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Partindo do princípio de que os gêneros textuais, entre outros fatores, determinam-se e são determinados por interlocutores, analisamos quais os papéis que os enunciadores assumiam na interação social mediada por resenhas acadêmicas, seus lugares institucionais e para qual auditório esse tipo de texto se destinava. Embora pareça óbvio afirmar que os atores sociais habilitados para produção e recepção de resenhas acadêmicas da área disciplinar investigada fossem os especialistas da linguagem, procuramos, nesta seção, apresentar as especificidades dos sujeitos que tem interagido por meio deste gênero.

Desse modo, é preciso destacar que, logo no início de sua circulação, a produção de resenhas estava sob a incumbência de um pequeno número de estudiosos, tendo em vista que identificamos a atuação de apenas 13 resenhistas que versaram sobre obras vinculadas à área da Linguística no período de 17 anos que recobre a primeira fase geracional. A partir de um levantamento realizado unicamente nas edições das revistas publicadas nos anos em que coletamos exemplares para o corpus (cf. Quadro 8, p. 56), contabilizamos que, entre 1953 e 1970, foram veiculadas 77 resenhas acadêmicas. Esse número chama atenção na medida em que revela uma média de 5,9 resenhas por produtor. Tal índice indica que nessa geração havia uma espécie de exclusividade de enunciadores, uma vez que a grande maioria dos textos era de autoria dos mesmos resenhistas, com pouca variação entre uma edição e outra.

Essa tendência revela um traço característico dos enunciadores desse período, cujos primeiros sinais de mudança começaram a aparecer a partir da fase que concebemos como a segunda geração de resenhas acadêmicas, isto é, a partir de 1971. Dessa passagem de tempo em diante, o espaço que era tradicionalmente garantido aos mesmos redatores das seções de “Notas de Bibliografia e Crítica” foi se ampliando na medida em que novos estudiosos da linguagem despontavam com a inauguração e a consequente expansão da pós-graduação no Brasil. Juntamente com o advento de novos especialistas, uma série de transformações pôde ser evidenciada no quadro de interlocutores desse gênero que tem repercutido até mesmo nos exemplares mais recentes. Entre essas mudanças, destaca-se uma maior abertura para os novos enunciadores, uma vez que, a partir de então, as revistas passaram a veicular resenhas em uma proporção menor e com uma maior variedade de resenhistas, como verificamos ao constatar a

média de 1,0 textos para cada resenhista da segunda geração e da terceira geração, em contraste com a elevada média de 5,9 resenhas por resenhista na primeira fase geracional.

Além dos índices de produtividade por resenhistas em cada fase, também precisamos mencionar que, no tocante à formação profissional dos sujeitos na primeira geração, evidenciamos que a maioria dos enunciadores era composta por professores licenciados em Letras, embora também houvesse profissionais graduados em áreas como Direito e Arquitetura19. Seja entre os letrados ou os que tinham formação inicial em outro campo do conhecimento, todos os resenhistas da época ministravam aulas de língua materna e/ou estrangeira em universidades, escolas de educação básica ou cursos de idiomas e pareciam ser detentores de certo prestígio social e notoriedade nos círculos acadêmicos.

Entre os críticos desse período, podemos destacar personalidades que assumiram postos como de diretores de revistas científicas, professores brasileiros e estrangeiros, membros de academias de letras, pesquisadores de notório saber e uma minoria com titulação de doutorado. Embora saibamos que os princípios teórico-metodológicos do campo da Linguística já influenciavam boa parte da produção acadêmica da referida época, a maior parte dos estudiosos da linguagem de então se intitulava como filólogos. Por essa razão, tanto os resenhistas quanto os enunciatários desse gênero, assumiam seus papéis a partir da conjuntura que essa designação implicava. Isso pode ser ilustrado no exemplo a seguir, no qual o resenhista aprecia um trabalho que se propõe a investigar, sob a perspectiva da Linguística Geral, a fonologia do mirandês:

(Exemplo 12)

Esta obra de um dos filólogos mais abalizados da geração moça de Portugal deve ser recebida com caloroso júbilo por quantos se interessam pelos estudos da nossa língua. (R06_1959)

