CAPÍTULO II – SEPARAÇÃO E VERDADE
2.3 Interioridade e separação
a) Hipóstase e Separação
O primeiro movimento de saída da verbalidade do verbo ser ‒ do Il y a (há) anônimo, ou ser em geral ‒ em direção a subjetividade do sujeito (substância), ou do verbo em direção ao substantivo ‒ ser si (être soi), isto é, o processo de sua referência a si ‒, encontramos no conceito de hipóstase (hypostase)72 formulado na obra De l’existence à l’exiance de 1947.
Segundo Calin e Sebbah (2005, p. 54) Levinas retoma a noção de hipóstase para descrever o processo de separação presente na obra Totalidade e infinito e esta se processa como fruição
(joissance) e habitação (habitation), ou seja, como processo de constituição de uma vida
interior, ou psiquismo. Por separação Levinas entende uma existência separada e independente do ser, mas que ao mesmo tempo tem necessidade deste para poder viver ‒ no caso o mundo ou alimento73.
A absorção da alteridade do mundo como alimento, energia que se converte em Eu (Moi) é a expressão da relação com o mundo que não é compreensão ‒ pois, o homem se descobre existente pelas necessidades do seu corpo74. Por outro lado, é a expressão da sensibilidade não como momento do conhecimento e sim como fruição, pois, dizer que
vivemos de boa sopa é também dizer que vivemos daquilo que não sou eu, ou, vivemos do
Outro, vivemos do ar que entre em nossos pulmões, da água que bebemos; numa palavra: vivemos dos elementos ‒ sejam eles terra, água, fogo e ar ou os elementos classificados na tabela periódica dos elementos. Porém, durante esse processo de reunião entre eu e o mundo ‒ totalidade ‒ o eu se constitui como um si, como pensamento ‒ que Levinas chama psiquismo
71 “La notion de séparation est liée à l’idée de sainteté qui a la même Racine ‘La signification fondamentale du
mot ‘qedouchah’ et des mots formes sur la même Racine renvoie à l’idée de séparation et de distinction (...). De même en effet que Dieu est saint, c’est-à-dire separe et distingue de toutes les autres existences, de même Israël doit être separe et distingue de tous les autres peiples (Ex, 19, 6; Lv 19, 2)’”. Dictionaire Encyclopédique Du Judaïsme, Cerf, Paris, 1996 (HERNÁNDEZ, 2009, p. 176, nota 500, grifos do autor).
72 “O conceito de hipóstase surge para descrever a constituição e a concentração da substância do “si”, a
substantivação que produz um sujeito que se distancia da “verbalidade pura” do il y a que é verbo de ninguém. Pela hipóstase, o existente assume uma posição e um lugar no ser: cumpre a separação através de uma existência corporal individual, de uma vida encarnada” (CEREZER, 2011, p. 89).
73 “Le premier sujet lévinassien, avant la rencontre éthique, est un sujet qui mange tout ce qui se trouve en face
de lui. Quelqu’un qui a la capacité de tout assimiler, de tout faire rentrer en lui, ventre affamé” (HERNÁNDEZ, 2009, p. 177). Confere, por exemplo, a seguinte passagem de Totalité et infini: “La nourriture, comme moyen de revigoration, est la transmutation de l'autre en Même, qui est dans l'essence de la jouissance: une énergie autre, reconnue comme autre, reconnue nous le verrons, comme soutenant
l'acte même qui se dirige sur elle, devient, dans la jouissance, mon énergie, ma force, moi. Toute jouissance dans ce sens, est alimentation. La faim, est le besoin, la privation par excellence et, dans ce sens précisément, vivre de ... n'est pas une simple prise de conscience de ce qui remplit la vie. Ces contenus sont vécus: ils alimentent la vie. On vit sa vie” (LÉVINAS, 1974, p. 83).
74 “’Vivre de ...’ comme première forme d’intentionalité de la jouissance et du besoin, avant tout autre forme
d’intentionalité théorétique. La faim du moi doit être rassasiée avant toute autre faim dans le monde, il ne s’agit pas d’égoïsme mais de responsabilité première et vitale envers moi-même” (HERNÁNDEZ, 2009, p. 191).
ou vida interior ‒ e que realiza a primeira fase da separação. É por essa relação paradoxal que o sujeito se constitui como vida interior ou psiquismo.
