6. O ORGANIZAR DAS AÇÕES COLETIVAS
6.4. INTERFERÊNCIA DE AGENTES EXTERNOS
Ao observar que a maioria dos estudos baseados em práticas têm considerado alterações na prática principalmente sob o aspecto endógeno (GHERARDI; PERROTTA, 2011), a existência de traços de alterações provocadas por agentes externos colabora para o campo dos estudos organizacionais baseados em prática, ao permitir tratar sobre esse aspecto de maneira específica.
No caso da prática da tilapicultura comunitária na lagoa do Juara e das ações coletivas que a formam, ambas seguem cotidianamente sendo construídas e reconstruídas por meio de alterações internas e externas. Este capítulo dedica-se a tratar das alterações provocadas por agentes externos à prática, lançando um olhar para duas subcategorias emergentes da pesquisa, a primeira delas aborda as influências promovidas por entes institucionais, enquanto a segunda expressa as influências promovidas por condições ambientais e ecológicas.
Ressoa como improvável refletir sobre a história da produção de peixes na lagoa do Juara desconsiderando a presença dos entes institucionais, estes personagens estiveram presentes desde as primeiras iniciativas de agrupamento social na comunidade. A pesquisa não buscou investigar as pretensões que motivaram estas entidades a participarem do fomento à produção comunitária, no entanto, não se pode abster-se de compreendê-los sob a ótica dos praticantes. Neste caso, despontam duas correntes de pensamento entre os praticantes: aqueles que reconhecem a interferência dos entes como positiva e aqueles que assumidamente rejeitam a presença e a interferência. No conjunto pode-se extrair que todos os praticantes concordam em assumi-los como externos à prática, o que os coloca como estranhos aos hábitos, costumes e linguagens do grupo. Essa visão se sustenta ao assumir que para fazer parte de uma prática implica a participação num jogo de linguagem, dominando as regras e podendo utilizá-las (GHERARDI, 2000).
Diversas foram as entidades que estiveram presentes na lagoa do Juara, contudo entre os mais destacados e atuantes entes institucionais estão o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e a Prefeitura Municipal da Serra. A atuação dos entes por vezes se deu de maneira conjunta em reunião com os praticantes, mas em outas situações atuavam em reuniões com alguns membros do grupo em separado. Como dito, uma parte dos praticantes observa o processo de intervenção destes entes como salutar à construção de um cenário mais adequado ao desempenho da prática.
45 - A associação tinha uma outra cara. A gente participava de eventos. A gente participava de feiras. A gente tinha um canal de comunicação com a prefeitura excelente. Excelente. Toda às vezes a prefeitura, porqueira do jeito que fosse, qualquer prefeito, nós sempre tivemos um canal de comunicação com eles (Praticante A1).
Nota-se na fala do praticante A1 que o canal de comunicação com a prefeitura era tido como favorável a produção comunitária, especialmente para divulgação dos eventos e aumento do número de clientes nos períodos festivos. Em grande parte, a Prefeitura Municipal da Serra foi uma das incentivadoras a criação do Festival de Tilápia, contudo, numa perspectiva mais apurada há indícios de os atos da prefeitura não tenham sido em sua totalidade benéficos. O Festival não nasceu pela vontade ou interesse dos pescadores, como resultado somente dois festivais foram realizados, sendo que atualmente os praticantes são contrários à qualquer iniciativa de retomar os festivais, ainda que seja oferecido aumento de remuneração para cada um deles durante o evento.
46 - O festival [referindo-se ao festival da tilápia] a gente não quer mais. Nunca mais. Porque trabalha-se muito e recebe-se pouco. Foram só dois festivais que nós tivemos. O primeiro nós trabalhamos e recebemos até um pouco, sobrou muita coisa do que a gente estava esperando, mas deu pra receber. Sobrou muita mercadoria. Porque mataram peixe demais. No caso eles falaram [referindo-se às orientações que eles receberam do SEBRAE e da Prefeitura da Serra] que ia precisar de dez tonelada pra fazer o festival. Aí o que acontece? Nós matamos as dez toneladas, das dez toneladas nós vendemos só cinco e cinco ficaram no estoque. Mais esse prejuízo. Muita comida, muita bebida e nós ficamos mais de dois meses com esse negócio no estoque. Depois decidimos fazer a ressaca da tilápia pra acabar com estoque. Mesmo assim não acabou (Praticante A4).
Isso demonstra que iniciativas não legitimadas pelos praticantes, nascidas da ausência de envolvimento cotidiano com a prática, ainda que primariamente tidas como assertivas, podem a médio prazo não se sustentarem e consequentemente não estabilizar a nova prática. Emergiram também nas entrevistas relatos de ações de agentes externos que aparentam ter menor grau de influência à prática, porém não sem importância.
47 - As pessoas queriam conhecer aqui, como o SEBRAE trazia muita gente, as pessoas vinham conhecer, hoje não vem ninguém com eles mais. Entendeu? Os associados não deram valor, não valorizaram essas pessoas que estavam buscando coisas boas pra gente, eles não valorizaram (Praticante A3).
