• Nenhum resultado encontrado

PARTE I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

INTERESSES PROFISSIONAIS

1.1. Interesses profissionais: perspectivas teóricas

Os interesses profissionais são um construto importante no âmbito das investigações e intervenções em Orientação Profissional e de Carreira. Em um número do periódico International Journal for Educational and Vocational Guidance, que apresentou como tema os diferentes pontos de vista sobre o construto, Athanasou e Van Esbroeck (2007) ressaltam que os interesses constituem, primeiramente, um construto teórico, um conceito inferido que descreve o comportamento dos indivíduos em suas escolhas e preferências por objetos e atividades, podendo ainda abranger, como componentes, os conhecimentos e os valores.

Os referidos autores pontuam ainda a ausência de uma perspectiva única sobre o construto, entre os pesquisadores, o que acarreta em diferentes abordagens - como enfoques psicológicos (e.g., Achtnich, 1991; Holland, 1997; Lent, Brown, & Hackett, 1994; Tracey & Rounds, 1996), que abordaremos mais em pormenor neste trabalho, e enfoques educacionais ou até mesmo filosóficos (Athanasou & Van Esbroeck, 2007). Entretanto, destacam que os interesses são um componente relevante no desenvolvimento de carreira, principalmente quando as pessoas possuem certa liberdade de escolha. Ainda, salientam a ideia de que os indivíduos que trabalham em áreas que os interessam tendem a achar suas ocupações satisfatórias e gratificantes (e.g., Holland, 1997; Rounds, Dawis, & Lofquist, 1987), o que fundamenta seu valor de predição (e.g., Tracey & Robbins, 2006; Tracey, 2010b; Wolniak & Pascarella, 2005).

Nesse sentido, Rounds e Su (2014), destacam que os interesses consistem em disposições que influenciam as escolhas das pessoas, seus comportamentos, bem como suas realizações, salientando seu poder preditivo. Em seu estudo, os referidos autores reúnem evidências que demonstram o poder dos interesses em predizer escolhas educacionais e de carreira, bem como performance e sucesso (Nye, Su, Rounds, & Drasgow, 2012; Rounds & Su, 2014).

Considerando a relevância dos interesses profissionais, diversos trabalhos debruçam-se sobre o tema, a fim de conceituá-los e compreender seu funcionamento (Savickas & Spokane, 1999). Por exemplo, o estudo de Nunes, Okino, Noce e Jardim-Maran (2008), no contexto brasileiro, abordou as diferentes perspectivas teóricas sobre os interesses profissionais, destacando três modelos: a teoria sociocognitiva para o desenvolvimento de carreira (Lent, Brown, & Hackett, 1994), o modelo das Personalidades Vocacionais ou tipologias de Holland (Holland, 1997; Holland & Powell, 1994) e a perspectiva psicodinâmica (Bohoslavsky, 1991; Levenfus, 1997; Roe, 1957). Segundo as referidas autoras, todas as abordagens reconhecem a importância de características individuais e fatores contextuais no desenvolvimento dos interesses profissionais, diferindo quanto à ênfase dada em cada um desses aspectos (Nunes et al., 2008). Além das teorias citadas por Nunes et al. (2008), considera-se relevante destacar, também, outras abordagens que têm norteado investigações recentes no contexto nacional e internacional: as perspectivas de Savickas (1999) sobre os interesses profissionais (Andrade, Noronha, & Campos, 2013; Di Fabio & Maree, 2013; Martins & Noronha, 2010; Noronha & Mansão, 2012) e o modelo esférico de Tracey e Rounds (Leung et al., 2014; Prime & Tracey, 2010; Sodano, 2011; Tracey, Wille, Durr, & De Fruyt, 2014; Tracey, 2010a, 2010b). Considera-se relevante apresentar sucintamente as ideias centrais dos referenciais citados, contextualizando as perspectivas sobre os interesses profissionais que fundamentam a presente investigação.

