CAPÍTULO 1 – A RÁDIO
1.3. A rádio e os novos media
1.3.1 Internet: webrádio, sites, apps e outras possibilidades
Foi com a internet que a rádio deixou de ser meramente hertziana para flexibilizar o consumo de conteúdos sonoros a qualquer hora e em qualquer lugar, alterando, ainda, noções de tempo e espaço no que tange ao seu consumo. A rádio que já era móvel devido à miniaturização aproximou-se ainda mais do ouvinte, transformando-se em um meio quase onipresente, invisível, uma extensão da sua vida: está no carro, no telemóvel, no tablet, no computador, nos canais de televisão por cabo e, claro, nos aparelhos tradicionais.
Embora a rádio convirja com diversos media e diferentes plataformas, não se pode negar que o maior impacto sobre o meio se deu com o surgimento da internet. É graças a ela que a rádio transita por uma série de aparelhos – computador, tablet, telemóvel (embora alguns tenham recepção FM). Tanto que é possível afirmar que “a integração de receptores de rádio a gravadores/reprodutores de MP3 e a telemóveis, estes últimos com acesso à internet, indica o aparato tecnológico a dar mobilidade, facilitando esta nova forma de recepção” (Ferraretto, 2010: 50). Com isso,
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«a relação entre a rádio e a internet passou a basear-se na complementaridade: a rádio retira da rede global o que não possui geneticamente. Emergem novas formas expressivas e modos de expansão junto dos ouvintes. O fenómeno das webrádios vistas como espaços para novos conteúdos ou a expansão geográfica da rádio utilizando a rede global são bons exemplos desta complementaridade» (Bonixe, 2011: 30).
Com o desenvolvimento da tecnologia do streaming e o aumento na largura de banda da transmissão de dados, a webrádio (transmissão online) criou uma nova linguagem através da incorporação de elementos discursivos e, também, pela forma como o ouvinte consome e pesquisa os conteúdos apresentados – a rádio inclusive tornou-se visual na internet, com recursos como imagens de músicos e capas de discos, textos e factos noticiosos, entre outros. Geralmente, a rádio na internet é percebida como “a adaptação do formato tradicional de uma rádio a um meio de transmissão diferente” (Cardoso, 2013: 353).
No entanto, há uma diferença importante: enquanto a transmissão tradicional – por ondas rádio – é unidireccional, a internet funciona ponto a ponto: “Este facto pode ser explorado para alterar o conceito de rádio, deixando de ser uma transmissão única para todos os ouvintes, para ser bidireccional ou multidireccional, assíncrona e pessoal” (Cardoso, 2013: 353).
O ouvinte, por sua vez, já não só escuta, mas também lê, escreve, interage e participa, de forma individualizada ou em comunidades, na programação da emissora. Com o auxílio da internet, portanto, a rádio, em termos de conteúdo, pode ser entendida “como uma grande constelação de elementos significantes sonoros, textuais e imagéticos” (Prata, 2013: 3). Cria-se, por fim, “uma estratégia de criação de canais em plataformas móveis, nos quais a programação é produzida em função de uma simbiose entre conteúdos áudio, vídeo e texto” (Cordeiro, 2010: 243). Contudo, de forma geral, as estações ainda não utilizam a internet para oferecer aos ouvintes um conhecimento mais profundo da própria estação, tampouco do conteúdo transmitido (Portela, 2011: 121). Com efeito, não existe uma prática de pensar o site como plataforma para difusão de notícias; quando isso acontece, as redacções dão mais ênfase ao entretenimento que a notícias de interesse público (Portela, 2011: 121).
De acordo com Castells (2007: 16), a internet permite “a comunicação de muitos para muitos em tempo escolhido e a uma escala global”. No entanto, Portela (2011: 56) avalia que o potencial de expansão da rádio na internet ainda não foi concretizado, trata-se de um processo ainda inicial:
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«A rádio hertziana assumiu como preocupação a comunicação dirigida às comunidades locais, ao passo que essa vocação fica subvertida na internet, ao herdar desta um alcance global. O distante torna-se próximo e o local projecta-se a limites antes impensáveis. Apesar disso, numa demonstração de que a verdadeira exploração do potencial da rede por parte das estações está ainda numa fase embrionária, a rádio ainda não se vê globalizada».
A rádio na internet possui ainda mais um diferencial importante: com ela, crescem as possibilidades de interactividade31 – que será mais bem discutida em secção específica. O que acontece é que “saímos de uma rádio de massa, com ouvintes passivos e dispersos geograficamente, para chegar a modelos onde a rede é a palavra-chave” (Prata, 2013: 2). Em suma, o contexto de convergência mediática, em que a rádio beneficia de novos suportes e meios, reflete um “desejo público de participar dos media, em vez de simplesmente consumi-los” (Jenkins, 2006: 150).
Além da democratização em termos de participação do ouvinte, há também a democratização do pólo emissor: a “possibilidade de qualquer emissora, independente de seu tamanho, estrutura ou potência, fazer-se global” (Comassetto, 2007: 160). Nesse sentido, Hausman (2010: 3) diz que a grande novidade da relação entre rádio e internet é “a possibilidade de oferecer uma variedade maior de escolhas de rádio sob encomenda em razão da oferta de emissoras para o nicho da internet – ou um canal exclusivo online – cria novas oportunidades em produção, programação e performance”. Ferraretto (2007: 5) completa: “Uma emissora de curto alcance hertziano, caracterizada como comunitária, pode ganhar o mundo via internet e, até mesmo, disponibilizar parte dos conteúdos irradiados em podcasting”.
