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5. AFROEMPREENDEDORISMO E IDENTIDADE

5.4 INTERNET, REDES E FRONTEIRAS: “JUNTOS E CONECTADOS” (?)

Uma das promessas da globalização tem sido a crença da formação de uma “aldeia global” onde a difusão das informações instantâneas promoveria o encurtamento das distâncias, da noção de tempo e espaço e, por isso, o “fim das fronteiras” por meio

dos novos suportes de tecnologia de comunicação (SANTOS, 2009). A internet definitivamente foi a principal ferramenta que revolucionou a forma de comunicação, nas últimas décadas, possibilitando a circulação da informação de modo instantâneo e em tempo real entre todas as partes do globo. Segundo Castells (2003), a Internet é um meio de comunicação e é a infraestrutura material das redes.

Além disso, a internet foi uma revolução para a comunicação humana e a unicidade técnica de conhecimento em que o grande capital se apoia para englobar os meios de produção, circulação da produção e a financeirização em todos os países do globo (SANTOS, 2009).

A internet se popularizou nos países desenvolvidos a partir dos anos 1980 e se tornou fator indispensável tanto da logística do mercado quanto da vida social (CASTELLS, 2003), transformando o mundo dos negócios e sendo modificada por ele, resultando no uso da internet para fins comerciais e isso chamou atenção das empresas de capitais de risco que investiram (e investem) nessa tecnologia e na criação de polos tecnológicos. As empresas de tecnologia e investidores de inovação são os principais atores que promovem e conduzem o aceleramento do processo de globalização no mundo. Assim, nesta Era da Informação, a internet se tornou um meio indispensável de propulsão da formação de uma nova economia – a economia da Internet – caracterizada por novos processos de produção, administração e cálculo econômico. Embora tenha sido moldada em torno de usos comerciais, a internet ainda sintetiza os valores da comunicação livre e horizontal, possibilitando a comunicação em tempo real de pessoas em várias partes do mundo. Então, aparentemente houve a aproximação de pessoas a partir de assuntos em comum, de acordo com as suas preferências por meio de e-mails, fóruns virtuais, websites e redes sociais (RECUERO, 2018). As comunidades virtuais, segundo Castells (2003), são formas autônomas de comunidades que não mais se limitam ao território e ao vínculo culturalmente relacionados à convivência, tal como eram identificadas as comunidades na sociologia e antropologia.

Segundo Castells (2019), as redes se formam através de vínculos que ultrapassam questões regionais, são constituídas por pessoas que criam laços (nem sempre fortes ou duradouros) motivados por interesses em assuntos comum e que desejam ampliar os seus contatos. As redes sociais, além de ampliar as possibilidades de interação

humana, favorecem a produção de conteúdo independente, comunicação direta entre os internautas e facilidade de manipulação das ferramentas online.

A internet se tornou um meio essencial de comunicação e organização em todas as esferas da atividade humana, inclusive, nas ações coletivas, nos movimentos sociais (CASTELLS, 2017). Compreende-se, dessa forma, que os novos movimentos sociais da sociedade em rede transformam e também se ajustam às mudanças tecnológicas da Era da informação. Trata-se de novas dinâmicas e novos meios apropriados de organização com o uso da internet.

No processo de globalização dos movimentos sociais, muitos partiram de seu contexto local para o globo e, percebendo como as desigualdades estruturais (gênero, raça, sexualidade, direitos humanos, meio ambiente) também afetam as minorias em todo o planeta, as organizações de alcance mundial se conectam com as mobilizações locais por meio da internet. “A necessidade de formar coalizões globais e o embasamento em redes globais de informação tornam os movimentos extremamente dependentes da internet” (COHEN & RAI, 2000 apud CASTELLS, 2003, p. 118). No caso da internacionalização do combate ao racismo contra pessoas negras, desde meados dos anos 1970 o ideário do pan-africanismo destacava a possibilidade de união das pessoas negras africanas e da diáspora para a criação de uma rede de solidariedade étnica (NASCIMENTO, 2019). O movimento de intelectuais negros nos EUA e em determinados países africanos, da Europa e da América Latina (Diop, Ângela Davis, Lélia Gonzalez, Stuart Hall, Abdias do Nascimento, Guerreiro Ramos, entre outros) já se articulavam para discutir temas referentes ao racismo, identidade e possibilidades de mudança social a nível global e local.

