COMUNICAÇÃO VIA DEPARTAMENTO DE COMPLIANCE
Há zonas cinzentas entre o Compliance com os Departamentos de Auditoria,
Contabilidade ou Finanças, Qualidade, dentre outros. As interfaces vão desde o Departamento de Suprimentos à Comunicação e Marketing, Vendas. As ferramentas são múltiplas, Giovanini considera particularmente útil que cada Programa de Compliance desenvolva um Tracking Log103
sistematizado como um banco de dados para o acompanhamento do status de um caso que chegue ao setor, seja mediante hotlines ou compartilhamentos das informações sistematizadas pelas áreas que atuam com o Departamento de Compliance para reduzir os habituais desafios
ALVIM, Tiago Cripa, e VENTURINI, Otavio (orgs.). Manual de compliance, 1. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019, p. 233.
102GIOVANINI, Wagner. “Mecanismo de integridade ou arma para a proteção?” In: TOMAZ, Roberto Epifanio (org.). Compliance, gestão de riscos e combate à corrupção: integridade para o desenvolvimento, 1. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2018, p. 390.
103Colective Action: “O termo ‘collective action” vem sendo usado há logo tempo, em ciências sociais e econômicas, para designar esforços conjuntos, com o intuito de combater dificuldades gerais. Em relação à corrupção, entretanto, o tema ultrapassa a barreira da teoria, para aterrissar na prática, com resultados concretos, em forma de pactos, declarações, dentre outras iniciativas”. Cf. GIOVANINI, Wagner. Compliance: a excelência na prática, 1. ed. São Paulo: (Editora Independente), 2014, p. 400.
advindos das denominadas zonas cinzentas, seja por outras interfaces. Além das interfaces internas, também há externas: veículos de mídia, entidades de classe, câmaras de comércio, além dos interlocutores institucionais advindos de alguma Collective Action104 desenvolvida com o intuito de ampliar o impacto a credibilidade de ações já desenvolvidas ou mesmo de suprir temporariamente alguma ausência de legislação específica no combate à corrupção privada.
Cursos de formação, simpósios, conferências e palestras discutem as Boas Práticas em
Compliance, muitos são chamados a falar, de acadêmicos à consultores de renomadas empresas,
passando também por executivos, jornalistas, políticos e magistrados, muitas são as vozes para analisar as intertextualidades do assunto da moda.
As relações para com terceiros e as medidas para a mitigação dos riscos entre gestores e associados estão sempre em pautas nas conversas apresentadas por essas vozes. E essa realidade adquiriu especificidades próprias, jargões, um éthos:
Aliás, num tema tão explorado, tornou-se propício o surgimento de especialistas com pouquíssima experiência, capazes de repetir com perfeição os fundamentos utilizados nos eventos anteriores e, dessa forma, cada vez mais senso comum dissemina-se, sem a devida e profunda análise. [...] Consequentemente, atividades e processos ‘padronizados’ ficam consolidados na empresa sob o rótulo de medidas mitigatórias de riscos relativos aos terceiros. Mais quais riscos? Se mal definidas, as medidas servirão para propósitos estranhos à real mitigação e, portanto, direções erradas serão escolhidas. Daí a necessidade de muita cautela na descrição do risco. [...] Para identificá-lo, existe a condição obrigatória de considerar o ambiente, por exemplo: quais as legislações aplicáveis, o país de atuação, a natureza do negócio, o segmento da atividade, o real propósito da empresa, etc. Esse exercício, entretanto, parece esquecido pela maioria dos profissionais de Compliance.105
Sobre posicionamentos discursivos hegemônicos de fundo jurídico, tais quais os dos “especialistas” em Compliance supracitados por Giovanini ou mesmo do jornalismo jurídico, exemplo dado por Maria Helena Cruz Pistori:
Sabemos que todos os discursos expressam valores e visões de mundo. Nesse sentido, observamos que, nos enunciados, a mídia constrói um ponto de vista valorativo entre os vários possíveis, constituindo o conteúdo temático das páginas, embora o próprio jornalismo aponte a necessidade de sempre ouvir o outro lado de levantar o contraditório. Essa hegemonia de uma posição ideológica sobre outras
104Trecking Log: “[...] construção de um histórico detalhado dos casos de compliance [...]”. Cf. GIOVANINI, Wagner. Compliance: a excelência na prática, 1. ed. São Paulo: (Editora Independente), 2014, p. 277.
