• Nenhum resultado encontrado

GESTÃO DE UNIDADES E SERVIÇOS DE INFORMAÇÃO

ACESSIBILITY IN DIGITAL INTERFACES GT 3 – Gestão de unidades e serviços de informação

5 INTERFACES DIGITAIS E O CAMINHO PARA A ACESSIBILIDADE

Nas seções anteriores pudemos analisar o conceito de acessibilidade, tanto em ambiente físico quanto digital. Nesta sessão apresentamos a acessibilidade nas interfaces digitais. De acordo com Lévy (1992, p. 108), a palavra interface, entendida nas áreas ligadas à computação, refere-se à um instrumento, mas especificamente um dispositivo, que mantém estável “[...] a comunicação entre dois sistemas informáticos distintos ou um sistema informático e uma rede de comunicação [...]”, efetuando operações básicas de “transcodificação” e de administração dos fluxos de informação nas relações sistema-sistema ou sistema-rede. Desse modo, a interface é um canal para a realização da comunicação, o autor diz ser entre dois ou mais sistemas, entretanto, quem projeta ou programa o sistema é

um profissional, e este se comunica com o usuário a partir das metodologias utilizadas para construção do sistema. Sendo assim, não há apenas o canal, mas um emissor e um receptor, como afirma Pedrosa e Totauin (2005, p.2):

Na comunicação produzida por interfaces existem duas relações distintas: designer sistema e sistema-usuário. O objetivo é transmitir a mensagem do designer (emissor) para o usuário (receptor), porém tais relações ocorrem de maneira isolada, estando o sistema mediando o processo. Portanto o sistema deve ser constituído de acordo com o repertório do usuário, pois a consistência da interface, enquanto um sistema semiótico é fundamental no processo de comunicação usuário-sistema.

Com a definição das autoras citadas, defendemos uma visão de construção de interfaces digitais mais voltada para o usuário da interface, devendo o profissional responsável por tal tarefa utilizar de ferramentas advindas da arquitetura da informação (AI), tais como o blueprint e wireframe, com o intuito de que toda informação seja disponibilizada de forma clara, suficiente, segundo as demandas advindas dos seus futuros usuários. A interface deve conter todas as informações do que é disponibilizado na página, como o contraste, atalhos para uso somente do teclado (de acordo com o navegador), entre outras ferramentas, e por se tratar de uma comunicação feita por meio do texto, das imagens, e cores, a informação passada pode ser traduzida de forma totalmente diferente, uma vez que as interpretações são resultados da visão de mundo de cada indivíduo. Como afirmam Leite e Souza (1998, p. 2): “Quando o usuário entra em contato visual (ou, mais genericamente, sensorial) com a interface, ele realiza um esforço de interpretação e compreensão a respeito do significado de todos os seus dispositivos e da informação que eles veiculam.”

Na visão de Rocha (2008, p. 165, grifo nosso) o significado de interface se torna mais compreensível, pois o autor a denomina como terceiro elemento responsável pela mediação como afirma a citação:

Composto pelo prefixo latino inter, [entre, no meio de] e pelo substantivo face, [superfície, face] o termo interface, tomado pelo sua origem etimológica, diz daquilo que está entre duas faces, duas superfícies. Ela é, neste contexto, um terceiro elemento que se coloca entre dois outros, sem qualquer relação de pertencimento a uma ou outra extremidade, mas de

mediação. Metaforicamente é uma ponte que conecta, liga duas margens

outras. A ponte não pertence a um lado nem a outro, ela é um terceiro elemento. (ROCHA, 2008, p. 165, grifo nosso).

Além de se preocupar com a informação transmitida, o profissional por trás do sistema precisa ter consciência da diversidade de seus usuários, o W3C (1999, não paginado) reúne em seu site uma lista de possíveis usuários existentes do outro lado da interface, os mesmos

que devem estar na lista do programador de softwares, dos web designers, etc. Podemos organizar esses usuários da seguinte forma:

a) podem não ser capazes de ver, ouvir, mover ou talvez não consigam processar alguns tipos de informações facilmente;

b) podem ter dificuldade em ler ou compreender o texto; c) podem não ter ou usar um teclado ou mouse;

d) podem ter uma tela somente de texto, uma tela pequena ou uma conexão lenta com a Internet;

e) podem não falar ou entender fluentemente o idioma em que o documento está escrito;

f) podem estar em uma situação em que seus olhos, ouvidos ou mãos estão ocupados ou interferidos (por exemplo, dirigindo para trabalhar, trabalhando em um ambiente alto, etc.);

g) podem ter uma versão inicial de um navegador, um navegador diferente, um navegador de voz ou um sistema operacional diferente.

