Ao tratarmos da formação docente em serviço e da interligação entre Comunicação e Educação em sala de aula, os professores colocaram questões pertinentes acerca dos cursos disponibilizados no Centro de Aperfeiçoamento de Professores (CAP), espaço localizado na Secretaria Municipal da Educação, dos currículos dos cursos de graduação em Letras e do conceito de Educomunicação.
“Sinto falta das formações dos últimos dois anos. Deixe-me explicar, de cursos voltados ao mundo digital, pois preciso de orientações para o adentrar num laboratório de informática e desenvolver atividades com estes gêneros digitais. Contudo, por outro lado, reconheço que os cursos de Letras também têm sua parcela de culpa, afinal, não trazem disciplinas que estudem mais a fundo a comunicação e seus textos. Creio que isto necessita mudar, olhe o nosso público de alunos, de que adianta disciplinas sem valores na prática?” (Escola 7: Docente C - idade: 40 anos, 11 anos de magistério, 9º ano)
“Particularmente, acho que neste ano de 2011, a formação melhorou muito, pois temos um direcionamento específico para a nossa área, o professor/formador é ótimo e estamos estudando as teorias sobre os gêneros textuais. Por mais que se fale acerca deste assunto, sinceramente, temos muito ainda que atualizar. Ainda sinto falta de formações voltadas ao mundo digital, na medida em que essas novas linguagens que os adolescentes gostam tanto, os blogs, as conversas instantâneas (MSN) predominam nos diálogos dos discentes em sala. Quanto ao conceito de Educomunicação, já ouvi falar, superficialmente, é algo relacionado ao uso de textos midiáticos em sala de aula. Ultimamente, devido ao plano de ensino municipal, eu os incorporei de vez em meu planejamento semanal, até porque com a faixa etária que
leciono é necessário algo que desperte o interesse deles, senão nada flui.” (Escola 10: Docente C - idade: 43 anos, 20 anos de magistério, 8º ano)
“Sinceramente, por mais que a formação continuada seja específica para a nossa área, creio que poderia ser muito melhor. Acho que se direcionem no CAP um professor/formador para nós que utilizasse o laboratório de informática com atividades voltadas ao uso dos chamados gêneros da internet, seria ótimo. Em Língua Portuguesa, estes textos do mundo midiático são prioritários com este público. Não que os contos e outros gêneros não o sejam, mas a realidade com que, por exemplo, uma notícia televisiva atinge esses jovens, não tem igual. Em relação ao currículo, eu acho que a formação acadêmica tem muito mais que se modificar do que a continuada, porque nós que estudamos Letras temos muitas disciplinas que não colaboram em nada com a prática pedagógica. Faz falta disciplinas que estudem essas questões comunicacionais. Eu tive um professor que chegou a tratar questões da interface comunicação e educação com um livro do professor Adilson Citelli. É preciso uma revisão curricular, desde a graduação. Quanto ao conceito de Educomunicação, desconheço o seu significado, entretanto, em relação aos livros do Citelli, acho importante a interface entre as duas áreas. Outro ponto que acho fundamental é que é preciso considerar o engessamento que temos em relação ao sistema.” (Escola 11: Docente B - idade: 45 anos, 21 anos de magistério, 9º ano)
“Fico observando meus alunos serem tão dispostos à comunicação que sinto a defasagem que tenho, desde minha formação acadêmica. Sinceramente, quando saí da faculdade não estava preparada para lidar com estas novas gerações. Existem lacunas que nós devemos correr atrás e nos atualizarmos. Os cursos de formação continuada sempre colaboram, tenho minhas críticas, afinal, poderiam contribuir e muito nesta temática da comunicação. Necessito de atividades práticas e que me orientem no trabalho com os gêneros midiáticos de forma a auxiliá-los no processo crítico destes. O adolescente é facilmente levado pelas propagandas. Em relação ao conceito de Educomunicação, eu o vi na proposta curricular municipal. Já tinha ouvido antes falar dela com uma palestra do professor Ismar Soares porque minha prima estudou na ECA/USP. Mas, acho que antes de pensarmos numa nova área, como ele propõe, é necessário o aprofundamento da interface ao menos nos ambientes formais de ensino. Barueri precisa de cursos voltados a esta interface.” (Escola 6: Docente C - idade: 41 anos, 15 anos de magistério, 9º ano)
“Eu gostei muito da formação que ocorreu em 2009, era do Ministério da Educação (MEC), o GESTAR46 Nossa, foi um ano muito gratificante, estudamos somente os gêneros textuais com oficinas práticas, inclusive, dos textos da mídia. Nestes momentos, eu entendi a necessidade da interface comunicação e educação, e acredito que o diálogo entre as áreas é fundamental, já que os alunos de hoje estão imersos neste mundo totalmente comunicacional. Sinto muita responsabilidade no desenvolvimento da autonomia de meus alunos, tanto que achei importante a inserção dos gêneros do jornalismo no plano de ensino de Barueri. Afinal, por ser formada em Letras, às vezes acho que deveria sempre ter um comunicador envolvido na elaboração destes materiais, porque eles têm uma visão mais aberta, às vezes questiono se eu não deveria ter feito Jornalismo em vez de Letras.” (Escola 11: Docente C - idade: 48 anos, 26 anos de magistério, 8º ano)
