mestiças.
2(GRUZINSKI, 2001, cap. 2)
Um celular nas mãos do organizador da festa, de casta inferior e contratado para organizar um casamento. Este sub-contrata trabalhadores para fazerem o trabalho propriamente dito. A certa altura, a noiva indaga ao pai sobre a ausência de um quesito na ornamentação do jardim e este lhe responde. Está aqui, no papel.
Como no estrangeiro. A autoridade do pai da noiva sobre o jovem
decorador não provém apenas do fato das castas apresentarem possibilidades de prestígio social diferenciadas e desiguais. No caso, o pai é apresentado como de uma casta superior, bem sucedido nos negócios, mas bastante endividado graças aos preparativos para o casamento. O decorador é de uma casta inferior, mas dentro de um quadro de ascensão pelo trabalho e cuja velha mãe aplica suas economias em ações na bolsa de valores. A relação entre os dois, antes que pautada na tradição, apresenta-se em sua forma moderna: um contrato de trabalho.
Tampouco há essencialismos no filme, no que se refere ao repertório cultural tradicional da Índia, deslocado a todo instante com situações de estranhamento, hibridismo e mestiçagem. É isto o que ela nos propõe ao criar situações que destacam o comportamento dos primos que viviam nos EUA, Austrália ou outras regiões da Índia e que se veem juntos circunstancialmente em um casamento.
A descrição foi encontrada na coluna de uma memorialista de um jornal de uma pequena cidade do interior do Brasil dos anos 70. (CANI, 1973, p. 5) O texto, diferentemente do filme, é todo construído com verbos no passado. Certamente fala de um casamento em um momento, se é que podemos chamar assim, de sucesso de certas comunidades, famílias ou indivíduos descen-
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Said (1999, p. 259) faz uma discussão interessante acerca da relação ocidente/ oriente, conferindo complexidade às simplificações tradicional/moderno. O autor nos coloca o oriente para além de uma representação, propondo o romance como objeto privilegiado de análise da resistência e descolonização. Como tese central o autor propõe que o imperialismo tornou as culturas mutuamente híbridas. 2 Em especial o capítulo 2 intitulado Misturas e Mestiçagens.
dentes de imigrantes. Talvez não fossem, assim, os casamentos indesejados por algum dos múltiplos motivos que levam a isso. Ou ainda inesperados, quando o bebê pudesse nascer antes do sim. E o que dizer daqueles que se “ajuntavam” simplesmente? Não eram poucos. Por outro lado, é assim que muitas pessoas lembram ou imaginam um casamento: um banquete.
No dia seguinte a lua não era de mel os recém casados assumiam sua função no trabalho: A família, agora maior, exigia mais produção. Mas em compensação, por alguns dias deliciava-se em saborear as sobras do banquete de casamento. (CANI, 1973, p. 5)
Na descrição desse casamento entre descendentes de imigrantes de fala italiana, há uma valorização do trabalho compreendida a tal ponto de negar aos noivos o afastamento por pouco dias de suas funções na lua de mel e, ao mesmo tempo, de considerar os poucos dias de fartura e comilança a compensação pelo descanso negado. Essas pessoas vinham do campo e descendiam de gente do campo. E, tanto na Itália3 como depois nas colônias do Vale do Itajaí, a difícil lida para garantir a sobrevivência era uma constante. Com o cotidiano marcado por exaustivas horas de trabalho, o envolvimento de todos os membros da família nas atividades domésticas e da roça tornava a vida difícil. Certamente que um banquete de casamento era bem-vindo.