105GIOVANINI, Wagner. “Mecanismo de integridade ou arma para a proteção?” In: TOMAZ, Roberto Epifanio (org.). Compliance, gestão de riscos e combate à corrupção: integridade para o desenvolvimento, 1. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2018, p. 74.
possíveis caracteriza-a como um discurso monológico, aquele em que uma voz se sobrepõe a outras, buscando legitimar-se.106
Independente de reducionismos e simplificações em enunciados acerca das temáticas que envolvem os sistemas de Compliance a dinâmica da linguagem brilha envolta às intervozes e intertextualidades: Due Diligence como medida de estudo prévio para aferir integridade, Códigos
de Conduta para terceiro assinar, bem como Auditorias nos mesmos e Cláusulas de Compliance
nos contratos são exemplos de situações relacionais, bilaterais, pois levam em conta a desconfiança para com os riscos advindos de outrem. A confiança precisa ser conquistada.
Bakhtin e o Círculo tinham nas artes um componente essencial para a reflexão, mas sempre buscaram confrontar a linguagem com o mundo material, culturalmente estruturado, explicando a relevância das intersubjetividades para a dinâmica da linguagem que flui entre sujeitos históricos e sociais:
Para Bakhtin, nada que diga respeito ao mundo da cultura pode ser extraído da abstração primeira do signo. Na vida real, todo signo é inelutavelmente duplo, não como expressão de duas referências abstratas, mas como expressão de dois sujeitos e de duas visões de mundo. Nosso olhar sobre o mundo é só nosso porque há um outro olhar com relação ao qual o nosso ganha sentido. Pois bem, esse ‘dialogismo interior´, isto é, o traço duplo inelutável, insuperável e inseparável da linguagem em todas as suas instâncias é constituinte, para Bakhtin, da linguagem ela mesma. O traço dialógico é parte constitutiva de todas as realizações vivas da linguagem, daquilo que Bakhtin chamou, no seu primeiro livro, Para uma filosofia do ato, de ‘ser evento’, e não se confunde simplesmente com o aspecto composicional do diálogo, o diálogo no teatro ou na fala cotidiana. O dialogismo interior significa que, havendo linguagem concreta, viva, no evento do ser haverá necessariamente e pelo menos dois pontos de vista ideologicamente entranhados em ação. Esse é o nosso equilíbrio – e é nosso justamente porque há uma outra ponta dando a medida do nosso passo.107
No século XXI as empresas transnacionais estão estruturadas em dezenas de países e lidam com multijurisdições e fronteiras em todas as etapas de seus respectivos negócios. A noção de plurilinguismo, ou heteroglossia, passa a ser relevante em um período no qual polifonia não era empregada nos textos do Círculo, descrevendo de maneiras palpável a enunciação da palavra concreta por Bakhtin, ao largo dos anos 1930:
106PISTORI, Maria Helena Cruz. “Democracia, jornalismo e discurso jurídico: ressonâncias dialógicas e hegemonia” In: BRAIT, Beth e MAGALHÃES, Anderson Salvaterra (orgs.). Dialogismo teoria e(m) prática, 1. ed. São Paulo: Terracota, 2014, p. 164.
107TEZZA, Cristovão. “Sobre a autoridade poética” In: FARRACO, Carlos Alberto, TEZZA, Cristovão e DE CASTRO, Gilberto (Orgs.). Vinte ensaios sobre Mikhail Bakthin, 1. ed. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 240.
[...] A ideia de uma ‘linguagem única’, tão cara historicamente ao nosso imaginário, será portanto, para Bakhtin, uma ficção teórica sistematizada abstratamente; é preciso que nos afastemos da vida concreta da linguagem para que possamos vê-la como uma abstração reiterável. No evento do ser, na urgência irrecorrível da palavra cotidiana, a linguagem jamais é única, neutra, desinteressada ou repetível. [...] Dessa natureza plurilíngue da linguagem Bakhtin extrai duas forças sociais e históricas, que ele chama de ‘forças centrífugas’ e ‘forças centrípedas’. As primeiras seriam aquelas que jogam permanentemente a favor da divisão, estratificação, variação e multiplicação da linguagem, em todas as suas esferas; as segundas; centrípedas, seriam as forças que trabalham a favor da unificação e da centralização da linguagem. Por princípio, a linguagem não é um fenômeno único; ela se torna única objetivamente em oposição às forças, digamos ‘naturais’, da diversificação. Isto é, a unidade linguística é, para Bakhtin uma construção histórica e social e não um dado natural da linguagem. [...] Para Bakhtin, cada palavra é no mínimo duas palavras; e cada evento da linguagem é a atualização de uma relação de forças entre sujeitos históricos distintos [...].108
Bakhtin apresenta a linguagem nas artes e no mundo social, a pluraridade dos pontos de vista compostas pelo diálogo entre as vozes do outro e o seu próprio mundo. São diversos os significados ideológicos: do conhecimento, da moral, da política, da filosofia. Cada enunciado entre langue e parole segue essa relação dual. Sintaxe, estilo, gramática, estilística, gêneros do discurso, literários, ou não, ordinários. Os papéis desempenhados perante a realidade social e as relações interpessoais cotidianas passam por monologizações que ressignificam perspectivas ideológicas advindas do conjunto discursivo no contato com outrem, tornando-as inteligíveis, palatáveis, coerentes, o surgimento da “palavra própria”.
