Capitulo IV – Prostituição e Serviço Social
2) Intervenção social na e para a prostituição
“ (…) O Serviço Social pode ser definido como uma profissão social comprometida com o propósito legitimador da igualdade, da democracia e da humanização, que atua por via de estruturas intermédias; tem como objetivo a requalificação da vida quotidiana, como finalidade o exercício da intervenção social como meio de transformar as fragilidades sociais em força social, como objeto as situações sociais geradas pelo risco, perigo e desfiliação, e utiliza a reflexividade para ligar a política emancipatória à política da vida”
Moura (2006:484)
Ao longo do presente trabalho foram apresentadas algumas das dificuldades sentidas pelas trabalhadoras sexuais. Neste contexto, o papel do técnico de serviço social, ou de outro técnico da área das ciências sociais, prende-se em delinear estratégias, à luz de abordagens metodológicas, que ajudem a colmatar as maiores dificuldades das trabalhadoras sexuais.
Para uma melhor compreensão das práticas e ações levadas a cabo na intervenção social, torna-se importante clarificar relativamente à proporção que a mesma poderá tomar (Moura, 2006). O quadro 15 explana os níveis de intervenção social, bem como as características que os distingue.
Quadro 15. Caracterização dos níveis de intervenção social.
Intervenção Micro Intervenção Meso Intervenção Macro Campos de atuação14 Família Dependências Ação Social; Violência;
Meio Ambiente; Isolamento
Estratégias Individualizada Rede Parceria
Territorializada
Fonte: Moura, 2006
Desta forma, torna-se importante referir que a prostituição pode ser trabalhada a estes três níveis, mediante as razões que levaram à elaboração da intervenção social, bem como dos objetivos que se pretendem atingir.
14 Os campos de atuação apresentados são meras referências, sendo por exemplo, possível tratar-se
questões de dependência com uma intervenção a nível micro, se a intervenção for preparada de forma individualizada.
76 A intervenção pode ser delineada a um nível micro, se houver a necessidade de uma intervenção individualizada, em que os objetivos a atingir pressupõe a melhoria e estabilidade social de um utente específico (Moura, 2006). Sendo assim o plano de intervenção delineado em torno das necessidades e/ou problemas apresentadas pelo utente, havendo a impossibilidade de transpor o mesmo plano de intervenção para outro indivíduo. Este tipo de intervenção poderá acontecer, entre outros, através de projetos/programas locais, onde é permitida uma maior proximidade do terreno.
A intervenção social a nível meso pressupõe um plano de intervenção a nível coletivo, no entanto segmentada para a mesma população alvo, como poderá ser o exemplo das trabalhadoras sexuais, entre outras situações. Neste patamar, a intervenção já não é feita de forma individualizada mas sim em rede (Moura, 2006).
Por último, a intervenção social poderá tomar um caráter macro, albergando assim uma maior envolvência de técnicos. Nesta situação, pensa-se num plano de intervenção para o público-alvo mediante o problema social em causa, não em situações individualizadas.
A intervenção social poderá começar pela inclusão social e o incentivo das trabalhadoras sexuais a participarem ativamente na sociedade.
Em 2003, a Comissão das Comunidades Europeias definiu a inclusão social como um conjunto de oportunidades acessíveis a todos os cidadãos que estão ou poderão estar em risco de exclusão social ou em situação vulnerável. Este conjunto de oportunidades tem em vista a redução das desigualdades socias (Wixey et al. 2005) bem como a erradicação do motivo que leva determinado indivíduo a situação de exclusão social.
É ainda importante salientar que, para que haja inclusão social, deverá haver igualdade no acesso a oportunidades, bem como a evidente possibilidade dos indivíduos participarem na sociedade a nível económico, social e cultural (Comissão das Comunidades Europeias, 2003).
Presume-se com isto que a inclusão social possibilita a estabilidade social, bem como a integração na sociedade (Sheppard, 2006). Todavia, a inclusão social só acontece verdadeiramente se a sociedade em geral reconhecer e aceitar a diversidade social e cultural nela existente (Laclau, 2006).
Ainda neste sentido, são alguns os autores que, mencionam o relevante papel do estado, como o principal responsável na criação de projetos e outras estratégias que
77 promovam a inclusão social (Laclau, 2006; Lopes, 2006; Kowarick, 2003 e Silver, 2005).
