As constantes mudanças e avanços que ocorrem no mundo contemporâneo implicaram em pensarmos uma nova etnografia que possa, por consequência, acompanhar as mudanças que conduzem a sociedade em diferentes níveis. Por isso, reflito sobre a internet como um espaço de socialização, o que permite que essa esfera possa ser compreendida como um campo a ser estudado. Assim, junto com a popularização da internet, ainda nos anos 90, surge um novo processo de pensar e fazer etnografia. Uma nova etnografia que conseguisse abarcar a profundidade do campo que surgia junto a sites, blogs e fóruns digitais.
Neste trabalho, a questão da internet enquanto um campo de estudos para as pesquisas etnográficas se torna algo fundamental. Logo, seguindo os trajetos indicados pela pesquisa foi possível deparar-me com o campo digital e os demais cenários on-line em que os jovens estão inseridos. A conexão e as mídias digitais tornam-se espaços essenciais para a construção e manutenção dos circuitos de sociabilidade juvenis. Ser jovem no contexto contemporâneo está permeado pela presença da internet e dos smartphones na construção social desses indivíduos. Por fim, é necessário estabelecer uma discussão sobre a instauração dos cenários digitais enquanto campo de estudos para a pesquisa etnográfica.
Para essa reflexão, a principal autora a qual me afilio é Christine Hine (2000, 2015, 2016) uma das principais referências nos estudos sobre etnografia no campo virtual, e cujo este subcapítulo inspira-se no livro ―Ethnography for the Internet‖35, lançado em 2015. A autora reflete sobre a internet através das suas texturas sociais que surgem por meio das relações sociais que acontecem no espaço virtual (HINE, 2015). Devido a sua presença constante na vida de inúmeros indivíduos, a internet influenciou diferentes modos de interação social e no modo de comportamento, o que representa novas possibilidades de estudos e, ao mesmo tempo, um conjunto de desafios. Logo, o pesquisador que vir a estudar essas questões deve estar atento à construção do seu percurso etnográfico.
Consequentemente, é necessário retomar ao termo etnografia, repensando as terminologias que foram criadas com os diferentes formatos de pesquisa que surgiram, como:
etnografia virtual, netnografia e entre outros que representam diferentes filiações e perspectivas teóricas (FRAGOSO; RECUERO; AMARAL, 2011). Portanto, é necessário pensar uma etnografia para internet, e não da internet (HINE, 2015). Refletir sobre a rede mundial de computadores da atualidade é pensar diferente da internet de cinco anos atrás, quem dirá de quinze, vinte anos. Esse novo fazer etnográfico não implica segregar o ambiente
on-line do off-line, mas pensar as suas peculiaridades que estão em aproximação.
Enfatizo que não existe um afastamento do mundo real através do virtual, nem mesmo a possibilidade de ser outra pessoa totalmente diferente no mundo on-line, como pensavam os antigos romancistas do gênero cyberpunk (HINE, 2015). Assim, refletir sobre a internet contemporânea é ponderar sobre um em campo incorporado, corporificado e cotidiano36 (Ibid., 2015). Os desafios de um novo fazer etnográfico estão postos à mesa, logo, a etnografia para internet deve saber lidar com pontos inexplorados, novos campos e infinitas possibilidades que cercam o cenário digital.
A etnografia não apresenta um conjunto fixo de práticas e precauções os quais o pesquisador deve tomar (VELHO, 2003; HINE, 2015). Por isso, é importante se inspirar em uma série de outros estudos etnográficos, além de refletir sobre os obstáculos e possíveis adaptações que a abordagem etnográfica pode vir a encarar. A internet contemporânea deve ser vista como um artefato cultural incorporado, corporificado e cotidiano capaz de atuar no modo em que ocorrem as relações pessoais dentro e fora do espaço virtual. Desta forma, o percurso etnográfico pode auxiliar na análise e exploração desse conjunto de atividades. Por fim, o seguinte quadro (Quadro 1) traz uma breve descrição a fim de elucidar as três particularidades da internet contemporânea, segundo Hine (2015).
Quadro 1 – Características da Internet Contemporânea, segundo Christine Hine.
(continua)
Internet cotidiana Descrição
Incorporada A internet incorporada é o processo ao qual a esfera digital se torna ―entrelaçada em uso com múltiplas formas de contexto e estruturas de produção de sentido‖ [tradução nossa] (HINE, 2015, p. 33).
Quadro 1 – Características da Internet Contemporânea, segundo Christine Hine.
(conclusão) Dessa forma, é importante observar como a internet acaba sendo incorporada aos modos de nos relacionarmos –, transformando o discurso e a linguagem que usamos dentro e fora do espaço digital. Por isso, é preciso compreender a rede mundial de computadores como um artefato cultural plural que é construído através dos usos e apropriações de diferentes grupos. (HINE, 2015, p. 36).
