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CAPÍTULO 4 CONSTRUÇÃO E AVALIAÇÃO AMBIENTAL DE UMA CADEIA DE

4.3. CONSTRUÇÃO DO CENÁRIO DE REFERÊNCIA

4.5.3. Interpretação do Ciclo de Vida do Bioóleo

A avaliação dos impactos ambientais denotou a importância do processo pirólise rápida no perfil ambiental do bioóleo. Este processo é o agente exclusivo para a toxicidade humana, além de ser o principal na criação do ozônio fotoquímico, na ecotoxicidade da água fresca, na

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eutrofização e na acidificação. Os resultados explicitam o maior volume de fluxos deste processo em relação aos outros.

O aproveitamento da serragem compensa largamente todas as emissões de CO2 equivalente ao evitar as emissões de metano de sua potencial decomposição.

A contribuição do processo de produção do petróleo cru é indireta, a sua substituição por bioóleo em uma refinaria implica na sua “não extração” e consequentemente em impactos evitados referentes a este processo. Isto não quer dizer que há uma diminuição das emissões dos demais processos, mas que as emissões e a depleção de recursos abióticos que normalmente ocorreriam para abastecer uma refinaria com petróleo cru e que são evitadas, compensam parte das emissões e depleção reais. Há, por assim dizer, um “desconto” nos impactos diretamente relacionados à produção do bioóleo. Assim, o bioóleo produzido substitui aproximadamente 50% de petróleo cru em uma refinaria e as emissões evitadas mitigam 17% das emissões reais, o PAG reduz mais 18% e são poupados cerca de 10 vezes mais recursos abióticos do que são consumidos.

 Limitações

A Pirólise Rápida é o processo mais influente no perfil ambiental do bioóleo e, portanto, é o processo que requer mais rigor em sua construção. No entanto, algumas das suas emissões não foram medidas, mas sim calculadas a partir de informações da literatura. Os gases incondensáveis puderam ser medidos à medida que eram gerados. Já os gases da combustão do carvão foram calculados a partir dos valores obtidos por ANDREAE & MERLET (2001). Os autores apresentam fatores de emissão para diversos gases gerados na queima de diferentes tipos de biomassa, entre elas o carvão vegetal. Estes fatores vêm de outras publicações e certamente os carvões queimados são produzidos a partir de várias biomassas e em condições distintas das consideradas neste estudo. Mas convém ressaltar que mesmo o carvão produzido a partir da serragem do desdobro de toras amazônicas terá propriedades heterogêneas. A serragem é parte de árvores de florestas nativas que cresceram em condições edafoclimáticas variáveis.

O sistema, tal como foi planejado, se baseia nas situações mais próximas da realidade brasileira, sobretudo da região norte do país. Assim, alguns processos podem não ser os mais adequados do ponto de vista ambiental. O transporte do bioóleo se encaixa nesta discussão. A logística do transporte de carga brasileiro está baseada no modal rodoviário com 61,1% do total da carga transportada (CNT, 2011). A maior parte da produção do país chega aos seus

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destinos em caminhões que percorrem estradas de baixa qualidade, em especial nos estados da região norte. E essa região tem uma vocação natural ao transporte aquaviário em virtude da alta concentração de rios navegáveis durante todo o ano. O presente sistema seria bastante privilegiado com esta modalidade de transporte, pois a unidade de pirólise rápida estaria em Tucuruí, cidade às margens do rio Tocantins, que tem sua foz no Oceano Atlântico. A cidade sede da refinaria é Fortaleza, localizada no litoral do mesmo oceano. A distância entre os portos das duas cidades é de 1740,8 km. Embora o trajeto seja um pouco maior que o percorrido em rodovias, a eficiência do transporte aquaviário é muito maior. Para transportar a mesma quantidade de bioóleo o consumo de combustível é muito menor pelos rios em razão da correnteza a favor em direção ao mar. No entanto, tal mudança de via de escoamento da produção, acarreta em impactos a mais um sistema. Os corpos hídricos, os rios e o mar, passam a ser diretamente afetados pelo deslocamento de barcos e balsas transportando bioóleo. Novas variáveis passam a fazer parte do sistema e devem ser avaliadas a fim de se averiguar as reais vantagens deste modal de transporte de cargas na região.

