7 A NOVA FORMA DE LER: LIVROS ELETRÔNICOS
7.2 A INTERNET E A CULTURA DO COMPARTILHAR
A convergência das tecnologias da informação e comunicação com a internet vem, paulatinamente, eliminando os limites entre os meios de comunicação e informação e estreitando as fronteiras entre diferentes tipos de artefatos intelectuais e serviços informativos e culturais, agregando recursos de som, vídeo, texto, imagens. Esta profusão de artefatos tecnológicos amplia as possibilidades de acesso e uso da informação pela sociedade.
A internet vem permitindo o rompimento de barreiras geográficas por meio da livre circulação da informação, do surgimento do suporte digital, das bibliotecas virtuais ou digitais e dos Livros Eletrônicos. De acordo com Benício e Silva (2005), a internet auxilia na comunicação, na elaboração de novos conhecimentos e na estruturação de nosso pensamento, disponibilizando uma quantidade infinita de informações ao usuário, além da liberdade de selecioná-la e usá-la, gerando novas possibilidades cognitivas. ―A internet permite extrapolar a informação impressa, disponibilizando-a em novos suportes informacionais – o suporte digital – e, com isto, ocasionando uma nova realidade, uma nova cultura, a cultura digital‖. (DOURADO, 2012, f. 31)
O surgimento da microinformática e da internet estão atrelados à ideia de democratização da informação, através de sua descentralização (LEVY, 1999; LEMOS, 2007). Contudo, segundo Zanetti (2011), nem todas as formas de partilha – e nem todo o conteúdo intercambiado foram legitimadas de antemão. Segundo a autora
[...] os ―desvios‖ e as apropriações livres que ajudaram a configurar o atual estágio da cibercultura. Antes fragmentado e muitas vezes considerado ―indomável‖, o ato de intercambiar qualquer tipo de conteúdo na Internet foi
sendo cada vez mais estimulado à medida que foi se tornando mais ―organizado‖, sistematizado. (ZANETTI, 2011, p. 61)
Segundo Lévy, as novas tecnologias surgem como a infraestrutura do ciberespaço, que por sua vez, se constitui em um novo espaço de comunicação, de sociabilidade, de organização, de transação e mercado da informação e do conhecimento. Para o autor, o desenvolvimento do digital é sistematizante e universalizante não apenas em si mesmo, mas também, em segundo plano, ―a serviço de outros fenômenos tecnossociais que tendem à integração mundial: finanças, comércio, pesquisa científica, mídias, transportes, produção industrial etc.‖ (LÉVY, 1999, p. 113).
Em síntese, de acordo com Zanetti (2011) o advento das mídias digitais promoveu o surgimento de novos padrões de compreensão dos processos comunicacionais e de novas formas de sociabilidade que incorporam a noção de ―cultura‖. Surgem termos como ―cultura digital‖, ―cibercultura‖, ―cultura da mobilidade‖ (SANTAELLA, 2003) e ―cultura da convergência‖ (JENKINS, 2008). Esses termos fazem alusão à tecnologia e demonstram o impacto que as tecnologias digitais ocasionam no cotidiano dos indivíduos, provocando mudanças nos hábitos culturais da sociedade.
O fenômeno da convergência contribui para a efetivação da cultura do compartilhamento. Uma das principais características da comunicação na atualidade é seu caráter híbrido e hipermidiático: as chamadas novas mídias se caracterizam, entre outros aspectos, por serem convergentes, multimodais, globais e em rede, circulando por meio de diferentes plataformas (MANOVICH, 2001).