Na atualidade, há a convergência vários tipos de movimentos sociais, inclusive os movimentos sociais negros: existem as organizações formais, estruturadas e permanentes como as instituições, fundações, sindicatos etc.; os movimentos culturais, formados em torno dos sistemas de comunicação para mobilizar a sociedade a aderir novos valores; e os movimentos emocionais que surgem repentina e espontaneamente devido a algum evento e que têm capacidade de mobilizar milhares de pessoas para pressionar a opinião pública, por meio, principalmente da internet (CASTELLS, 2003).

A internet tem facilitado o movimento permanente de criação de uma rede global de pessoas negras em prol do combate ao racismo. Livros, conteúdos gráficos, discussões, denúncias de casos de racismo provocados pelos governos locais, estratégias são compartilhados por meio da internet. Além disso, as novas formas de para se relacionar nas redes e aumentar o movimento de contestação contra o racismo auxilia a realização de conferências, encontros (locais, nacionais, regionais, internacionais e on-line), vídeos e fotos com teor de denúncia, compartilhamento de estratégias e campanhas com hashtags em vários países.

A criação dessas redes entre ativistas negros de vários países auxilia no fortalecimento de movimentos sociais locais porque provoca o aumento da visibilidade na mídia – por consequência a pressão sobre os governos locais e, de certa forma, proteção aos ativistas devido a visibilidade internacional. Recentemente as campanhas #blacklivesmatter (nos EUA) e a campanha #quemmatouMariele (no Brasil) mobilizaram ativistas em todo o mundo para denunciar a violência policial contra a população negra e pressionar os governos para alguma mudança efetiva. A internet também tem sido um importante meio de comunicação para o compartilhamento de campanhas solidárias pela visibilidade positiva da população negra, a partir da criação de conteúdos dificilmente encontrados nos meios de comunicação mainstream, como conteúdo audiovisual, moda, música, entretenimento, influenciadores digitais, produtos e serviços – todos criados por e para pessoas negras.

Nesse contexto da Era da Informação, a Pretahub e o Movimento Black Money também estão inseridos no mundo virtual por meio de seus respectivos websites e redes sociais para criar se comunicar com o público e possíveis investidores. Diante da necessidade de integração no mundo tecnológico, as duas organizações incorporam a linguagem moderna e técnica do mundo corporativo, exploram as ferramentas do mundo digital, mantêm suas redes sociais atualizadas e usam essas plataformas para se conectarem com o público.

As formas de interação são diversificadas. Nos websites percebe-se muito mais um conteúdo informativo e direcionamento para as redes sociais que promovem uma comunicação direta com o público. Existe também conexão com outras tendências, mobilizações mundiais e nacionais.

Parceria entre a Feira Preta e Latinidades Afro-latinas, o projeto tem como objetivo minimizar os impactos da Covid-19, gerando renda e dando suporte às empreendedoras negras da economia criativa, em um projeto que irá selecionar propostas nas áreas de música, moda, artes visuais, artes cênicas, audiovisual e poesia. Ao todo, foram mais de 1.400 inscrições de mulheres de todo o Brasil e outros países da América Latina (Pretahub).

A percepção de que é necessário dominar essas ferramentas é uma das características fundamentais das duas organizações. A Pretahub e o MBM têm programas que visam uma educação focada em tecnologia da informação para empreendedores e empreendedoras negras. Elas promovem capacitação em parcerias com instituições privadas de tecnologia (Facebook, Redbull station, Google) para auxiliar os empreendedores a dominar as ferramentas on-line, impulsionar o marketing do seu produto ou serviço, utilizar o recurso de e-commerce, melhorar o relacionamento com o cliente por meio das redes sociais, aprender programação, utilizar plataformas de negócios e se desprender da ideia de amadorismo e sorte para gerir o próprio negócio. Para isso, a Pretahub desenvolve o Afrolab, o qual oferece capacitação técnica desde a produção ao escoamento do produto, e o Afrohub, específico na capacitação em tecnologia da informação.

O AfroHub é um programa de aceleração de empreendimentos negros com foco na decodificação dos códigos da internet para o uso das redes sociais de forma estratégica para o crescimento dos seus negócios (site PretaHub).

Já o MBM tem como frente o programa “Afreektech” para oferecer educação voltada para o domínio das ferramentas digitais

Afreektech é o braço educacional do Movimento Black Money. Nosso principal objetivo é desenvolver novas habilidades e competências em empreendedoras e jovens negros (através de cursos próprios e parcerias). Com uma metodologia 100% voltada a Transformação Digital, sem perder a essência que toda tecnologia e conhecimento é feito por pessoas para pessoas (site MBM).

