II. O contrato de seguro: do modo dito “tradicional” até à atualidade
2.1. Noção do contrato de seguro
2.1.4. Intervenientes
Comumente, o contrato de seguro é celebrado entre dois sujeitos da relação jurídica, nomeadamente o segurador e o tomador de seguro, sendo que eventualmente possa dar-se a existência de uma 3º parte nesta relação jurídica.
Quando o seguro for celebrado em nome de outrem, existe alguma doutrina que defende o entendimento do beneficiário do seguro, pois é um dos sujeitos da relação jurídica em virtude da sua importância em determinados aspetos pós contratuais.
Designa-se tomador ou subscritor do seguro um sujeito que delega/confia e transfere o seu risco, encarregando-se do pagamento de uma quantia pecuniária, por outras palavras, “é aquele que contratou o seguro e deve cumprir as obrigações resultantes do contrato”53.
No que concerne ao indivíduo cuja esfera jurídica fica salvaguardada pelo seguro, sendo certo que pode coincidir ou não com o tomador, é o segurado.
De encontro com o explanado, José Correia esclarece-nos que o segurado “não é necessariamente o contraente, mas antes aquela pessoa em relação à qual a verificação
52 Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 28-06-2018, de Maria do Rosário, processo n.º 32090/15.6T8LSB.L1.S1. Disponível em:
http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814/cc4007d9cb9e4412802582be0049edd7?
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53 Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, de 08-05-2014, de Pedro Martins, processo nº 2646/11.2TBSTS.P1. Disponível em:
http://www.dgsi.pt/jtrp.nsf/-/5C30494691AE6B7180257CDE00485664 .
36 da eventualidade significaria um prejuízo do qual fica a coberto graças ao direito a uma prestação que lhe advém pelo contrato”. O autor desfecha que o “segurado não é quem contrata o seguro, mas sim quem por ele fica coberto”54.
Por conseguinte, a pessoa que se encarrega e reconhece o risco e recebe o pagamento é a empresa, entidade ou companhia de seguro. E caso ocorra algum sinistro, esse tal pagamento, em razão do tomador, designa-se como prémio e o segurador “ganha”
quando não haja qualquer sinistro/ocorrência.
Deste modo, um contrato de seguro é celebrado pelo segurador e o tomador de seguro relativo a um certo risco que pode reportar-se ao tomador ou a outro individuo/
“pessoa cuja esfera jurídica é protegida”55.
Cumpre salientar que “no que toca a inexatidões ou omissões na declaração inicial do risco, ou seja, no plano do cumprimento de um dever que recai sobre o tomador ou segurado na fase da formação do contrato”56.
Em termos práticos, surge a questão de saber quando o tomador celebra um contrato de seguro, se este age por conta de outrem (o segurado) ou se ele age em nome próprio. Deste modo, deve, desde logo, haver no contrato de seguro uma dissociação entre o tomador e o segurado.
No caso do contrato por conta de outrem em nome do segurado, ao verificar-se uma representação com ou sem poderes, segundo os artigos 1181º n.º 1 e 471º do CC, bem como os artigos 47º e 48º da LCS, estabelece-se o regime jurídico do contrato de seguro e estipula-se a sua distinção.
Neste enredo, também a determinação da pessoa segura cuja vida, saúde ou integridade física se seguram em situações de seguros de vida, doença ou acidentes pessoais estará logo definida aquando da celebração do contrato.
54 CORREIA, José. (1968). Teoria da relação jurídica do seguro social. Ano VII, n.º 27. Revista Estudos Sociais e Corporativos. Seguro Social, p. 169.
55 Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 14-04-2015, de Maria Clara, processo n.º 294/2002.E1.S1, Consultado a 01/11/2021. Disponível em:
http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/-/EEA4A512BA8D1FD380257E27004E69ED .
56 Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 28-06-2018, de Maria do Rosário, processo n.º 32090/15.6T8LSB.L1.S1. Disponível em:
http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814/cc4007d9cb9e4412802582be0049edd7?
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37 Nesta continuidade, cumpre elucidar o Beneficiário, que se designa como o sujeito singular ou coletivo (por exemplo uma entidade), a favor do qual se transfere a prestação dos capitais pagos pela seguradora.
Por norma, quem contrata um seguro será o signatário e o beneficiário. Mas, por exemplo, num seguro de vida, verifica-se a possibilidade de no caso de uma eventual invalidez no trabalho, ser o tomador a receber uma indemnização. Porém, na eventualidade do seu falecimento, quem o recebe é o sujeito identificado na apólice: o beneficiário do seguro.
Não obstante, poder-se-á identificar também como interveniente o usufrutuário que é aquele que contrata e realiza um seguro, mas sobre um bem a que tem direito de gozo temporário ou que lhe é até plenamente alheio, porém com uma utilidade própria ou benefício.
“Numa explicação do léxico, o «tomador do seguro» que é a entidade que celebra o contrato de seguro com a seguradora, sendo responsável, no todo ou em parte, pelo pagamento do prémio (artigo 1.º do RJCS) não se confunde com o segurado/pessoa segura e, nesta sinalização de diferença, por oposição aos contratos individuais, nos de grupo compete ao tomador do seguro a obrigação de prestar toda a informação aos segurados sobre as coberturas e exclusões contratadas, as obrigações e os direitos em caso de sinistro, bem como as alterações posteriores que ocorram. E, no seguro de pessoas, o tomador do seguro deve ainda informar os segurados do regime de designação e alteração do beneficiário”57.
Por último, cumpre referir que o segurador pode ser representado por um mediador de seguros, que terá legitimidade para proceder à celebração de contratos em nome do segurador se este lhe conferir poder para o efeito (artigo 31º da LCS). Caso isso não aconteça (o mediador de seguros celebrou um contrato, em representação do segurador sem poderes para tal), o segurador terá de retificar o contrato para que este se considere como válido.
57Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra, de 12-10-2020, de Manuel Capelo, processo n.º 1531/19.4T8PBL. Consultado a 15/10/2022. Disponível em:
http://www.dgsi.pt/jtrc.nsf/8fe0e606d8f56b22802576c0005637dc/3d3433efe4c2df3780258601005718fe?
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