Nesse novo contexto, Pérez (2012: 214) defende que a audiência tem a possibilidade de mudar sua relação com o conteúdo radiofónico e musical:
«Um produto que já não se encontra só através das ondas [hertzianas] e de uma programação de fluxo, mas que se converteu em um porduto editorial disponível através dos serviços de podcasting e rádio por demanda para ser consumido em qualquer lugar e a qualquer momento. Assim, o ouvinte transforma-se em programador, filtro ou gatekeeper»32.
31 A questão da interactividade será retomada e melhor discutida adiante, na seção 1.5.2 deste capítulo. 32 Tradução do autor para o texto original em espanhol: “Un producto que ya no solo se encuentra a través de las ondas y de una programación de flujo sino que se ha convertido en un producto editorial disponible a través de los servicios de podcasting y radio a la carta para ser consumido en cualquier lugar y en cualquier momento. Así, el oyente se convierte en programador, filtro o gatekeeper” (Pérez, 2012:214).
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A internet, todavia, causa uma mudança na tradicional linguagem da rádio. É o que defende Zucoloto (2012: 170) ao afirmar que, com essas transformações, a rádio deixa de atender à instantaneidade e a fugacidade da mensagem: “Hoje, o ouvinte não necessita mais ouvir em tempo real, no exato momento da transmissão. Acessando-a pela internet, pode-se voltar atrás, ouvir a qualquer momento ou novamente”. Tornou- se, portanto, uma questão estratégica fidelizar o público não só como ouvinte, mas também como utilizador: “as emissoras dão a informação e remetem o ouvinte para o site da internet para saber mais informação sobre o assunto, a entrevista ou a reportagem na íntegra, os relacionados, o dossiê, etc.” (Reis, 2011: 23).
Nos países em foco nesta investigação, encontram-se situações semelhantes. Todavia, pode-se dizer que Portugal está ainda à frente do Brasil com relação ao percentual da população com acesso à internet. Apesar de a população brasileira ser muito maior, para fins desta pesquisa, considerar-se-á os percentuais, sem perder de vista a diferença demográfica entre os dois países.
De maneira geral, é possível afirmar que 2,5 milhões de indivíduos possuem acesso à internet (Pordata, 2015). Segundo estudo realizado pela Marktest (2013)33, 64% dos portugueses com idade a partir de 15 anos acedem a internet. Mais ainda, esse é o resultado de um crescimento relevante: “Uma análise longitudinal dos resultados deste estudo evidencia que o número de utilizadores de internet em Portugal aumentou 10 vezes nos últimos 17 anos” (Marktest, 2013). Entre os jovens de 15 a 24 anos, o percentual de utilizadores é ainda mais marcante: chega a 99%, segundo a pesquisa (Marktest, 2013), o que reforça a ideia de que os jovens são o principal público das novas tecnologias de comunicação. Quanto aos agregados domésticos, 65% dos lares portugueses têm acesso à internet, sendo que 63% com banda larga, uma percentagem significativa, pois restam apenas 2% dos utilizadores com internet de baixa qualidade (Pordata, 2015).
Entre os utilizadores de internet portugueses, quase 20% ouvem rádio online (Marktest, 2013). Restringindo à faixa etária em análise nesta investigação, os jovens destacam-se como “os que possuem maior afinidade com este hábito, comum a 45,1% deles” (Marktest, 2013), destacando-os, mais uma vez, como “embaixadores” e principais utilizadores das novas tecnologias, neste caso da internet. A hipótese trabalhada para a escolha das escolas de que classes sociais mais altas têm maior
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poder de compra e, portanto, teriam maior acesso aos media também se reflete na pesquisa da Marktest (2013): entre os indivíduos da classe alta do país, 40% ouvem rádio online, enquanto apenas 5,6% dos pertencentes à classe baixa acede à internet para ouvir rádio34.
No que tange ao Brasil, ainda é alto o número de não-utilizadores: 51% (Brasil, 2014: 49) – diferentemente de Portugal, cuja maior parte da população está online. Por outro lado, entre os utilizadores o consumo é intenso: 76% das pessoas acedem à internet todos os dias, com uma exposição média diária de quase cinco horas. Entre os jovens, com idades até 25 anos, o resultado chama a atenção: 65% acedem todos os dias (Brasil, 2014: 49).
Sobre o hábito de ouvir rádio online, apenas 21% dos jovens brasileiros admitem esse tipo de consumo, somando-se 2% que o fazem através do computador e 19%, pelo telemóvel (Brasil, 2014: 42). No Rio Grande do Sul – estado em que a investigação foi desenvolvida –, especificamente, apenas 4% das pessoas disseram ouvir rádio na internet pelo smartphone – o percentual dos que ouvem rádio pelo computador não chegou a 1% (Brasil, 2014: 41).
Em relação ao dispositivo utilizado para aceder a internet (funções gerais), a maior parte dos entrevistados usa o computador (77%), mas uma parcela significativa de 66% o faz pelo telemóvel, enquanto alguns utilizam tablets (7%) (Brasil, 2014: 50). É precisamente sobre esses dispositivos – e sua importância no contexto aqui investigado – que a próxima seção tratará.
As mudanças ganham forma com a consolidação da internet como plataforma de distribuição de conteúdo multimedia e de comunicação interpessoal, para onde confluem bases de dados públicos e privados, transações comerciais, formas inovadoras de arte e expressão pessoal, etc. (Kischnhevsky, 2012: 422).