Outro grupo de praticantes revelou ser contrário a presença e interferência externa apresentando as razões que fundamentam suas posições, observe no relato do praticante A4 que os praticantes, em grupo, expuseram o não cumprimento de acordo feito pelo ente externo. O episódio trata especificamente de uma contribuição
financeira a título de cota de patrocínio que o SEBRAE haveria de fornecer ao Festival de tilápia, mas não o fez.
48 - No casso, o SEBRAE era pra ter dado um dinheiro, não deu. Então, ficou muito carregado pra nós. Aí o grupo foi e jogou o martelo em cima deles [tal expressão quer dizer que eles discutiram e pressionaram o SEBRAE]. Falou, “ó, vocês fizeram errado e tal”, mas nem por isso, eles pagaram (Praticante A4).
O relato abaixo expõe de maneira mais clara como o SEBRAE interferia na produção comunitária, a praticante A9 tem maior acesso a administração, e naquele ambiente recebia designações impositivas sobre como deveria proceder.
49 - Eles [a equipe técnica do SEBRAE] queriam mandar aqui no projeto. Falavam que a gente estava errado, ligavam pra cá e diziam “como é que você não escreveu essa palavra com acento” [a praticante A9 levanta a voz nesse último trecho, expressando que gritavam com ela ao telefone] (Praticante A9).
Por ventura poderia a priori ter-se a impressão que as instituições eram representadas por pessoas e por isso essa categoria devesse ser considerada como interação social, ocorre porém que a narrativa dos praticantes aponta para uma figura institucional e não pessoal. A tônica das narrativas e a descrição do trecho abaixo permite consolidar a leitura que os praticantes fazem das instituições.
50 - O SEBRAE vem cá acompanhar uma reunião de segunda-feira, isso não é a vivência da associação (Praticante A1).
A postura dos entes externos não é capaz de considerar a complexidade das manifestações sociais que permeiam a produção comunitária, em última análise o que se vê é a falta de aceitabilidade pelos atores (MAY, 2001). Ainda que não façam parte da prática de produção comunitária, não há como negar que os agentes externos produzem através de suas ações uma força de alteração ao conjunto de ações coletivas inseridas nesta prática, particularmente quando se considera que são as relações e negociações que estabilizam uma nova prática provisória (GHERARDI; PERROTTA, 2011).
A segunda subcategoria emergente da pesquisa expressa as influências promovidas por condições ambientais e ecológicas. Como a produção de peixes ocorre em ambiente aberto é óbvio que sua condução esteja sujeita às variações de clima, da qualidade da água e da frequência pluviométrica. Os relatos assinalam como a
produção é impactada pela qualidade da água, já tendo sido comentado sobre como isso resultou na morte dos peixes de toda a lagoa.
51 - A lagoa não estava propícia mais pra criar peixe, desde 2013 que eu estou batendo no martelo. Porque com a mortalidade que a gente viu em 2013 foram 37 toneladas, mais ou menos 80 mil peixe. Então, de 2013 pra cá a gente veio sempre ressabiado (Praticante A4).
Note que o praticante A4 sinaliza que o grupo percebia do risco em manter a produção na lagoa do Juara, mas resolveram manter os tanques-rede naquela lagoa em função da proximidade geográfica e os baixos custos para manutenção da produção. A palavra “ressabiado” indica que o grupo não seguia inerte frente a possibilidade de perder a produção, pelo contrário abriu-se novas possibilidades de produção na lagoa do Aguiar em Linhares. Ainda que a produção em Linhares estivesse em pleno funcionamento, as expressões e comportamentos observados nos praticantes indicavam um forte impacto sentido pela mortalidade dos peixes na lagoa do Juara.
As ações coletivas sofreram consideráveis arranjos a partir da morte dos peixes, principalmente, porque as razões que motivaram a morte dos peixes ainda não estavam pacificadas entre os praticantes. Diversas foram as suposições surgidas naquele momento, desde sabotagem da comunidade até ausência total de oxigênio, com isso, um ambiente de transição se revelava, pois cada suposição exigia dos praticantes e das ações coletivas posturas distintas. Eram exibidas as faces expostas deste processo de contínua (re)construção das ações coletivas, a partir de um contexto socialmente vivenciado.