O conceito de separação nas análises acerca da concepção levinasiana de verdade é central, pois, “sem separação, nos diz Levinas, não teria havido verdade, apenas teria havido ser” (LÉVINAS, 1980, p. 48), o que equivale a dizer que a verdade não está ordenada ao ser ‒ ou totalidade ‒ e que esta supõe, assim, a separação ‒ a ideia de Infinito. Se o filósofo75 ‒ ou
um ser pensante qualquer ‒ não se posicionar fora da totalidade pensada não vai haver verdade, pois, esta depende da relação e a relação exige a separação ou distinção já que se o Mesmo e o Outro são o Mesmo ‒ isto é, se o idêntico e o não-idêntico são idênticos, se não há distinção entre ambos ‒, se ambos estiverem englobados na totalidade não haverá verdade, pois, não haverá comunicação; se o Mesmo e o Outro não estiverem englobados na totalidade haverá verdade ‒ já que haverá a relação ‒, porém, não haverá totalidade, pois, o desvelamento depende do descobridor e a adequação depende de quem faz a adequação. Assim, se o sujeito não estiver separado da totalidade só haverá o que Levinas chama de Il y a ‒ o ser anônimo, o ser em geral ‒ universal abstrato. Portanto, há que haver a separação o que equivale a dizer que há que haver o singular para que possa haver relação ‒ ou justiça ‒ para que possa haver verdade.
A separação diz respeito à relação frente a frente, isto é, à justiça ‒ “a relação ética mesma” (CALIN; SEBBAH, 2005, p. 43)76 ‒ e como tal requer a presença do Outro ‒
“consideração do Outro ou justiça” (LÉVINAS, 1980, p. 34) ‒, requer a alteridade, logo, a questão da verdade está ordenada à ética, o que corrobora a ideia de que a verdade se diz a algém e este dizer é mais antigo do que o desvelamento porque é ensino. A verdade ética como ensino e que tem lugar nas relações interhumanas é mais antiga do que o desvelamento e do que a adequação. Se sem separação não teria havido verdade, sem separação não teria havido relação o que faz com que o conceito de separação adquira importância crescente.
Para nosso autor, contrariamente às afirmações de Derrida, não se trata de desvelar o Outro, de reduzi-lo ao Mesmo, ao ser, ao logos ‒ violência metafísica ‒; trata-se, antes, de
75 Usamos a expressão filósofo lembrando a excitação de Husserl quando este descobre o sujeito em sua
subjetividade egológica da 2ª Meditação Cartesiana, §§ 12 – 22 e em especial §§12 e 13, página 25 e seguintes, em que a subjetividade é descrita como subjectivité transcendentale (subjetividade transcendental) expressão da fenomenologia transcendental em que o ego se vê frente a si ‒ esfera própria ‒, ordenado a si, ou auto-referência ‒ retroreferência ou consciência de si: “Ici il s’agit d’une science en quelque sorte ‘absolument subjective’, dont l’objet est indépendant de ce que nous pouvons décider quant à l’existence ou à la non-existence du mond” (HUSSERL, 1966, p. 25).“Subjetividade mais objetiva do que toda objetividade” diria Lévinas. Lévinas considera ingênua uma atitude que não tome em consideração a alteridade, pois, como seria possível que o ego tomasse consciência de si sem que a consciência de si remeta ao Outro; como este si chegaria a si sem o Outro? E é esta situação que nos parece descrever a frase sugundo a qual “sem separação não teria havido verdade, apenas teria havido ser’, isto é, o ser anônimo e geral, o Il y a; existência sem existente, sem relações. Um mundo silencioso.
respeitar a sua alteridade. A separação diz respeito ao fato de a relação entre o Mesmo e o Outro ser marcada pela irreversibilidade; o fato de que “o Mesmo vai para o Outro, diferentemente de como o Outro vai para o Mesmo” (LÉVINAS, 1980, p. 24). Em 1985 Levinas vai dizer, em diálogo com Ricœur, que “a irreversibilidade da relação com Outrem é tão importante que penso seja o elo do tempo, a diacronia mesma” (1998, p. 78)77.
b) Nem egologia nem heterologia
Levinas, ao falar do Outro fala do Mesmo78 sem que este discurso ‒ logos ‒ seja uma
egologia e talvez nem mesmo uma heterologia já que seu discurso trata precisamente da
relação em que o ego e o alter ‒ hetero ‒ se mantêm absolutos na relação79: eles são um si, a partir da relação, porém ab-solutos, ou seja, separados, não formam comum-unidade, não constituem totalidade
Esta relação, de participação ao mesmo tempo que de separação, que marca o advento e o a priori de um pensamento ‒ em que os laços entre as partes não se constituem senão pela liberdade das partes ‒ é uma sociedade, seres que falam, que se defrontam. O pensamento começa com a possibilidade de conceber uma liberdade exterior à minha. Pensar uma liberdade como exterior à minha é o primeiro pensamento” (LÉVINAS, 2009, p. 39, grifo do autor)80.
