CAPÍTULO 7 A DINÂMICA DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA NA
7.5 Intergeracionalidade e comunidades de Irmãos idosos
Ainda a respeito da intergeracionalidade, é necessário desdobrar as reflexões dando um foco específico às Comunidades de idosos; assim, é possível estabelecer um link entre a convivência intergeracional idosos-idosos e idosos-adultos-jovens. Referindo-se às diferenças entre Irmãos idosos e Irmãos jovens, o Ir. Claude-Régis afirma que
o estilo de vida no idoso é mais pausado, mais lento, mais tranquilo. Os jovens são mais centrífugos, os idosos são mais centrípetas, concentrados, mais parados, mais devagar, tanto no falar como no escutar, em tudo, no andar. Quanto mais idoso, mais devagar. Até parar.
Considerando a diferença de ritmo, seria melhor que os Irmãos idosos estivessem em uma comunidade só para eles, ainda que de diferentes gerações?
As opiniões divergem. Por isso, é pertinente considerar as visões a partir dos Irmãos idosos que moram nas Comunidades apostólicas e dos que estão nas Comunidades de idosos.
A opinião dos primeiros, como o Ir. Auxent, é que “tem que colocar [nas Comunidades de idosos] aqueles Irmãos que precisam de cuidados médicos constantes. Enquanto não precisam disso, eu acho saudável deixar os Irmãos onde eles estão.” Ir. Ambroise concorda: “O melhor é o Irmão só sair da comunidade quando realmente não tiver mais condições físicas de viver na comunidade”. Na mesma linha de pensamento, só que de forma muito mais enfática, se encontra o Ir. João Alexandre:
Acho inclusive que nem deveria ter a casa para idosos. Acho que eles deviam morrer numa comunidade. É a mesma coisa que pegar um pai, um tio e botar num asilo. Eu conheci alguns [Irmãos idosos] que ficaram [nas Comunidades apostólicas]. E que foi muito bom pra eles. Ir. Urbano ficou, Ir. Fidélis ficou. Dá trabalho, é lógico, dá trabalho como um avô dá trabalho. Bote enfermeiro pra tomar conta, gaste dinheiro, esse dinheiro gasto com os idosos botando enfermeira, eles ganharam. Não tá ali de graça, não, eles trabalharam muito. Então, é obrigação institucional.
O Ir. Paul-Dominique prefere ser prático e deixar a cargo do Irmão idoso a decisão sobre a comunidade na qual viverá: “Deixa o idoso onde se sentir melhor; eu prefiro estar em uma comunidade mista, com jovens, adultos...” Ele traz dois elementos fundamentais para esse tipo de decisão. O primeiro, ouvir o Irmão, ao invés de decidir por ele. Esse empoderamento do Irmão idoso contrasta com a matiz de piedade que, segundo Moral Barrio (2009) costuma permear os cuidados com os idosos, desconsiderando seu valor intrínseco. O Irmão idoso seria olhado com uma condescendência que o nega como par e como sujeito; a mesma postura de decidir pelo idoso, sem considerar suas preferências e opiniões, é frequente em diversos grupos sociais. Entretanto, é bastante provável que, mesmo dadas as condições de empoderamento, alguns dos Irmãos idosos se recusem a decidir por si mesmos, optando por deixar a decisão por conta do Provincial – como foram acostumados ao longo da vida.
O segundo elemento tem relação direta com o empoderamento do Irmão idoso, ao abrir-lhe a possibilidade de presença numa comunidade com a qual ele tenha estabelecido laços afetivos, em algum momento específico de sua missão apostólica. Todos os Irmãos idosos manifestam preferências por determinados
locais, que foram significativos devido ao tempo que passaram lá, às pessoas com quem conviveram e aos resultados do trabalho lá desenvolvido. Assim como idosos de outros grupos manifestam preferência por morar com um ou outro filho, seria positivo, para o Irmão, facultar-lhe a opção pela comunidade na qual gostaria de viver esse tempo. A possibilidade de optar provavelmente resultaria em maior senso de bem-estar subjetivo na velhice.
