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Internet: uma rede mundial de portas e janelas

De acordo com Levy (1999, p. 31), a invenção do computador e a da Internet ocorreram em épocas distintas, mas se deram em razões semelhantes: interesses militares e acadêmicos. Inicialmente, o computador – que ainda era uma enorme máquina de calcular e armazenar programas – surgiu na Inglaterra e nos Estados Unidos em 1945, usado para realizar cálculos de ordem militar. O uso civil do computador teve início na década de 1960, quando foi utilizado por Estados e grandes empresas em tarefas de gerenciamento e cálculos de estatísticas.

Na década de 1970, a descoberta do microprocessamento permitiu que os computadores diminuíssem de tamanho e se iniciasse a era da automação empresarial e comercial, além do invento do computador pessoal. Nos anos 1980, o computador perdeu seu

status de equipamento acadêmico, empresarial e militar e se tornou mais um eletrônico residencial. Junto à popularização do computador, a Internet esteve pari passu e integrada aos aperfeiçoamentos da informática, arquitetando-se tão essencial quanto à máquina da qual depende para realizar suas atividades.

O desenvolvimento da Internet, conforme Castells (2002, p. 374), foi o resultado da união de esforços entre a estratégia militar, uma grande cooperação científica e desejos de inovação contracultural. No final dos anos 1950, os militares norte-americanos ganharam uma preocupação extra ao assistirem o lançamento do primeiro Sputinik, pela URSS. Buscando acompanhar seu rival na guerra tecnológica, a DARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa dos Estados Unidos) promoveu um conjunto de iniciativas que mudaram os rumos do desenvolvimento tecnológico do século XX.

Castells (2002, p. 374) ressalta que uma das ideias adotadas pela DARPA, pertencente à Paul Baran da Rand Corporation, consistia em desenvolver um sistema de comunicação indestrutível aos ataques de bombas nucleares, utilizando a tecnologia de trocas de informação por meio de comutação de pacotes. Este sistema liberaria a rede dos centros de comando e controle e as unidades de mensagem localizariam “suas rotas ao logo da rede, sendo remontadas com sentido coerente em qualquer ponto dela”. A ARPANET foi a primeira rede a usar esta tecnologia, funcionando a partir de 1969.

No primeiro momento, além do uso militar, a rede foi cedida aos centros de pesquisa que contribuíam com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, como o MIT, Stanford, Universidade da Califórnia e Harvard. Os pesquisadores, porém, também a usavam para todos os fins de comunicação, inclusive pessoais. Para separar o uso civil do militar, em 1983 houve uma divisão entre a ARPANET, dedicada ao uso científico e pessoal, e a MILNET, de uso exclusivo militar.

Ainda nos anos 1980, propondo desenvolver sua própria rede científica, a Fundação Nacional da Ciência criou a rede CSNET, além da BITNET – em parceria com a IBM – direcionada a estudos não científicos. Ambas as redes, contudo, utilizavam a ARPANET como sistema base de suas comunicações. “A rede das redes que se formou durante a década de 1980 foi chamada de ARPA- INTERNET, mais tarde nomeada apenas como INTERNET, ainda custeada pelo departamento de defesa e operada pela Fundação Nacional da Ciência”. (CASTELLS, 2002, p. 376)

O aumento de usuários e de transferências de dados entre os pontos da rede exigiram que a tecnologia utilizada fosse aperfeiçoada. Primeiramente, a capacidade e velocidade de dados transmitidos pelas redes foi ampliado. No entanto, apenas esta medida era suficiente para constituir mundialmente a rede de comunicação, pois os computadores precisavam estar habilitados a conversarem entre si. Este empecilho foi eliminado com a utilização do sistema operacional UNIX, desenvolvido pela Bell Laboratories em 1969, mas com seu uso difundido apenas a partir de 1983, quando se adaptou seu código fonte, por pesquisadores de Berkeley, ao protocolo TCP/IP, possibilitando que computadores codificassem e decodificassem pacotes de dados que eram transportados em alta velocidade pela rede da Internet.