Em 2006, Moura elucida para a importante renovação de conhecimentos, bem como para a adequação da intervenção às mudanças da sociedade. Se por um lado há toda uma teoria que define a organização e modelos de intervenção, para que haja uma uniformização dos serviços e das oportunidades, por outro, o técnico de serviço social depara-se com contextos socioeconómicos e realidades diferentes ao longo dos anos. Há assim a necessidade do técnico de serviço social predispor de uma capacidade para uma constante aprendizagem, bem como para uma adequação dos serviços à realidade.
Tendo em conta o tema do presente trabalho, torna-se pertinente abordar algumas das abordagens metodológicas e teorias que poderiam servir de base para um plano de intervenção social em contexto de prostituição de rua.
Como já foi referido, as estratégias de intervenção social devem ser delineadas mediante os objetivos que se pretendem atingir, havendo assim a possibilidade de se tratar de uma intervenção micro, meso ou macro (Moura,2006). Para um melhor apoio do plano de intervenção, o mesmo deverá estar alicerçado a uma base teórica, ou a uma abordagem metodológica. Payne (2002), na sua obra Trabalho Social Moderno apresenta algumas perspetivas teóricas de intervenção social, nomeadamente: (i) as perspetivas psicodinâmicas; (ii) a teoria cognitivo-comportamental; (iii) a teoria geral de sistemas e teoria ecológica de sistemas; (iv) a teoria radical e marxista; (v) a teoria humanista existencial. Assentes nestas perspetivas teóricas, Payne (2002) sugere três modelos de intervenção, o modelo de intervenção em crise, modelo centrado nas
tarefas e o modelo de comunicação e de psicologia social. Todavia, Payne (2002)
menciona a importante função do trabalhador social em questões de advocacia e capacitação do utente, sendo as mesmas transversais aos três modelos de intervenção.
2.1) Modelo de Intervenção em Crise
O modelo de intervenção em crise foi desenvolvido por Caplan (1965 apud. Payne, 2002), no âmbito da psiquiatria preventiva. Este modelo de intervenção tem como intuito prevenir ou preparar a situação de crise, podendo a mesma ter ou não sido prevista. Golan (1978 apud. Payne, 2002) explica o modelo de intervenção em crise de uma forma muito prática e esquemática, como se pode verificar no quadro 1.
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Quadro 16. Esquematização do modelo de intervenção em crise.
Fonte: Golan (1978 apud. Payne, 2002)
Qualquer pessoa ou organização revela estados de crise Os acontecimentos incertos originam as crises Os acontecimentos incertos podem ou não ser antecipados Situações de vulnerabilidade levam ao desequilíbrio Com o desequilíbrio o indivíduo tenta estratégias habituais para o tentar ultrapassar Se as estratégias utilizadas pelo indivíduo fracassarem, origina uma situação de tensão e stress
Surge então o fator de precipitação, a não resolução dos problemas juntamente com a situação de
stress leva a uma crise
constante e ativa
O trabalhador social percebe que os fatores de precipitação poderão ser o principal problema do cliente
A causa das situações de stress podem apresentar-se sob três formas: (i) ameaça;
(ii) perda; (iii)
desafios A capacidade de delinear estratégias bem sucedidas, aumenta a probabilidade de resolução de problemas futuros Em norma,uma situação de crise é solucionada num período de 6 a 8 semanas As pessoas que já viveram várias situações de crise aceitam mais facilmente a ajuda de técnicos No pós resolução do problema, os indivíduos tentam utilizar as mesmas estratégias de resolução de problema em situações futuras
79 O modelo de intervenção em crise pressupõe uma grande sensibilidade por parte do técnico, uma vez que será o mesmo a perceber quais os fatores de precipitação que levam a situações de crise (Payne, 2002). Este modelo pressupõe, segundo Golan (1978 apud. Payne, 2002), uma luta pela reintegração do indivíduo. A mesma autora menciona ainda que, para que haja reintegração é necessário: (i) corrigir a perceção cognitiva, na qual o indivíduo deverá reconhecer e perceber qual o fator de precipitação que o coloca numa situação de crise; (ii) gerir sentimentos, de forma a conseguir controlar o fator de precipitação, bem como aceitá-lo; e (iii) desenvolver novos comportamentos, que o ajudarão a ultrapassar a atual situação de crise, bem como situações futuras (Golan 1978 apud. Payne, 2002).
É um modelo de intervenção de cariz psicossocial, onde o foco principal se debruça no reconhecimento e aceitação por parte do utente e na aquisição de estratégias de cooping15, capacitando assim o mesmo para ultrapassar a causa que levou à situação de crise.