Há um cuidado necessário, nessa situação: averiguar se a opção ou recusa pela escolha, assim como as mudanças na velhice ou a possibilidade de viver em outra comunidade, não condicionam o Irmão a estruturar uma fuga do presente. Alguns idosos, segundo Dullius (2005, pp. 214-215), tendem a voltar-se para o passado “por razões afetivas e de estrutura da personalidade, encontrando ecos em estruturas mais tradicionais, que acentuam a identidade particular pela afirmação da diferença com outras situações sociais e culturais”. Beauvoir (1990, p. 459) afirma que o idoso “interioriza seu passado sob a forma de imagens, de fantasmas, de atitudes afetivas” e este passado define sua situação atual e sua abertura para o futuro: o idoso se projeta a partir do passado, mas tem que superá-lo para existir no tempo presente. A preferência por determinados locais, assim, pode comportar razões ocultas: conferem ao Irmão idoso a segurança e identidade de que sente falta, na comunidade em que está atualmente. Por conseguinte, conhecer cada Irmão é necessário para ter acesso às informações que fundamentarão a opção mais adequada. Vale lembrar que a chave para todo conhecimento construído é, segundo González Rey, o sujeito.
O Ir. Adorátor concorda com a posição dialógica na hora de se definir o destino do Irmão idoso:
Há Irmãos que preferem ir para Uberaba e para o Recanto Nazaré, em Recife, porque têm ajuda médica, enfermeiros, já não conseguem mais tomar banho sozinhos, não conseguem se lembrar dos remédios, tudo isso. E há Irmãos que preferem permanecer na comunidade, mesmo com enfermeiro, para não perder a oportunidade de estar onde ele sempre esteve, no meio dos alunos.
Como visto, os Irmãos vislumbram diferentes possibilidades de manter a vida apostólica na terceira idade. Assim, além de utilizar argumento semelhante, o Ir. Aldèrad ressalta a importância de estimular a autonomia e a independência dos Irmãos idosos, e isso em todas as comunidades: “À medida que vai dando tudo
prontinho para o Irmão, ele vai se acomodando. Então, se ele quer fazer, deixa fazer! Ele come sozinho, esquenta sopa sozinho, quando a cozinheira não está ele [mesmo] põe sua comida...” Autonomia e independência, conforme Neri (2006), fazem diferença para a crença de autoeficácia e percepção de bem-estar subjetivo dos idosos, enquanto que a dependência provoca o efeito oposto. No entanto, o mesmo Irmão constata: “A dificuldade que vejo às vezes é que o Irmão é autossuficiente. É muito difícil o irmão deixar você ajudá-lo.”
Entre os Irmãos que vivem nas Comunidades de idosos, há diferenças na percepção sobre sua dinâmica. Alguns vivem nestas Comunidades há muito tempo, e vários deles por opção própria. O Ir. Amandus se enquadra neste último caso e pondera que não é possível generalizar:
Eu tenho a impressão de que alguns Irmãos idosos continuarem não em Uberaba, não em Apipucos, deveria ser estudado caso a caso. Esta comunidade tem condições de acolher e aceitar o Irmão idoso? Conviver com o Irmão nesse lugar? E o Irmão tem acesso a assistência médica suficiente? Se dá pra o Irmão viver, se tem assistência médica, se a saúde dele ainda permite isso, então para que ir pra Uberaba, ir pra Apipucos? Novamente, ênfase no estudo caso a caso e no empoderamento do Irmão idoso. As perguntas feitas por este Irmão podem ser tomadas como indicadores para fundamentar a decisão entre manter o Irmão em uma comunidade apostólica ou enviá-lo para uma comunidade de idosos.
Ainda visando a iluminar essa decisão, o Ir. Audry considera o temperamento e o grau das limitações como um critério importante: “Alguns [Irmãos idosos] querem ficar sempre em casa, não são muito sociáveis. [...] [Outros] já têm às vezes dificuldades até para andar. E por aí vai...” O Ir. Bonius reconhece essa dificuldade de socialização e traz outro elemento, os hábitos adquiridos – que são, por sinal, uma das características mais idiossincráticas da velhice:
[Os Irmãos] idosos, eles são mais ou menos recolhidos em seus quartos, pouco conversam. Pode olhar que, nas mesas [do refeitório], se postam em silêncio, talvez porque no tempo da formação as refeições eram em silêncio. É melhor como está aqui: idosos com idosos. Cada idoso tem sua mania, então às vezes os outros não entendem as manias, a gente tem que colaborar com as manias. Todo idoso tem uma mania interessante. Conviver com essas coisas, né?
