A promoção da saúde vem sendo delineada ao longo dos anos como um novo paradigma nas relações da saúde, alicerçando uma ampla e consistente abordagem teórico-técnico-científica, configurando a complexidade da organização da saúde que permeia as necessidades humanas dentre as mais simples até as mais complexas.
O conceito de promoção da saúde ganhou corpo na Conferência de Ottawa, quando foi definida como um processo contínuo que valoriza o conhecimento das pessoas, para estas, terem condições de controlar, monitorar e identificar fatores determinantes que favorecem ou vulnerabilizam o bem-estar individual e coletivo, e assim, avalizar a melhoria das condições de vida e saúde da população (AYRES et al., 2009). Ou seja, promoção da saúde é um processo que permite às pessoas adquirirem maior controle sobre os condicionantes e determinantes que influenciam a sua saúde.
No Brasil, ao longo dos tempos a atenção a saúde vem desenvolvendo estruturas organizativas para melhorar a formulação, implementação e concretização das políticas de promoção da saúde. Neste sentido, conforme o Ministério da Saúde (BRASIL, 2006) há um grande esforço na construção de um modelo de atenção a saúde que priorize ações de melhoria da qualidade de vida dos sujeitos e coletivos.
No entanto, cabe salientar que a promoção da saúde não se firma como responsabilidade exclusiva dos profissionais e serviços de saúde, pois na reflexão de Pelicioni; Pelicioni; Toledo (2010), é necessário modificar as formas de agir e pensar, compartilhar interesses, respeitar os diferentes saberes, transformando espaços e tornando as pessoas progressivamente mais conscientes e responsáveis pela saúde individual e coletiva. Neste propósito é fundamental instrumentalizar as pessoas para serem capazes de preservar e/ou melhorar a sua saúde.
Diante do desenvolvimento e necessidade de instrumentalização da população, o Ministério da Saúde (BRASIL, 2006) aponta a promoção da saúde como uma das estratégias de produção qualificada de saúde, a partir de um modo de reflexão operacional que se articule
com as demais políticas e tecnologias que permeiam o sistema de saúde, possibilitando assim, por meio de ações e estratégias, responder as necessidades sociais na saúde.
Contudo, o discurso das articulações e relações das políticas públicas, da evolução tecnológica e do comprometimento com as necessidades sociais, apontando a população como o ator principal na melhora da sua qualidade de vida e saúde, é ainda lacunoso, com inúmeros vácuos nestas relações no sistema de saúde. Neste sentido, o compromisso das políticas de promoção da saúde poderia desviar-se do discurso pragmático perdurante por décadas, distanciando-se das contínuas abordagens que defendem a perspectiva individualizada, que introduzem o sujeito e o coletivo como os únicos responsáveis pelos eventos sobrevindos no processo saúde-doença ao longo da vida.
Westphal (2010) traz indagações que corroboram com este propósito, visto o discurso das políticas de promoção não parecer estar sendo efetivo e nem muito eficiente, assim, descreve questionamentos que abordam se: Está se avançando na garantia da equidade e formação de ambientes mais saudáveis a população? Há relações de construção coletiva entre os formuladores das políticas públicas e a sociedade civil? A população tem espaço consistente de participação nas ações e estratégias de promoção da saúde?
Em vista disso, se houverem respostas positivas às indagações, está sim direcionando-se para a construção coletiva da promoção da saúde, respeitando todos os vieses que a política retrata. No entanto, não havendo consenso nas respostas, é dever dos entes federados e da sociedade civil, desenvolver novos caminhos e principalmente novos discursos sobre a promoção da saúde.
A defesa desta avaliação e crítica sobre a política de promoção da saúde se dá, pelo fato dela não abranger integralmente os espaços sociais populares no Brasil, por mais que se busque a construção e a pulverização de políticas de saúde que abranjam todas as camadas sociais, lamentavelmente, ainda existem lacunas na rede de atenção a saúde em alguns segmentos, quem sabe por serem entendidas como não convincente no contexto da promoção da saúde.
Nesta lacuna na rede de atenção à saúde a qual está se referindo, encontra-se o cuidado a saúde do atleta, visto que, por via de regra, este cuidado está sob responsabilidade das instituições a qual estão agremiados, certamente por não haverem políticas públicas de saúde
específicas para este contingente social, ou seja, não havendo cuidado específico.