Além da publicação de conteúdos informativos de cada projeto e atualizações sobre suas ações, os dois websites têm possibilidade fazer compras e vendas pela internet. A Pretahub presta serviços de locação de mobiliários sustentáveis próprios para garantir a manutenção dos projetos vinculados a ela. Já o MBM criou uma plataforma de marketplace em que os empreendedores podem se associar e oferecer produtos e prestação de serviços.

As compras online demandam tanto do visitante (consumidor) quanto do empreendedor (ou equipe) o domínio das ferramentas das redes sociais e transação de valores por meios digitais (conta bancária, cartões de credito e afins). Os empreendedores são considerados parceiros e têm a possibilidade de expandir a possibilidade de potenciais consumidores sem ser necessário alto investimento em marketing ou criar o próprio domínio na internet, o que envolve contratar um profissional ou ter conhecimentos específicos em criação e monitoramento de websites. O site do MBM, explica como funciona a própria plataforma:

O Mercado Black Money é uma plataforma on-line – Marketplace – que permite a conexão entre empreendedores e consumidores negros. Ao longo de nossa jornada percebemos que há muitos brasileiros desejando combater o racismo através do apoio a negócios negros, mas não sabiam como encontrar esses afroempreendedores. [...] Nosso objetivo é ser mais do que um Marketplace para negócios negros, mas uma ferramenta para gerar autonomia e prosperidade para comunidade negra, dentro dos valores afrocentrados (site MBM).

Segundo Santos (2009), o movimento globalizador parece ser inevitável e força todos a se adaptarem. De fato, a democratização da mídia por meio da internet aumentou a possibilidade de pequenos empreendedores fazerem a publicidade do seu negócio sem ser necessário investir em meios de comunicação oficiais (tv e rádio), que sairiam muito caros. Embora haja uma grande expectativa nesse processo tecnológico, a exclusão digital é uma realidade para milhares de pessoas.

A desigualdade digital reflete problemas antigos da sociedade que estão longe de serem solucionados, porque são problemas estruturais de ordem socioeconômica que implicam, antes de tudo, em questões relacionadas aos direitos humanos básicos como acesso à alimentação, à educação, à saúde e ao saneamento básico (SANTOS, 2009). As inovações tecnológicas são produzidas e reinventadas em rápida escala para suprir determinadas demandas (muitas vezes, criada pela própria tecnologia da informação mais recente) que aparentemente são emergenciais.

Essas novidades tecnológicas exigem a adaptação da infraestrutura urbana, como cabos subterrâneos, redes de acesso, logística moderna de eletricidade, que nem todos as cidades podem atender (CASTELLS, 2003). Os maiores polos tecnológicos do mundo encontram-se em cidades de países desenvolvidos que podem investir na modernização acelerada. Assim, quem tem acesso à internet? Quem está conectado

e participa dessa nova rede de interação humana? Nem todo mundo tem acesso à internet, principalmente, em locais periféricos de países subdesenvolvidos.

Observa-se a desigualdade digital provocada pelas discrepâncias socioeconômicas a nível macroeconômico em relação aos países, regiões e conglomerados empresariais desenvolvedores de tecnologia. Para além desse contexto, existe a realidade da inclusão digital da população que ocorre lentamente, principalmente, entre as minorias socias – no caso especial a ser discutido, a população negra, devido aos fatores já mencionados de exclusão social, política e econômica. O desafio para a inclusão digital da população, além de infraestrutura, depende de uma mudança radical do sistema educacional, a fim de que a informatização alcance de forma mais generalizada (SANTOS, 2009).

No entanto, existem muitas barreiras no sistema educacional tradicional que preferem manter o padrão de décadas atrás. Nesse desafio de capacitar, pelo menos, os empreendedores negros a se inserirem no universo de informatização, utilização da internet e as suas possibilidades de uso para impulsionar o próprio negócios, tanto a Pretahub quando o MBM promovem cursos, work shops, manifestos, parcerias para disponibilização de bolsas de estudos, ampliam a discussão sobre tecnologia e inclusão racial para minimizar a exclusão digital dos empreendedores negros e apoiá- los no ingresso da tecnologia digital.

5.5 CYBERESPAÇO x TERRITÓRIOS: OCUPANDO ESPAÇOS “ON LINE” E “OFF