Reconhecer, como propõe Adilson Citelli (2011), a linguagem como presença dinamizadora básica para todo o processo comunicacional e educativo é compreender o admitir a sua nobre função entre as áreas. Sendo assim:
Afirmada a ideia do papel relevante que a linguagem desempenha para viabilizar todo o processo comunicacional e, certamente, o da educação, do ensino- aprendizagem, evidencia-se um óbvio nível de recorrência entre os dois componentes, motivo pelo qual a expressão educomunicação vem sendo invocada como reveladora de um fenômeno de inter-relação, interfaces e cruzamentos que envolvem os presentes mecanismos de produção, circulação e recepção do conhecimento.” (CITELLI, 2011:196-19)
As atuais condições comunicacionais, legitimadas, em sua maioria, pelos alunos, exigem novas estratégias e o uso dos meios e recursos do audiovisual e digital, o que interfere
46 O Programa Gestão de Aprendizagem Escolar (GESTAR) do Ministério da Educação oferece formação continuada em Língua Portuguesa e Matemática aos professores (do sexto ao nono anos) do Ensino Fundamental em exercício nas escolas públicas.
Disponível em:
<http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12380&Itemid=649>. Acesso em 10/06/2012.
na ação do professor em sala. Exigem, também, profundas reflexões, como exposto por Costa (2011:1)47:
As mediações tecnológicas quando interpretadas para além dos conteúdos, e quando a temática requer análise da linguagem dos meios e a constituição de sentidos, portanto, ajuizadas no campo estético e da produção de conhecimento, adquirem particular significado; o de observar se a apropriação dos suportes midiáticos se dá na perspectiva de emancipação ou numa outra que é instrumental, que tende a não perceber a relação entre objeto/meio tecnológico e a racionalidade que permeia o mundo industrial e a administração do saber.
A investigação realizada diante desta colocação apresenta um caráter dicotômico entre os docentes de Língua Portuguesa pesquisados, pois, de um lado, encontramos um grupo de professores, não necessariamente com menor faixa etária, que acompanha as mudanças e segue objetivos específicos em prol da autonomia do alunos e de si mesmos, apesar dos mecanismos existentes para cerceá-los. De outro, educadores ainda presos discursivamente e didaticamente à concepção instrumental e que não identificam a relação objeto e meio tecnológico.
Em relação à formação acadêmica, a dissertação A formação do professor na universidade para a inter-relação comunicação/educação, de Gabriela Felippe Rodrigues Metzker, defendida em 2010 na ECA/USP, mostra resultados que confirmam as queixas manifestas pelos docentes de Língua Portuguesa.
A pesquisadora analisou os cursos de graduação em Letras e Pedagogia da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul). Constatou que o futuro professor não recebe, ou recebe de forma periférica, uma formação voltada para trabalhar a inter-relação comunicação/educação em sala de aula. Os cursos de pedagogia, à época, ofereciam disciplinas voltadas a esta temática, mas de caráter optativo. Entretanto, em relação a Letras, nenhuma das instituições apresentou no currículo matérias que estudassem a interface.
Resgatamos a noção de vontade da verdade, de Michel Foucault, para a abordagem do currículo e da proposta pedagógica disciplinar, traduzida neste pensamento (2008:17):
47 Citação do professor Dr. Belarmino César Guimarães Costa em exame de qualificação deste trabalho, no dia 03/11/2011, na ECA/USP, redigido em relatório entregue à aluna.
Ora, essa vontade da verdade, como os outros sistemas de exclusão, apoia-se sobre um suporte institucional: é ao mesmo tempo reforçada e reconduzida por todo um compacto conjunto de práticas como a pedagogia, é claro, como o sistema dos livros, da edição, das bibliotecas, como as sociedades de sábios outrora, os laboratórios hoje. Mas, ela é também reconduzida, mais profundamente sem dúvida, pelo modo como o saber é aplicado em uma sociedade, como é valorizado, distribuído, repartido e de certo modo atribuído.
Os modos de distribuição do discurso institucional, no aspecto geral, indo desde a elaboração das leis e documentos orientadores até a recepção do aluno e o caminhar para a sociedade, ainda conotam mais a dependência do que a educação autônoma, tão apregoada. Em relação aos educandos se posicionam cada vez mais em favor de sua autonomia, a seguir dados e depoimentos que corroboram na assertiva.