2.2 A Representação Descritiva
2.2.1 Normas de Descrição de Documentos de Bibliotecas
2.2.1.1 International Standard Bibliographic Description – ISBD
A International Standard Bibliographic Description – ISBD, teve sua origem na necessidade de padronização e maior uniformidade na catalogação descritiva. As ISBDs criaram uma linguagem catalográfica universal que ajuda a comunicação internacional de informação bibliográfica, independente do idioma em que um documento é publicado.
São valiosas ferramentas de gestão para as bibliotecas, pois fornecem as especificações básicas para uma descrição bibliográfica compatível em nível mundial, o que permite e facilita o intercâmbio de registros bibliográficos entre agências bibliográficas nacionais e internacionais. Consiste numa estrutura normalizada que individualiza cada elemento descritivo, colocado em áreas/zonas, a fim de descrever e identificar qualquer tipo de recurso informacional, seguindo uma ordem e um sistema de pontuação prescrito.
Após a já mencionada Conferência de Paris (1961), foram apresentados os problemas gerais da catalogação, e estabeleceram-se os primeiros fundamentos de todas as normas e regras de catalogação a serem aplicadas internacionalmente, particularmente no que se refere aos pontos de acesso para recuperação da informação. Isso provocou a modificação de vários códigos, aos quais foram incorporadas as recomendações da Conferência.
Em 1967, a Alemanha substituiu as Instruções prussianas pelas Regeln fur die alfabetische Katalogisierung (RAK) – Regras para a catalogação alfabética. Ainda em 1967, publicou-se a primeira edição das Anglo-American cataloging rules (AACR) – Regras de catalogação anglo-americanas, em trabalho conjunto da ALA, Canadian Library Association e Library Association (Inglaterra), embora tenham sido publicadas duas versões: uma inglesa e outra norte-americana (ver 1.1).
Em Portugal, em 1969, a publicação dos Trabalhos Preparatórios das Regras Portuguesas de Catalogação, que foram publicados pela Direcção-Geral do Ensino Superior, como separata do boletim “Bibliotecas e arquivos”.
No Brasil, algumas tentativas de se estabelecer um código brasileiro foram infrutíferas, o que se adotou na verdade pelas escolas de Biblioteconomia e pelos bibliotecários brasileiros foram as AACR, principalmente depois de sua tradução para o português em 1969. Entretanto, isso acarretou vários problemas, devido à falta de clareza do texto e à ausência de exemplos adequados, que contribuíam para interpretações variadas quanto à aplicação de suas regras (BARBOSA, 1978, p. 57).
Em 1969, na Reunião Internacional de Especialistas em Catalogação – RIEC, Michael Gorman, conceituado pesquisador norte-americano, autor de vários livros sobre catalogação, apresentou um levantamento que foi transformado em
documento base28. Gorman fundamentou-se em oito bibliografias nacionais para elaborar esse documento (ver nota de rodapé nº.12). Foram vários os motivos que levaram à realização da RIEC, mas o principal deles foi a normalização da forma e conteúdo da descrição bibliográfica.
Mey (1987) lembra não ter havido, na criação das ISBDs, qualquer preocupação de natureza teórica, e sim um estudo comparativo das práticas adotadas. Segundo Gorman (1969) citado por Mey (1978, p. 33), “ […] meu propósito não será voltar a princípios fundamentais, mas descobrir que elementos de uma entrada catalográfica são considerados necessários em uma amostra representativa de órgãos catalogadores nacionais”.
Foi assim, que surgiu, dois anos depois, em 1971, o primeiro texto da International Standard Bibliographic Description for Monographic Publications – ISBD(M), redigido conforme as resoluções que foram definidas na RIEC.
Os códigos de catalogação, nacionais e internacionais e as Regras Portuguesas de Catalogação – RPC consideram a catalogação no seu sentido amplo, isto é, determinam regras para a descrição bibliográfica e para o estabelecimento dos pontos de acesso de autores e títulos. Entretanto, as ISBDs consideram a catalogação somente no seu sentido restrito, ou seja, a representação descritiva do documento e prescrevem as fontes que fornecem os elementos que devem ser incluídos na descrição, a ordem desses elementos e a pontuação que os separa e identifica; estabelecem, ainda, os procedimentos relativos à omissão ou inclusão de dados por parte do profissional responsável pela catalogação, sempre tendo em vista a política que regula as questões relativas à catalogação dos documentos.
O principal objetivo das ISBDs é o de fornecer uma estrutura de descrição que seja flexível o bastante para permitir adaptações às práticas e políticas, particulares de cada instituição no que concerne à catalogação, entretanto, com precisão suficiente para eliminar ambiguidades, possibilitar o intercâmbio de informação proveniente de fontes e em diferentes línguas,e propiciar a conversão de registros bibliográficos em formas legíveis por máquina.
Existem diferentes ISBDs, conforme os tipos de documentos a que se destinem. A primeira ISBD a ser desenvolvida foi a ISBD(M), relativa à descrição de
28GORMAN, Michael. Bibliographical data in national bibliography entries. [S.l.], 1969. 23p.
monografias. Ainda sob a forma de Recomendações, o primeiro texto da ISBD(M) foi publicado em 1971, e a primeira edição em 1974, contemplava as alterações introduzidas pelos três anos de experiência em vários países.