Nesse fragmento, observamos que o enunciador, a despeito de o autor do livro empreender um estudo vinculado teórica e metodologicamente à área da Linguística, não o enquadra na condição de linguista, mas sim de filólogo. Tal observação parece-nos revelar o fato já apontado por Altman (2009) de que o filólogo era detentor do estatuto socioprofissional que o validava a realizar pesquisas sobre a língua. A figura do linguista, até então, não havia se estabilizado e, por isso, ainda não tinha legitimidade acadêmica, tendo que concorrer por um espaço que até então era preenchido por pesquisadores vinculados a outra tradição teórica.

19 As informações obtidas a esse respeito foram encontradas em fontes como: notas de rodapé, revisão

Os coenunciadores, por conseguinte, também se constituíam, em grande parte, de estudiosos que assumiam a posição de filólogos. A julgar pelo fato de que a composição desse gênero implica a indicação de um público alvo para o livro examinado, acreditamos que a designação de leitores específicos nos dá pistas sobre para quem as obras e, possivelmente, as resenhas eram escritas, uma vez que consideramos, tal qual Pêcheux (1997, p. 82), que “o que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro”. Portanto, entendemos que a produção dos discursos está vinculada a uma espécie de jogo, no qual os efeitos de sentido são gerados a partir d as imagens que os interlocutores criam de seus parceiros.

O resenhista, desse modo, constrói seu texto projetando uma audiência para a resenha e indica um público alvo para a obra apreciada. Esse público alvo prescrito pelo enunciador pode, eventualmente, se configurar como leitor da resenha, uma vez que, além da recomendação do livro, alguns dos posicionamentos emitidos pelo enunciador sobre a publicação podem estar direcionados ao auditório que ele mesmo sugere como de possíveis leitores do livro. No entanto, essa coincidência entre leitor da resenha e leitor da obra é apenas possível e ocasional, uma vez que não encontramos evidências que comprovem a existência de uma relação direta e constitutiva entre o público leitor da resenha e o público prescrito pelo resenhista para o livro.

Nesse sentido, podemos dizer que os leitores das resenhas se configuram, principalmente, de outros especialistas da linguagem, sobretudo aqueles vinculados ao campo acadêmico. Esses enunciatários, quando estão de acordo com o posicionamento dos resenhistas, poderiam cumprir o papel de disseminar (ou não) a obra para o auditório recomendado. Em vista disso, constatamos que havia uma pluralidade de coenunciadores a qual as resenhas acadêmicas se remetiam em meados do século XX, como pode ser evidenciado a seguir:

(Exemplo 13)

A 2.a edição dos “Princípios de Lingüística Geral”, mais do que a 1.a, é obra

imprescindível a qualquer biblioteca especializada, necessária não só aos professôres de Português, mas aos professôres de qualquer língua, indispensável aos alunos das faculdades de letras, e a todos os não-especialistas ou curiosos que queiram ter uma visão ampla e nítida dos fenômenos lingüísticos. (R02_1954)

Percebemos, nesse exemplo, o ponto de vista do enunciador acerca de quem seria o público alvo ideal para a obra. Ao longo de nossa análise, pudemos identificar, como ilustrado em 13, que as obras da época eram recomendadas a professores da educação básica com formação na área de Letras; professores que ministravam aulas de língua portuguesa ou estrangeira que não tiveram formação acadêmica, ou que tiveram formação em outra área;

estudantes de línguas e, até mesmo, não especialistas interessados pelo assunto. Os leitores das resenhas, na condição de profissionais da área, portanto, auxiliariam a divulgar o trabalho junto ao público recomendado caso concordassem com a argumentação do resenhista.

