos e de resistência na própria metodologia de pesquisa explicitada em Orientalismo.

78 O conceito é estudado especialmente em El mundo, el texto y el crítico (Barcelona: Edição DeBOLS!LLO, 2008[1983]), assim como em Bigginings: Intention and Method (New York: Basic Books, 1975).

A novidade do seu estilo de pesquisa radica justamente ai, na sua vinculação de textos tidos como a-políticos, para explicar a sua influência sobre o desenvolvimento dos acontecimentos históricos e políticos no imperialismo e colonialismo europeu e norteamericano. Por esse motivo Said se contrapõe à especialização e profissionalização do conhecimento acadêmico. A divisão do trabalho acadêmico, ou sua especialização e consequente profissionalização compartimentalizada, separa em lugar de conectar os campos e ideias. Ao separar e classificar (conhecimento puro, não-puro, político, a- político), nega-se a mundanalidade de todo conhecimento (1978:42). Daí que esse tipo de ethos acadêmico (o orientalista) seja melhor compreendido como “um conjunto de restrições e limitações do pensamento... [mais do que] simplesmente como uma doutrina positiva” (1978:75). Tais restrições e limites estão determinados pela necessidade, imposta pelo imperialismo, de controlar as relações entre os centros metropolitanos e a realidade ‘local’ (1978:79), e é por isso que como resultado dessa necessidade de controle emerge uma “monstruosa cadeia de comando”, uma ordem soberana e hierárquica que articula a divisão da realidade humana operada pelo Orientalismo (1978:80).

Como podemos observar, tais grilhões e limites forjados pela mente, aos quais Said se refere, constituem e configuram a produção de um tipo de conhecimento que está orientado por interesses diferentes aos da coexistência e construção de uma comunidade humana. Para Said um projeto verdadeiramente humanista está longe de produzir tais resultados desumanos e catastróficos; daí que o Orientalismo para Said seja uma distorção e usurpação do legado das artes interpretativas para o serviço do poder e o império. Ora, longe de descartar de forma absoluta todo o conhecimento produzido em ocidente, Said recorre às mesmas artes interpretativas, que considera o legado da cultura humanista (e isto é um gesto central no paradigma saidiano), no intuito de “praticar ativamente o discurso racional, secular e profano” (1978:25). A prova em contra do conhecimento ‘orientalista’ é colocada no seu caráter cíclico e autoreferenciado (“não envia o consumidor às fontes orientais, mas a outras obras orientalistas”, 1978:107), que fundamenta a sua autoridade discursiva a partir da força da repetição dos mesmos argumentos, numa atitude profundamente antiempírica (1978:111), e também, a-histórica.

Visto que a divisão radical entre ocidente e oriente é basicamente uma divisão geográfica, para Said a geografia e o conhecimento possuem uma estreita relação (1978:90). Se referindo ao trabalho de Gaston Bachelard, Said afirma a ideia de que a

constituição do espaço, assim como a do tempo, se dá através de um processo poético, de modo que os objetos distintivos assim criados possuem, pode ser argumentado, uma realidade ficcional (1978:91-2). (Não é por acaso que o primeiro assunto tratado por Said em Cultura e Imperialismo seja a relação entre Império, Geografia e Cultura.)

Quero terminar este conjunto de ideias importantes de Orientalismo com algo que me parece central para um aprofundamento das motivações e estruturas em jogo nesta análise e sobre a sua extensão e abrangência histórica. Trata-se da importância do Islã dentro da estrutura analisada por Said em Orientalismo. O islã é uma categoria central no discurso orientalista, e se apresenta em meio a uma forte e persistente polêmica anti-islâmica, uma polêmica que pode ser datada inclusive desde a Idade Média, como mostram as suas referências a uma obra como A Divina Comédia, de Dante Alligieri. Da mesma forma, as representações orientalistas demonstram claros compromissos ancorados em visões de mundo determinadas por ideias cristãs. A sua retórica de cientificidade sempre tenta esconder tais compromissos.