A análise que Bakhtin propõe da ideologia mostra-se especialmente apropriada à realidade atual das ideologias, e suas estratificação, interconexão, ambivalência, covivência recíproca, unificação, comuflagem, fisionomia imprecisa, carência de posição definida e derivação duvidosa. Para tratar o problema do sentido ideológico, Bakhtin utiliza o ponto de vista da literatura. Como ele mesmo diz em seu livro sobre formalismo russo (publicado em nome de Medvedev), em vez de refletir sobre ideologias oficiais – que são sistemas ideológicos com uma configuração específica – a literatura emprega ideologias ainda em formação como material da forma literária. A literatura se introduz no laboratório social em que as ideologias se forjam. Ao contrário, as ideologias já consolidadas tornam-se um corpo estranho no valor literário e convertem o texto em um ensaio pedagógico, em um panfleto, em um discurso propagandístico [...].109
108TEZZA, Cristovão. “Sobre a autoridade poética” In: FARRACO, Carlos Alberto, TEZZA, Cristovão e DE CASTRO, Gilberto (orgs.). Vinte ensaios sobre Mikhail Bakthin, 1. ed. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 241.
109PONZIO, Augusto. A revolução bakthiniana; o pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea, 1. ed. Petrópolis: Contexto, 2011, p. 25.
O ouvir, na acepção do apreender, é elemento constitutivo da palavra sob a ótica bakhtiniana, a metalinguística é resultado da interação nas artes e das expressões não verbais de origem popular. Porém, a singularidade do indivíduo imerso na vida e no trabalho apresenta a este uma distância entre o discurso oficial e seu universo discursivo interior. Essa discrepância entre discurso oficial e consciência individual, íntima, tem por tendências a desintegração ou a unidade. Trata-se da consciência interna em relação ao sistema dominante, as palavras do outro analisadas por Bakhtin e o Círculo desde os estudos de Freud e do freudismo.
Atualmente predomina a ideologia da produtividade e da eficácia, que exalta especialmente as ciências físico-matemáticas e as pesquisas científicas que podem melhorar a produção. Ao contrário, a palavra de Bakhtin, desde o primeiro até o último ensaio de 1974, contribui para recuperar o sentido e a importância, não só da literatura, mas também das ciências humanas. Ao colocar-se a questão da metodologia das ciências humanas, Bakhtin se pergunta pelo sentido do homem. E, de fato, devemos recordar que nenhuma das razões do progresso tecnológico nem do desenvolvimento científico pode justificar o esquecimento de uma pergunta como essa. Mas o que nos interessa destacar aqui é que, como Bakhtin demonstra, a questão do sentido do homem deve ser tratada sob a categoria do outro e não do eu. Do ponto de vista da identidade (de um indivíduo, de um grupo, de uma nação, de uma língua, de um sistema cultural, de uma vasta comunidade, como a europeia, ou de todo o mundo ocidental), não se pode descobrir o sentido do homem, apenas falsificá-lo. De fato, numa perspectiva como esta o sentido do homem coincide com interesses particulares e limitados, apesar de serem comuns. Para se opor a tal perspectiva é necessário o ponto de vista da alteridade.110
A gramática, lexical, se difere substancialmente da estilística, mas não pode deixar de observar seu componente estilístico para que a comunicação discursiva ocorra. Assim, palavras e orações são compreendidas por meio de um fluxo discursivo no qual o enunciado é a sua unidade real de comunicação. Quanto ao tema da polifonia e da percepção dialógica da verdade, Bakhtin desenvolveu esse conceito enquanto analisava Dostoiéviski em pleno contexto soviético e se protegia discursivamente por conta das imposições ideológicas do sistema de pensamento monológico dominante na Rússia dos tempos totalitários. Mesmo assim, discutia o marxismo para além da ideologia estanque. Morsom e Emerson cotejam bem, em Bakhtin, os termos: verdade, concepção monológica:
Na descrição de Bakhtin, a concepção monológica da verdade se compõe de dois elementos distintos, o ‘pensamento separado’ e o ‘sistema de pensamentos’ [...]. Na
110 PONZIO, Augusto. A revolução bakthiniana; o pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea, 1. ed. Petrópolis: Contexto, 2011, p. 26.
