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Ao examinar o processo de modernização da justiça no eixo das tecnologias de gerenciamento da vida, parto, como Schuch, das contribuições de Michel Foucault (1984, 1985, 2015 [1978]) acerca das tecnologias do eu. Na investida de Foucault, como genealogista do sujeito moderno, a relação entre poder, confissão e produção de verdade reside em um aspecto fundamental da produção de tecnologias, especialmente a partir do século XIX. Seja na medicina ou na lei, a crença fundante das tecnologias do eu reside na convicção de que, com a ajuda de peritos, a verdade pode ser descoberta por meio de exames internos. Levando em considerando nossa tradição jurídica inquisitorial, na qual a busca pela “descoberta da verdade” é o fim último do processo judicial (KANT DE LIMA, 2009), é possível pensar a prática das constelações no Judiciário e sua busca por descobrir o que está “oculto” no conflito, em diálogo com as tecnologias do eu foucaultianas.

Se em uma primeira fase o discurso era inteligível para o próprio sujeito, na busca da verdade interna, na segunda fase o sujeito não era mais capaz: o “essencial” esconde-se, reside no inconsciente e cabe ao especialista interpretar (RABINOW & DREYFUS, 1995). Localizados na segunda fase do processo descrito por Foucault, os operadores do direito sistêmico visam lançar um novo olhar para as relações sociais, interpretando e desvelando a origem do conflito que, perpetrado de forma inconsciente pelas partes, se manifesta em forma de litígio. Tais reflexões foram, em alguma medida, compartilhadas com meus interlocutores devido a uma oportunidade que surgiu na Comissão de Direito Sistêmico da OAB-DF.

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Em uma reunião do GT de estudos da Comissão de Direito Sistêmico, ocorreu a sugestão da responsável pelo grupo de trabalho que tivéssemos contato com Michel Foucault, buscando perceber a consonância de algumas das suas contribuições com a visão sistêmica. Endossei a proposta levantada, e fomos incumbidos de ler e discutir, no encontro seguinte, o primeiro capítulo de Vigiar e Punir (1999), livro que compartilhei virtualmente com a comissão, por intermédio do presidente. Na reunião, a responsável pelo GT iniciou as falas compartilhando que Foucault possuía problemas paternos e era homossexual; ou seja, um excluído dentro do sistema.

Enfatizou ainda que Foucault, em sua produção, dedicou-se principalmente aos estudos das prisões, dos hospícios e das sexualidades, lançando luz às exclusões operadas na sociedade em torno desses sujeitos; promoveu, com isso, uma “inclusão” dos mesmos – algo que indica sua proximidade com as leis que regem as constelações familiares. Após essa introdução que credenciava Foucault como alguém importante do ponto de vista do direito sistêmico, minha interlocutora seguiu a exposição apontando alguns conceitos que julgou centrais do autor - como corpos dóceis, economia política do tempo, panóptico -, sem articulá-los de forma aprofundada à discussão do texto, pontuou que o seu intuito era de construir apenas um “mapa de leitura” para os demais integrantes.

Havia, nesse dia, expectativa em torno da minha contribuição, e desde o começo da exposição, a responsável pelo GT indicou abertura para que assumisse a palavra e complementasse a discussão em torno do texto e do autor. O trecho selecionado de Vigiar e Punir (1999) abordava a “humanização” do direito penal, mediante o processo de desaparecimento do corpo suplicado. De acordo com Foucault, a punição, anteriormente um ato de espetáculo da violência por meio do corpo em suplício, passou a assumir um lugar mais “oculto” no processo penal, saindo da percepção para adentrar no domínio da consciência abstrata. Nesse processo, a Justiça deixa de assumir publicamente a violência que integra o seu exercício, construindo uma negação teórica em torno da mesma: o “essencial” da pena não consiste em punir, mas corrigir, recuperar, curar. Acompanhamos, com isso, a entrada da alma no processo penal.