No entanto, os coenunciadores não eram compostos apenas de leitores interessados na obra, haja vista que as resenhas também se dirigiam a outro interlocutor de destaque, a saber: o autor do livro. Na sequência, apontamos exemplos que ilustram essa afirmação:

(Exemplo 14)

Deveria o A. [Autor] tratar também da categoria de número, e não seria menosprezível abicar a origem da concordância. Indispensável em obra desta natureza é apreciar criticamente, com Henri Delacroix e Karl Bühler, a insuficiência da dicotomia saussureana língua e discurso. (R02_Letras_1954)

(Exemplo 15)

Submeto essas considerações a Herculano de Carvalho como uma modesta contribuição ao seu valioso estudo, e termino a presente Resenha com os votos de que em breve tenhamos os volumes seguintes. (R06_Letras_1959)

Essas porções textuais evidenciam que o produtor do livro constitui-se como um destinatário em potencial, uma vez que lhes são endereçadas sugestões, críticas, votos e elogios, que caracterizam uma interação entre ele e o resenhista. Tal constatação, aliás, nos leva a reavaliar a própria posição do enunciador desse gênero: ele não só discorre sobre a obra, nem apenas se atribui ao papel de mediador entre o assunto da publicação e um leitor interessado, mas projeta-se como um sujeito atuante, que se relaciona e interage de diferentes formas com os possíveis leitores de seu texto, incluindo, entre eles, o próprio autor do livro.

O papel ativo do resenhista pôde ser identificado nas três gerações, embora o perfil desses sujeitos não tenha permanecido o mesmo durante tal intervalo. Com a expansão da pós- graduação no Brasil, constatamos que os acadêmicos que passaram a escrever os textos publicados entre 1971 e 2000, isto é, a partir da segunda geração, tratavam-se, em sua maioria, de estudiosos com título de doutorado ou em processo de doutoramento. Em paralelo a essa mudança, é importante destacar que a interação social proporcionada por esse gênero fortaleceu o contato entre os cientistas da linguagem, haja vista que os próprios resenhistas mencionavam, recomendavam os livros e se posicionavam, cada vez mais, visando os membros da comunidade da área de Letras e Linguística que estavam vinculados ao ambiente universitário e, cada vez menos, os professores de outros níveis e modalidades de ensino. Nesse contexto, muitos estudiosos recém-formados buscavam legitimidade e se inserir na comunidade acadêmica.

Tal transformação pode ser evidenciada no excerto da resenha de uma edição da revista

época priorizasse a publicação de textos de autores renomados, novos pesquisadores buscavam e conseguiam, cada vez mais, construir seu espaço na academia. Vejamos:

(Exemplo 16)

Ao lado de tradicionais pesquisadores, há novos nomes assinando artigos. CONSTRUTORA (sic) mostra, assim, ser uma revista aberta a novos valores, o que é altamente importante num país em que a revista especializada, pela falta de tradição em pesquisa, torna-se um instrumento reservado quase que unicamente a pesquisadores renomados. (R18_1975)

Embora a época tenha sido marcada pela “falta de tradição em pesquisa” mencionada pelo resenhista, relata-se que a revista Construtura não dava exclusividade aos mesmos colaboradores. O fato de esse periódico aceitar trabalhos de pesquisadores novatos, na verdade, possivelmente revela uma abertura em relação à primeira geração já que os “tradicionais pesquisadores” que assinavam os textos passaram a compartilhar o espaço com “novos nomes” da área. Com efeito, essa característica sinalizaria uma ruptura com a fase anterior que, aliás, também pôde ser percebida nas revistas Letras e Alfa, que começaram a apresentar uma maior variedade de estudiosos assinando as resenhas a partir de 1970. Isso deve-se, sobretudo, a transformações no cenário acadêmico da época, visto que, conforme discutimos na seção anterior, foi justamente nessa época que novos pesquisadores começaram a ser formados.

Por outro lado, na medida em que se testemunhavam mudanças no perfil dos enunciadores, a audiência recomendada também passava por mudanças. Notamos que, em contraste com a geração anterior, os resenhistas deixaram de considerar que os estudiosos que não estavam diretamente vinculados ao campo científico, como professores da educação básica e não-especialistas, pudessem ser consumidores em potencial de publicações acadêmicas, haja vista que os livros apreciados na época eram recomendados apenas aos membros da comunidade acadêmica da área. Observa-se, assim, que, conforme a Linguística se consolidava como ciência e disciplina acadêmica no Brasil, a figura do linguista, como pesquisador, começava a inscrever e centralizar sua atuação no contexto universitário, ignorando as relações que poderiam ser estabelecidas com outros campos, interagindo apenas com seus pares.