No entanto, um dos principais equipamentos que permite a comunicação via Internet foi desenvolvido fora dos laboratórios das Universidades que cooperavam com o

Departamento de Defesa dos Estados Unidos: o modem53. No inverno de Chicago de 1978,

dois estudantes, Ward Cristensen e Randy Suess, a fim de evitar uma longa viagem entre os locais em que se encontravam, desenvolveram um sistema de transferência de programas de um microcomputador para outro utilizando uma linha telefônica. “Em 1979, os inventores difundiram o protocolo Xmodem, permitindo que computadores transferissem arquivos diretamente sem passar por um sistema principal”. (CASTELLS, 2002, p. 379)

Também fora do circuito oficial da pesquisa em desenvolvimento da Internet, três estudantes da Universidade Duke e da Universidade da Carolina do Norte – não participantes da ARPANET – elaboraram uma versão modificada do protocolo UNIX, possibilitando a ligação de computadores por meio da linha telefônica. A disponibilização destes conhecimentos tecnológicos a qualquer pessoa que possuísse um computador pessoal contribuiu para a chegada e estabelecimento da Internet como uma nova mídia.

A década de 1990 foi marcada pela entrada de empresas e do público em geral na rede. Neste momento, a “Fundação Nacional da Ciência decidiu privatizar algumas das suas principais operações da rede para os consórcios habituais de grandes empresas (ATT, COM- IBM etc.). A comercialização da Internet cresceu em ritmo acelerado a partir de então”. (CASTELLS, 2002, p. 382)

Para encerrar o percurso de grandes inventos tecnológicos que permitiram a disseminação da Internet ao redor do mundo, tem-se a criação da World Wide Web – WWW (Rede de Alcance Mundial). Mesmo com todos os avanços, a ampla difusão da Internet ainda necessitava de maiores esforços em pesquisa, pois algumas barreiras permaneciam, como a necessidade de conhecimentos em sistemas e comandos complexos de informática para acessar os conteúdos disponíveis. Para contornar este empecilho, a WWW apresentou a tecnologia necessária para romper com as dificuldades impostas, oferecendo uma interface amigável e intuitiva, permitindo o amplo acesso de pessoas de todos os públicos.

Em março de 1989, o engenheiro inglês Tim Barnes-Lee do Geneva’s European Particle Physics Laboratory (CERN) apresentou a proposta da concepção de um sistema em hipertexto que permitia a simplificação da “disseminação de informação entre físicos membros da comunidade científica do grupo de Energia de Alta Potência”. (SOUZA; 1999, p. 142) O inventor estabeleceu que a WWW seria composta por três princípios básicos:

Os três principais componentes do sistema proposto por BarnesLee eram que o sistema tivesse uma interface consistente, a habilidade de incorporar uma grande variedade de tecnologias e tipos de documentos e, por fim, que fosse acessível

53 Dispositivo que permite de entrada e saída de pacotes de dados entre computadores, por meio de linha telefônica. Seu nome vem de modulador e desmodulador.

universalmente, ou seja, que qualquer um ligado a qualquer rede em qualquer tipo de computador pudesse ler o mesmo documento facilmente. (SOUZA, 2012, p. 143) Em seguida, em 1990, com o projeto em andamento, foi desenvolvida a ferramenta que possibilitava a visualização e navegação pelos conteúdos disponíveis na Internet: o

browser (navegador ou visualizador, em português). A partir de 1992, a web, que estava disponível apenas aos cientistas do CERN, passou a ganhar a comunidade acadêmica mundial e, em seguida, os demais setores da sociedade.

Resumidamente, a WWW possibilitou o início da construção da Internet como é conhecida atualmente: um sistema de informações organizadas, que permite a formação de hipertextos que integrem as modalidades escrita, oral e audiovisual em um mesmo espaço, convivendo com inúmeros outros conteúdos simultâneos e a disponibilidade de hiperlinks. Hoje, para se fazer acessar este universo são necessários somente alguns recursos: um dispositivo que permita o acesso à rede (computador, celular, tablet etc.), um modem, uma linha telefônica, um provedor de acesso e um navegador (dependendo do conteúdo que se deseja, apenas um aplicativo54).

No Brasil, o interesse do Governo Federal em implantar uma rede de transmissão de informações data de meados da década de 1970. Entretanto, foi apenas na década de 1980 que as ações, para implantação da Internet, começaram a tomar corpo. O estabelecimento da

Internet no Brasil, como se conhece hoje, é marcado por dois momentos: o primeiro, entre os anos 1988 e 1995, teve como característica o empreendimento estatal e acadêmico para estabelecer uma infraestrutura que respondesse aos interesses da comunidade acadêmica; o segundo, com início em 1995, tem como ponto alto a privatização do sistema de telecomunicações, que fomentou o acesso à rede.

