CAPÍTULO 5: A TELA NA ESCOLA: CONTRIBUIÇÕES E LIMITES DA MONITORIA
5.3 Usos e práticas no laboratório de Informática da EEMB 167
5.3.1 Internet na escola: a “nova biblioteca” 168
A pesquisa através da Internet é a atividade mais presente no uso das tecnologias digitais na EEMB. Alunos e professores de Educação Física utilizam nesse recurso de pesquisa na elaboração de trabalhos escolares.
Quando a gente vai [para o laboratório de informática], normalmente, a gente usa
mais é site de pesquisa. (Elismar, monitor).
Eu utilizo principalmente a Internet e o Word. A Internet para fazer pesquisa e o Word para fazer digitação e construção do trabalho. (Pedro, professor)
Para um dos monitores, utilizar o laboratório de informática para fazer pesquisa é uma maneira de despertar o interesse dos alunos, descreve, inclusive, do que gostaria que a
55,7 26 3,7 2 1,2 0,8 10,6 0 10 20 30 40 50 60 Acessar Internet Ouvir música Fazer apresentação em aulas Consultar base de dados Fazer demonstração em aula Jogar Não sabe avaliar
professora ou o professor falasse na sala de aula.
Porque se a gente precisar fazer um trabalho, como a gente já precisou fazer. E olha, as aulas ficariam bem mais interessantes. Eu acho que despertaria o interesse dos alunos em assistir as aulas, né? Você chegar na sala de aula e falar: - “Olha gente! Hoje a gente vai para a sala de informática. Nos vamos fazer um trabalho como pesquisa na internet, vai ser assim.” Eu acho que o aluno ficaria mais animado, veria que a escola está se interessando por ele, né? Mais pelo aprendizado dele. Seria muito melhor para todo mundo! (Rommel, monitor)
Esse ponto de vista lembra que “como produção humana, como cultura, as tecnologias são parte da herança cultura da humanidade e, assim sendo, não podem estar fora da escola. Seu lugar é também dentro da escola” (TOSCHI, 2002, p. 271). Na opinião do monitor, envolver os alunos em atividades de pesquisa com essa ferramenta é uma maneira da escola se mostrar interessada pelo seu aprendizado, permitindo que a tecnologia faça parte do ambiente de aprendizagem.
A pesquisa na Internet garante um trabalho com informações mais atualizadas, na visão dos monitores, e vem substituir a pesquisa na biblioteca da escola. Ao falar sobre o que mudou na escola a partir do uso mais freqüente do laboratório de Informática, assim se manifestou um monitor:
Mudou bastante. Há algum tempo atrás, você não poderia [fazer pesquisa] pela
manhã. Aí, você teria que ir a uma biblioteca de outra escola particular, no caso, que tem a biblioteca do IFA ou a biblioteca da faculdade. Você teria que sair de sua casa, se deslocar até essa biblioteca para fazer o seu trabalho. A própria escola agora tem uma biblioteca, apesar de que não está funcionando, né? Mas, tem a sala de informática que você pode usar como uma biblioteca para fazer seus trabalhos. (Luclésio, monitor)
O uso do laboratório para pesquisa veio solucionar um problema na escola que é a falta de funcionários para se responsabilizar com a biblioteca na escola, mantendo-a permanentemente aberta aos alunos e professores. A fala do monitor esclarece os dados do questionário que apontam a procura por bibliotecas de outras escolas para a realização de pesquisas solicitadas pelos professores.
Realmente a Internet oferece ilimitadas fontes de informações, permite o acesso a bases de dados que seriam difíceis para os alunos de uma escola pública que, na maioria das vezes, possuem bibliotecas com acervos reduzidos e, geralmente, desatualizados. No entanto, a pesquisa através da Internet tem suas características próprias, que fazem com que o aluno tenha de aprender a separar o que é útil do inútil à sua pesquisa, conhecer bases de dados fidedignos e selecionar criticamente o material da pesquisa.
Para Moran (2000), devido ao deslubramento com tantas informações no momento de pesquisar, os alunos por achar mais atraente navegar na descoberta de novidades do que analisá-las, compará-las, observar as idéias importantes e as superficiais. Esse comportamento reforça
uma atitude consumista dos jovens diante da produção cultural audiovisual. Ver equivale, na cabeça de muitos, a compreender, e há um certo ver superficial, rápido, guloso, sem o devido tempo de reflexão, de aprofundamento, de cotejamento com outras leitura. (MORAN, 2000, p.53)
Concomitante com as diversas possibilidades de pesquisa na rede, presenciamos que
os alunos se vêem ainda às voltas com pesquisas que pouco ou nada lhes significam. E assim, sem que os referenciais se alterem, acaba surgindo apenas a mais nova fonte para a cola ou plágio – a Internet. No novo cenário, apenas um novo personagem – a cola eletrônica, a e-cola. Essa nova forma de plágio, que exige
pouco esforço e é geometricamente mais poderosa (Mckenzie, 2000), preocupa educadores, em todos os níveis, em muitos lugares. (MARINHO, 2000, p.2)
Nesse sentido, os monitores admitem ser necessário ter alguns cuidados com as pesquisas realizadas na Internet e trazem para a pauta da discussão o que é pesquisa na escola. Copiar trechos de livros (pesquisa tradicional) ou imprimir páginas copiadas da Internet pode ser considerado pesquisa?
Isaque: Você tem Internet. Você está precisando de um trabalho rápido, você tem 10 minutos para fazer o trabalho. Chegou [na Internet], digitou [o assunto para a busca], viu ali, leu aquela parte assim... Que também tem alunos que chega lá, aí
digita, viu a página, imprime e entrega ao professor. Eu, acho que assim o aluno teria que ler.