A entrada da alma no processo penal implica a inserção/construção na prática jurídica de todo um novo saber sobre o corpo. A nova relação com o castigo produziu um novo sujeito, agora submetido a uma economia política do corpo que visava torná-lo submetido e produtivo, ao invés de um espetáculo da violência. A pena passou a exigir

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uma expiação que fosse além do corpo e do sangue, almejando um “castigo que atue, profundamente, sobre o coração, o intelecto, a vontade, as disposições” (FOUCAULT, 1999, p. 20), e com isso, novos sistemas de penalidades foram implementados. Em processo na Europa há mais de 200 anos, esses novos sistemas conduziram os juízes a julgar, além dos crimes, a “alma dos criminosos” (idem, p. 23). Diante desse processo, um exército de técnicos passou a ser incorporado ao aparato jurídico visando substituir o carrasco: médicos, psicólogos, vigilantes, educadores etc.

Desse modo, um novo regime de produção da verdade começou a operar na justiça criminal, que passou a justificar e perpetuar sua existência mediante a referência a outras áreas de saber, reinscrevendo suas práticas em sistemas não jurídicos (idem, p. 26). Esse novo regime de verdade incorporou uma quantidade de papéis até então inéditos no sistema criminal, e toda uma gama de saberes, técnicas e discursos “científicos” foram construídos em torno da prática e do poder de punir – especialmente oriundos da área da saúde. Em minha fala na reunião do GT de estudos, apresentei essa sistematização da leitura em tom professoral82, com algumas provocações que foram

formuladas com base nas possíveis aproximações entre o processo abordado por Foucault (enfoque no direito penal) e as transformações propostas pelo direito sistêmico (todo sistema jurídico).

Dentre as provocações, apontei o caráter processual da construção da “humanização” do sistema, reforçando que tal processo não implica uma “evolução natural”83, mas sim a produção de novas tecnologias políticas que, inclusive, alastram o

poder do sistema jurídico para outras esferas do sujeito - a sua “alma”. Não ausentei de, na minha exposição, lançar luz ao fato de que a alma evocada por Foucault não se aproxima do conceito de alma do campo da constelação, apesar de indicar um processo mais amplo que nos ajuda a pensar sobre a existência e a retórica do direito sistêmico: a alma em Foucault assume uma realidade histórica na qualidade de elemento no qual se articulam os efeitos de um certo tipo de poder em referência à construção de um saber sobre ela; saber este que reconduz e reforça o poder. Nesse processo de saber-poder, “vários conceitos foram construídos e campos de análise foram demarcados: psique,

82 O tom professoral adotado integra a dinâmica das relações tecidas e a construção da credencial de

pesquisadora, bem como as expectativas em torno da atuação como membra consultora.

83 Meus interlocutores reforçam o caráter evolutivo e natural da mudança em curso, por isso atestar o caráter processual por intermédio de Foucault era pertinente.

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subjetividade, personalidade, consciência etc.; sobre ela técnicas e discursos científicos foram edificados; a partir dela” (FOUCAULT, 1999, p. 33).

Assim, acrescentei à listagem dos técnicos e peritos incorporados ao sistema jurídico os consteladores e operadores do direito sistêmico, tomando-os como produtores de uma nova tecnologia de gerenciamento da vida e produção de sujeitos no judiciário que cria novos discursos de saber-poder sobre o corpo (e a alma) dos sujeitos. Aproveitei o gancho para apresentar também a discussão que abre este tópico, acerca de como tais peritos passaram a dedicar a atenção para aquilo que está “oculto” no processo judicial, e como a verdade paulatinamente passou a esconder-se no inconsciente do sujeito. Acrescentei a necessidade de pensar como o advento do direito sistêmico está inserido em um processo mais amplo de retórica de modernização da justiça e sua “humanização” - que acompanhamos em Foucault sobre o sistema penal, mas que se desenvolveu em outras esferas da justiça e vem criando atualmente novas tecnologias, como a justiça restaurativa e o direito sistêmico.