Na primeira fase, o acesso à Internet possuía caráter acadêmico. Em 1988, o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), no Rio de Janeiro, financiado pelo CNPq, conectou-se à Bitnet norte-americana utilizando a Renpac55, estabelecendo a primeira

ligação de uma rede brasileira com o exterior. No mesmo ano, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) se ligou à Bitnet e a Hepnet (High Energy Physics Network). Em 1989, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conectou-se à Bitnet. O Brasil teria, então, sua terceira conexão internacional.

54 Programas de computador concebido para permitir o processamento direto de dados eletronicamente, sem passar por um navegador. Seu uso é bastante comum em celulares.

55 A Rede Nacional de Comunicação de Dados por Comutação de Pacotes (RENPAC), criada em 1985 e mantida pela Embratel. Caracteriza-se por ser uma rede comercial de transferência de dados.

No início dos anos 1990, a Internet se desenvolvia rapidamente em todo o mundo. Em muitos países, já estava aberta para a exploração da iniciativa privada. Acompanhando o interesse do público, o melhoramento da infraestrutura técnica de transmissão de dados também colaborou para a difusão da Internet em todo o mundo: o uso da fibra óptica possibilitava o serviço de banda larga. O início da distribuição da Internet para os demais setores sociais aconteceu entre 1994 e 1995, por meio do lançamento de um projeto comercial de provimento de Internet, de caráter experimental, gerenciado pela Embratel em conjunto com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT).

Na televisão, a telenovela Explode Coração (1995-96), de Glória Peres, apresentou, entre diversas outras, a temática da Internet como uma nova mídia que traria outras possibilidades de relacionamento social. A maioria dos telespectadores, que não possuía computadores em casa ou muito menos haviam acessado a Internet alguma vez na vida, tiveram o primeiro conhecimento da nova tecnologia que se apresentaria no futuro. Algo parecido com o que ocorreu com a televisão antes de sua chegada, em que era anunciada nas publicidades de revistas.

A partir de então, a privatização das telecomunicações facilitou a ampliação de distribuição de redes de acesso à Internet. O estabelecimento da Internet no país, no entanto, se deu de modo lento, principalmente devido aos custos com os equipamentos que possibilitam esta conexão e o custo para mantê-la. Por outro lado, no momento em que se deu a redução destes custos, o país configurou-se como um dos que possuem os usuários mais ativos, mesmo que a Internet tenha chegado a pouco mais de 50% da população.

No início de 2015 a agência de marketing digital multinacional We Are Social56

divulgou o relatório57 Digital, Social & Mobile que apresentava um compêndio das

estatísticas de uso e acesso à Internet e redes sociais, por meio de computadores, celulares e outros dispositivos, em todo o planeta, em 2014, focando a pesquisa em 30 países, incluindo Brasil e Argentina, na América do Sul. Segundo o relatório, 42% da população mundial (cerca de três bilhões de pessoas) possuem acesso à Internet. Este número cresceu 25% em relação ao ano anterior, com um aumento de mais de 525 milhões de usuários. Quanto ao Brasil, o relatório aponta que 54% da população possui acesso à Internet. Os brasileiros estão em terceiro lugar quanto ao tempo de permanência na rede, gastando cerca de cinco horas por dia acessando a Internet por meio de computadores e celulares. É, também, o 4º país com maior

56 Disponível em: <http://wearesocial.com.br/quem-somos/>. Acesso em: 26 fev. 2016.

57 Disponível em: <http://wearesocial.com/uk/special-reports/digital-social-mobile-worldwide-2015>. Acesso em: 26 fev. 2016.

acesso a redes sociais e, em relação à televisão, a população que tem acesso à Internet, passa menos de três horas por dia assistindo à programação televisiva.

Estes números são importantes para entender a difusão da Internet na sociedade brasileira. Contudo, podem passar a ideia errada – principalmente para os entusiastas do mundo digital – de que a Internet irá derrubar ou substituir todo um ambiente de comunicação que já havia se estabelecido anteriormente à sua chegada. Suas influências são visíveis, contudo, é preciso analisá-la junto ao contexto midiático em que se insere. O item a seguir pretende levantar questionamentos acerca da relação da Internet com o ambiente social e comunicativo em que se apresenta, principalmente no que tange à produção audiovisual – objeto desta dissertação.