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4 CONCEITOS DA ERGONOMIA

4.5 Interfaces relevantes em processos de projeto

Segundo Guérin et al. (2001), embora múltiplos termos sejam utilizados para descrever as formas de interações presentes onde se desenvolve atividades coletivas, o vocabulário parece focalizar nas seguintes dimensões:

Na coordenação – pressupõe-se que os funcionários consideram mutuamente o ordenamento de suas ações e respectivas decisões, mesmo tendo objetivos imediatos diferentes;

Na coação – uma forma particular de coordenação, na qual os funcionários realizam operações paralelas, devendo convergir em um dado momento;

Na colaboração – estabelecem-se relações entre trabalhadores que habitualmente não trabalham no mesmo objeto, mas que compartilham suas competências para lidar com uma situação particular ou famílias de situações;

Na cooperação – refere-se aos funcionários que trabalham em um mesmo objeto de trabalho, em uma relação de dependência mútua.

Em um processo de projeto de produtos industriais, verifica-se todas as formas de interações acima explicitadas, apesar de apresentar maior ênfase no fator

cooperação.

Segundo a definição proposta por Hoc (1996), dois sujeitos estão em situação de cooperação se:

• Eles buscam objetivos que têm certa interferência, tanto em relação ao resultado final, como durante os seus procedimentos;

• Eles tentam tratar essas interferências de forma que as atividades de cada um sejam alcançadas, facilitando a realização das atividades com as quais eles têm interferência (Falzon, 1999).

De acordo com Rabardel, Rogalski e Béguin (1996), a cooperação estabelecida em ambientes de trabalho coletivo envolve quatro níveis de abrangência:

O nível organizacional, incluindo os conceitos de tarefa e de divisão do trabalho;

O nível individual, incluindo os conceitos de atividade e de instrumentos de trabalho;

O nível coletivo, incluindo os conceitos de funcionário, cooperação e interdependência;

A relação entre a estrutura e o funcionamento, que considera a organização como a articulação dos níveis individual e coletivo. A análise, segundo essa perspectiva, considera tanto a estrutura, a invariante e o prescrito, como, por outro lado, a variabilidade, a dinâmica e o efetivo.

Segundo Rabardel, Rogalski e Béguin (1996), em ambientes de concepção coletiva, a cooperação acontece através da integração, que se efetiva

sobre os objetos produzidos pelas ações dos diversos agentes. Em alguns casos,

esses objetos são mais representações simbólicas do conhecimento, do que objetos físicos, como pode ser constatado através dos vários níveis de representação mostrados por Béguin (1994). Alguns deles são:

• A integração técnica de concepção (ou conceitual);

• A integração dos sistemas de informação, no caso dos sistemas lógicos;

• A integração manifesta através da produção de objetos físicos ou virtuais (através de sistemas gráficos como CAD, CAE e outros) (Rabardel, Rogalski e Béguin, 1996).

A integração técnica de concepção ocorre através das concepções locais que, de forma cooperativa, visam a uma concepção global. De acordo com

Pavard e Decortis (1994), essa concepção global acaba sendo operacionalizada

através dos atos comunicativos.

Segundo Falzon (1999), a integração entre os parceiros de trabalho envolve a comunicação e/ou a troca de informação com dois objetivos principais:

1. Para assegurar que cada um tome conhecimento do estado da situação atual: dado o problema, estado da solução, hipóteses adotadas, etc.;

2. Para assegurar que os parceiros compartilhem do mesmo conhecimento geral: das regras técnicas, dos procedimentos de resolução e de outros dados.

Esses dois itens contribuem diretamente com a cooperação dentro do grupo de trabalho. Afinal, os processos cooperativos referem-se à coerência das atividades individuais voltadas para um objetivo comum, focando a integração das produções individuais, desde o início da concepção (Rabardel, Rogalski e Béguin, 1996).

Portanto, a cooperação é conhecida como um duplo processo: a ação de um coletivo e a articulação da atividade dos atores individuais. Sendo assim, a estrutura global de realização das tarefas só pode acontecer se houver interações locais adequadas entre esses agentes (Pavard e Decortis, 1994).

Segundo Falzon (1999), em função das características de um processo de desenvolvimento de produtos, duas formas de atividade cooperativa podem estar presentes; a vertical e a horizontal.