Desse modo, o desafio para o profissional, que ao final do seu produto precisa criar uma interface digital, vai além de textos e imagens, pois o objetivo principal é atender ao usuário e as suas inúmeras demandas.

Entendemos que acessibilidade não se trata apenas de pessoas com deficiência, entretanto, pretendemos dar um destaque maior para esses usuários de interfaces digitais. No site Acessibilidade Legal estão descritas as barreiras que pessoas com deficiências encontram ao acessar as páginas que não correspondem aos critérios de acessibilidade:

[...] pessoas com cegueira podem se deparar com imagens que não possuem texto alternativo, vídeos que não possuem descrição textual ou sonora, tabelas que não fazem sentido quando lidas célula por célula ou em modo linearizado e documentos formatados sem seguir os padrões web que podem dificultar a interpretação por leitores de tela. Já as pessoas com deficiência auditiva podem encontrar páginas da web com ausência de legendas ou transcrições de áudio, ausência de imagens suplementares relacionadas, como o conteúdo do texto que pode ter lenta compreensão por pessoas que tem como primeira língua a de sinais e não a que está escrita ou falada na página. Pessoa com deficiências físicas pode ter dificuldades com atividades onde o tempo de utilização é limitado, navegadores e ferramentas que não possuem suporte para teclado alternativo ou botões para todos os comandos efetuados por mouse, formulários que não podem ser navegados com a tecla "tab" em uma seqüência lógica. E as pessoas com deficiência intelectual encontram barreiras como ausência de alternativas para permitir o recebimento das informações, elementos visuais ou de áudio que não podem ser facilmente desligados, falta de clareza e consistência na organização das páginas com tamanhos de fonte absoluta, que não podem ser aumentadas ou

reduzidas facilmente e uso de imagens trêmulas ou sinais com certa freqüência de áudio que podem causar desconforto. (QUEIROZ, 2008, não paginado).

Estas informações contidas no site supracitado esclarecem os vários obstáculos enfrentados por pessoas com deficiência, e em algumas situações a página na web contém apenas um dos critérios exigidos e se considera “acessível”, no entanto as deficiências também possuem suas particularidades, portanto pedem por medidas específicas.

O movimento em busca de uma web igualitária não é apenas local, assim como o site Acessibilidade Legal, outros sites também trabalham com a divulgação de regras, textos e campanhas voltadas para a inclusão no acesso digital, como a já supracitada W3C, que reforça o papel social que as interfaces digitais tem:

O valor social da Web está nas novas possibilidades de comunicação humana, comércio e compartilhamento de conhecimentos. Um dos principais objetivos da W3C é tornar esses benefícios disponíveis para todas as pessoas, independente do hardware que utilizam, software, infra-estrutura de rede, idioma, cultura, localização geográfica ou capacidade física e mental. (W3C, 2017, não paginado).

A atuação da W3C se dá através da reunião de colaboradores empenhados em tornar a navegação na internet possível para todos, junto a WAI “[...] desenvolve seu trabalho através de um processo de consenso subordinado à W3C, envolvendo diferentes investidores em acessibilidade Web. Estes incluem indústrias, organizações relacionadas com acessibilidade, governos, centros de investigação, etc.” (BARRETO, 2008, p.11). A WAI oferece diretrizes amplamente consideradas como o padrão internacional para acessibilidade na Web a ser seguido, oferece também materiais de suporte para ajudar a entender e implementar a acessibilidade na Web, bem como recursos através da colaboração internacional (W3C, 2017, não paginado).

Em 2008, como já dissemos, o trabalho da WAI foi atualizado, passando a ser denominado WCAG 2.0, distribuindo em quatro princípios as diretrizes a fim de garantir abrangência total de usuários e seus objetivos, de acordo com a W3C (2008, não paginado):

 Princípio 1: Perceptível - Os componentes da informação e da interface do usuário devem ser apresentáveis aos usuários de maneira que possam perceber.

 Princípio 2: Operável - Os componentes da interface do usuário e a navegação devem ser operacionais.

 Princípio 3: compreensível - A informação e a operação da interface do usuário devem ser compreensíveis.