É por isso que, a nosso ver, a ideia de separação requer a ideia do Infinito, que nomeia a própria relação. O realce ‒ talvez aparente ‒ que a alteridade recebe é necessário para fazer realçar a relação, o frente a frente, condição da subjetividade.
Assim, pensamos que considerar a filosofia de Levinas como egologia é não reparar na importância que ele atribui à alteridade na constituição da subjetividade. Poderíamos ousar, quem sabe, introduzir aqui também a noção de criatura; esta envia à ideia de ser criado, ou não ser autor de si mesmo, ou ainda ter o seu ser devido a outrem, ou ao Outro ‒ que pode ser Deus, pois, “a ideia de Deus é Deus em mim” (LÉVINAS, 2008, p. 95), é o Outro no Mesmo,
77 “Vorrei dire di sfuggita che secondo me l’irreversibilità della relazione con altri è talmente importante che
penso sia l’anello del tempo, la diacronia stessa”.
78 Vanessa Hanoka utiliza o título da obra de Alain Tornay ‒ Emmanuel Lévinas. Philosophie de l’Autre ou
philosophie du Moi? (2007) ‒ em que este faz uma análise dos principais temas da filosofia de Lévinas. Segundo Hanoka (2007, p.367-375), para Tornay o primado do Outro é aparente e ao fim e ao cabo a filosofia de Lévinas é uma egologia. Talvez devêssemos concordar com Tornay já que Lévinas, no prefácio da obra Totalidade e infinito anuncia que pretende “uma defesa da subjetividade” (LÉVINAS, 1980, p. 13), porém ‒ e este nos parece ser o ponto mais importante ‒ como hospitalidade, como acolhendo Outrem.
79No sentido etimológico de absoudre, absolvere: “Ce rapport de vérité (...) repouse sur le langage: relation où
les termes s’absolvent de la relation. Sans cette absolution, la distance absolue de la métaphysique serait illusoire” (LÉVINAS, 1974, p. 35-36).
80 “Ce rapport à la fois de participation et de séparation qui marque l’avènement et l’a priori d’une pensée ‒ ou
les liens entre les parties ne se constituent que par la liberté des parties ‒ est une société, êtres qui parlent, que si font face. La pensée commence avec la possibilite de concevoir une liberte extérieure à la mienne. Penser une liberte extérieure à la mienne est la première pensée” (LÉVINAS, 2010, p. 27, grifo do autor).
Outro que me vem à ideia, Outro que não é um Mesmo ‒ o que significa invocar, mais uma vez, a noção de alteridade e, consequentemente, à relação frente a frente ‒ ou justiça, ou relação social ou, numa palavra: a ética ‒ como criadora da criatura humana que deve seu ser [humano] ao Outro precisamente por ser criado na relação com o Outro o que equivaleria a situar a ética como criadora do [ser] humano fazendo do homem, originalmente, um ser ético ‒ ser-para-o-outro ‒ antes de ser-para-si ‒ objeto da sua compreensão, ou egologia. A estrutura ontologica ser-com, na sua versão enfática ‒ “a ética é uma ênfase da ontologia” (LEVINAS, 2008, p.128) ‒, converte-se em ser-para ‒ não ao modo do utensílio, como em Heidegger, pois, Outrem não se encontra como disponível nem encontra seu sentido em um conjunto de remissões ou totalidade, porém, a partir de si mesmo ‒, porém ser-para-o-outro:
Esta inversão humana do em-si e do para-si, do “cada um por si”, em um eu ético, em prioridade do para-outro, esta substituição ao para-si da obstinação ontológica de um eu doravante decerto único, mas único por sua eleição a uma responsabilidade pelo outro homem ‒ irrecusável e incessível ‒ esta reviravolta radical produzir-se-ia no que chamo encontro do rosto de outrem (LÉVINAS, 2009, p. 269).81
c) Separação e subjetividade
No que se refere à noção de separação é preciso considerar o seguinte: ela diz respeito à constituição do Mesmo (Eu), da subjetividade do sujeito, do si (soi) ‒ e a Seção II da obra
Totalidade e infinito, intitulada Interioridade e economia é toda ela dedicada a esse fenômeno
‒ e é desenvolvida por Levinas em duas etapas. Na primeira etapa, o sujeito levinasiano se encontra fruindo o mundo ‒ está-aí, egoísmo do Eu82; nesse sentido, a epoqué levinasiana não nos conduz a um sujeito pensante, a um eu penso, a uma consciência intencional. Pelo contrário, trata-se de viver de... Nessa situação o Mesmo se encontra em comunidade com o mundo como alimento; portanto, não se trata de compreensão, nem de reflexão. Essa etapa antecede e encontro que instaura a relação ética. Ao mesmo tempo em que o Mesmo se encontra em comunidade com o mundo ele se constitui enquanto interioridade, ou
psiquismoprimeira etapa da separação.