O casamento e sua comensalidade civilizatória permitem pensar o estoque cultural compartilhado sugerido no texto. Sentar juntos para comer e beber talvez diga mais de nós do que parece. (ELIAS, 1990) Explico melhor. O banquete descrito persegue uma versão “étnica” de casamento. São italianos. Ou descendentes de italianos. Obviamente, é um casamento italiano. Mas o que é um casamento italiano, nesse caso? Ou, como interroga Mira Nair, o que é um indiano? E vou me remeter novamente ao filme Um casamento à 3
Tanto na Itália, como em outros países emigracionistas, a fome e a miséria estavam presentes, costumando atormentar nos primeiros anos de alguns ou várias gerações de outros imigrantes (ver ALVIN, 1998, p. 215-287). Sobre as condições de vida na Itália no século XIX e os fatores geradores da emigração conferir Franzina (1976). Toda a parte primeira localiza o debate historiográfico e a questão da emigração como singularidade da historiografia contemporânea italiana. A partir disso, o autor passa a analisar as estatísticas e problematiza os aspectos expulsores de volumoso contingente populacional, tais como: a concentração da terra; as altas taxas pagas pela propriedade da terra; competição desigual por parte dos grandes produtores na comercialização dos produtos da agropecuária como fator de concentração da riqueza; excedente de mão-de-obra devido ao crescimento demográfico, comum a toda a Europa e não absorvido em industrias italianas, por exemplo, e, por último, as revoltas e a organização social como formas de resistência ao modelo ruralista tradicional.
indiana para pensar esta descrição de um casamento na colônia.
O filme, em linhas gerais, nos diz de uma Índia culturalmente híbrida.4 O texto também nos diz de misturas. Talvez nos diga mais de identificações em curso do que de identidades rígidas.5 (SANTOS, 1993)
Vamos pensar nesse gosto compartilhado de enfeites de palmito do qual o texto nos fala e da relação dessas pessoas com a floresta que cobria praticamente todo o interior do Estado naquele momento. A densa e incompreensível mata atlântica dos primeiros imigrantes era também o tempo do horror silvanun, justificável apenas nos primeiros anos das colônias. Mas se isto era regra por volta do último quartel do século XIX, não se pode dizer o mesmo dos anos que se seguem. As palmeiras ornavam as construções de madeira (casas, estábulos, ranchos) nos dias de festa. Vassouras feitas de fibras vegetais serviam para varrer o terreiro, o ambiente livre de “mato”. Provavelmente a exuberância da floresta fosse mais um ponto para o imigrante recém-alojado no interior das colônias estranhar a nova terra. A descrição nos diz sobre o momento posterior a isto. Os palmitos passam a enfeitar os casamentos dos descendentes de italianos nas colônias, como provavelmente enfeitavam tantos outros casamentos, quermesses e as mais variadas reuniões festivas na região.
Mas se os palmitos podem ser vistos como uma apropriação da mata nativa pelos imigrantes, o que dizer de hábitos como o de beber cachaça? Presente no texto na forma de licores, são inúmeras as referências da disseminação do consumo da bebida nas colônias,6 como nesta outra narrativa feita por um religioso em trânsito sobre um casamento em Nova Trento e que talvez ilustre melhor sobre a complexidade do argumento. Trata-se de um relato do início do século XX (1902), publicado como “Impressões de viagem”.
4 A imprensa especializada trata a indústria cinematográfica indiana desta forma, é a estética de Bollywood. Tem um mercado que atinge além da Índia e seus um Bilhão de habitantes, o sul da Ásia, o Oriente Médio, parte da África e o Sudeste Asiático. Designa também um estilo musical. (UM CASAMENTO..., 2001) No filme a trilha sonora dance e folk embala muitas cenas tornando-o tributário da leveza e alegria deste estilo, além do contraste entre modernidade e tradição constituído pelas tomadas externas em Nova Dehli. Os personagens falam em hindu, punjabi e inglês. A família Verma apresenta um estilo de vida compreendido como de classe média ocidental.