Wericky: Tem que ler primeiro.
Isaque: No caso, é um livro, só que um livro virtual. Você teria que pesquisar, ler o assunto, entender: - Não! É isso aqui que a professora está pedindo. Então, eu vou imprimir isso aqui. E também, não ficar só naquilo da Internet. Você vai lá, pesquisa e procura uma forma mais simples, no caso, um livro, um amigo que entende mais aquilo ali. Procurar saber mais, via internet, mas procurando saber, ter na memória aquilo. Não ficar só na Internet.
Esses relatos mostram o cuidado que os monitores acreditam que deve haver com a pesquisa na Internet: a leitura do objeto de pesquisa e evitar a cópia ou a impressão simplesmente e buscar outras fontes de dados para complementá-la. Os monitores ressalvam que alguns colegas imprimem os trabalhos diretamente do site e entregam ao professor, sem uma leitura prévia do que assunto pesquisado, a e-cola (MARINHO, 2000).
de copiar e colar que os aplicativos de computadores oferecem dificultam ao professor identificar a origem da cópia. Realizar os mesmos caminhos que o aluno trilhou na busca das informações, é um meio viável, mas é uma tarefa que além de ser trabalhosa, ainda demanda boa parte do tempo do professor (MARINHO, 2000).
O que se espera do professor é que seja o orientador da pesquisa, que acompanhe sua evolução e também no momento de socializar o que se pesquisou, exigindo algo mais dos alunos no uso da Internet, ao invés de solicitar tarefas que contribuam ainda mais para o copiar e colar textos encontrados na rede. Cabe ao professor,
procurar ajudar a contextualizar, a ampliar o universo alcançado pelos alunos, a problematizar, a descobrir novos significados no conjunto das informações trazidas. Esse caminho de ida e volta, no qual todos se envolvem, participam – na sala de aula, na lista eletrônica e na home page –, é fascinante, criativo, cheio de novidades
e de avanços. O conhecimento que é elaborado a partir da própria experiência torna-se muito mais forte e definitivo em nós. (MORAN, 2000, p.49)
Na EEMB, presenciamos raras orientações quanto ao uso da Internet para as pesquisas, os professores solicitavam as pesquisas aos alunos, mas estes iam desacompanhados ao laboratório. A tarefa do apoio aos alunos fica sob a responsabilidade do professor de Educação Física e do monitor de cada sala. Na ausência do professor de Educação Física, a orientação fica a cargo somente do monitor. Duas questões são importantes para serem consideradas: a primeira é que o professor de Educação Física necessariamente não domina os conteúdos das outras disciplinas; a segunda é que o apoio do monitor refere-se ao uso da máquina, mas sem englobar questões pedagógicas. Um dos professores entrevistados confirmam o que já tínhamos percebido durante nossas observações.
Os meus alunos usam na minha disciplina. Só que eu mesmo dificilmente acompanho. Às vezes eu vou, mas a maioria das vezes, eu passo [para] a Marina [professora de Educação Física] porque ela tem boa vontade. Ela até fala: “Se tem
alguma coisa pode me dar”. Então, às vezes, eu dou assim para fazer uma pesquisa. Uma vez eles fizeram uma pesquisa sobre o dia da consciência negra e foi tudo através dela. (Ana Luiza, professora)
Para Marinho (2000), a prática da pesquisa nos tempos da Internet continua a mesma da escola tradicional. Os professores solicitam uma pesquisa aos seus alunos, mas sem orientá-los nessa tarefa. Os monitores comentam que a falta de orientação e de acompanhamento do professor no laboratório de informática, acarreta o abandono da tarefa e a sua substituição pelo entretenimento na Internet.
A professora chega lá para fazer só uma pesquisa. Aí, ele chega lá. Tem o MSN e ele acaba não resistindo. Vai lá e deixa a pesquisa do professor de lado e fica lá no MSN. Aí, depois acaba o tempo: “Cadê sua pesquisa?” – “Ah, professora, não deu tempo de pesquisar tudo não”. (Wericky, monitor)
A atração proporcionada por figuras, textos e sons na rede facilita a dispersão e
muitos alunos se perdem no emaranhado de possibilidades de navegação. Não procuram o que foi combinado, deixando-se arrastar para áreas de interesse pessoal. É fácil perder tempo com informações pouco significativas, ficando na periferia dos assuntos, sem apronfundá-los, sem integrá-los num paradigma consistente. O conhecimento se dá no filtrar, no selecionar, no comparar, no avaliar, no sintetizar, no contextualizar o que é mais relevante, significativo.
(MORAN, 2000, p.55)
Almeida (2005) defende a autonomia, a seleção e a representação de informações significativas que favoreçam a formação de cidadãos críticos e usuários para se desenvolverem como ser humano, aprendiz e cidadão. Mas é preciso apoio, pois a autonomia é exercida a partir de competências e habilidades e construir isso exige a presença do professor ao lado do aluno.
Lévy (1999, p.171) destaca que a atividade do professor “será centrada no acompanhamento e na gestão das aprendizagens: o incitamento à troca de saberes, a mediação relacional e simbólica, a pilotagem personalizada dos percursos de aprendizagem etc” .
Por mais, que seja importante que o aluno aprenda de forma autônoma, que tenha uma postura investigativa diante dos recursos da rede, o papel do professor nesse contexto é fundamental. Cabe a ele orientar o aluno na difícil tarefa de filtrar, selecionar, avaliar e contextualizar as informações significativas para o trabalho proposto (BONILLA, 2005; MARINHO, 2002; MORAN, 2000).