A evolução das tecnologias de informação e telecomunicação impulsionou o surgimento de novos suportes da informação. As coleções das bibliotecas, arquivos e outras unidades similares passaram a receber novos suportes informacionais. Durante os anos que se seguiram à publicação da ISBD(M), foram muitas as propostas de se adotar a ISBD para outros tipos de documentos, o que obrigou as entidades responsáveis pelas ISBDs a criarem urgentemente normas internacionais de descrição para documentos armazenados nas bibliotecas, mas para os quais a ISBD(M) se mostrava inadequada.
Tal situação levou a se pensar numa norma internacional geral, na qual todas as futuras normas internacionais de descrição bibliográfica se baseassem, mas que fosse coerente com a norma específica já existente para a descrição de monografias, a ISBD(M). Foi assim que, em Outubro de 1975, reuniram-se em Paris os representantes das comissões e dos grupos de trabalho da FIAB relacionados com o desenvolvimento das ISBDs e o Joint Steering Committee for Revision of AACR – JSCAACR, com a finalidade de discutirem a possibilidade de se desenvolver uma estrutura geral para a ISBD, de modo a abranger qualquer tipo de material existente em bibliotecas.
Destas discussões surgiu, em 1977, a General International Standard Bibliographic Description – ISBD(G) destinada aos diversos grupos de trabalho encarregados de formular outras ISBDs. A ISBD(G) assegura uma estrutura padrão para todas as outras ISBDs.
Ainda no decorrer de 1977, foram publicadas outras normas internacionais de descrição bibliográfica: para publicações em série – International Standard Bibliographic Description for Serials – ISBD(S), para documentos cartográficos, International Standard Bibliographic Description for Cartographic Material – ISBD(CM) e para material não-livro (gráfico, sonoro e audiovisual) a International Standard Bibliographic Description for Non Book Material – ISBD(NBM). Dez anos depois, em 1987 foram publicadas as edições revistas da ISBD(M), da ISBD(CM), e da ISBD(NBM), em 1988 a edição revista da ISBD(S), no mesmo ano as orientações para a aplicação das ISBDs à descrição de partes componentes – Guidelines for the application of the ISBDs to the description of
component parts – e, em 1991, a edição revista da International Standard Bibliographic description for older monographic publications (Antiquarian) – ISBD(A), cuja primeira edição foi publicada 1980.
Uma outra norma existente é a Norma Internacional de Descrição Bibliográfica para Música Impressa a International Standard Bibliographic Description for Printed Music - ISBD(PM), que visa descrever os documentos musicais impressos – partituras de qualquer tipo – e ainda os métodos, os estudos, os exercícios as edições fac-similadas de manuscritos musicais. Esta norma não abrange tratados de teoria musical, manuais de solfejo e harmonia, manuais de auto-aprendizagem, manuais escolares da disciplina de música e livros sobre música em geral. Estes devem ser descritos usando a norma para monografias.
A International Standard Bibliographic Description for Electronic Resources - ISBD(ER), resulta da revisão da primeira edição da International Standard Bibliographic Description for Computer File – ISBD(CF), publicada em 1990. As alterações introduzidas entretanto, definiram a nova edição da ISBD(ER), em 1997.
Os constantes e importantes avanços no formato eletrônico e na difusão de publicações em série estimularam a IFLA, a partir de 1998, a rever todas as ISBDs, em particular a ISBD(G) (uma vez que ela influencia as demais) e da ISBD(S) com a finalidade de substituí-la por uma norma internacional, destinada a descrever todas as publicações periódicas tradicionais e eletrônicas. Trata-se da International Standard Bibliographic Description for Serials and Other Continuing Resources – ISBD(CR) (Descrição Bibliográfica Internacional Normalizada das Publicações em Série e de Outros Recursos Contínuos) que foi publicada em 2002. No mesmo ano, saiu a revisão da ISBD(M). A ISBD(G) foi publicada em 2004, somente na Internet, tendo em vista a necessidade de constantes revisões.
Foi publicada, recentemente (2007) pela IFLA, a International Standard Bibliographic Description – ISBD29 aprovada pelo Comitê Permanente da IFLA - Seção de Catalogação. Esta edição da ISBD é uma versão consolidada que unifica os textos de sete ISBDs especializadas (livros, mapas, publicações em série, música e sons, arquivos de computador e outros recursos eletrônicos) num único texto.
29IFLA. ISBD Review Group International Standard Bibliographic Description (ISBD). approved
by the Standing Committee of the IFLA Cataloguing Section. Preliminary consolidated ed. Munchen : K.G. Saur, 2007. 1 v. (IFLA series on bibliographic control; v. 31).
Desta maneira, partir de então, termina a utilização de letras a especificar as ISBD(G, NBM, S, CM, A, PM, ER), passando a utilizar-se apenas uma norma. Esta norma de descrição dos documentos aplica-se a texto impresso, recursos cartográficos, recursos eletrônicos, imagens em movimento, recursos multimídia, recursos de música impressa e imagens fixas.
A designação dos elementos obrigatórios da ISBD foi interposta em conformidade com os requisitos de um nível básico nacional de registro bibliográfico, conforme determinado pela Functional Requirements for Bibliographic Records - FRBR.
A partir de agora, as regras nacionais de catalogação terão de ser revistas e adaptadas de acordo com as normas internacionais.