52 - Rapaz, eu estou aqui fora [na produção de Linhares], eu vi na reportagem eles falarem que foi a falta de oxigênio que matou os peixes, mas não é só falta de oxigênio não, foi a entrada da água do mar dentro da lagoa. Isso aí é água do mar também que entrou, não foi só oxigênio (Praticante A5)
53 - Deu falta de oxigênio por esgoto. Esse negócio aí até hoje eu não engulo não. Peixe todo da lagoa morrer? O nosso tudo bem, mas peixe solto daqui não. Alguma coisa tem aí. Mas aí eles [equipe técnica do IEMA5] falaram,
“vocês vão poder colocar peixe aqui a partir de dezembro”, nós estamos chegando em dezembro, nós já temos os peixes encomendado pra botar lá,
5 O Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA) tem por finalidade planejar,
coordenar, executar, fiscalizar e controlar as atividades de meio ambiente, dos recursos hídricos estaduais. O Instituto informou, verbalmente, aos pescadores que eles poderiam colocar os peixes a partir do mês de Dezembro (2016), porém, em conversa com os pescadores no início de 2017 eles informaram que preferiram não colocar peixe pois a lagoa do Juara continuava com uma coloração de água muito escura e por isso eles não queriam ariscar perder novamente os peixes.
vai morrer? Morre. E se tiver que morrer vai morrer pouco, eu vou botar um pouco só (Praticante A7)
Ainda que não tivesse havido a morte dos peixes, deve-se atentar para as condições ambientais e ecológicas e sua relação direta com o processo produtivo de peixe. Pois mesmo que produção de tilápias seja de fácil adaptação ao clima brasileiro (OSTANEL, 2011) observe que no relato abaixo o praticante A6 retoma como o extenso período de estiagem afetou a produção.
54 - A gente está tendo muitas dificuldades, porque em vários locais têm pessoas padecendo da necessidade de água, inclusive a gente aqui na Serra. Estamos tendo racionamento toda segunda-feira. (Praticante A6)
Com racionamento de água foram necessárias adaptações à forma de trabalho em todo os núcleos de trabalho, mas especialmente a banca de peixes. Assim que os peixes chegam de Linhares são colocados nos tanques de recepcionamento, ali permanecem até que sejam vendidos, com o tempo a água do tanque fica gradativamente suja como num aquário convencional como se vê na Figura 7. Essa sujeira exige que os praticantes da banca façam a troca da água de maneira periódica, para que os peixes tenham um melhor acondicionamento e para que os clientes possam ter melhor visualização. Contudo, com o racionamento de água o intervalo entre as trocas de água precisou ser estendido, o que deixava a água mais turva e com menor visualização, o resultado direto foi uma redução nas vendas. Infelizmente a banca não possui caixa d’água para reserva, toda água utilizada vem diretamente da rua inclusive aquela utilizada para limpeza das facas e objetos usados.
Fonte – Elaborado pelo autor
Em uma análise mais abrangente deve-se lembrar que o racionamento de água ocorreu pela baixa capacidade dos reservatórios que abastecem a Grande Vitória, resultado direto do grande período de estiagem vivido pelo Espírito Santo. Essa ausência de chuva reduziu muito o volume de água na lagoa, fazendo com que o nível da água do mar ficasse acima do nível de água da lagoa, aumentando dessa forma a vazão de água do mar lagoa a dentro. Esse ingresso de água do mar para dentro da lagoa, ocorre em virtude do encontro das águas do mar com as águas da lagoa na altura da praça encontro das águas em Jacaraípe, esse canal do encontro das águas foi ampliado pela Prefeitura da Serra no ano de 2016, de modo que grande parte dos praticantes atribui o ingresso de água do mar na lagoa justamente pela abertura do canal, a Figura 8 mostra onde ocorre o encontro da lagoa com o mar. Uma das vertentes de interpretação das causas de morte dos peixes aponta que essa foi a verdadeira causa.
Fonte – Elaborado pelo autor
Porém, como dito anteriormente existem diversas suposições que são feitas pelos praticantes e pela comunidade, uma das hipóteses apresentadas pelo praticante A7 se opõe à esta teoria da falta de oxigênio.
55 - Não foi falta e oxigênio, você imagina bem, falta de oxigênio da ponte pra lá do projeto [num trecho específico], não tem como. O robalo ele sai e vem desovar aqui. Se eu entro em um lugar que eu não estou me sentindo bem, eu vazo, não é normal isso? Tainha é a mesma coisa, tainha é do mar, se fosse por causa de água salgada não tinha nada aí então, tinha morrido tudo, aí uma pessoa diz, “ah foi por causa da água salgada, falta de oxigênio por causa da água salgada”, alguma outra coisa aconteceu. Isso aí você pode ter certeza, alguém tapou, alguém tapou (Praticante A7).
O relato do praticante A7 além de evidenciar as influências promovidas por condições ambientais e ecológicas acrescenta um elemento a mais na discussão de como são organizadas as ações coletivas na lagoa do Juara. Ele insere uma reflexão estruturada a partir de uma interpretação fundamentada no conhecimento assimilado ao longo do tempo e das experiências pessoais com a pesca. Essa manifestação do praticante A7 chama atenção pelo fato dele não ser pescador profissional. Em conversa aberta com o pesquisador ele informou que aprendeu sobre pescaria com os pescadores aos quais já teve contato, isso demonstra a existência de um conhecimento elaborado coletivamente (GHERARDI, 2009) no curso das ações coletivas.
6.5. APRENDIZAGEM ENQUANTO PROCESSO SOCIAL NO CURSO DA AÇÃO