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Intertextualidade e conceitos afins

1. Intertextualidade e os temas recorrentes

A intertextualidade, por sua vez, é o processo de associação de um texto com outro, seja para refletir o sentido primeiro, seja para modificá-lo58. A intertextualidade ocorre quando, em um texto, está

inserido outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte da memória social de uma coletividade ou do domínio estendido de referência (cf Garrod, 1985) dos interlocutores.

Essa intertextualidade pode ser explícita: quando é feita menção à fonte do discurso dentro do próprio texto; ou implícita: quando se introduz, no texto, intertexto alheio sem qualquer menção da fonte, com objetivo quer de seguir-lhe a orientação argumentativa, quer de colocá-lo em questão, para ridicularizá-lo ou argumentar em sentido contrário. (Koch, Ingedore, 2000).

A intertextualidade de que fala Maingueneau (1989:27), se refere às relações estabelecidas entre um discurso fonte e aquele que mais tarde se mostra condicionado a ele. É comum ouvirmos dizer que não há novidade no que se diz, porque todo discurso, por mais inédito que pareça, estará incutido de um discurso outro. Ou seja, a medida que um discurso segundo, no sentido que vem cronologicamente depois, se constitui a partir de um discurso primeiro, conclui-se que esse discurso primeiro é o outro de um discurso segundo.

Podemos dizer aqui que encontramos vários discursos primeiros que podem estar inseridos nos nossos objetos de estudo - Estrela-Guia e Laços de Família - que observaremos mais detalhadamente adiante. São aquilo que chamamos de discursos fundadores. Essa conclusão se dá após analisar, cuidadosamente, as duas novelas e constatar os temas recorrentes como a orfandade, o sofrimento, a busca pelo par perfeito e o final feliz.

No espaço discursivo que recortamos para analisar, vimos estabelecidas relações intertextuais entre os temas tratados pelas telenovelas e aqueles já apresentados nos contos de fadas. A intertextualidade não se caracteriza, entretanto, só pela temática de que se trata, mas também em relação aos seus personagens, ou seja, os arquétipos.

Em geral, temos o nascimento, a morte, a vingança, a perda dos pais, a separação de quem se ama, ascensão social (através de heranças ou casamento) e o sofrimento, como temas básicos em que os contos de fadas se baseiam. Observando agora as telenovelas, a temática se repete, muitas vezes com ambiente, personagens, concepções e desfecho bastante semelhantes ao texto dos contos.

Mesmo sem a intenção de imitar ou copiar, a ação de incorporar, no seu, o discurso do outro se torna cada vez mais presente dentro das narrativas. Essa atitude é o que Maingueneau chamou de intertextualidade. A intertextualidade na narrativa estaria, exatamente, relacionada com a ligação daquele discurso estudado com o seu outro. No nosso objeto de estudo, a telenovela, o que observamos é uma relação intertextual, onde textos telenovelístico se intercambiam com os contos de fadas, reestruturando ou redizendo o já dito.

O que deve ser considerado, no entanto, é que, à medida que esses fragmentos são inseridos em outro texto, passam por uma transformação, ganhando nova configuração semântica. O escritor mostra aí sua característica autoral, encontrando uma nova maneira de dizer o que já foi dito, o que já se sabe.

O que se dá na relação entre telenovelas e contos de fada é o que Maingueneau (1989) definiu como intertextualidade interna. Ela se dá quando a relação discursiva acontece entre discursos do mesmo campo, podendo divergir ou apresentar enunciados semanticamente vizinhos aos que autorizam sua formação discursiva. Entendemos aqui que a formação discursiva é a responsável pelas questões ideológicas apresentadas, mesmo que tenham sido incorporadas de um outro, no discurso. É a ideologia como forma de delinear os discursos, cuja formação ideológica é capaz de determinar a formação discursiva.

As narrativas das telenovelas e dos contos de fadas são bastante semelhantes no modo pelo qual são constituídas estruturalmente e também no que diz respeito aos temas abordados. Apresentam começo, meio e fim e seguem uma determinada ordem temporal que conduz o leitor-espectador ao longo da trama.

Essa relação estabelecida entre as narrativas pode ser vista também como uma estratégia discursiva bastante eficaz. Se o autor remete seu discurso à outra obra, elaborada anteriormente e provavelmente de domínio do seu público, ele cria um efeito de evidência. Esse fenômeno é gerado pela familiaridade do telespectador com a estrutura narrativa das novelas, que pode ou não acabar - a depender da empatia do espectador com uma série de requisitos como horário, tema, atores - por gerar a solidariedade do espectador. É justamente nesse deslocamento de discursos, na adequação para agradar o público, que o autor pode tornar o interdiscurso criativo.

Quando estabelece um vínculo entre uma obra primeira e a atual, o autor remete a memória do telespectador-leitor a um passado discursivo no qual ele vai buscar subsídios para ancorar aquilo que está sendo apresentado. Familiarizado anteriormente com os contos de fada, o público ao qual a novela se destina - crianças e adolescentes- não precisa fazer muito esforço para estabelecer a ancoragem. É importante ressaltar que, na maioria das vezes, essa vinculação entre discurso primeiro e segundo não se dá conscientemente, ou seja, o leitor-telespectador pode não ser capaz de identificar que aquele conto está presente naquela novela, mas acaba por reconhecê-la como pertencente a uma estrutura conhecida.

2. Estudos de caso

A recorrência de temas sobre a qual falamos se refere, justamente, àqueles assuntos que se repetem tanto nos contos de fada como nas telenovelas. Mesmo que não haja um vínculo previamente estabelecido pelo autor entre a sua obra e uma outra, essa sensação de “déjà vu” está sempre presente, interligando as narrativas, como uma verdadeira receita de sucesso.