A recepção, por parte dos meus interlocutores, da minha exposição foi surpreendentemente positiva, apesar de ter gerado dúvidas e exigências sobre as propostas práticas de Foucault para solucionar o que foi lido como um “problema” do sistema. Segui a reunião, juntamente com a responsável pelo GT, sanando dúvidas e apresentando de forma sintética as ideias de Foucault em outros trabalhos. Esse episódio esporádico me permitiu concluir este capítulo explorando tanto as contribuições de Foucault quanto a forma como compartilhei minhas impressões com meus interlocutores acerca do processo mais amplo que ancora o surgimento do direito sistêmico e sua intersecção com a área da saúde. Cabe, agora, tendo em vista o processo incipiente de institucionalização das constelações no judiciário, adentrar suas peculiaridades, aprofundando os fundamentos que ancoram sua visão e as disputas que emergem diante da elaboração dessa “nova tecnologia”, especialmente no tocante à sua regulamentação e aos sujeitos por ela produzidos.

121 CAPÍTULO IV

A expansão do direito sistêmico:

Dissensos e consensos de uma institucionalização incipiente

Direito Sistêmico exige uma visão que vá além. Vejo que nós ainda somos minoria, tanto na magistratura quanto na advocacia quanto em outras áreas, mas vejo também que é um movimento muito consistente e irreversível, que só tende a crescer. Sami Storch III Congresso Nacional de Direito Sistêmico (2019)

A fala do juiz Sami Storch84, personagem que deu início ao então chamado direito sistêmico em 2012 e considerado o “pai” do movimento, é enfática ao ressaltar a existência de um processo – irreversível – em andamento: a construção de um novo paradigma na Justiça. Esse novo paradigma assenta-se na construção de uma nova visão por parte do operador do direito – agora sistêmica – capaz de transcender a esfera individual e direcionar o olhar para o “aqui e agora” (o mundo fenomenológico). Assim como na retórica de outros agentes do “processo de modernização da justiça”, Storch segue sua fala no congresso realizado em Maceió apontando o processo jurídico “tradicional” e o próprio Direito, com a ênfase na produção de “provas”, como perpetuadores de conflitos passados, pouco efetivos para o que deveria – supostamente – ser a prioridade: a restauração dos laços humanos.

Em consonância com as aproximações tecidas no capítulo anterior, Storch acrescenta que não apenas o direito sistêmico, mas “a justiça restaurativa também propõe essa visão”, incorporando, por analogia, o movimento do direito sistêmico em um quadro mais amplo de modificações dentro do sistema jurídico brasileiro. Contudo, o juiz ressalta que a diferença entre o direito sistêmico e as demais auto reformas implementadas está na sua capacidade de “ir além”, por meio da visão sistêmica que o sustenta. Há, dentre as peculiaridades desse “novo olhar” que se expande, três aspectos fundamentais que perpassam a discussão até então empreendida: i) a interconexão do campo da saúde “alternativa” com o campo da justiça; ii) a produção de um novo sujeito jurídico; iii) a retórica evolutiva de modificação da própria sociedade.

84 Palestra conferida no III Congresso Nacional de Direito Sistêmico na sede da OAB-AL, que tive a oportunidade de acompanhar nos dias 6 e 7 de maio de 2019.

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Para além disso, a frase de Storch reforça um aspecto que merece destaque neste capítulo: a tendência ao crescimento do movimento do direito sistêmico, considerado “consistente e irreversível”. As três características elencadas acima são articuladas pelos agentes do “novo direito” em um campo incipiente, no qual a elaboração de consensos e dissensos acha-se latente. Cabe, agora, reflexionar de que forma vem ocorrendo a busca por consolidar essa “novidade” no Judiciário, atentando para as idiossincrasias da sua visão sistêmica nos discursos dos meus interlocutores; em particular, evidenciando os consensos produzidos, bem como as disputas internas em torno da sua regulamentação.