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Interfaces entre cooperação e conflito: uma leitura da complexidade social

PARTE I: (RE)CONHECENDO AS PEÇAS DO MOSAICO

CAPÍTULO 2. CONCEITOS DA PESQUISA

3. C OOPERAÇÃO E C ONFLITO : EM BUSCA DE ENTENDER AS RELAÇÕES SOCIAIS DAS MICRO E PEQUENAS

3.1. Interfaces entre cooperação e conflito: uma leitura da complexidade social

O conflito e a cooperação são formas de interação entre indivíduos, grupos, organizações e coletividades cujas formas permitem descrever qualquer grupo social (BOBBIO et al., 1995).

Cooperação é entendida como o trabalho conjunto para uma certa finalidade (JAMAL e GETZ, 1995). Sugere uma predisposição para agir voluntariamente em nome de objetivos compartilhados ou complementares, variando em seus níveis de formalidade, centralidade de poder, envolvimento dos participantes, metas, tipos de ações, motivações e processos (WATKINS e BELL, 2002; FRANCO, 2007). Outro importante aspecto da cooperação, chamado por Gray (2007 p.30) de “parcerias colaborativas”, é o fato de serem mecanismos necessários para organizar interessados nos domínios em que o problema não pode ser resolvido por apenas um ator social isolado. Isso se aplica bem ao entendimento da gestão de destinos turísticos, seus recursos e espaços de uso comum. Em poucas palavras, no cerne do entendimento da cooperação está a partilha de objetivos comuns, ou ao menos convergentes.

No campo da divergência, está a relação de conflito. Conflitos, de modo geral, são entendidos como interações que expressam discordância, divergência (MCINTYRE, 2007), ações de rivalidade e individualismo (TREMBLAY, 1998; WATKINS e BELL, 2002; LEIPER, 2003). É importante notar que um conflito social emerge quando dois ou mais indivíduos ou grupos manifestam objetivos incompatíveis (KRIESBERG, 2003). Os adversários podem ser indivíduos, organizações ou conjuntos grandes como governos, partidos, que exibem suas crenças, objetivos e intenções.

A consideração dessas relações isoladamente carece de complexidade, tendo em vista que ambas têm funções sociais e são menos antagônicas do que supunham muitos teóricos (BIRNBAUM, 1995). Por isso, surge a necessidade de integrar cooperação e conflito nos mesmos modelos analíticos (HARSANYI, 1977). Afinal, conflito e cooperação não podem ser separados, já que são fases de um mesmo processo, que sempre inclui algo de ambos (COSER, 1961). Isso permite a percepção de que qualquer um dos extremos interpretativos (pela ótica da pura cooperação ou puro conflito) é limitado para estudar as relações sociais em sua complexidade.

Uma estrutura social é produzida pelas interações entre relações de conflito e relações cooperativas (SIMMEL, 1969). Tal interação pode ser vista com clareza quando membros se unem em forma de cooperação ou coalizão contra inimigos comuns, pois as funções conectivas do grupo desenvolvidas pelo conflito cria fronteiras, tornando mais robusta a consciência grupal (COSER, 1961; SIMMEL, 1969). Portanto, é de se pressupor que cooperação e conflito não se opõem radicalmente e que o tecido social não se forma exclusivamente com um ou outro tipo de relação.

Uma incursão em estudos com viés sociológico mostra que, tradicionalmente, tais relações eram tratadas de forma antagônica, dividindo as abordagens teóricas entre duas principais interpretações da realidade (BIRNBAUM, 1995; BOBBIO et al., 1995):

1. pela perspectiva da integração: a ordem e o consenso adquirem destaque (NASCIMENTO, 2001). O conflito é visto como patológico e disfuncional. Esta visão embasa o entendimento que os conflitos devem ser prevenidos, contidos ou eliminados (KRIESBERG, 2003);

2. pela perspectiva do conflito: harmonia e equilíbrio são vistos como estranhos à sociedade, naturalmente conflituosa. O conflito tem relações com a vitalidade, a possibilidade de mudança e a coesão. Ele é entendido como inerente à dinâmica social e não carrega a conotação negativa de distúrbio da ordem. Simmel (1969) destaca-se como a principal referência dessa abordagem da teoria de conflito, tendo influenciado fortemente os trabalhos nesse campo com sua visão sobre a natureza e função social dos conflitos (BIRNBAUM, 1995; NASCIMENTO, 2001).

