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6. MATERIAL E MÉTODO

8.2 INTERPRETAÇÕES QUALITATIVAS

Após a revisão bibliográfica efetuada e a elaboração das categorias de análise, cabe-nos, neste momento do estudo, reunir as teorias com os dados empíricos, fazendo falarem os dados obtidos (PAIS, 1996).

No que concerne aos procedimentos de ordem ética, informamos corretamente os sujeitos sobre os objetivos, os temas, o seu anonimato, a neutralidade de juízos de valor, o seu envolvimento na pesquisa e a devolução dos resultados (GUERRA, 2006).

A análise e interpretação dos dados visam descrevê-los e interpretá-los, confrontando-os entre si e com o quadro teórico de referência, tentando evidenciar os seus significados. Salientamos, no entanto, que a nossa interpretação não é única, uma vez que nós também possuímos um quadro de referência. Lessard- Hebert, Goyette, & Boutin (1994) consideram que um dos objetivos do relatório da investigação qualitativa é fazer com que o leitor também analise e reflita sobre a pesquisa. A análise dos dados será apresentada seguindo a organização das categorias levantadas nos discursos dos sujeitos.

8.2.1 Sentidos atribuídos ao método de recuperação - crioterapia

Gervilla (1993), Lipovetsky (1989) e Touraine (1994) sustentam que a atividade física vale pelo prazer que dá e pela capacidade de libertar a pressão do dia a dia. O prazer prevalece sobre o dever e, portanto, aparece como o supremo bem que a vontade deve atingir. A procura do prazer, a alegria e a satisfação pessoal fazem parte de uma atividade corporal que privilegia a relação do sujeito consigo próprio.

Para o grupo de sujeitos a criotrerapia é um método importante, pois propicia “uma maior leveza do corpo”, “Acalmando a musculatura”, “fica mais... assim, relaxado”. Os sentidos aqui atribuídos em larga medida se coadunam com a função entorpecedora e de analgesia que o método propicia. Os sujeitos treinados sentiam- se, após a RPE, prontos para reiniciarem a tarefa. Como podemos verificar nos recortes discursivos que se seguem:

“Meu desempenho... avalio ótimo né...pude melhorar mais né...” (sujeito 1, 20 anos).

“Hoje meu desempenho melhorou muito... foi muito bom” (sujeito 7, 19 anos).

“(...) depois que eu saí do gelo (...) fui correr minha velocidade máxima; eu me senti mais tranquilo (...), como se eu estivesse iniciando novamente a minha corrida” (sujeito 8, 23 anos).

“(...) a do gelo eu me recuperei melhor” (sujeito 7, 19 anos).

No entanto, para outros sujeitos do grupo de avaliados os sentidos apontam para a categoria do “estranhamento” à aplicação do método, pois provoca uma situação de “desconforto e de dor”. Vejamos:

“as pernas queimavam muito...” (sujeito 9, 20 anos). “no gelo (...) só esse foi o pior...” (sujeito 11, 22 anos).

“...na crioterapia eu não me senti adaptado (...) me senti meio estranho nesta hora” (sujeito 5, 20 anos).

“(...) eu não me adaptei muito na recuperação do gelo. Na água gelada” (sujeito 10, 24 anos)..

A recuperação da corrida, compreendida aqui como relação de esforço físico e mental, é também simbólica e fundamentalmente social, uma vez que, como espaço ou campo de significações, é também campo de relações onde se cruzam os poderes, o disciplinamento corporal, o desejo de vencer, a participação.

A técnica da crioterapia utilizada submeteu o sujeito à imersão a temperatura a 5º Celsius, por 20 minutos, o que possibilitou ao sujeito percepções e sentimentos diferenciados da sua rotina diária.

Estamos perante um corpo-vivido, não no sentido da vida biológica, mas da vida intencional, através da qual o homem está no mundo em situação ativa e pela qual é ser-no-mundo, agindo sobre ele. Não se consegue separar o pensamento da ação. A unidade está presente na vida. Sempre que pensamos, agimos, sentimos, experimentamos, desejamos, amamos, gozamos, sorrimos, choramos, corremos, usamos o corpo e a mente na mesma medida. Como refere Santiago (2008, p. 203), falamos de um corpo que é “(...) parte integrante de um sistema de ações que são suscitadas, ora pelas necessidades (respirar, comer), ora pelas vontades (nadar, correr) que é a própria tomada de consciência corporal que possibilita o ser e estar no mundo”.