Compartilhar significa ―participar de algo‖, ―tomar parte em alguma coisa‖, e também partilhar, dividir com outros. Indiretamente, nos remete às práticas instauradas pelas redes sociais na Internet de socialização de conteúdos on- line e amplamente difundidas na rede. Sites e blogs considerados mais ―interativos‖ têm sido aqueles que disponibilizam de modo mais acessível ferramentas para compartilhamento nas principais redes sociais ou mesmo por correio eletrônico. O link ―recomendar‖ associado ao ícone do Facebook; o link ―enviar para um amigo‖ com o ícone de uma carta; o link “share” (compartilhar) associado a mais de uma dezena de opões de redes sociais e outras ferramentas de envio de conteúdo são os elementos mais evidentes desta tendência. [...] A ideia de compartilhar está na essência da própria produção colaborativa que torna possível a existência da Wikipédia e dos sites de jornalismo participativo, por exemplo, concretizados com o advento da segunda geração da Internet. (ZANETTI, 2011, p. 62; 65)
Portanto, a noção de ―cultura do compartilhamento‖, diz respeito não apenas ao aparato tecnológico que possibilita a sistematização de práticas de produção, distribuição e
intercâmbio de conteúdos digitalizados, mas também à incorporação dessas práticas pelos sujeitos sociais. Trata-se de um modo de sociabilidade resultante da convergência entre vários aspectos do campo da cibercultura (ZANETTI, 2011, p. 61).
A cultura do compartilhamento possui raízes no conceito de inteligência coletiva de Pierre Lévy (2000). Tal conceito, segundo o autor, pressupõe a distribuição não hierarquizada de saberes e conhecimentos por meio da mobilização das mais variadas competências em comunidades virtuais. Dessa forma o ―ciberespaço tornar-se-ia o espaço móvel das interações entre conhecimentos e conhecedores de coletivos inteligentes desterritorializados‖ (LÉVY, 2000, p. 29). Ora, qualquer discurso atual em torno do fenômeno das mídias sociais na Internet se sustenta nessa premissa (ZANETTI, 2011, p. 63).
A cultura do compartilhamento se evidencia com a confluência da Web 2.0 e das redes sociais, onde sua prática é legitimada. Segundo Thompson, a Web 2.0 se caracteriza, entre outros aspectos, pela ―disponibilidade crescente de ferramentas para gravar, manipular e publicar conteúdo‖ (2008, p.112). A Web 2.0 possibilita não somente acesso aos conteúdos multimídia, mas permite também que usuários produzam, classifiquem, distribuam e redistribuam as informações de maneira mais fácil e rápida.
A lógica do compartilhamento estaria calcada na ideia de contribuição, que tem como principal ―mote‖ a partilha de conteúdo para ser disponibilizado às outras pessoas. É essa atitude que está na essência de plataformas como Facebook, Flickr, Youtube, Myspace ou Soundcloud, mas também já se tornou uma exigência em sites corporativos, portais de informação e mesmo blogs amadores. (ZANETTI, 2011, p. 65)
As tecnologias de telefonia móvel aliadas às redes sem fio (Wi-Fi), possibilitam, segundo Lemos (2010), que os indivíduos tenham uma nova relação espaço-tempo, se for considerada a hibridização entre territórios físicos e territórios informacionais, o que é cada vez mais proeminente através das chamadas mídias locativas. ―A informação eletrônica passa a ser acessada e distribuída de todo e qualquer lugar, a partir dos mais diferentes objetos e dispositivos. O ciberespaço começa, assim, a ―baixar‖ para coisas e lugares, a ―pingar‖ no ―mundo real‖ (LEMOS, 2005, p.163).
Portanto, a cultura do compartilhamento possibilita novas formas de socialização que situam os sujeitos a partir do ciberespaço, apesar da sua virtualidade, na realidade cada vez mais envolvida na partilha de conteúdos, introduzindo-os num espaço físico de decisão e regulação pelas normas jurídicas, que se veem em tensão com estas novas mobilidades sociais. Mas, esbarra muitas vezes nos marcos regulatórios dos Direitos Autorais, porque
compartilhar sem a devida autorização um conteúdo pode significar reprodução deste, de forma ilegal.
7.3O QUE É O MARCO CIVIL DA INTERNET E A QUESTÃO DOS DIREITOS