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INTERREGNO – SER/ESTAR, A CONJUGAÇÃO VERBAL

No documento Rafael Tavares Salles (páginas 119-133)

A exemplo do levantado anteriormente, deixo exposta aqui a minha primeira grande lição com os refugiados: a problematização da gramática portuguesa. É comum em nossa língua definirmos nossas atuações profissionais em uma construção gramatical que elenca o trabalho como parte integrante de nossa constituição. Ao falarmos a atividade que exercemos, falamos da seguinte maneira: Eu sou..., no meu caso, por exemplo, eu sou médico. Com isso, a atividade passa a ser uma parte constituinte do ser, mais um dos elementos de individuação que consolida a nossa formação identitária.

No caso dos refugiados, o meu primeiro espanto foi justamente no momento em que estávamos em uma reunião do grupo e quando foram feitas as apresentações dos participantes. Um refugiado congolês me interpelou dizendo que eu não era médico, e sim que eu exercia a profissão médica. Assim como ele que no Congo era advogado, mas, uma vez deslocado, fora obrigado a abandonar sua profissão. Desse modo, compreendia ele que a profissão não poderia ser um objeto de definição das pessoas. A seu ver, as pessoas deveriam ser definidas de acordo com suas potencialidades, de acordo com suas características singularizantes apenas.

Em minhas reflexões seguintes a essa intervenção, passei seriamente a considerar essa perspectiva como um relevante aspecto da conformação identitária no Brasil. Realmente, aqui e nos demais países de língua de origem latina, a gramática nos condiciona, sujeita-nos a definir nossa identidade de acordo com a atividade profissional que exercemos. Ao levantar esse questionamento e buscar embasamento na literatura para tal problematização, encontrei alguns paralelos na filosofia do acontecimento de Deleuze. A sua sugestão de amputação do S, na palavra francesa EST em nosso idioma, seria o equivalente à amputação do acento agudo do É, cujo sentido final seria semelhante à troca do é pelo e. Uma filosofia que da lógica do ser e do saber, da univocidade do ser, é em seu pensamento desdobrada em uma nova ontologia, essa que, por sua vez, apenas conhece devires, acoplamentos transversais, desvios, um campo de experiência e experimentação liberto da tutela do sujeito (ORLANDI, 2016; DELEUZE, 2006).

Pensar os refúgios e imigrantes sob essa ótica reconfigurava totalmente o meu próprio ato de pensar a migração. Partir da condição convencional e colocar os seres migrantes como resultados de uma situação externa que os obrigou pela própria existência a se deslocarem passa a ser uma atitude de transformá-los em seres reativos, em vítimas dos contextos locais de seus países de origem. No contrário, ao colocar a condição da migração como um ato de um agir ativo frente às possibilidades que se apresentam, evocamos a potência, a força daqueles que migram. Com isso, a desterritorialização física abre uma vasta gama de possibilidade, de vir a serem, de reconfigurarem suas próprias existências por uma nova ótica. Um Devir novo surge, um devir desterritorializado do próprio corpo, um devir migrante.

Ao sair do ponto de vista da vítima para o ponto de vista das potencialidades, o grupo de refugiados e migrantes se tornava, então, um coletivo de junção de potência. Por esse motivo, quando reinvidicavam uma voz própria, distante dos discursos das organizações não governamentais e dos demais aparelhos de auxílio à causa, almejavam não apenas uma autonomia em suas falas, mas também uma colocação de um ponto de vista que os tirasse dessa condição de vítima. Condição que, por sua vez, alimentava e justificava a própria existência dessas entidades. Com isso, tal possibilidade de criação de uma nova categoria semântica, a categoria dos migrantes como agentes ativos de suas próprias vidas. Aqueles que romperam com a passividade e a reatividade e migraram para reconfigurarem seus campos de possibilidades, ainda que esse rompimento seja produto de uma relação das forças internas subjetivas com os as externas sócio, econômicas e ambientais.

Com isso, não pretendo cair em uma categorização deificada da condição dos migrantes, mas sim dialogar com as possibilidades que se apresentam. Seguindo a mesma corrente pela qual caminhou o pensamento de Viveiros de Castro que pede à antropologia que ela se recuse a “atualizar os possíveis exprimidos pelo pensamento indígena”, seja os “desrealizando como fantasias dos outros”, seja “os fantasmando como sendo atuais para nós”, e, fazendo com isso, o papel de atuar preservando os tais possíveis enquanto possíveis, pois, “se há alguma coisa que cabe de direito a antropologia, não é a tarefa explicar o mundo de outrem, mas aquela de multiplicar o nosso mundo, povoando com todos esses expressos que não existem fora de suas expressões” (VIVEIROS DE CASTRO, 2015). Tomando, por fim, uma maneira singular, entre muitas outras possíveis, de respeitar um modo de existência, não o

efetuando, não o explicando, não o concretizando, mas antes deixando que ele percuta, varie e, sobretudo, ressoe.

Essa nova maneira de perceber e estar com o grupo, mais do que produzir um enorme deslocamento na minha própria postura enquanto médico, e enquanto pesquisador, revelou também em mim toda a carga de preceitos e preconceitos que trazia a campo, por trás de todas as minhas boas intenções, em pesquisar os imigrantes e refugiados ainda assim carregava valores normativos culturais e morais velados sobre a minha própria condição de julgo.

