2. OS PRINCÍPIOS, O DANO E O MEIO DE PROTEÇÃO
2.3. A Ação Civil Pública
2.3.1. Interesses resguardados na ação civil pública
A Lei 7.347/85 definiu em seu artigo primeiro quais são os interesses a serem resguardados por uma respectiva ação civil pública. Os direitos protegidos seriam os seguintes: o meio ambiente; do consumidor; bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico; por infração da ordem econômica; à ordem urbanística; e a qualquer outro bem difuso ou coletivo.
166
BRASIL. Lei nº 7.347/85. Op. Cit. Acesso em: 21 set. 2012.
167
CAPPELLI, Silvia. Ação Civil Pública Ambiental: a experiência brasileira, análise de jurisprudência. In: Revista do Direito Ambiental. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Vol. 33. Ano 9 – Jan./Mar. De 2004. P. 182-183.
168
MANCUSO, Rodolfo de Camargo. Ação Civil Pública: em defesa do Meio Ambiente, do Patrimônio Cultural e os Consumidores. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 2004. P. 212.
Este dispositivo é interessante, pois apresenta o alcance da matéria da ação civil pública a um fácil entendimento. Porém, vale aqui ressaltar a posição de Ada Grinover que discorre que “o objeto da tutela da Lei 7.347/85 é o interesse ao meio ambiente lato sensu e dos consumidores, exclusivamente em sua dimensão indivisível. Por isto, no âmbito das ações indenizatórias, a lesão reparável é apenas aquela provocada ao bem coletivo, indivisivelmente considerado”169
. Para compreender melhor o entendimento da referida autora, cabe fazer uma importante diferenciação e delimitação entre o conceito de interesses difusos, interesses coletivos e interesses individuais homogêneos.
De início, é necessário destacar que todos estes interesses resguardados pela ação civil pública podem ser chamados de interesses metaindividuais ou direitos coletivos lato sensu, pois se referem a um grupo de pessoas e excedem o âmbito estritamente individual, mas não chegam a constituir interesse público170
. A primeira espécie de direito coletivo lato sensu a ser analisada são os direitos difusos. Estes são definidos pelo Código de Defesa do Consumidor como direitos “transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato”171
. O meio ambiente geralmente se encaixa neste conceito, pois a sua “pretensão de preservação, mesmo que partilhada por número indeterminável de pessoas, não pode ser quantificada ou dividida entre os membros da coletividade”172
.
Cabe aqui citar o conceito redigido por Péricles Prade aos interesses difusos:
[...] direitos difusos são os titularizados por uma cadeia abstrata de pessoas, ligadas por vínculos fáticos exsurgidos de alguma circunstancial identidade de situação, passíveis de lesões disseminadas entre todos os titulares, de forma pouco circunscrita e num quadro de abrangente conflituosidade. 173
169
GRINOVER, Ada Pellegrini. Ações Coletivas para a tutela do meio ambiente e dos consumidores. Seleções Jurídicas. São Paulo: COAD, set./1986, P. 10.
170
MAZZILLI, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo. São Paulo: Editora Saraiva. 1998, P. 4.
171
BRASIL. Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990. Institui o Código de Defesa do Consumidor. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm> Acesso em: 27 de set. de 2012. Art. 81, parágrafo único, I.
172
MAZZILLI, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo. Op. Cit. P. 5.
173
PRADE, Péricles. Conceito de Interesses Difusos. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. 1987, P. 57- 58.
Em contrapartida, os direitos coletivos foram definidos pelo CDC como “interesses indivisíveis de um grupo determinado ou determinável, reunido por uma relação jurídica básica comum”174
, como um grupo, categoria ou classe de pessoas.
Sobre o tema, Péricles Prade175
também conceituou direitos coletivos de forma brilhante: “[...] Os interesses coletivos são os pertinentes aos fins institucionais de uma determinada associação, corporação ou grupo intermediário, decorrendo de um prévio vínculo jurídico que une os associados, sujeitando-se a regime jurídico portador de características peculiares”.
Por fim, o conceito de direitos individuais homogêneos também deve ser explanado, já que em certas situações eles podem ser arguidos através da ação coletiva. Segundo Mazzilli176
, os direitos individuais homogêneos possuem sujeitos determinados ou determináveis quanto à grupo, categoria ou classe de pessoas que compartilhem prejuízos divisíveis, decorrentes das mesmas circunstâncias fáticas. São, portanto, direitos individuais que possuem uma origem comum como os direitos difusos, têm sujeitos determinados como os interesses coletivos stricto sensu, e são interesses divisíveis, ao contrário das outras duas espécies. Tal possibilidade quanto a uma ação coletiva baseada em interesses individuais homogêneos está regulamentada no artigo 81, parágrafo único, inciso III do Código de Defesa do Consumidor177
.
Cabe, porém, deixar claro que nem sempre os interesses individuais homogêneos serão suficientemente concretos para o ajuizamento da Ação Civil Pública. Mazzilli178
explica que o Ministério Público nem sempre deverá defender quaisquer interesses individuais; a defesa deve tratar de interesses da coletividade e ter repercussão geral. Se tais requisitos não estiverem presentes, o
174
BRASIL. Lei nº 8.078/90. Op. Cit. Acesso em: 28 set. 2012. “Art. 81, Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de: II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base;”
175
PRADE, Péricles. Op. Cit. P. 43.
176
MAZZILLI, Hugo Nigro. Op. Cit. P. 6.
177
Lei nº 8.078/90. Op. Cit. Acesso em: 28 set. 2012. “Art. 81, Parágrafo único – A defesa coletiva será exercida quando se tratar de: III - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os decorrentes de origem comum.”
178
direito deverá ser requerido através de ações individuais através da legitimação ordinária.
A defesa dos direitos metaindividuais ou coletivos lato sensu é, portanto, o principal interesse da Ação Civil Pública, que através dos seus legitimados ativos propõem a referida ação.