Corporificada A corporificação da internet diz respeito às experiências do ambiente digital as quais se tornam integradas aos sentidos humanos. Logo, a concepção de que o ciberespaço permitiria que a experiência digital fosse vivida além do corpo é superada, transformando-se em um mito frente às particularidades da internet corporificada. O fato de desenvolver uma identidade virtual é uma consequência inseparável das experiências vividas através do corpo físico.
Em suma, a internet corporificada potencializa as vivencias de usuários em diferentes formas, assim, jogos e vídeos de caráter imersivo proporcionam o aumento dessa experiência. A imersão dentro do espaço virtual permite que essas mídias possam atuar na forma em que interagimos no nível da internet, além de proporcionar vivências que ultrapassam as experiências da uma realidade corporal.
Cotidiana A internet mundana é o processo o qual a web pode,
notavelmente, desaparecer da vida cotidiana se tornando uma infraestrutura invisível que atua na construção de significados para as atividades humanas (HINE, 2015). Essa estrutura torna-se invisível quando permitirmos que ela se configure em parte da vida cotidiana – transformando-se num fenômeno cultural capaz de atuar e interagir com as relações sociais, políticas, condutas econômicas e etc. (HINE, 2015).
Frente aos avanços tecnológicos e comunicacionais, os desafios para uma etnografia para a internet se mostram evidentes. Logo, é tarefa do etnógrafo superar essas questões através da estruturação de um percurso etnográfico que possa refletir sobre os futuros obstáculos que o pesquisador deve encontrar em campo. Assim, o pesquisador deve saber traçar estratégias que possam auxiliá-lo com algumas das particularidades do campo virtual. Portanto, é necessário estar sempre atento a questões de participação, imersão e campo. A participação viabiliza o etnógrafo observar os acontecimentos em detalhes, porém, confiando em retrospectos seletivos. Essa técnica oferece a possibilidade de compreender, em profundo nível, as emoções e os entendimentos corporificados das atividades dos indivíduos, indo além do nível verbal que está presente nas contas e perfis dos indivíduos conectados. (HINE, 2015).
Desta forma, através da participação é possível refletir sobre a imersão do pesquisador no campo estudado, o que permite o contato direto com os participantes e a exposição prolongada do etnógrafo no campo. Este recurso propicia um vasto processo de interpretações a serem discutidas sobre as práticas dos participantes da pesquisa. De todo modo, essa metodologia configura uma oportunidade de revisar as categorias teóricas, além de redefinir os marcos de análise (HINE, 2015). Porém, frente às particularidades da internet contemporânea é necessário repensar o conceito de imersão prolongada ao compasso das experiências que são mediadas e ocorrem no espaço virtual. (HINE, 2015).
Após a concepção da etnografia como uma abordagem imersiva e participativa é necessário que o pesquisador possa adquirir um senso de localização e capacidade de sselecionar as atividades e percursos apropriados para a sua pesquisa (HINE, 2015). É importante o etnógrafo saber transpor limites para o campo da etnografia para internet. Portanto, é necessário localizar a sua área de atuação e compreende-la como um campo multilocalizado, híbrido e difuso, podendo apresentar diversos deslocamentos e dinâmicas. A escolha do campo é determinante devido a sua função no processo de construção da identidade do antropólogo. Por fim, esse complexo conjunto de particularidas é o que permite o pesquisador superar as dificuldades presentes no campo da etnografia para internet.
De todo modo, é preciso discutir sobre o cenário da pesquisa na esfera digital, justamente, porque um dos objetivos específicos deste trabalho busca acompanhar as dinâmicas sociais dos participantes em suas redes sociais digitais. Nesse sentido, enxergo essas plataformas como um campo etnográfico repleto de questões a serem abordadas e seguidas. A internet surge como um ponto a ser visualizado devido a sua incorporação no tecido social desses jovens e também pela constante movimentação de publicações e atividades digitais que foram percebidas em redes sociais, como Facebook e Instagram.
Enfim, o etnógrafo deve atentar aos novos desafios que se configuram frente aos novos modos de se fazer etnografia no campo da internet. Saliento que não existem receitas para a abordagem etnográfica (VELHO 2003). Assim, a etnografia é um percurso que também é composto pela tentativa e pelo erro (MILLER et al., 2016). Portanto, ao longo desse capítulo, busquei trazer algumas das carcaterísticas dessa abordagem a fim de apresentá-la e caracterizá-la pelos seus caminhos metodológicos.
5 SMARTPHONES E PRÁTICAS DE SOCIABILIDADE JUVENIS
Hey! stay young and invincible Cos we know just what we are And come what may my faith's unshakable Cos we know just what we are37
(OASIS, 1997)
37 Ei! fique jovem e invencível, porque nós sabemos o que somos, e venha, talvez sejamos impossíveis de parar.