Publicada pela primeira vez há mais de 50 anos, a Teoria das Personalidades Vocacionais de Holland teve grande impacto científico e prático na área da orientação de carreira e avaliação dos interesses (Nauta, 2010). Essa perspectiva define os interesses ou a vocação profissional como formas de expressão da personalidade (Holland, 1999). A teoria considera seis tipos psicológicos e ambientais: Realista, Investigativo, Artístico, Social, Empreendedor e Convencional – comumente abreviados como RIASEC e representados graficamente por um hexágono (Holland, 1997; Nauta, 2010). Cada dimensão é caracterizada por uma convergência de aspectos (como aptidões, preferências,

valores, crenças e habilidades) que resultam da interação entre fatores biológicos/hereditários e contextuais (Nunes et al., 2008).

Considerando-se que os indivíduos procuram por ambientes profissionais que lhes permitam exercitar suas habilidades, seus interesses, expressar suas atitudes e valores (ou seja, de acordo com seu tipo psicológico), destacam-se quatro construtos secundários no modelo teórico de Holland: congruência, consistência, diferenciação e identidade. A congruência consiste no grau de convergência entre o tipo psicológico e o ambiente profissional, influenciando em variáveis como a satisfação com o trabalho, estabilidade e performance no trabalho. A consistência pode ser examinada pela maior localização no hexágono, sendo que o perfil de interesses é consistente se os tipos predominantes encontram-se mais próximos, podendo sinalizar maior estabilidade na direção das escolhas de carreira. Já a diferenciação consiste no grau de definição de um indivíduo ou ambiente profissional, de forma que se assemelhem a um determinado tipo e não a outro. Por fim, a identidade refere-se à clareza do indivíduo sobre seus objetivos, interesses e aptidões (Nauta, 2010; Reardon & Lenz, 1999).

Por sua vez, o modelo esférico de Tracey e Rounds (1996), é uma extensão da teoria de RIASEC de Holland. Esta, representada por um hexágono, possui duas dimensões subjacentes – a proposição de Prediger (1982) para tais dimensões foram categorias conhecidas como Dados-Ideias e Pessoas-Coisas. O modelo esférico ou tridimensional adiciona a dimensão Prestígio às anteriores (Leung et al., 2014; Sodano, 2011b) e tem sido útil para investigações e intervenções na área da carreira (Sodano, 2011a).

O modelo de Tracey e Rounds (1996) foi investigado e refinado, embasando o desenvolvimento de um instrumento de medida que adicionou complexidade e flexibilidade à avaliação dos interesses (Wilkins, Ramkissoon, & Tracey, 2013). O

Personal Globe Inventory – PGI (Tracey, 2002) avalia preferências em relação a atividades, crenças de competência em relação a atividades e preferências ocupacionais, incorporando ao modelo RIASEC três dimensões (Coisas-Pessoas, Dados-Ideias e Prestígio). O PGI produz escores nas três dimensões, em escalas RIASEC e em 18 escalas específicas (Leung et al., 2014; Prime & Tracey, 2010; Wilkins et al., 2013). Ainda, em adição ao modelo hexagonal de Holland, o instrumento possibilita a cotação e a interpretação dos resultados baseado em um modelo octogonal (compreendendo as escalas: Social Facilitating, Managing, Business Detail, Data Processing, Mechanical,

Nature/Outdoors, Artistic, Helping), sendo que as investigações realizadas encontraram suporte para o modelo esférico dos interesses (Tracey & Rounds, 1996; Tracey, 2002).