8.2.2 Sentidos atribuídos ao método de recuperação passiva

O ato de perceber implica a cooperação entre o processo cognitivo e o processo afetivo-emocional. O sujeito constrói uma imagem mental que permite categorizar o objeto, isto é, incluí-lo numa determinada classe, o que corresponde a identificá-lo com uma ideia ou conceito. E assim, perceber é dar sentido à aparência das coisas; numa palavra, compreender. E, pelo significado que lhe é atribuído, o objeto adquire certo valor para quem o percebe. Neste sentido, “o objeto de percepção aparece ao sujeito como mais ou menos admirável, provocando uma reação espontânea de apetência ou de repulsa” (RIBEIRO, 2005. p. 61 - 62).

Os discursos circulantes apontaram para a categoria da “ação natural do corpo”, pois “quando se está cansado paramos para descansar”.

“(...) achei bem mais... e apesar de não tirar as dores que a pessoa sente, dor muscular, eu achei a recuperação melhor foi a passiva” (sujeito 10, 24 anos).

“Pra mim esse de hoje, que é quando eu termino de fazer exercício físico e fico sentado, descansando” (sujeito 11, 22 anos).

“(...) é ... na medida em que eu corro.. bastante...(...) estou bastante cansado e ao mesmo tempo quando eu paro eu me recupero mais...com mais facilidade” (sujeito 12, 21 anos).

Como observado, o sentido da “ação natural de descansar o corpo” após ficar cansado é uma atitude que parece positiva e reconfortante para o processo de recuperação do corpo. O sentido entre o cansaço e o descanso apontado pelos sujeitos do estudo caracteriza-se pela categoria da “harmonia” que deve acompanhar as realizações pessoais e parece estar para além do pensar e do agir, pois mesmo considerando racionalmente o que outro método poderia trazer em termos de possibilidades de melhorias no seu desempenho, alguns pesquisados optam pelo que lhes parece ser mais natural.

8.2.3 Sentidos atribuídos ao método de recuperação ativa

Santiago (2008) aponta que o homem expressa determinada capacidade de ser e estar no mundo através dos conceitos, explicações e afirmações, advindas das interações sociais com os outros e com o espaço que o circunscreve. Assim, a

representação social diz respeito à maneira como nós apreendemos os acontecimentos da vida cotidiana, as experiências e os saberes que recebemos através da educação e da comunicação social.

Os discursos dos sujeitos remetem-nos às categorias de “continuidade de movimentos”, “operabilidade”, “manutenção do ritmo e da normalidade”. Vejamos os recortes das falas:

“O melhor método foi o ativo. Porque eu nunca perdi o ritmo, eu desacelerei um pouco na corrida, mas (...) em questão de vinte minutos eu voltei ao pique normal” (sujeito 5, 20 anos).

“Ativo, né... caminhada (...) continuei andando e a respiração foi desenvolvendo melhor” (sujeito 4, 22 anos).

“(...) andando, a gente não faz muito esforço, só a velocidade, o tempo limite” (sujeito, 18 anos).

Assim, os discursos apontam o método de recuperação ativa capaz de proporcionar um bem-estar, na medida em que os músculos ainda permanecem em movimento durante o período de “descanso”. Essa relação “movimento-descanso” parece favorecer a um estado de ânimo positivo para um novo esforço, uma disposição advinda da crença em novas possibilidades de se alcançar êxito em outra corrida, isto é, funda-se na crença de possíveis melhorias advindas do treinamento e de sua recuperação.

Essas questões indicam-nos que as ações não têm sentido em si mesmas, só adquirem sentido e significado nas relações que são estabelecidas, sejam elas em situações de treinamento, testes e em competição, pois é desta forma que se constrói a ideia de sujeito ativo, operante, movido por interesses, necessidades e desejos. Desta forma, as ações no âmbito do treinamento para o alto rendimento têm nos levado a refletir acerca da nossa práxis, lembrando que, enquanto homens, somos plurais, e que as intenções, os sentidos, os motivos, os valores diferem de pessoa para pessoa.

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