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Para Santos (1993) a questão das identidades esconde negociações de sentido (identificações em curso), o que nos leva a perguntar em que condições, contra quem, com que propósitos e com que resultados se dão operações desta natureza. Ainda sobre isto conferir Poutignat e Streiff-Fenart (1998). Segundo os autores parece que a questão das identificações está
O padre narra uma espécie de charivari,7
Um casamento de viúvos é, para a mocidade, e até para muitos casados, um acontecimento e uma verdadeira folia. Ajuntam-se em grande número na noite em que se realiza o casamento, colocam-se em frente da residência dos recém casados, e então começam a executar uma música originalíssima em que, para ser mestre e muito aplaudido, não há necessidade de ensaio. Cada qual leva o instrumento que mais lhe agradar, pois, por muito desatinado que seja, no fim de contas sempre dá certo. Os instrumentos mais usados são: campainhas, chifres furados e panelas quebradas. O instrumento, contudo, que mais concorre para animar o grandioso espetáculo, sendo o preferido por uma boa parte dos músicos, talvez por sua sonoridade doce e suave, são as latas de Kerozene. Calcula-se agora toda essa diversidade de instrumentos tocados com todo o fervor, durante horas inteiras, por trinta, ou quarenta e mais rapazes, que pandemonium hão de produzir! Se o recém casado, depois de algumas horas de tão penoso trabalho, em sinal de gratidão e recompensa, os convidar amavelmente para sua casa, e lhes oferecer um copo de vinho, uma xícara de café, ou mesmo um simples calix de aguardente, tudo termina depressa e com a maior satisfação de todos. Se, pelo contrário, o festejado, por teimoso, não quiser praticar esta pequena delicadeza, neste caso as harmonias recomeçam e prolongam-se indefinidamente em dias subsequentes.(VICENZI, 1904)
As narrativas das festas cimentam pertencimentos. Tanto a narrativa do filme quanto a do texto do jornal são muito mais do que descrições da vida dos “italianos” ou dos “indianos”; são, antes de tudo, versões de histórias de italianos e indianos. No caso, são versões mais ou menos livres. O filme, pela sua óbvia submissão aos imperativos da indústria cinematográfica, sofreu inúmeros tratamentos até uma versão final, constituindo, segundo a diretora, “minha versão da Índia punjabi”. O texto apresenta um casamen- to numa colônia descrito a partir das lembranças da articulista. Se a memória é sempre seletiva, segmentada, parcial, marcada pela ligada diretamente
à pergunta: quem é você? Parece que as pessoas esperam esta pergunta ou cria- se a necessidade de formulá-la e a resposta é a recomposição dos pertencimentos. Assim, podem ser, a título de exemplo, empreendidas ações no sentido de reforçar a valorização dos laços familiares, o “orgulho do sangue” etc. Especificamente sobre os processos de identificação ver Lacan,(1996, p. 97-104) e Hall (1999). Stuart Hall (1999) reflete sobre a construção das culturas nacionais, afirmando que a nação é uma comunidade política imaginada (Benedict Anderson) entendida enquanto discurso, ou seja, um modo de construir sentidos que organiza nossas ações e a concepção que temos de nós mesmos. 6
Relatos de religiosos, textos literários, bem como os inúmeros decretos estaduais no sentido de regulamentar o uso e consumo da bebida indicam a popularidade do consumo de cachaça no país. Trata-se de uma bebida barata e de fácil aquisição, rapidamente incorporada aos hábitos dos imigrantes, e, no caso da região em questão, superando em muito o consumo de vinho.
subjetividade de quem a evoca, convém não esquecer o contexto em que ela é evocada.
O texto refere-se a Rodeio, uma cidade de pouco mais de dez mil habitantes, situada no Vale do Itajaí, Estado de Santa Catarina. Na época em que foi escrito o texto em destaque, estava para ser comemorado o centenário da imigração italiana para a região. No ano de 1975, a autora participou das comemorações do centenário da imigração para Rodeio. A cidade está situada em uma região em que, até meados do século XIX, possuía densa floresta de mata atlântica e presença significativa de populações indígenas. Naquele século foram implementados projetos governamentais (do Império ou provinciais) ou privados com o objetivo de promover o adensamento populacional na região.8 Chegaram imigrantes de inúmeras regiões europeias. Em 1975, comemorou- -se o centenário da chegada de alguns desses grupos na região. Rodeio teria recebido imigrantes da região de Trento, de onde veio uma delegação para as comemorações.9
O fenômeno expulsor10 que na Europa impulsionou milhares de pessoas a fugirem da fome e da miséria material aqui tem sua chave invertida: os recém-chegados italianos são tratados como fundadores de muitos núcleos populacionais que, aos poucos, vão “manchando” as áreas de floresta e adjacências. Esta ocupação do território passa a ser entendida como fundante de uma nova cidade, região ou de um modo de vida, uma ética própria do imigrante e de seus descendentes. Assim, essas pessoas teriam uma identidade e uma cultura próprias, fruto desta especificidade. Das comemorações, emerge uma interpretação triunfalista da imigração italiana, como diz José de Souza Martins (1992, p. 25), e, neste sentido, a “História local constitui um caso fascinante de deformação.”