Esse movimento remete ao que dizia Bourdieu (1983, p. 127) quando afirmou que “os produtores tendem, quanto maior for a autonomia do campo, a só ter como possíveis clientes seus próprios concorrentes”, já que só podem alcançar reputação e prestígio quando outros pesquisadores valorizam suas produções. Quanto a isso, deve-se considerar, também, o fato de que a Linguística como ciência foi erigida sob o paradigma de que a opinião dos não- especialistas era de pouca importância, pois, conforme critica Rajagopalan (2003, p. 24) “o

senso comum sempre foi tratado como um empecilho, algo a ser sumariamente descartado a fim de que a reflexão teórica pudesse ser conduzida de maneira livre”. Os estudiosos, portanto, parecem ter levado ao pé da letra o posicionamento saussuriano de que os não especialistas têm gerado ideias “absurdas, preconceitos, miragens, ficções” sobre a língua. Ignorava-se, por outro lado, que esse pesquisador havia alertado que “seria inadmissível que seu estudo [da Linguística] se tornasse exclusivo de alguns especialistas” (SAUSSURE, 2004, p. 14).

As reelaborações no quadro de interlocutores, portanto, não se constituíram apenas de mudanças nos posicionamentos dos enunciadores, mas também dizem respeito ao público alvo da obra resenhada. O auditório recomendado para o livro, portanto, passou a ser composto, majoritariamente, de estudiosos vinculados ao âmbito acadêmico. Isso pode ser atribuído, também, ao fato que um grande número de obras publicadas nessa época tinha como foco estudantes e professores universitários, revelando que boa parte das publicações da época era de interesse desse tipo de público, como podemos ver nos excertos destacados em 17 e 18:

(Exemplo 17)

Lingüística Textual: introdução destina-se a estudantes e professores do curso de Letras e áreas afins; dado o interesse que este novo ramo da Lingüística vem despertando [...]. Vem ela preencher uma lacuna, dada a escassa bibliografia em língua portuguesa sobre o assunto, dando oportunidade àqueles que não dominam suficientemente outros idiomas de ter acesso às teorias sobre o texto que vêm sendo desenvolvidas recentemente. (R22_1985)

(Exemplo 18)

A nosso ver, a obra aqui resenhada representa uma contribuição valiosa e pode ser considerada uma leitura obrigatória tanto para professores quanto para alunos de Prática de Ensino de Línguas. O caráter de oficina de trabalho, garantido pelas tarefas propostas ao final de cada capítulo, possibilita reflexões mais aprofundadas referentes à natureza social e educacional do processo ensino/aprendizagem de línguas (incluindo a língua materna). (R28, 1998)

Nesse sentido, entende-se que a recomendação leva em conta a natureza da obra resenhada. Não se trata, portanto, de uma decisão arbitrária do resenhista. No excerto 17, por exemplo, percebemos os enunciatários projetados pelos resenhistas para o livro tratavam-se de professores e alunos de graduação, bem como de pesquisadores que não dominam línguas estrangeiras e, por esse motivo, só podiam ter acesso a determinados conhecimentos através da discussão teórica realizada por brasileiros. Em 18 temos um fragmento da resenha do livro “Oficina de lingüística aplicada: a natureza social e educacional dos processos de ensino/aprendizagem de línguas”, no qual o resenhista considera essa publicação obrigatória para professores e alunos de Prática de Ensino de Línguas por se constituir como livro que pode

promover reflexão sobre o processo de ensino-aprendizagem de idiomas e, justamente por isso, é adequada a professores formadores e alunos em processo de formação docente.

