PREMISSAS METODOLÓGICAS.
3 ESPÉCIES NORMATIVAS CONSTITUCIONAIS E SUA INTERPRETAÇÃO 1 A norma constitucional e suas peculiaridades.
3.4 Interpretação evolutiva e principiológica
A interpretação constitucional deve ser, acima de tudo, evolutiva. Deve ser realizada de modo a atribuirem-se novos sentidos aos dispositivos da Constituição, sem atentar contra sua literalidade, mas considerando mudanças históricas e dados políticos e sociais supervenientes, inicialmente não cogitados pelo legislador constituinte288-289.
Essa adaptação pressupõe postura dinâmica e atenta do intérprete, sendo indispensável para que mantenha a unidade da Constituição, bem assim para que ela (a Constituição) continue dando respostas às diferentes demandas e exigências sociais290.
285 A título de inspiração, BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da constituição. 6 ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 152; MIRANDA, Jorge. Manual de Direito constitucional. Tomo II. 4 ed. Coimbra: Coimbra Editora, 2000, p. 230.
286 BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da constituição. 6 ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 156.
287 BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da constituição. 6 ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 156.
288 Cf. USERA, Raúl Canosa. Interpretacion constitucional y formula politica. Madrid. Centro de estudios constitucionales, 1988, p. 107 ss.; BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da constituição. 6 ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 146. Guastini alerta não ser essa uma peculiaridade própria da interpretação constitucional. (GUASTINI, Riccardo. Teoría e ideologia de la interpretatión constitucional. Madrid: Trotta, 2008, p. 56 ss.).
289 Fala-se também em “mutações constitucionais pela via interpretativa”. Admite-se a transformação no sentido de dispositivos constitucionais, em razão de mudanças na realidade constitucional, desde que com isso não se afrontem os princípios estruturais e mais basilares da constituição (ou se incorra em inequívoca contradição da constituição escrita). (CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito constitucional e teoria da constituição. 7 ed. Coimbra: Almedina, 2003, p. 1229 e 1230).
290 USERA, Raúl Canosa. Interpretacion constitucional y formula politica. Madrid. Centro de estudios constitucionales, 1988, p. 109. Gilmar Ferreira Mendes fala da importância da flexibilidade e abertura constitucional a mudanças e novas alternativas, permitindo que se construam soluções para casos em que não há resposta clara no direito, em especial diante da incompletude constitucional (MENDES, Gilmar Ferreira. Interpretação constitucional e "pensamento de possibilidades". In COSTA, José Augusto Fontoura; ANDRADE,
Ao abordar essa temática, Hesse destaca a necessidade de que o significado da disposição constitucional seja definido à luz da realidade dominante. As mutações nos vínculos fáticos, a seus olhos, devem refletir e alterar a interpretação da Constituição, tendo como limite o sentido mínimo da própria proposição jurídica (sua finalidade, a chamada “vontade normativa”). E, se o significado daquele dispositivo não pode ser realizado, é o caso de uma revisão do próprio texto constitucional. A interpretação construtiva e criativa é admitida, desde que dentro desses limites291.
O que se aspira, com isso, é possível mediante interpretações principiológicas292, na medida em que o princípio transpira valores socialmente dominantes no estabelecimento da situação ideal de coisas visada. Por exemplo, se o princípio da proteção à família já foi considerado uma proteção à entidade familiar decorrente do casamento ou união estável (entre homem e mulher), bem como àquela monoparental (formada por qualquer dos pais e descendentes), hoje predomina visão diferenciada, decorrente da mutação dos valores sociais e da realidade dominante, encontrando-se aí abrangida nova forma de família, aquela decorrente de união homoafetiva293. E à luz dessa nova dimensão do princípio, que
absorveu essa nova realidade axiologicamente considerada, devem ser interpretados dispositivos constitucionais e infraconstitucionais.
Mas o que Hesse parece colocar como limite a essa sorte de construção interpretativa é a observância de métodos tradicionais de interpretação294.
Os métodos clássicos de interpretação hão que ser considerados na tarefa, coordenados entre si, porquanto nenhum deles seja absoluto295.
José Maria Arruda de; MATSUO, Alexandra Mery Hansen. Direito: teoria e experiência. Estudos em
homenagem a Eros Roberto Grau. Tomo II. São Paulo: Malheiros, 2013, p. 1022-1047).
291 HESSE, Konrad. A força normativa da constituição. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1991, p. 23. Guastini é enfático ao dizer que o intérprete não tem o direito de mudar o conteúdo da constituição pela via interpretativa, pois a adaptação da constituição à realidade é tarefa da revisão constitucional. (GUASTINI, Riccardo. Teoría e ideologia de la interpretatión constitucional. Madrid: Trotta, 2008, p. 57).
292 Parece perceber essa correlação, GUASTINI, Riccardo. Teoría e ideologia de la interpretatión
constitucional. Madrid: Trotta, 2008, p. 61.
293 Assim, STF, Pleno, ADPF n. 132, rel. Min. Ayres Britto, j. em 5.5.2011, publicado no DPJ de 13.10.2011.Cf. a esse respeito comentários de MENDES, Gilmar Ferreira. Interpretação constitucional e "pensamento de possibilidades". In COSTA, José Augusto Fontoura; ANDRADE, José Maria Arruda de; MATSUO, Alexandra Mery Hansen. Direito: teoria e experiência. Estudos em homenagem a Eros Roberto Grau. São Paulo: Malheiros, 2013, 2 t, p. 1045.
294 HESSE, Konrad. A força normativa da constituição. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1991, p. 23. 295 STERN, Klaus. Derecho Del Estado de La Republica Federal Alemana. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales, 1987, p. 283 e 284; BARROSO, Luís Roberto. Interpretação e aplicação da constituição. 6 ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 125. Jorge Miranda concorda que a interpretação constitucional, embora tenha especificidades, não se desvia dos cânones gerais (não tem natureza distinta da interpretação em geral) (MIRANDA, Jorge. Manual de Direito constitucional. 4 ed. Coimbra: Coimbra Editora, 2000, 2 t, p.260 e 261).
Assim, devem ser conjugados e aplicados, por exemplo, o método gramatical (em busca do conteúdo semântico do texto normativo), sistemático (considerando seu contexto normativo, em busca de conexões e em fuga de contradições), histórico (tendo em vista o ambiente histórico quando da sua criação e a vontade histórica do próprio legislador) e teleológico (observando sua finalidade e o valor subjacente a preservar)296.
O intérprete deve iniciar adstrito às possibilidades semânticas garantidas pelo texto constitucional, considerando o sentido das palavras, perpassando por análise sistemática e teleológica, para, enfim, encerrar com consideração histórica297.
Por fim, é comum que esse tipo de interpretação se realize quando o intérprete encara texto normativo aberto, vendo-se diante de cláusulas gerais e conceitos jurídicos indeterminados298. É o que se observa com a cláusula do devido processo legal e as dimensões que já lhe foram interpretativamente atribuídas, como a material e a cooperativa. E é o que se enfrenta quando o intérprete se depara com regra de competência para legislar sobre “processo”, “direito processual” ou “procedimento em matéria processual” (conceitos vagos e sujeitos a mutação histórica), problemática a ser aqui abordada.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS: A FUNÇÃO DESSAS PREMISSAS METODOLÓGICAS