Quanto à abordagem psicodinâmica com relação à construção da carreira (Bohoslavsky, 1991; Levenfus, 1997; Roe, 1957), verifica-se que esta também considera as esferas objetivas e subjetivas do sujeito, incluindo aspectos contextuais e ambientais. Entretanto, a compreensão da pessoa é fundamentada em conceitos da psicanálise, sendo que os conflitos relacionados à carreira são abordados considerando-se a dinâmica psíquica dos indivíduos (Nascimento, 2007). Portanto, nessa perspectiva, a compreensão dos interesses profissionais e suas influências nas escolha de carreira deverá abordar a relação entre elementos conscientes e inconscientes (Nunes et al., 2008). Inseridas nessa abordagem estão as concepções de Achtnich (1991), que propôs oito fatores ou radicais de inclinação como elementos básicos para se classificar as tendências e os interesses das pessoas. Resumidamente, os radicais de inclinação propostos por Achtnich (1991) são: W – necessidade de tocar, ternura, sensibilidade; K – força física, agressividade, obstinação; S – subdividido em: Sh (necessidade de ajudar, cuidar, interesse pelo outro) e Se (dinamismo, ousadia, energia psíquica, capacidade para se impor); Z – necessidade de mostrar, estética; V – razão, conhecimento, objetividade; G – intuição, idéia, imaginação, criatividade; M – necessidade de reter e lidar com: fatos passados, matéria (substâncias, dinheiro, terra), possessividade (material e afetiva); O – subdividido em Or (necessidade de falar, comunicar) e On (necessidade de nutrir, alimentar). Tais tendências influenciariam, em um interjogo com fatores ambientais e socioculturais, as escolhas dos indivíduos, inclusive no processo de construção de suas carreiras (Pasian et al., 2007). As perspectivas de Achtnich (1991) fundamentam o Teste de Fotos de Profissões – BBT-Br, instrumento projetivo para clarificação dos interesses focalizado no presente estudo, e serão retomadas de maneira mais detalhada no terceiro capítulo desta tese.

É possível verificar que os modelos teóricos até então apresentados trazem significativa contribuição para a compreensão acerca da estrutura dos interesses profissionais, uma vez que possibilitam a identificação de categorias de interesses e a investigação de como estas se relacionam entre si (Rounds & Day, 1999). Em termos estruturais, tais abordagens teóricas (e.g., Achtnich, 1991; Holland, 1997; Tracey & Rounds, 1996) podem ser classificadas como modelos espaciais ou multidimensionais dos interesses, pois sugerem uma dinâmica envolvendo interconexões entre todos os elementos; ainda, tal estrutura permite compreender não só os indivíduos, como também as ocupações, no mesmo espaço de interesse (Rounds & Day, 1999).

Por outro lado, os modelos teóricos apresentados na sequência enriquecem a compreensão sobre outro aspecto relevante: o desenvolvimento e a formação dos interesses profissionais. Nesse âmbito, destacam-se primeiramente as teorias desenvolvimentistas, com destaque ao modelo de Super (1957). Conceituando a carreira como um processo que ocorre ao longo de todo ciclo vital e em vários contextos sociais, Super (1990) define os interesses como atividades por meio das quais as pessoas tentam contemplar seus valores e suas necessidades.

Sua abordagem propõe cinco períodos ou estágios de vida nos quais são desempenhadas determinadas tarefas de desenvolvimento vocacional. Esses estágios, que possuem caráter cíclico e dinâmico, constituem o ciclo de vida (life span) dos indivíduos, no qual são desempenhados diferentes papéis, além dos profissionais (life space) (Super, 1980, 1990). Nesse ciclo, o início do desenvolvimento dos interesses se dá na infância, no estágio de crescimento, em que as tarefas consistem em tornar-se preocupado em relação ao futuro e em adquirir competências para as trajetórias escolares e profissionais. No estágio de exploração, as tarefas incluem a cristalização de uma preferência de carreira; a especificação de uma preferência de carreira; e a implementação, caracterizada por um efetivo engajamento. Exercer tais tarefas implica em encontrar-se no mundo do trabalho, através de experiências educacionais e profissionais, da identificação de interesses e habilidades e de como estes se relacionam às diferentes possibilidades de ocupações. O estágio de estabelecimento, por sua vez, envolve três tarefas evolutivas, nomeadamente estabilização, consolidação e busca por progredir, alcançando maiores responsabilidades. No estágio de manutenção, incluem-se as tarefas de manter, conservar e inovar, ou seja, o indivíduo tenta manter o que já foi alcançado e procurar novas maneiras de exercer suas atividades. A desaceleração é o estágio em que são realizadas as tarefas de desaceleração, planejamento da aposentadoria e busca de novas atividades; ou seja, nesse momento os interesses são revisitados, de forma que há o desengajamento de uma ocupação e o planejamento de outras atividades fora do âmbito ocupacional (Balbinotti, 2003a; Super, 1957).