Assim como nas demais fases geracionais, o quadro de interlocutores continuou passando por transformações no período entre 2000 e 2015, embora as mudanças identificadas não tenham sobrepujado as marcas de permanência que puderam ser evidenciadas. Desse modo, destacamos que, conforme o esperado, a interação social mediada por resenhas continuou contemplando interlocutores vinculados ao ambiente acadêmico, dando, inclusive, uma maior abertura para enunciadores com títulos de mestres, ou mesmo mestrandos. Por outro lado, essa tendência não manteve exatamente os mesmos contornos da fase anterior, haja vista que notamos a reintegração de um traço típico da primeira fase geracional a partir da recomendação do livro a destinatários que não estavam vinculados diretamente ao campo científico. Os dados da terceira geração revelam, assim, que o público alvo recomendado pelas resenhas mencionava tanto especialistas, quanto professores de nível escolar, como se observa em 19:

(Exemplo 19)

Seja para professores de Prática de Ensino, ou formadores de docentes, seja para os próprios docentes de línguas, o livro é uma grande contribuição, pois traz uma extensa bibliografia, comum a todos os artigos, que também serviu de base teórica para o curso e que, certamente, vai ajudar quem tem interesse em aprofundar-se na área da reflexão crítica. (R33_2003)

Esse exemplo ilustra a reintegração de uma característica típica dos dados da primeira geração, na medida em que recomenda o livro aos “docentes de línguas”, sem especificar em qual nível de ensino esses profissionais atuam, ao mesmo tempo em que o prescreve à uma audiência acadêmica, indicando que ele pode ser útil a “formadores de docentes”, isto é, aos professores universitários. Nesse caso, as resenhas atestam que parte da produção acadêmica da terceira fase geracional não tem levado em conta apenas os pesquisadores da linguagem como público alvo (como evidenciou-se na segunda geração). Entre os demais interessados que se destacam, percebemos que esse gênero passou a enfatizar, também, a relevância do livro para profissionais preocupados nas questões de linguagem que não estavam vinculados aos campos acadêmico e/ou escolar. O excerto a seguir pode ilustrar bem essa transformação:

(Exemplo 20)

Parece-nos evidente quanto esse livro nos é oportuno. Aos gerenciadores da educação e governos em geral, ele oferece, embora de forma breve, recursos para tentar modificar o status das línguas de minorias e, consequentemente, das respectivas comunidades. [...] Aos cursos de Letras, de graduação e pós-graduação, a contribuição

é não só teórica, metodológica e de objeto de estudo, mas também de apontar que o linguista pode assessorar os governos federal, estaduais ou municipais. (R39_2009).

O fragmento, extraído da resenha do livro Políticas Linguísticas de Louis-Jean Calvet, mostra o posicionamento de que, além de habilitados a discutir questões sobre o uso e o funcionamento da linguagem e mediar reflexões sobre o ensino, os linguistas deveriam assumir seu lugar como especialistas que podem oferecer auxílio profissional a entidades ligadas ao governo no tocante às demandas políticas subjacentes ao tratamento das línguas. Nota-se, com isso, a figura do linguista ganhar novos contornos na medida em que busca interagir com interlocutores que estão em lugares institucionais externos às esferas acadêmicas e escolares. Com essa postura, percebemos uma nova posição ser assumida pelos linguistas da época. A partir do enunciado 20, percebe-se que, diferentemente da primeira geração, em que os estudiosos da linguagem se enquadravam no rótulo opaco de filólogos, nos anos 2000, os linguistas passaram a interagir com camadas da sociedade que não contavam com sua colaboração e revelavam o desejo de que sua voz pudesse ser ouvida em outros espaços, de modo a ampliar as possibilidades de diálogo entre sua comunidade e outros setores.

Percebendo que sua atuação se restringia de modo quase exclusivo ao ambiente acadêmico, os linguistas parecem se dar conta do descrédito social de sua classe, uma vez que ela não era reconhecida pelo grande público e nem detinha poder de influência na formação de opiniões no que toca a questões relacionadas a políticas linguísticas e ao funcionamento e uso da linguagem de maneira geral. Tal movimento pôde ser identificado nas resenhas acadêmicas que compõem a base de dados da terceira geração, sobretudo conforme se observa no excerto 21 que discute sobre o papel do linguista frente ao Projeto de Lei n.º 1676 de 1999, de autoria do então deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP), que visava promover, defender e proteger a língua