Decerto, fascina-nos a beleza e o colorido punjabi do filme de Mira Nair, no entanto, é bom saber que se trata do ponto de vista
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Charivari era uma espécie de interdição ‘consentida’ socialmente, em que grupos de jovens bebiam e promoviam arruaças com o intuito de evitar a consumação de casamentos não desejados socialmente. Caso não fosse pago um tributo pelos noivos - viúvos com moças jovens, velhas senhoras com homens mais jovens etc.-, o festim se instalava sob a janela dos nubentes por dias a fio ou promoviam situações mais constrangedoras e violentas em Razões do desgoverno Davis (1990, p. 87-106). 8 Convém lembrar que este não é um fenômeno isolado do panorama nacional e internacional em meados do século XIX. (Cf. ROSOLI, 1978) 9
Sobre isto conferir Dolzan (2003). 10
Dois trabalhos que permitem uma boa visualização do fenômeno são o de Sori (1979). Conferir principalmente a parte primeira e secunda do livro (capítulos I a IX). Outro texto que problematiza a questão da imigração italiana e seus motivadores é Lazzarini (1981).
de uma documentarista formada no ocidente e que trabalha com uma equipe parcialmente indiana. Pensando de outro modo, o hibridismo ou a mestiçagem talvez nos digam mais do que a fixação em algo como uma cultura ou uma identidade, como observou Gruzinski (2001, p. 53-54),
Identidade e cultura: o que as duas palavras cobrem pode, portanto, a todo instante ser fetichizado, reificado, naturalizado e elevado a um nível absoluto, às vezes deliberadamente, com as consequências políticas e ideológicas que conhecemos, mas também, como é frequente, devido à inércia do espírito, ou à desatenção diante dos clichês e estereótipos. Na verdade, se essas categorias impregnam tanto a nossa visão das coisas e parecem dar um quadro de explicação satisfatório, é porque decorrem de maneiras de pensar profundamente arraigadas.
Sugerido no filme como condição da própria Índia, a beleza está na dificuldade em se fechar sobre o típico. As coisas são aprendidas, melhoradas, trocadas, esquecidas. No texto, há maior sutileza ao tratar de mestiçagens, como na citação do licor de chocolate, que pode ser estendida no caso dos imigrantes ao hábito de beber cachaça ou de comer churrasco. A construção de uma identidade italiana para os descendentes de imigrantes de língua italiana sofre deste mal original. O imigrante como “tema” sempre implica esta dificuldade. Em um contexto social mais amplo, não pode ser caracterizado muito além de “italianos”, “tiroleses”, “trentinos”.
Por outro lado, quando se faz isso sem muito cuidado, tais generalizações conferem a marca de atores principais de uma trama que deixa de fora ou trata como coadjuvantes os índios e a difícil questão dos conflitos pela posse da terra, em um lugar marcado por violência recente, onde o imaginário social insiste em nomear tais povos como bugres. Vale lembrar, também, as tensões com os alemães e os luso-brasileiros ricos e o desprezo ideologicamente manipulado aos negros e luso-brasileiros pobres.
Este texto apresenta um capítulo inicial importantíssimo na problematização das fontes e métodos utilizados para analisar e quantificar o fenômeno migratório italiano.
A condição de periferia marca esta identidade. O interior da Província vira o interior do Estado. A natureza exuberante e assustadora pressupõe necessariamente a domesticação do ambiente, a qual só é possível no aprendizado com os nativos (o uso adequado do bambú e das palmas tanto para enfeite como a construção das primeiras casas). O mestiço, aqui constituído nas duras condições do campo, a ponto de a comilança ser a substituta da lua de mel, parece desaparecer nas representações que se tenta operacionalizar acerca do “ser italiano”. Um ponto em comum àqueles imigrantes do século XIX é exatamente a busca por melhores condições de vida. Busca que pode significar abrir mão de parte daquilo que vivia, que se acreditava. Aprender a viver na nova terra foi fundamental para conseguir isso. Mas se buscar os hibridismos e mestiçagens pode parecer distante e demasiado especulativo, convém pensar o presente – ou como estas coisas se apresentam nos dias atuais. O Vale dos trentinos é apresentado como lugar da operosidade, da prosperidade, típicas dos oriundi. Esse discurso identitário pode ser localizado nas ações dos círculos de cultura italiana da região, em geral, um circuito de mercado.