A unidade de conversão da serragem em bioóleo, tal qual foi dimensionada, prevê o aproveitamento de toda a serragem gerada no desdobro primário das toras na região amazônica. Trata-se de uma planta centralizada, de funcionamento contínuo durante 28 dias do mês, portanto há também emissões contínuas para o ar. Por estar virtualmente instalada em Tucuruí, as emissões provocarão impactos diretos à população da cidade, devido ao volume de serragem a ser processado. Entre os gases emitidos, os HAP trazem grande preocupação, pois têm ação local e são carcinogênicos. Conforme já destacado, o PTH deste sistema está diretamente vinculado a este gás. Outro problema ligado à centralização é o transporte da serragem. Esta biomassa apresenta baixa massa específica, portanto é muito volumosa, característica que diminui a eficiência do transporte. O bioóleo, por sua vez, é muito denso, ao menos quatro vezes mais que a biomassa. Esta diferença evidencia a vantagem em transportar bioóleo no lugar de serragem.

Então, a descentralização da UPR em unidades menores instaladas nas principais cidades-pólo das zonas de exploração madeireira interfere diretamente em duas frentes: emissões HAP e distância de transporte da serragem. As emissões absolutas não se alteram, pois se referem à quantidade total de carvão queimada, que está diretamente relacionada com a serragem processada em todo o estado do Pará. Mas a abrangência local/regional do PTH, permite afirmar que duas UPRs serão menos impactantes que uma, mesmo que a emissão absoluta

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seja a mesma. Uma UPR centralizada emite 1912,15 kg de DCB equivalente de acordo com a quantidade de serragem identificada na pesquisa. Duas unidades descentralizadas processarão a metade de serragem disponível cada e consequentemente emitirão 956,2 kg de DCB equivalente. Por se tratar de uma categoria de impacto local, é mais interessante diluir as emissões em unidades menores. Os 1912,15 kg DCB equivalentes continuam a ser emitidos, porém divididos em pontos distintos, o que equivale a menores emissões por ponto. No entanto, para que tal divisão surta efeito, é necessário que as plantas sejam instaladas nas mesmas condições se fossem apenas uma. Isto quer dizer que as plantas devem ser instaladas em áreas equidistantes de centros urbanos, assim a área de influência da UPR deve ser a mesma para ambos os casos, caso contrário a emissão relativa (kg DCB equivalente por habitante ou por área) pode ser a mesma e o efeito benéfico da descentralização se anula. Os impactos dos transportes da serragem e do bioóleo são avaliados a partir da relação entre as distâncias, a massa e o consumo de combustíveis. A relação é direta, quanto maiores as distâncias percorridas e as quantidades de carga transportada, maior será o consumo de diesel e consequentemente haverá mais emissões para o ar. A descentralização implica em menores distâncias percorridas para o transporte da mesma quantidade de serragem (dependendo do número de UPRs), o que acarreta em um pequeno aumento da distância referente ao transporte do bioóleo que também é em menor quantidade, 70% da massa inicial da serragem. Mas a maior parte do trajeto percorrido pelo bioóleo será por via aquática, já que toda a produção descentralizada seria enviada à Tucuruí, de onde partiria para Fortaleza. Assim, a descentralização provocaria uma diminuição do consumo de diesel que implica na redução das emissões para o ar.

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4.6. CONCLUSÕES

Os resultados da Avaliação dos Impactos do Ciclo de Vida do bioóleo mostram que os potenciais impactos ambientais a ele associados se referem basicamente ao processo de Pirólise Rápida (PR). De fato, é a etapa que mais concentra insumos e como consequência as maiores emissões. A PR se caracteriza por não gerar subprodutos para fora dos seus limites, uma vez que o carvão produzido no processo é consumido internamente e os gases incondensáveis são utilizados como gás vetor.

O aproveitamento da serragem e a substituição do petróleo cru por bioóleo desempenham papéis semelhantes no sistema, pois ambos interferem no perfil ambiental por evitar emissões. O bioóleo tem importante papel na substituição do petróleo cru em uma refinaria, o que implica na redução de praticamente todas as categorias de impacto, em especial na depleção dos recursos abióticos. Na outra ponta da cadeia, o uso da serragem evita as emissões da sua decomposição e promove a remoção de CO2 equivalentes, diminuindo o potencial de aquecimento global.

Em função das hipóteses assumidas ao longo do estudo, há a necessidade de avaliações posteriores. As questões de transporte e de descentralização da UPR refletem a importância de uma avaliação de cenários a fim de se determinar quais são as opções que causam menos impactos ambientais. Em relação aos parâmetros obtidos em consulta à literatura, há alguns sobre os quais não se sabe seus limites de variação, portanto suas influências podem estar sendo subestimadas ou superestimadas. Este é o caso dos consumos energéticos térmico e elétrico, que devem ser alvo de análises de sensibilidade para se determinar o grau de confiança da escolha. Já o rendimento em incondensáveis tem uma faixa de variação do rendimento gravimétrico mínimo e máximo definida, portanto sua influência pode ser avaliada em uma análise de incerteza.

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Capítulo 5 – AVALIAÇÃO AMBIENTAL DA EXPANSÃO DO SISTEMA