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O enunciado, para Bakhtin, é formado por duas partes – uma parte percebida e uma presumida. Esta última, para ele, só pode ser notada se a sua presença for de sintonia entre as partes. Tudo aquilo que alguém sabe, gosta ou não gosta, não pode ser presumido (―pressuposto ou subentendido‖). É necessário que todos nós saibamos, gostemos ou não gostemos – apenas os pontos em que as partes estão em sintonia podem se tornar a parte presumida de um enunciado (BRAIT, 1999, p. 20)7. Diz-nos ainda Bakhtin que ―A compreensão completa o texto: exerce-se de uma maneira ativa e criadora. Uma compreensão criadora prossegue o ato criador, aumenta as riquezas artísticas da humanidade. Co- criatividade do compreendente‖ (BAKHTIN, 2000, p. 382).

A percepção do conteúdo intertextual torna-se com isso fundamental para a ampliação das possibilidades de leitura. Michael Riffaterre (1989) também direciona a intertextualidade como conceito ligado à recepção. Ele, assim como nós, diferencia as noções de intertextualidade da de intertexto. O intertexto é então definido como a percepção, pelo leitor, de relações entre uma obra e outras que a precederam ou a seguiram (RIFFATERRE, 1989), precisamente o que chamamos aqui de intertextualidade, e que Gérard Genette chamará de hipertextualidade. Para Riffaterre, o termo intertextualidade designa ―o fenômeno que orienta a leitura do texto, que governa eventualmente sua interpretação, que é o contrário da leitura linear [...] conjunto dos textos que encontramos na memória à leitura de uma dada passagem‖ (apud SAMOYAULT, p. 25). Genette vai então dizer que Riffaterre, além de definir em princípio a intertextualidade de uma maneira muito mais ampla que ele, vai ainda identificar a intertextualidade (―como eu a transtextualidade‖ [GENETTE, 1989, p. 11, tradução nossa]) com a literariedade. Assim, dirá Riffaterre que a intertextualidade é ―o mecanismo próprio da leitura literária. Com efeito, só ela produz significado, ao passo que a leitura linear, comuns aos textos literários e não-literários, produz apenas sentido‖ (apud GENETTE, 1989, p. 11, tradução nossa). Compagnon também reforçará este contato com a recepção. Para ele, o leitor

é uma vítima do que ele chama ilusão referencial – a confusão que faz o leitor acreditar que o texto se refere ao mundo, ao passo que ―os textos literários não falam nunca senão de estados de coisas que lhe são exteriores. E os críticos fazem, em geral, a mesma coisa, colocando a referencialidade no texto, enquanto ela é produzida pelo leitor‖ (COMPAGNON, 2001, p. 112, 113, itálicos nossos).

Gerard Genette, pela sua proposta, faz uma classificação pormenorizada daquilo que Kristeva classificou genericamente como intertextualidade e que ele vai denominar transtextualidade, que para ele será ―tudo que relaciona o texto, manifesta ou secretamente, com outros textos‖ (GENETTE, p. 9, 10). A função é, por assim dizer, dissecada e desmembrada por Genette em variados níveis de relações que um texto pode carregar com outro texto. Para ele, essa segmentação se fez necessária justamente pela amplitude que tomou a noção mais abrangente da intertextualidade (transtextualidade, para ele). Mas Genette deixa claro, logo na introdução de seu trabalho, que a proposta desta ―nova‖ lista não se pretende nem exaustiva nem definitiva. Para Gennete, portanto, ―hoje (13 de outubro de 1981) parece-me ser perceptível cinco tipos de relações transtextuais que vou enumerar em uma ordem aproximadamente crescente de abstração, de implicitação e de globalidade‖ (GENETTE, 1989, p. 10, tradução nossa).

Assim, o termo intertextualidade é aplicado por ele, de maneira mais restritiva que para Kristeva, a ―uma relação de co-presença entre dois ou mais textos. [...] Sua prática mais explícita e literal é a prática tradicional da citação (com aspas, com ou sem referências precisas); em uma forma menos precisa, o plágio (em Lautréaumont, por exemplo); a uma forma ainda menos explícita e menos literal, a da alusão, quer dizer, de um enunciado cuja plena compreensão supõe a percepção de sua relação com outro enunciado‖ (GENETTE, 1989, p. 10, tradução nossa, itálicos nossos).