O hibridismo evidente torna-se um componente da espetacu- larização da cultura, parafraseando Guy Debord. Neste sentido, Michel de Certeau (1967) sugere,
Uma vez que a capacidade de produzir é na realidade organizada segundo racionalidades ou poderes econômicos, as representações coletivas se folclorizam. As instâncias ideológicas metamorfoseiam-se em espetáculos. Excluem-se das festas tanto o risco como a criação (a aposta pelo menos mantém o risco). As fábulas para espectadores sentados proliferam nos espaços de lazer que tornaram possível e necessário um trabalho concentrado e ‘forçado’. Em compensação, as possibilidades de ação acumulam-se onde se concentram meios financeiros e competências técnicas. Sob esse aspecto, o crescimento do ‘cultural’ é a indexação do movimento que transforma o ‘povo’ em ‘público’.11
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A referência a Guy Debord é minha, o autor se utiliza do livro de Raoul Vaneigem, Traité de savoir-vivre à l’usage dês jeunes générations, Gallimard, 1967.
A participação de alguns Círculos de cultura italiana na organização das festas municipais, ou nas tentativas de implanta- ção do ensino do idioma italiano nas escolas municipais e estaduais, pode ser tida como a tentativa de configurar uma identidade italiana. Isso pode ser observado em muitos municípios como, por exemplo, em Rio dos Cedros (Círculo Trentino de Rio dos Cedros), em Rodeio (Centro Cultural de Rodeio), Brusque (Círculo Italiano de Brusque) e em Nova Trento (Círculo Italiano de Nova Trento). Diversas dessas atividades contam com o eventual apoio do governo do Estado de Santa Catarina.
As entidades não são a mesma coisa e nem fazem as mesmas coisas. Poderíamos citar a apresentação de corais, jantares típicos ou congressos e conferências de descendentes, como a Primeira Conferência de Florianópolis (I conferenza di Veneti dell’America Latina – 1997), ou ainda os acordos com várias Províncias italianas e a inclusão do italiano como língua optativa na rede estadual. Mas esgotaríamos tinta e papel sem o intento de realizar, caso resolvêssemos listar as inúmeras festas familiares, encontros e publicações com o mesmo intento – constituir a árvore genealógica de uma família.
Em geral, quem fala em nome dos italianos na maior parte das entidades seleciona, recorta, organiza no presente, representações essencializadas de um passado mítico. Como observou Dolzan (2003, f. 40), ao analisar a festa La Sagra, em Rodeio,
A cada ano a festa ‘La Sagra’ incorpora novas atrações que apareciam nos folders e programações cada vez mais especializadas em divulgar a tradição italiana. No folder da festa realizada em 1990, a ênfase foi dada às comidas típicas como a lasanha, galinha, polenta, pizzas, churrasco, salames e queijos. E também às bebidas como licoreto, bonikam (aperitivo preparado com 25 ervas, açúcar queimado e cachaça), “birra dolza” (cerveja doce) e o vinho. Conjuntamente às bebidas tradicionais, o chopp esteve presente. [...] É impar notar que elementos pinçados, recriados ou mesmo inventados,
coexistem com tradições que não são italianas. É o caso do chopp, do churrasco e das músicas regionais. Ainda que se busque maquiar a autenticidade e permanência de manifestação identitária, não é possível esconder a demanda do próprio público da festa, quer seja ele local ou das cidades vizinhas. A festa tem que ter churrasco, chopp e marchinha.
As características das festas folclóricas, com a presença de elementos típicos, como os grupos de canto, por exemplo,12 estão presentes de forma significativa no conjunto das ofertas das entidades culturais. Convém pensar a dimensão disso, na medida em que, como disse Marc Bloch (2001, p. 42), o “[...] ocidente sempre esperou muito de sua memória.” O esforço dessas diversas