O movimento de desterritorialização corporal vivido como potencial de reconfigurar a existência a partir de novos a priori é um modelo de novos diagramas de agenciamento, são pequenas linhas de fluxo que escapam a semântica dominante e demandam uma séria de medidas discursivas, acadêmicas, midiáticas e jurídicas para reterritorializarem esses corpos deslocados.

Infelizmente, esses movimentos singulares hesitaram frente ao aparato do movimento social e pela necessidade de uma construção da linha de coletivização. Com isso, ao longo da pesquisa, a dissolução do grupo, ao menos da maneira pela qual ele pretendia se configurar, foi por mim sentida como uma perda muito grande. Ademais, apesar da minha intenção inicial na pesquisa, a qual era a de retratar os itinerários dos imigrantes e refugiados pertencentes do GRIST em suas buscas por cuidados de saúde e moradia no Brasil, pelos questionamentos levantados e pelas tensões vividas, percebi que a minha participação como médico já me colocava em uma posição prévia diferenciada dentro do cotidiano dessas pessoas. Se, por um lado, como profissional de saúde, conseguiria um acesso privilegiado a alguns aspectos subjetivos dos participantes do grupo, por outro lado, percebi que muitas vezes alguns aspectos de suas realidades nem sempre eram explicitados de forma clara. Acontecia um fenômeno de divergência entre o discurso e a práxis daqueles indivíduos. De modo genérico, a confissão médica que obtinha fazia parte de um domínio discursivo, no sentido que a acepção toma por meio de Marcushi.

Usamos a expressão domínio discursivo para designar uma esfera ou instância de produção discursiva ou de atividade humana. Esses domínios não são textos nem discursos, mas propiciam o surgimento de discursos bastante específicos. Do ponto de vista dos domínios, falamos em discurso jurídico, discurso jornalístico, discurso médico etc., já que as atividades jurídica, jornalística ou religiosa não abrangem um gênero em particular, mas dão origem a vários deles. Constituem práticas discursivas dentro das quais podemos identificar um conjunto de gêneros textuais que, às vezes, lhe são

próprios (em certos casos exclusivos) como práticas ou rotinas comunicativas institucionalizadas (MARCUSCHI, 2002, p3.)

Essas rotinas institucionalizadas fazem os interlocutores adotarem rotinas características típicas dos diferentes gêneros em suas ações práticas. Desse modo, percebi que a minha posição inicial no grupo gerava conflitos nos discursos das pessoas participantes. Existia, por assim dizer, uma ordenação do discurso de modo que a realidade falada pelos imigrantes e refugiados divergia da realidade objetiva de suas vivências, e isso ocorria especialmente na questão das moradias. Alguns aspectos habituais eram frequentemente omitidos. Chegavam até mim por meio dos brasileiros participantes do movimento diversos conflitos que surgiam diariamente pelas divergências de hábitos que o cruzamento cultural tornava evidente. Por vezes, os conflitos gerados eram motivos de discussões dentro do grupo. Nesses conflitos, a minha participação gerava um alinhamento discursivo por parte dos falantes que relativizava suas práticas de usos do corpo dentro de uma contextualização das expectativas dos discursos biomédicos. Para mim, ficou um posicionamento incômodo de ter de adequar os discursos às práticas e, de certo modo, com isso, me percebia frequentemente como elemento de interferência na produção dos discursos dos sujeitos.

Por outro lado, recebia dos líderes do movimento social, solicitações de intervenções nas vidas dos estrangeiros de forma reguladora e normativas para que se ajustassem ao ethos do movimento. Via-me em um papel de advogado e juiz nas situações de conflito. Além disso, como um pesquisador, tentando realizar uma visão distanciada para fins analíticos, era também um participante, posição essa que me fazia ser cobrado por determinados aspectos de atuação da competência de minha formação profissional.

Buscando diminuir os vieses de tal implicação, ative-me a seguir os imigrantes e refugiados em seus cuidados por saúde e, além disso, busquei construir, ou reconstruir, alguns aspectos de suas práticas corporais, seus diferentes modos de usos e significação dos corpos enquanto indivíduos deslocados fisicamente de seus ambientes culturais, acometidos por doenças e assistidos por práticas estranhas àquelas a que estavam acostumados.

Assim, meu novo objeto de análise passou a ser os itinerários dos corpos deslocados migrantes e refugiados em seus caminhos na busca por cuidados de saúde, compreendendo os aspectos amplos de saúde e de itinerários, ultrapassando

os limites teóricos dos modelos biomédicos e dos deslocamentos físicos pelos espaços de assistência de saúde governamentais, englobando, também, os aspectos peculiares a cada indivíduo, conforme suas diferentes solicitações e agências.

Caberão novas respostas à pergunta levantada a respeito da reconfiguração dos territórios geográficos implicados com a desterritorialização corporal. Esse modelo de agenciamento categorizado no devir-migrante é um fluxo dissonante que escapa do instrumental institucional das sociedades de controle. Escapa na mesma medida que demanda uma territorialização constante do aparato semântico. É um devir ativo que constantemente é atrelado há uma reatividade diante dos fatores opressores e adversos do ambiente externo, contudo, diante da potência e das potencialidades que trazem os corpos deslocados, chegam também novos modelos de existência, novas estruturas para se configurar uma vida, um breve espaço de respiro para nossos horizontes.

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