81 Para avançar nesta ideia de ser criado, ou criatura, encontramos as seguintes análises de Lévinas a partir da
sua leitura do §9 de Ser e tempo: “Essa leitura de Heidegger com certeza me foi ditada pela ideia de que o eu humano, o si-mesmo, a unicidade do eu consiste na impossibilidade de se esquivar do outro. Enquanto não há outro não se pode falar nem de liberdade nem de não-liberdade; ainda não há identidade da pessoa que é uma identidade do ‘indiscernível’ (...) Esquivar-se, verbo pronominal: quando me esquivo de minhas obrigações para com o outro, ainda permaneço eu” (LÉVINAS, 2008, p. 131, grifos do autor).
Pareceu-nos apropriado fazer referência a essas questões sem as quais colocaria nosso autor em conformidade com a tradição o que equivaleria a desvanecer um dos pontos mais importante da sua filosofia.
82 “Lévinas fait ainsi droit à l’égoïsm comme moment authentique du devenir soi, meme s’il pense en même
temps la mise en question de cet égoïsme dans la rencontre du visage”, encontro este que marca o segundo momento da constituição da subjetividade.
A constituição do Mesmo se faz por uma via interior separada que Levinas chama
ateísmo, pois, “só um eu que não tem nada em comum com o outro (...) é suscetível de
acolher sua transcendência, isto é, de se deixar colocar em questão por ele” (CALIN; SEBBAH, 2005, p. 54)83. Nessa primeira etapa de fundação do sujeito, antes da aparição do
Outro que virá romper a paz e a harmonia do mesmo com o ser do qual ele se alimenta, não há ruptura, apenas recusa, pois, segundo nos diz Hernández “é pela interioridade (minha vida interior) que o homem se recusa e resiste à totalidade, ele tem seu próprio tempo (o durante da memória) pela qual ele se arranca ao tempo dos historiadores” (2009, p.133)84. O real, segundo Lévinas, “não deve determinar-se apenas na sua objetividade histórica, mas também a partir do segredo que interrompe a continuidade do tempo histórico, a partir das intenções interiores. O pluralismo da sociedade só é possível a partir desse segredo; atesta esse segredo” (LÉVINAS, 1980, p. 45, grifo do autor)85.
É esta vida interior, esse psiquismo que não se deixa desvelar e que resiste à totalização ‒ resistência esta que se constitui já como um modo de ser ‒, que permite ao nosso autor propor a noção de singularidade86 que lhe permitirá defender a pluralidade de seres e a necessidade de escutar a palavra do Outro que atesta esta pluralidade. Esse psiquismo, essa vida interior ‒ que escritores como Dostoievski, na figura de Raskólnikov e Shakespeare com seu Hamlet tão bem constituíram ‒ que faz parte do real e no entanto é acessível apenas a si, ao si mesmo e que a psicologia e a psicanálise surgem como tantativas de desvelar atestam este psiquismo87. Na cotidianidade, no convívio entre as pessoas é comum a tentativa de
83 “Seul un moi qui n’a rien en commun avec l’autre ‒ et, là la limite, rien à faire avec lui ‒ est susceptible
d’accueillir sa transcendance, c’est-à-dire de se laisser mettre en question par elle”.
84 “C’est par l’intériorité (ma vie intérieure) que l’homme se refuse et resiste à la totalité, Il a son propre temps
(le pendeant et la mémoire) par lequel Il s’arranche au temps des historiens”.
85 A questão referente ao tempo é uma das mais instigantes na filosofia de Lévinas, mas não é o foco principal da
nossa pesquisa. Para quem gostaria de maior aprofundamento sugerimos obras como Le temps et l’autre, Autrement qu’être ou au-delà de l’essence. Contudo, é possível afirmar que a questão da temporalidade se encontra no conjunto da obra de Lévinas.
86 “L’homme est une singularité. Singularité autre que celle des individus qui se subsument sous un concept ou
qui en articulent les moments. Le moi est ineffable, parce que parlant par excellence; répondant, responsable. Autrui comme pur interlocuteur n’est pas un contenu connu, qualifié, saisissable à partir d’une idée générale quelconque et soumis à cette idée. Il fait face, ne se référant qu’à soi. Dans la parole entre êtres singuliers, se constitue seulement la signification interindividuelle des êtres et des choses, c’est-à-dire l’universalité” (LÉVINAS, 2010, p. 36).