As manias – no sentido de costume, não de patologia – costumam ter relação com a segurança trazida pela regularidade dos hábitos cotidianos. Quem se
acostumou a determinadas práticas dificilmente terá disposição para alterá-las, especialmente se foram adquiridas ou desenvolvidas na mesma comunidade onde vivem atualmente. Hábitos e ambiente tendem a se imbricar, e o tempo os solidifica.
Além dos ritmos pessoais dos Irmãos idosos, nitidamente mais lentos, o Ir. Lamberto observa que a própria dinâmica da Comunidade de Idosos é diferente das Comunidades apostólicas. Enquanto que, nestas, os Irmãos estão em plena atividade, “aqui nós estamos parados! A missão de apostolado local entre os alunos praticamente terminou. Muito diferente das outras comunidades, isso você tem que saber e o Provincial tem que saber também. Mas plena de sentido.” A profundidade desta fala pode ser compreendida ao se fazer a inter-relação com o sentido da missão apostólica na velhice, visto anteriormente.
Esta questão do sentido aparece novamente na análise das possibilidades de mudança na dinâmica das Comunidades de idosos, questão apresentada aos Irmãos pesquisados. Entre os Irmãos de várias idades, há certo consenso em relação ao acerto nos cuidados médicos dispensados, ainda que a infraestrutura da casa não seja adequada para idosos – ambas as casas foram adaptadas, e não construídas com a finalidade de acolhê-los. A assistência médica tem sido suficiente para atender às necessidades atuais dos Irmãos; entretanto, para alguns deles o espaço é uma “enfermaria” ou “casa de saúde”, não uma comunidade religiosa.
Daí a importância de compreender o valor simbólico associado a estes espaços. Muitos Irmãos idosos que vivem em comunidades apostólicas demonstram uma visão bastante negativa a respeito das comunidades de idosos, e não apenas devido à infraestrutura de suporte aos doentes. A antiga comunidade de idosos de Mendes/RJ, transferida depois para Uberaba/MG, era conhecida popularmente como “Portinha do céu”. O Ir. Ambroise lembra a mesma ideia que foi associada à comunidade de idosos de Apipucos: “[Os Irmãos idosos] vão [para] lá quando estão doentes, aí se tornou a porta do cemitério”. Assim, a preocupação objetiva em garantir o cuidado com a saúde dos Irmãos idosos doentes tem que considerar, também, a percepção subjetiva do Irmão a respeito desses espaços. Ao receber a notícia de que seria enviado para morar nesse tipo de comunidade, o Irmão idoso geralmente interpretava a mensagem de outra maneira: a Província acreditava que
ele não tinha muito tempo de vida à frente, porque aquela costumava ser a última comunidade em que os Irmãos moravam.
O Ir. Isidoro confirma que, para muitos deles, “ir para uma comunidade de idosos significa dizer que já está no fim da vida”. Por isso, mesmo tendo necessidades de cuidados médicos especializados, resistem o quanto podem a morar numa delas. Beauvoir (1990, pp. 465) ajuda a compreender esta resistência: enquanto as crianças, adolescentes e jovens ignoram sua finitude e os adultos dispõem de anos para empreender as mudanças que desejam no mundo ou em sua história pessoal, “o velho sabe que sua vida está feita, e que não poderá refazê-la. O futuro não está mais inchado de promessas, contrai-se na medida do ser finito que tem que vivê-lo”. A ideia da comunidade de idosos possivelmente acentua, para os Irmãos que manifestam resistência a elas, a consciência das limitações da velhice, seja no que se refere ao tempo de vida à frente, muitíssimo menor do que o tempo já vivido, ou aos campos da missão apostólica, mais restritos do que em outras idades. Independente das razões, a resistência tem que ser considerada, em vista de favorecer a mudança de concepções e/ou avaliar se há fundamentos para esta atitude.