Genette segue e define o segundo tipo, a paratextualidade, como as relações que um texto propriamente dito mantém com o que Genette chama de seu ―paratexto – título, sub-título, prefácios, epílogos advertências, prólogos, etc.; notas de pé de página, finais, epígrafes, ilustrações, etc, [...] que fazem um entorno ao texto e às vezes um comentário oficial ou oficioso‖ (GENETTE, 1989, p. 11, tradução nossa) ; em seguida, o terceiro tipo, a

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Beth Brait baseia-se, neste artigo, na biografia Mikhail Bakhtin (Harvard University Press, 1984). Este volume resultou de pesquisas nos obscuros arquivos russos pelos pesquisadores Katerina Clark e Michael Holquist.

metatextualidade, é apresentado como uma relação de comentário ―que une um texto a outro

texto de que fala. [...] A metatextualidade é, por excelência, a relação crítica‖ (GENETTE, 1989, p. 13, tradução nossa, itálicos no original); o quinto tipo, a arquitextualidade, refere-se ao modo como os textos são montados e reconhecidos como similares e que tem a ver com gêneros, embora, alerte Genette,

o gênero é só um aspecto do arquitexto. [...] a arquitextualidade do texto (é quase o mesmo que chamar-lhe a ―literariedade da literatura‖), o conjunto de categorias gerais ou transcendentes – tipos de discurso, modos de enunciação, gêneros literários, etc. – de que depende cada texto singular (p. 13, 9, tradução nossa).

Por fim, há o quarto tipo de relação transtextual, que Genette faz questão que venha após o quinto, pois é desse quarto tipo que tratará a maior parte da sua obra. A hipertextualidade é aquilo que une um texto (que ele chama de hipertexto) a um texto anterior (que ele chama de

hipotexto), numa relação que não é a do comentário.

Genette separa, portanto as categorias da intertextualidade (A está presente em B no texto B) da de hipertextualidade (B deriva de A mas A não está efetivamente presente em B). E, se Hipertexto é ―todo texto derivado de um texto anterior por simples transformação [...] ou por [...] imitação‖ (SAMOYAULT, 2008, p. 31). Aqui, Samoyault enxerga um afastamento da definição extensiva de Kristeva: ―o intertexto ou o hipotexto não são mais indetermináveis, mas determinados, localizáveis, [...] permite esclarecer relações entre um texto presente e um texto ausente, entre o atual e o virtual‖ (SAMOYAULT, 2008, p. 32). Para Genette, a hipertextualidade permite percorrer a história da literatura, e de outras formas artísticas, através dos recursos da imitação e da transformação, tomando a forma de paródia ou de paráfrase. Para ele, estas práticas intertextuais não se caracterizam por uma relação de co- presença, mas de derivação: a paródia, por transformação; o pastiche ou a paráfrase, por imitação. Samoyault, olhando para esta definição de Gennete, nos diz que a paródia ―transforma uma obra precedente, seja para caricaturá-la, seja para reutilizá-la, transpondo-a [...] mistura de dependência e de independência que faz toda a ambivalência da paródia. [...] A visada da paródia é subversiva (desviar o hipotexto para zombar dele) ou ainda admirativa‖ (SAMOYAULT, 2008, p. 53). Esta transformação se dá porque a paródia, nos diz Sant‘Anna, toma sempre o lado da oposição ao que está vigente: ―A paródia, por estar sempre do lado do novo e do diferente, é sempre inauguradora de um novo paradigma. De avanço em avanço, ela constrói a evolução de um discurso, de uma linguagem. [...] Falar de paródia é falar de

intertextualidade das diferenças‖ (SANT‘ANNA, 2004, p. 27, 28). Pelo outro lado da coisa,

Bakhtin já dizia que a inter-relação entre o os discursos (o narrativo e o citado) pode desenvolver-se por duas orientações. A primeira delas, ―pode visar à conservação da sua integridade e autenticidade. A língua pode esforçar-se por delimitar o discurso citado com fronteiras nítidas e estáveis‖ (BAKHTIN, 2002, p. 148). Podemos aqui entender essa tentativa da ―conservação da integridade do discurso‖ como o outro lado, como a oposição à paródia – a figura da paráfrase.