A falta de políticas públicas específicas, não se justifica pelo entendimento que o número de atletas não seja significativamente relevante para instituir políticas de promoção da saúde ao atleta, pois segundo o Conselho Federal de Educação Física (2012), o número de atletas de alto rendimento de um país corresponde a 2% da população. Sendo assim, a estimativa para o Brasil, é em torno de 3,4 (três vírgula quatro) milhões de atletas. Para fins de comparação representativa desta cifra, o número de atletas no Brasil é maior que toda população do país vizinho Uruguai, deixando o entendimento que já está passando da hora de dar início as discussões para fomentar políticas específicas para todos os segmentos da sociedade.
Ligado a este panorama, tem-se na política de promoção da saúde, no quesito de ações específicas (BRASIL, 2006), a prática de atividade física, entretanto, estas ações não se voltam em nenhum momento à prática esportiva de alto rendimento, ou simplesmente ao atleta. Tais ações caracterizam as práticas de atividade física na atenção básica por meio de mapeamento dos serviços que agregam as unidades de saúde; por meio de atividades lúdicas e de lazer e; por meio da capacitação dos trabalhadores de saúde para incluir a atividade física como parte da educação permanente. Com isso, tentando consolidar estas ações específicas, a política de promoção da saúde institui mecanismos de aconselhamento, de intersetorialidade e de monitoramento e avaliação. Porém ressalta-se mais uma vez que estas estratégias em nada fazem ligação e/ou relação com a saúde dos atletas, sejam eles de alto rendimento ou não.
Pode-se utilizar como argumento contraditório que os atletas são profissionais celetistas como a maioria dos trabalhadores brasileiros, sendo assim, poderiam enquadrar-se na política de saúde delineada na vigilância em saúde, mais especificamente, na vigilância de saúde do trabalhador, onde já existem centros estruturados para tratamento e reabilitação de trabalhadores vítimas de patologias decorrente das atividades ocupacionais.
No entanto, o contraponto desta possibilidade se dá pela especificidade que o atleta e sua saúde estão condicionados diariamente, bem como o dinamismo e aparato tecnológico que um atleta deve ter como suporte na reabilitação de sua saúde, visto que sua vida útil é curta demais em relação a qualquer outra profissão, não permitindo que o
tempo e prazo de recuperação seja semelhante a um trabalhador tradicional no Brasil.
Valle (2003) descreve que o discurso da saúde na atividade esportiva, contribui para marcar as diferenças na vida social dos atletas, visto que desde o início de sua vida escolar já são denominados como pessoas diferentes em favor da dedicação ao esporte. Considerando os treinamentos como um fator de equivalência do trabalho para os atletas, esses sofrem os mesmos processos pelos quais passam trabalhadores de outras áreas, no entanto, em muitos momentos com cargas maiores de esforço físico e mental, bem como com início muito mais precoce que os demais trabalhadores das áreas tradicionais.
É muito comum presenciar situações de atletas com lesões, problemas de saúde agudos e crônicos, em que a preocupação em não deixar de render o esperado se sobrepõe a sua saúde. Neste sentido o sujeito se submete a constantes situações de risco, devido a dificuldade em se relacionar com a impossibilidade de não ser reconhecido como competente o suficiente para um atleta de alto nível. Com isso, associa- se a questão do tempo de recuperação, forma de tratamento, tecnologias, estruturas físicas e humanas adequadas na recuperação da saúde (VALLE, 2003), acarretando problemas por vezes com sequelas definitivas a saúde do atleta, levando-o ao comprometimento na conquista dos resultados desejados e/ou impostos no ambiente esportivo.
A partir destes argumentos antepostos, sejam eles contrários ou não há necessidade de fomento de uma política de promoção da saúde específica para os atletas. Este estudo também carrega como propósito, equacionar esta necessidade nas relações de saúde dos atletas, pois o esporte é um universo de trabalho alheio ao tradicional, aproximando-se muito ao entretenimento e/ou espetáculo, no entanto, com traços bastante desgastantes, lesivos e patológicos nos seus bastidores.
2.3 A GESTÃO DO CUIDADO DE ENFERMAGEM E SAÚDE DO