87 A literarura ‒ a ficção como expressão do como se que foi introduzido na filosofia pela fenomenologia ‒ está
povoada de singularidades o que nos leva a pensar se ela seria possível sem a constituição ‒ a narrativa (récit) ‒ e não a descrição de personagens além de indagar acerca da singularidade dos próprios escritores. O conceito de personagem ‒ que na sua origem grega significa máscara (persona) ‒ tão importante para Lévinas encontra na sua distinção à noção de rosto sua significação por excelência, pois, enquanto o personagem está envolvido por uma plasticidade ou forma ‒ que pode será beleza ‒ o rosto se encontra nu; enquanto o personagem significa a partir de um contexto, o rosto significa a partir de si mesmo. Também podemos melhor entender a proposição segundo a qual o psiquismo, e não a matéria, que traduz um princípio de individuação, pois, na literatura não dispomos de matéria embora, é verdade, os personagens possam ser constituídos na sua estrutura corporal ‒ é o caso, por exemplo, de Sansão.
desvelamento dessa vida interior ‒ do Outro ‒, porém, sempre corremos o risco de equívocos. É preciso que Outrem me fale. Esta vida interior, cuja realidade implica uma temporalidade própria ‒ e Levinas nos fala, por exemplo, da memória: “A memória como inversão do tempo histórico é a essência da interioridade” (LÉVINAS, 1980, p. 44)88 ‒ é um princípio de individuação. Assim, segundo esta leitura, a tentativa de desvelar o ente humano na sua totalidade se vê fracassada não por incapacidade do Mesmo, mas pela constituição mesma do Outro, pois, “é o psiquismo, e não a matéria, que traduz um princípio de individuação” (LÉVINAS, 1980, p. 46); e é esta individuação ‒ atestada pelo segredo ‒ que assegura a pluralidade.
Na segunda etapa de constituição da subjetividade, etapa propriamente ética e que é inaugurada pelo encontro com Outrem em que o Mesmo é arrancado desse gozo pelo encontro com o rosto de Outrem Levinas conclui a segunda seção de seu livro de 1961 fazendo a passagem de um sujeito egoísta a um sujeito responsável que procura fazer justiça ao Outro. Nesta etapa a separação é provocada, é um trauma porque o Outro questiona a posse do mundo; este questionamento já é um acontecimento ético porque arranca o Eu do seu egoísmo. De fato, não se trata de um evento que agrade o Eu (o Mesmo), porém, não tem mais retorno a si porque o si agora está fecundado pelo Outro: a miséria, o sofrimento, a vulnerabilidade expressas no rosto do Outro ‒ sua verdade ‒ é abertura para a justiça; a justiça se encontra do lado do Mesmo como resposta (discurso) desigual ao desejo de justiça do Outro que está nu, que tem fome e que traumatisa minha consciência; é acolhimento do Outro, ou bondade. É Outrem quem desperta a consciência do sujeito que, por esta razão, é consciência moral antes do que consciência teórica: é recepção antes que doação ‒ de sentido ‒ “É pela relação com outrem que minha razão ‘se esclarece’, se torna justa e torna-se sensata” (HERNÁNDEZ, 2009, p. 158)89.
Começamos por uma independência feliz, pelo egoísmo da vida, que se choca com obstáculos que é preciso superar e vencer. A existência ateia, fruindo da sua liberdade ‒ liberdade não justificada e portanto arbitrária ‒, encontra um fenômeno de uma outra ordem e de importância absolutamente particular: ela encontra um Outro enquanto rosto ‒ que irá investir sua liberdade com justiça ou resposta. Um ser exterior que ultrapassa infinitamente minha ideia dele se exprimindo e significando em si mesmo; nesta etapa o ser-aí levinasiano se converte em eis-me aqui respondendo ao apelo do Outro, responsável pelo Outro. Responsabilidade esta que individua o indivíduo. Mais, o faz refém do Outro; eleito.
88 “La mémoire comme inversion du temps historique est l’essence de l’intériorité” (LÉVINAS, 1974, p. 27). 89 “C’est par la relation avec autrui que ma raison ‘s’éclaire’, se rend juste et devient sensée”.
d) Vida interior e singularidade
A noção da separação é tão decisiva no pensamento de Levinas que Libertson (1981, p. 435) considera que a ética levinasiana “é uma ética da separação” e que poderia ser interpretada como uma ética da justiça, o que equivale a dizer que a separação traduz a