Desta forma e aplicando este modelo de intervenção à investigação levada a cabo para a elaboração do presente trabalho, seria pertinente associar este modelo de intervenção à questão da dependência alcoólica de uma das trabalhadoras sexuais.
2.2) Modelo Centrado nas Tarefas
O modelo centrado em tarefas, à semelhança do que acontece com o modelo de intervenção em crise, caracteriza-se por uma intervenção de curta duração. Este modelo prima por um trabalho a nível micro ou meso e consiste na elaboração de tarefas a utilizar pelo utente, afim de o mesmo se sentir parte integrante na resolução do seu problema. É então proporcionada uma sensação de participação ativa e integração ao longo de todo o processo, sendo também incluídas as suas forças e crenças, como mote para uma maior precisão, alcance e consistência (Payne, 2002). O quadro 12, demonstra quais os objetivos a atingir com uma intervenção que tenha por base a o modelo centrado nas tarefas.
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O cooping, consiste na elaboração de estratégias que ajudam o utente a lidar com situações de fragilidade (Zeidner e Saklofske, 1996).
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Quadro 17. Objetivos a alcançar com o modelo centrado nas tarefas
Fonte: Payne, 2002
De forma a alcançar estes objetivos, são delineadas as tarefas para o utente e para o trabalhador social, estando neste modelo as tarefas mais centradas no utente do que no técnico, servindo este apenas como mediador quando é necessário recorrer a outro tipo de serviços ou instituições que sejam de difícil acesso para o utente (Payne, 2002). As tarefas vão sendo planeadas e implementadas ao longo das sessões de acompanhamento do utente. Ainda neste sentido, há uma espécie de contrato (Doel & Marsh 1992 apud. Payne, 2002), onde o utente se compromete a executar as tarefas que lhe são sugeridas bem como ajudar a elaborar essas mesmas tarefas.
Olhando novamente os objetivos a alcançar no modelo centrado nas tarefas, que prevê a solução da situação de vulnerabilidade atual, bem como capacitação para a resolução de situações de vulnerabilidade que possam surgir a longo prazo, surge a oportunidade da criação de ações de formação com assuntos relevantes para as trabalhadoras sexuais. Neste sentido, poderiam ser levadas a cabo formações no âmbito da auto defesa em situações de violência, sexologia, cuidados de saúde, cuidados de beleza entre muitas outras, que poderiam ser sugeridas pelas próprias trabalhadoras sexuais.
2.3) Modelo de Comunicação e de Psicologia Social
O modelo de comunicação e de psicologia social, está assente na sociologia e na psicologia social, tentando perceber as redes de suporte e de comunicação do indivíduo, bem como a forma como eles a percecionam. Este modelo está ainda relacionado com a questão da criação de papéis na sociedade, ou por outras palavras com a construção social (Payne, 2002).
Objetivos
Ajuda na resolução do problema (situação atual)
Capacitação para resolver e lidar com problemas de situação igual ou semelhante em situações futuras.
81 Ao longo do trabalho foi mencionado o estigma com que as mulheres entrevistadas se deparam, por todos os sítios a que vão e se identificam como trabalhadoras sexuais. Apesar de já terem assumido um papel que se encontra por natureza, cruxificado pela sociedade, não impede o esforço por parte das trabalhadoras sexuais em integrarem novas redes e a comunidade em geral. Todavia, também a comunidade tem de ser trabalhada de forma despir-se dos preconceitos que depositam no trabalho sexual, nas trabalhadoras sexuais e nos seus clientes. Seria pertinente, através deste modelo, a criação de um projeto que pautasse pela abertura de mentalidades e aceitação dos diferentes papéis que foram surgindo na sociedade.
2.4) Teoria Geral dos sistemas
A teoria geral dos sistemas aponta a importância da criação de sistemas ou redes que ajudem, apoiem e sirvam de suporte ao indivíduo. No ponto 3 do capítulo II foram abordadas as principais redes de suporte das trabalhadoras sexuais entrevistadas, foi possível também perceber a importância que cada uma dessas redes representava para si. As redes, ou sistemas que servem de suporte aos indivíduos podem categorizar-se da seguinte forma, analisemos o quadro 13.
Quadro 18. Caracterização das redes incluídas na teoria geral dos sistemas.
Fonte: Payne, 2002 Indivíduo Sistemas informais ou naturais (família,colegas de trabalho, vizinhança) Sistemas formais (grupos comunitários, sindicatos) Sistemas Societais (hospitais,escolas,seg urança social, IPSS)
82 A estabilidade e/ou prolongamento destas redes sociais podem também ser um desafio para o técnico. No caso das trabalhadoras sexuais poderá existir uma certa dificuldade em manter qualquer um dos três sistemas apresentados anteriormente.