A cooperação vertical corresponde às situações da organização hierárquica do trabalho em que um trabalhador separa e destina algumas tarefas para outros funcionários a ele subordinados. Nesse caso, o alcance dos objetivos da tarefa global requer uma distribuição eficiente dessas tarefas e a realização das tarefas distribuídas por todos os trabalhadores. Na cooperação vertical, portanto, o interesse está nas relações que unem os sujeitos de níveis hierárquicos diferentes.

A cooperação horizontal acontece entre os funcionários que estão situados no mesmo nível hierárquico. Ela se subdivide em dois casos; na cooperação horizontal distribuída e na cooperação horizontal pura (Falzon, 1999).

A cooperação horizontal distribuída ocorre quando os funcionários têm tarefas diferentes, mas focam o mesmo objeto de trabalho. Por exemplo; um grupo de projetistas com especialidades diferentes, trabalhando no desenvolvimento de diferentes subsistemas que não apresentam interface direta, mas que pertencem ao mesmo produto. A coordenação dos diferentes sujeitos poderá levar a uma cooperação vertical, visando assegurar a distribuição das tarefas e a consistência global.

A cooperação horizontal pura acontece quando um sujeito depende da ação de outros. Por exemplo; um grupo de projetistas, com especialidades diferentes, trabalhando no desenvolvimento de componentes de um produto, os quais apresentam interface direta entre eles. Nesse caso, a relação entre os agentes é necessária devido à dependência de dados e informações referentes aos componentes que formarão parte do mesmo produto. Em casos como esse, a co-localização dos sujeitos, por si só, ainda não é suficiente para estabelecer a cooperação. É preciso esclarecer as relações de dependência entre as ações dos sujeitos e as suas metas de cooperação (Falzon, 1999).

Em um ambiente de trabalho, onde se projetam produtos industriais, constata-se todos os tipos de cooperação; desde a vertical, através das relações de coordenação, até a horizontal pura e distribuída, que variam em função das diversas relações entre os componentes de um produto, que desencadeiam diferentes tipos de interações entre os engenheiros.

Apesar da presença dos três tipos de cooperação, a situação mais crítica nesse tipo de desenvolvimento, do ponto de vista do estabelecimento da cooperação, é a que envolve, predominantemente, a cooperação horizontal pura.

Nesse caso, esclarecer as relações de dependência entre os indivíduos envolvidos e estruturar a integração do grupo é fundamental para que a cooperação realmente se estabeleça.

Por isso, o mais importante, quando se analisa o trabalho desenvolvido por um grupo que tem a função de projetar produtos, é focar as estratégias de ação

dos indivíduos, com o intuito de esclarecer as interações existentes entre eles e as trocas de informações realizadas, ignorando, de certa forma, os seus movimentos e o processo mental envolvido durante a execução das tarefas.

Afinal, analisar as atividades cognitivas dos indivíduos ou as suas atividades físicas não contribuiria com a explicitação das relações de dependência entre os sujeitos.

Considerando que, de acordo com Rabardel, Rogalski e Béguin (1996), a integração só se estabelece no nível operacional do processo, ou seja, no trabalho efetivo e não no formal, o foco da análise do trabalho, nesse caso, deve incidir diretamente sobre as tarefas efetivas dos indivíduos que compõe o processo.

Segundo Falzon (1999), o objetivo de realizar uma análise do trabalho com esse foco é contribuir com a realização das tarefas individuais, ajudando a evitar as ambigüidades e a acelerar a transferência de informação.

De acordo com Guérin et al. (2001), quando se busca o esclarecimento das tarefas efetivas, duas abordagens podem ser adotadas no momento da captura de dados, focando as seguintes situações:

• o funcionário, privilegiando suas ações e tomadas de decisão em interação com os seus colegas;

• a estruturação do grupo, observando a evolução do andamento e da distribuição das tarefas executadas, a ocupação do espaço e outros detalhes.

Também é importante focar as comunicações a montante e a jusante dos indivíduos, já que através delas pode ser identificado algo de anormal no desenvolvimento. Elas podem mostrar informações sobre alguns dos problemas identificados pelos funcionários, em alguma etapa do desenvolvimento do produto ou junto ao produto final (Guérin et al., 2001).

Enfim, essas foram algumas das contribuições da ergonomia, direcionadas à análise do trabalho desenvolvido dentro das organizações produtivas, visando considerar a dinâmica operacional dos processos de desenvolvimento e as suas variabilidades.