O que demanda também um estudo a respeito da dinâmica destas comunidades. O Ir. Adorátor afirma a necessidade de repensar o estilo das comunidades de idosos e aponta as razões: “Eu não sinto que as nossas casas de idosos sejam um centro que saiba acolher um homem idoso. Falta uma Pastoral da Terceira Idade, isso aí não existe.” E acrescenta ações mais práticas: “Criar um tipo de lazer para o Irmão idoso, criar uma terapia ocupacional para o Irmão ser útil, compreender o Irmão na sua afetividade e sexualidade”. Vale observar que, entre os Irmãos que moram nestas comunidades, poucos deles, perguntados sobre isso, chegaram a sinalizar possibilidades concretas de mudança. A maioria apenas disse não saber se é necessário mudar algo.
Desta forma, a dimensão pastoral do cuidado com os Irmãos idosos pode ser um diferencial em relação à maneira como as comunidades de idosos têm se organizado, inclusive como estratégia para enfrentar as limitações que tornam alguns Irmãos idosos menos participativos, mais resignados, sem perspectivas – e sem consciência das possibilidades de agregar mais qualidade à sua vida. Em
Uberaba há mais indícios disso, mesmo porque é uma cidade do interior, em que a convivência costuma ser mais facilitada do que em cidades maiores, a comunidade está ao lado do Colégio Marista e os jovens formandos a visitam regularmente, assim como estudantes e professores. Esses fatores favorecem, para os Irmãos que a desejam, a proximidade com espaços de apostolado, de pertença eclesial e de convivência intergeracional. Em Apipucos, isso é mais difícil, porque a Unidade Marista mais próxima é a faculdade, ambiente com o qual os Irmãos não têm familiaridade; a geografia do terreno, bastante íngreme, dificulta o acesso do Irmão ao Colégio Marista Conceição, que está próximo, e a outros ambientes, porque limita a locomoção – para que o Irmão esteja nestes lugares, depende do auxílio de outras pessoas. Consequentemente, a presença se restringe à própria comunidade e, assim, a mudança na dinâmica interna se torna mais necessária. Um elemento facilitador disso é o vínculo afetivo dos Irmãos idosos com a casa: boa parte deles iniciou ali sua vida marista e se sentem seguros em continuar vivendo naquele espaço.
Entretanto, modificar a rotina dos Irmãos idosos não é tarefa simples. O Ir. Deodato lembra que “na vida religiosa tem de tudo. Tem os bons, os melhores e as fraquezas humanas.” Como a preferência pela familiaridade dos espaços, até como recurso para garantir segurança física e psíquica, é uma característica acentuada na velhice, a diversidade no grupo de idosos tornará mais difícil a construção de consensos. As mudanças podem ser facilitadas porque, como destaca o Ir. Claude- Régis, nas Comunidades de idosos estão
Irmãos que conviveram, que se conhecem pouco, mas sabem que são da mesma congregação. Então, o idoso se acostuma a ir pra capela, da capela ir pro refeitório, [...] aquela geografia que ele conhece bem; se tira desse habitat, ele se confunde um pouco. Ou muito, até.
A preferência pela rotina estabelecida, com poucas mudanças, é mais acentuada na dinâmica destas comunidades – assim como seu oposto, a resistência a modificações. Os horários e atividades pouco mudam; os Irmãos tendem a ocupar sempre o mesmo lugar à mesa das refeições, na capela e na sala de televisão. A preferência pelo lugar fixo na capela se explica porque os livros utilizados – Liturgia Diária, Liturgia das Horas, livros de cantos – são individuais e ficam guardados embaixo da cadeira; logo, é questão de praticidade estar sempre no mesmo lugar.
Nos outros espaços, entretanto, a mudança poderia trazer benefícios. Segundo Perracini (2006), a regularidade na posição de objetos, móveis, etc., tornando o ambiente familiar ao idoso, é positiva porque facilita as atividades do dia a dia; porém, pequenas mudanças na rotina são necessárias para acionar os mecanismos cerebrais responsáveis por lidar com as mudanças, o que contribui para melhorar a funcionalidade e o desempenho cognitivo. A diversificação das atividades, favorecendo a utilização de diferentes habilidades cognitivas e motoras, é indicada pela mesma razão.
7.6 ATIVIDADES OFERECIDAS AOS IRMÃOS NAS COMUNIDADES DE IDOSOS