Nesse contexto, verifica-se que os interesses permeiam o ciclo vital, sendo que em cada estágio o indivíduo ocupa diferentes posições e desenvolve conceitos sobre si mesmo em relação aos múltiplos papéis desempenhados (Super, 1990). Ressalta-se que posteriormente o conceito de estágios foi ampliado, admitindo a possibilidade de miniciclos no interior dos maxiciclos, considerando-se as peculiaridades dos indivíduos nas vivências do desenvolvimento vocacional (Swanson & Fouad, 1999).

Outro referencial de importante contributo à produção de conhecimento sobre a formação dos interesses é a teoria sociocognitiva, fundamentada na teoria social cognitiva de Bandura (1977). A teoria sociocognitiva da carreira constitui-se de cinco modelos (interesses, escolhas de carreira, desempenho, adaptação e gestão de carreira) e define os interesses como padrões de preferências, aversões e indiferenças com relação a atividades diversas disponíveis nos contextos educacionais ou de trabalho (Lent & Brown, 2013; Lent & Brown, 2006). Nessa perspectiva, os interesses são fortemente influenciados pela autoeficácia, isto é, pelo julgamento do indivíduo sobre sua capacidade de organizar e executar certos cursos de ação, e pelas expectativas de resultados que designam a antecipação sobre as consequências de determinados comportamentos. Desta forma, as pessoas tenderiam a se interessar por atividades nas quais possuem boas crenças de autoeficácia e expectativas de resultados favoráveis (Lent, Brown, & Hackett, 1994; Lent & Brown, 2006).

Por conseguinte, os interesses direcionam intenções e metas de carreira, que por sua vez aumentariam a probabilidade de realizar tarefas ou atividades específicas, gerando resultados de sucesso ou fracasso que acarretam na revisão das crenças de autoeficácia e expectativas de resultados. Esse processo ocorre continuamente ao longo do life span, tendendo a ser mais estável no fim da adolescência e início da idade adulta. Porém, cumpre destacar que, após a cristalização dos interesses, experiências podem levar a uma revisão da autoeficácia e expectativas de resultados, podendo haver mudanças nos padrões dos mesmos (Lent et al., 1994).

Considerando a multiplicidade de posicionamentos sobre os interesses profissionais, o trabalho de Savickas (1999) destaca-se pela tentativa de integrar o construto (Leitão & Miguel, 2004). O referido autor pondera que as diversas conceitualizações sobre os interesses estão parcialmente corretas, sendo que estes “traduzem um complexo esforço adaptativo de utilização do contexto pessoal para satisfação de necessidades e valores [...]” (Savickas, 1999, p. 50, tradução nossa).

Savickas (1999) diferencia o estado de estar interessado e o interesse como traço de personalidade. Os interesses como um estado psicológico denotam uma posição em relação a um determinado estímulo; já como traço, compreendem um grupo de interesses específicos, constituindo uma tendência ou disposição constante e estável que aumentaria a prontidão do indivíduo em responder a determinados estímulos ambientais. Ou seja, os interesses são uma das formas de mediação das interações entre o indivíduo e seu

ambiente, manifestando-se em ações que atendem as necessidades e os valores, bem como promovem o desenvolvimento, a adaptação e a construção da identidade (Savickas, 1995, 1999).

Diante do exposto, observa-se que os interesses profissionais constituem um tema amplamente estudado e considera-se que todas as abordagens apresentadas oferecem contribuições para as intervenções e pesquisas na área, a depender dos objetivos do psicólogo ou do investigador (Nunes et al., 2008). Entretanto, destaca-se que os pesquisadores têm apontado algumas lacunas, bem como possíveis direções para novas investigações sobre a temática. Uma delas relaciona-se à necessidade de estudar os mecanismos por meio dos quais os interesses influenciam e predizem as escolhas educacionais e ocupacionais, rendimento e sucesso (Rounds & Su, 2014). Outros autores sugerem, ainda, examinar o desenvolvimento dos interesses ao longo da vida com estudos longitudinais mais longos e especificamente na infância (Chope, 2011; Rounds & Su, 2014). A fim de contextualizar as produções científicas neste domínio, a seção seguinte deste capítulo dedica-se a apresentar os resultados de uma revisão bibliográfica sobre o tema.