‘ideologia’ (pela qual Bakhtin entende aqui o pensamento monológico [...]) deparamos com ‘pensamentos, asserções e proposições separados que podem por si sós ser verdadeiros ou falsos, dependendo de sua relação com o sujeito e independentemente do veículo a que pertencem’ [...] Na medida em que descrevem o mundo acuradamente essas proposições são consideradas verdadeiras; na medida que são inexatas, são falsas. Nenhuma outra escala de avaliação é relevante. Em princípio, não importa que enuncia esses pensamentos; ou, para ser mais preciso, o conteúdo desses pensamentos não é afetado materialmente pela sua fonte. [...] Na realidade, a fonte de uma proposição é autoritária, podemos optar por acreditar nela por essa mesma razão ou podemos envidar o esforço de especificar proposições adicionais subentendidas pela fonte. Uma proposição numa disciplina científica, por exemplo, pode trazer consigo definições tácitas do assunto que poderiam, em princípio ser enunciadas. Mas, tão logo esse enunciado ocorre, a veracidade do pensamento torna-se inteiramente separado da pessoa que enuncia. A proposição ‘repetível’, assim como a experiência científica é repetível, por outros. Alguém pode ter descoberto a ideia particular em questão, mas ela pertence a todos e não requer a voz ou o contexto particular do descobridor. Nesse sentido, os ‘pensamentos separados’ são o que Bakhtin chama de pensamentos ‘de ninguém’.111
Deste modo, Bakhtin apresenta uma proposta epistemológica geral, mas que não é só dele, a qual é construída por meio da interação. A lista de conceitos bakhtinianos específicos e abertos é grande, pois a obra do pensador não chegou a constituir uma teoria filosófica universal para os signos, ocorre que as dificuldades estruturais que eram impostas pelo contexto soviético apresentavam dificuldades extremas para a concretização de projetos intelectuais livres. Trata-se de uma maneira especial de conceber a linguagem e seus estudos. Não há categorias totalmente fechadas, constituem um lugar metodológico-teórico no qual as categorias, ou conceitos, implicam diretamente nas singularidades advindas das especificidades das teorias de fundo filosófico, da relação com as alteridades.
Retomando o assunto Compliance, o real acompanhamento das legislações vigentes e as inolvidáveis práticas para se atingir tal finalidade, seja no desempenho ideal das atividades da empresa ou na relação com seguimentos afins, a sensibilização se faz extremamente necessária. Não há respeito à alteridade se as pessoas se mantiverem insensíveis.
A intenção resoluta de despertar os colaboradores para a relevância da temática precisa ser o mote de quaisquer formas seriamente comprometidas com o estabelecimento concreto de um sistema de Compliance ou a continuidade de um Programa já implementado.
Empresas ilibadas que cultivam boas práticas são bem-sucedidas no cenário econômico, adquirem maior credibilidade, e esse é o principal argumento ideológico pró-Compliance. O
111 MORSOM, Gary Saul e EMERSON, Caryl. Mikhail Bakhtin: a criação de uma prosaística, 1. ed. São Paulo: Edusp, 2008, p. 251.
movimento pela primazia da ética em todo o mundo é sem precedentes. Os países mais desenvolvidos tomaram a frente na elaboração de legislações específicas com o fito de coibir a corrupção. Ser compliant virou obrigação, interesses difusos devem ser respeitados.
Cláudia Cistina Barrrilari recorre a Tiedemann para elucidar porque o Direito Penal econômico destaca os bens jurídicos supraindividuais, sociais e coletivos:
[...] Segundo Tiedmann, na intrincada relação evolução do processo econômico, uma maior importância vai sendo adquirida por numerosos bens jurídicos intermédios entre os interesses do Estado e os interesses individuais de um agente econômico em particular. [...] Para Tiedmann, o reconhecimento da autonomia implica a necessidade de ampla tutela, o que inclui a penal. Sendo assim, em que medida dar-se-á a compatibilidade e qual seria o limite de legitimidade são premissa que se impõem.112
É obvia a relação dos bens jurídicos supraindividuais com a noção de respeito à alteridade, tomando o preceito ético do be compliant uma máxima ideológica justificável no primeiro quarto do século XXI.