Relativamente aos sistemas informais: (i) a família poderá romper a relação com a trabalhadora sexual, uma vez que a mesma lhe escondeu a sua verdadeira atividade; (ii) como foi possível verificar no ponto 3.2 do capítulo II, há frequentemente situações de conflito entre colegas de trabalho; (iii) a estigmatização e exclusão social das trabalhadoras sexuais poderão dificultar criação ou manutenção das redes de vizinhança. No que diz respeito aos sistemas formais: (i) os esforços para que a prostituição esteja presente na agenda política, têm gerado a criação de grupos que lutam em prol de uma causa (a legalização), todavia não há uma proximidade entre esses grupos e todas as trabalhadoras sexuais; (ii) a prostituição não é legalmente reconhecida, por isso não é possível a criação de sindicatos.
Por sua vez, os sistemas societais só são possíveis de alcançar, em norma, se as trabalhadoras sexuais (as estrangeiras) estiverem em situação legal em Portugal.
Analisando o trabalho sexual desta forma, encontram-se várias lacunas que precisam de ser trabalhadas a fim de se conseguir uma maior estabilidade social, emocional e psicológica das trabalhadoras sexuais.
Neste sentido, Payne (2002) enumera algumas das tarefas a desenvolver pelo trabalhador social, como é possível verificar no quadro 14.
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Quadro 19. Tarefas a desenvolver pelo trabalhador social na teoria geral dos
sistemas.
Fonte: Payne, 2002
Desta forma, fica patente o papel a assumir e as tarefas a desempenhar pelo trabalhador social, bem como a importância das redes de suporte para o alcance do bem- estar do indivíduo. T are fas do tr abalhador soc ial
Auxilio na procura da resolução do problema;
Promover novos laços/ligações entre pessoas e recursos;
Ajustar e apoiar nas interações entre pessoas e serviços;
Auxiliar na criação e manutenção de laços dentro dos próprios sistemas;
Desenvolver novas políticas sociais;
Ajudar o indivíduoem termos práticos;
Assumir o papel de agente social;
Colaborar com o indivíduo;
Negociar como indivíduo;
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2.5) Capacitação e advocacia
A capacitação e a advocacia são, ou deveriam ser, transversais a todas as formas e modelos de intervenção social, pois ambas promovem a mudança social.
A capacitação pressupõe a motivação do indivíduo para a resolução da situação de vulnerabilidade, bem como a aprendizagem e a aquisição de ferramentas que lhe possibilite solucionar situações futuras. A capacitação permite ainda a independência do indivíduo, no que diz respeito à gestão (Payne, 2002) e organização do seu tempo, bens e emoções. O quadro 15 demonstra as principais características e os objetivos da capacitação.
Quadro 20. Características e objetivos da capacitação.
Fonte: Payne, 2002
A advocacia consiste no apoio ao indivíduo junto de outras pessoas, serviços ou estruturas, neste sentido o trabalhador social fica incumbido de defender os interesses do seu utente. É comum a advocacia servir como mote na erradicação dos bloqueios de poder bem como na burocratização dos bens e dos serviços, todavia nem sempre os próprios trabalhadores sociais conseguem desconstruir esses bloqueios de poder.
Objetivos
Tornar o cliente no principal agente de mudança; Elucidar relativamente ao bloqueios de poder e auxiliar naerradicaçãodos mesmos.
Características
O cliente perceber que pode ser o maior responsável pela mudança;
O técnico tem implícito um conjunto de ferramentas que podem ser adquiridas em parte pelo cliente;
Os trabalhadores sociais são vistos como parceiros na luta pela resolução do problema;
Questões de poder podem impossibilitar que o cliente haja sozinho.
85 Tanto a capacitação como a advocacia exigem um trabalho de consultoria por parte do trabalhador social, com vista a ajudar o seu utente a encontrar a solução mais adequada.
Fazendo uma ponte de ligação entre os dados recolhidos na investigação e a teoria, pode perspetivar-se que: (i) quatro das mulheres entrevistadas são estrangeiras e duas encontravam-se em situação ilegal, pelo que seria pertinente neste caso, um trabalhador social que prestasse ajuda no contato com o SEF com vista à legalização; (ii) mediante as situações de risco e estigmatização a que estão expostas, faria sentido dotar estas mulheres de ferramentas que lhes possibilitasse lidar com esta realidade sem perderem a sua autoestima.
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