Como ilustrações das divergências acerca do conflito, Hobbes e Marx oferecem contrapontos. O primeiro atribui a luta de todos contra todos a um tempo em que não havia Estado ou regulação central, ou seja, uma sociedade anacrônica. O segundo entende que no passado existia uma sociedade harmoniosa que não é mais possível em razão da luta de classes (BIRNBAUM, 1995). Ao conflito de classes foi dada grande centralidade ao longo do século XX. Entretanto, críticos consideram essa visão ultrapassada, pois o principal conflito da sociedade moderna se dá em razão da diferença de autoridade entre grupos, e não em virtude dos meios de produção (DARHENDORF, 1992). Nascimento (2001) analisa a

existência de dois conflitos centrais gerados a partir da estrutura da sociedade moderna: (1) conflito entre espaço político-nacional e espaço econômico mundial; (2) conflito entre espaço econômico da desigualdade e espaço político da igualdade. Este segundo elemento faz emergir novos atores complexos e articulados em torno de questões de identidade como gênero, raça ou mesmo por direitos como consumidores, moradores de determinado bairro, etc. Afloram o ambientalismo, o feminismo, os direitos civis, os direitos dos homossexuais e outros como centros da mobilização social pela primeira vez na história. Alguns autores os denominam novos movimentos sociais (GOHN, 1997). Com sua ascensão, surgem novas estruturas organizativas de ações coletivas, bem como uma relação variada, disseminada e em diversas camadas de organizações, movimentos e indivíduos que permitem o alcance de seus objetivos através de novas estratégias de ação (CASTELLS, 1999; 2000).

Nesse ínterim, é o conflito que coloca em risco o status quo, as condições em que alguns estão confortáveis e articulam-se para defendê-las. Os conflitos podem ter várias origens, entre elas a luta pela manutenção ou pela mudança da distribuição do poder; a frustração deflagrada por alguma privação e, ainda, diferenças referentes a normas ou valores culturais associados a identidades (XIMENES, 2006). Todavia, partes em conflitos não têm apenas objetos de disputa, têm também alguma zona de trânsito comum, um campo em que dividem crenças, objetivos ou valores (KRIESBERG, 2003).

Os conflitos são diferentes entre si, podendo ser mais ou menos importantes, ameaçadores e irreparáveis (GRAY et al., 2007). Eles, ainda, evoluem de formas distintas e variam de acordo com múltiplas dimensões, forças, recursos24 e objetivos. Até mesmo o

envolvimento dos atores se dá em graus diferentes (BIRNBAUM, 1995; BOBBIO et al., 1995; LITTLE, 2001). Nascimento (2001) contribui metodologicamente para a continuidade de estudos ao sugerir que sejam levados em consideração para se analisar o conflito atributos como: sua natureza, os atores envolvidos, seus interesses em jogo, seus recursos disponíveis para a disputa, o espaço de interação, o objeto sob disputa, a lógica de evolução do conflito, os mecanismos de mediação e a tipologia. Aparentemente, semelhante linha lógica seria apropriada para analisar relações cooperativas.

O conflito existe porque, naturalmente, pessoas e organizações têm interesses, personalidades, necessidades e objetivos próprios, muitas vezes conflitantes. Sobretudo, entra-se em conflito para estabelecer e conservar as identidades e fronteiras das sociedades e dos grupos, o que leva Coser (1964, p. 34) a crer, a partir de contribuições de Simmel (1969), que “um certo grau de conflito está longe de ser disfuncional, é um elemento essencial na formação de um grupo e da persistência de sua vida”. Se esses são os motivos

24 Neste trabalho, não serão tratados os conflitos violentos, ainda que a violência seja um recurso a ser

empregado em situações conflituosas, como sugerem Bobbio et al. (1995). Assim como não se abordará o conflito violento, não será abordada a cooperação gerada por meio de coerção sugerida por Gillinson (2004).

que levam o conflito a existir, quais seriam os motivos para o seu fim? Simmel (1969) aponta alguns: desaparição do objeto em disputa; vitória; conciliação ou irreconciliação sedimentada.

3.2. Conflito construtivo, cooperação perversa: revendo algumas ideias