Barriali complementa o raciocínio acerca do direito aos bens supraindividuais, cuja origem na Itália advém da questão do meio ambiente e das condutas antissindicais, somando a estes os bens jurídicos metaindividuais:
Há quem exija que a legitimidade da proteção dos bens supraindividuais deve existir na medida em que se veja lastreada nos interesses fundamentais da vida social da pessoa. Dessa forma, a ampliação do horizonte penal, tendo como referência os moldes iluministas no sentido da pessoa humana enquanto elemento individual, no que se refere aos bens metaindividuais e sociais, deve manter o referencial de seus elementos autônomos.113
As tutelas supraindividuais para a garantia dos direitos difusos não vingaram no contexto da globalização econômica e da sociedade do risco, mas guardam em si uma lógica que abarca as alteridades. Trata-se de uma criminalidade dinâmica, imersa nos ambientes tecnocratas e centros de tomada das principais decisões.
O Direito Administrativo, por si só, não dá conta da complexidade apresentada ao mundo dos negócios, a autorregulação é apresentada ideologicamente como solução, mas a prática do
112 BARRILARI, Claudia Cristina. Crime empresarial, autorregulação e compliance, 1. ed. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2018, p. 42.
113 DAYOUB, Kharzzoun Mirched. A ordem das ideias: palavra e persuasão; a retórica, 1. ed. Barueri: Manole, 2004, p. 73.
combate à corrupção sempre esbarra na dinamicidade dos jogos de poder. Se a última ratio
jurisprudencial é o Direito Penal cabe à esfera do Criminal Compliance lidar com os descumprimentos mais gravosos das multijurisdições que incidem sobre as empresas quando nos casos de imperativa necessidade de se dirimir questões em que houver flagrante corrupção ou rompimento criminoso de quaisquer preceitos basilares dos Programas de Compliance.
3.2 A ALTERIDADE NA RETÓRICA: PERSUASÃO EM PROL DO COMPLIANCE
ANTICORRUPÇÃO
Um atarefado Departamento de Compliance lida diuturnamente com argumentações em convencimento, e argumentar é uma arte. Sobre a retórica, explica Kharzzoun Mirched Dayoub:
A retórica moderna recuperou o consenso da opinião como portadora de um raciocínio prático, pois abrange tudo em que o discurso é necessário e tem como objeto convencer e persuadir o público a que se dirige por mio da matéria a que se refere. Desde a Antiguidade, a retórica tem-se mostrado o maior meio de persuasão e de convencimento do público em relação às ideias apresentadas.114
Anos após expandir as discussões sob polifonia para o dialogismo, Mikhail Bakhtin aponta o enunciado como um continuum da comunicação e da cultura. Paulo Bezerra, em pósfacio escrito para lançar luzes sobre “Os gêneros do discurso”, de Bakhtin, explica:
[...] Bakhtin afirma que o falante não é um Adão mítico, só relacionado com objetos ainda não nomeados, ou seja, um ser desprovido de antecedentes discursivos, de interlocução, mero receptor mudo de ordens que apenas ouve, não podendo, por conseguinte, ser ativo nem responsivo. Como, segundo Bakhtin, “ser significa comunicar-se pelo diálogo”, em termos de realidade e ciência esse Adão bíblico é uma aberração. Ao contrário desse Adão mítico, o falante está inserido numa interlocução, e nesta o objeto do seu discurso se torna palco de encontro com opiniões de interlocutores imediatos, isto é, com opiniões de outro formuladas em enunciados O enunciado não está voltado só para seu próprio objeto, mas também para os discursos do outro sobre esse objeto. Esses discursos vão de simples questões do dia a ia a pontos de vista sobre o homem e o mundo, o passado, o presente e o futuro, abrangem um vasto campo da comunicação cultural. Assim, “o enunciado é um elo da cadeia da comunicação discursiva, não pode ser separado dos elos precedentes que o determinaram tanto de fora quanto de dentro, gerando nele atitudes responsivas diretas e ressonâncias dialógicas”. Como elo do processo de trocas culturais, o enunciado une passado, presente e futuro, pois “não está ligado apenas aos elos precedentes, mas também aos elos subsequentes da
comunicação discursiva”, formando, assim, um continuum na cadeia histórica da