 Princípio 4: robusto - O conteúdo deve ser suficientemente robusto para que possa ser interpretado de forma confiável por uma grande variedade de agentes de usuários, incluindo tecnologias de assistência.

Em um primeiro momento pode parecer que um bibliotecário não precise ter conhecimentos destes princípios, entretanto, assim como é necessário investir no ambiente físico da unidade de informação, principalmente no setor de referência que é o primeiro contato do e com o usuário, é importante investir no ambiente virtual e na sua interface, seja uma biblioteca virtual, um repositório, banco de dados, ou um site institucional, é indubitável a necessidade de se seguir as diretrizes designadas pela W3C e eMAG, contendo todas as funções que permitam o acesso de todo e qualquer usuário, e por fim, sua interface precisa deixar todas essas funções a mostra, correspondendo a cada diretriz designada.

A acessibilidade e as interfaces digitais são pontos de discussão para todas as áreas, entretanto, na biblioteconomia tem-se um destaque por se tratar de inclusão e disseminação informacional, uma vez que uma das máximas da área biblioteconômica é a garantia de informação a todos em todos os formatos. Ao longo do tempo, os avanços tecnológicos foram modificando a dinâmica das profissões, não diferente com a biblioteconomia, a atuação bibliotecária passa a ser também no meio digital, tendo assim o desafio de avançar para a web, não se limitando a métodos tradicionais quando da sua atuação. Nesta perspectiva, é possível entender a ligação entre acessibilidade, interfaces digitais, biblioteconomia e W3C/WAI. Todos os termos, dentro de suas competências e princípios, podem ser comtemplados entendendo-se que, apesar das diferenças individuais de cada um enquanto pessoa, todos tem o direito ao acesso à informação, e quanto melhor organizada e mais acessível esta for, maiores possibilidades de construção e acesso ao conhecimento se tem.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante de todo o material pesquisado para elaboração do presente trabalho, os quais foram comentados nos tópicos anteriores, observamos que, nas últimas décadas, houve um avanço muito significativo nas leis e diretrizes, buscando melhorias sociais e humanas para promover o acesso pleno e igualitário das pessoas, dos dispositivos e dos diferentes softwares à web.

Porém, cabe ressaltarmos que ainda há, em grande quantidade, páginas na web que não contam com o mínimo de ferramentas necessárias para a total inclusão de pessoas com deficiência, seja por falta de leitores de tela, pela impossibilidade da ampliação da fonte, ou pela inexistência de ferramentas que permitem um contraste entre a fonte e o plano de fundo

do site, dentre outros. Vale lembrar também que há uma quantidade considerável de sites com designs não responsivos, ou seja, sites que não se “comportam” bem quando acessados por diferentes dispositivos.

No que diz respeito a relação estabelecida entre o profissional da Biblioteconomia e interfaces gráficas acessíveis, vemos que é importante que o bibliotecário reconheça o valor da divulgação dos serviços e produtos da biblioteca de sua instituição, mas principalmente que ele perceba que essas informações devem estar acessíveis para todos, isentas de qualquer barreiras, afinal, um dos pilares da biblioteconomia é o acesso à informação e ao conhecimento para todos.

REFERÊNCIAS

BARRETO, A. C. Inclusão digital de invisuais: análise comparativa da acessibilidade e usabilidade num website. 2008. 106 f. Dissertação (Mestrado em engenharia humana)- Universidade do Minho, Portugal, 2008. Disponível em: <

http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/9473/1/Tese%20Mestrado_Andre%20%2 0Chaves_2008.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2017.

BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação. Avaliação de 200 sítios e e-serviços do governo eletrônico brasileiro. Brasília: MP, SLTI, 2011.

. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação. e-MAG: Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico. Brasília: MP, SLTI, 2014. Disponível em: <https://www.governodigital.gov.br/documentos- e-arquivos/eMAGv31.pdf>. Acesso em: 20 set. 2018.

. Lei n° 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a lei brasileira de inclusão da pessoa com deficiência. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-

2018/2015/lei/l13146.htm>. Acesso em: 17 dez. 2017.

. Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011. Regula o acesso a informações previsto no inciso XXXIII do art. 5o, no inciso II do § 3o do art. 37 e no § 2o do art. 216 da

Constituição Federal; altera a Lei no 8.112, de 11 de dezembro de 1990; revoga a Lei no 11.111, de 5 de maio de 2005, e dispositivos da Lei no 8.159, de 8 de janeiro de 1991; e dá outras providências. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011- 2014/2011/lei/l12527.htm>. Acesso em: 02 jan. 2018.

Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: Protocolo Facultativo à

Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: Decreto Legislativo nº 186, de 09 de julho de 2008: Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009. 4ª Ed., rev. e atual. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos, 2010. 100 p. Disponível em: <

http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/publicacoes/convencaopessoa scomdeficiencia.pdf>. Acesso em: 28 dez. 2017.

GERHARDT, Tatiana Engel; SILVEIRA, Denise Tolfo (Org.). Métodos de pesquisa. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2009.

LEITE, J. C.; de SOUZA, C. S. Uma linguagem de especificação para a engenharia semiótica de interfaces de usuário. In: WORKSHOP SOBRE FATORES HUMANOS EM SISTEMAS COMPUTACIONAIS, IHC, 2., 1999, Campinas, SP. Anais... Campinas: Instituto de

Computação da UNICAMP, 1999. Disponível em:

<http://www.unicamp.br/~ihc99/Ihc99/AtasIHC99/art23.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2017. LÉVY, P. Rumo a uma ecologia cognitiva. In: . As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo: Editora 34, 1992. cap. 3. Disponível em:< http://wp.ufpel.edu.br/franciscovargas/files/2015/03/LEVY-Pierre-1998- Tecnologias-da-Intelig%C3%AAncia.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2017.

MELO, Amanda Meincke. Acessibilidade na web. In: PUPO, Deise Tallarico; MELO, Amanda Meincke; FERRÉS, Sofia Pérez. Acessibilidade: discurso e prática no cotidiano das bibliotecas. Campinas, SP: UNICAMP/Biblioteca Central Cesar Lattes, 2006.

PEDROSA, T. M. C.; TOUTAIN, L. B. O uso das cores como informação em interfaces digitais. In: ENCONTRO NACIONAL DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, 6., 2005, Salvador. Anais...Salvador: UFBA, 2005. Disponível em: < http://www.cinform-

anteriores.ufba.br/vi_anais/docs/TaisPedrosaLidiaToutain.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2017. QUEIROZ, Marco Antonio de. Acessibilidade web: tudo tem sua primeira vez. Parte I, 2008. Disponível em: http://acessibilidadelegal.com/13-tudotem.php. Acesso em: 22 dez. 2017. Não paginado.

. Acessibilidade Web: (X)HTML, CSS, Scripts e Usabilidade para Todos, 2008. Disponível em: http://acessibilidadelegal.com/. Acesso em: 18 dez. 2017. não paginado. ROCHA, C. Interfaces computacionais. In: ENCONTRO NACIONAL DE ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES PLÁTICAS, 17., 2008, Santa Catarina. Anais... Santa Catarina: UDESC, 2008. Disponível em:<

http://anpap.org.br/anais/2008/artigos/149.pdf>. Acesso em: 18 dez. 2017.

TAGIAROLI, Guilherme. Sites pesados e busca difícil são barreiras ao acesso à web no Brasil, 2011. Disponível em: < https://tecnologia.uol.com.br/ultimas-

noticias/redacao/2011/06/28/acesso-a-sites-pesados-e-busca-dificil-sao-barreiras-ao-acesso-a- web.jhtm>. Acesso em: 25 dez. 2017.

WORLD WIDE WEB CONSORTIUM (W3C). Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web (WCAG) 2.0, 2008. Disponível em: <https://www.w3.org/Translations/WCAG20-pt- PT/WCAG20-pt-PT-20141024/>. Acesso em: 23 dez. 2017. Não paginado.

. Componentes essenciais de acessibilidade na web, 2016. Disponível em: <w3.org/WAI/intro/components.php>. Acesso em: 26 dez. 2017. Não paginado. . W3C Brasil – World Wild Web Brasil, 2017. Disponível em: < http://www.w3c.br/Home/WebHome>. Acesso em: 18 dez. 2017. Não paginado.

. WEB Content Accessibility Guidelines, 2008. Disponível em: <www.w3.org/TR/WCAG21/>. Acesso em: 18 dez. 2017. Não paginado. . WEB Content Accessibility Guidelines, 2008. Disponível em:

¹[email protected], Universidade Federal do Cariri (UFCA). ²[email protected], Universidade Federal do Cariri (UFCA).

AS COMPETÊNCIAS DO BIBLIOTECÁRIO JURÍDICO NA GESTÃO DA