3 A PSICOLOGIA DA ARTE E OS FUNDAMENTOS GNOSIOLÓGICOS
5.2 INTOLERÂNCIA: A CATARSE NO CINEMA DE DAVID W GRIFFITH
O filme Intolerance/ intolerância (1916), sob a direção de David Wark Griffith tem representado um ícone na historia do cinema mundial até os dias de hoje e representou o momento de gloria de Griffith e do nascente cinema norte-americano na época de sua estreia.
Este diretor destacou-se pelo seu trabalho, desde os primeiros anos do século passado, para o surgimento do cinema como indústria do entretenimento e educação das massas.
Entre 1908 e 1913, Griffith dirigiu mais de 400 filmes na Biograph, num contexto em que a indústria cinematográfica alcançava um público de massa e procurava conseguir respeitabilidade e trazer o cinema para perto do modelo narrativo de tradições burguesas de representação, como o teatro e os romances literários (MASCARELLO, 2006, p. 46).
Griffith (MASCARELLO, 2006) entendia o filme dentro da indústria do cinema como projeto de vocação cultural, social e moral para o espectador. Intolerance (1916) não ficou fora deste preceito. Porem, neste filme, o diretor tenta responder às críticas e acusações recebidas pela sua produção anterior O nascimento de uma nação (1915), considerada racista e glorificadora do movimento Ku Klux Klan. Assim para fazer uma análise crítica de Intolerância (1916) é necessário conhecer sua Pré-historia, o giro afetivo com seu predecessor e o critério ideológico do criador para com seu novo projeto.
Desta maneira seu novo filme nascia sob a necessidade do diretor de responder e se posicionar, tal vez mais crítica do que esteticamente diante das acusações que recebera de racista sua obra. Em contrapartida Griffith declarou: “Agora darei uma lição àqueles que falaram que O Nascimento de uma Nação era racista. Demostrarei o que a discriminação e a segregação tem sido desde a origem da vida, e farei com que engulam suas asquerosas palavras” (RAMIREZ, 1972, p. 44). A polêmica acerca de O nascimento de uma nação (1915) perdurou até o lançamento de Intolerância e foi abordado de forma mais direta no panfleto publicitário, na época de sua exibição, intitulado Ascensão e queda da liberdade de
expressão na América (SCHNEIDER, 2013, p. 24). Não obstante, críticos como Schneider
(2013) consideram que Griffth estava mais “[...] interessado nas possibilidades do meio do que nas mensagens” (SCHNEIDER, 2013, p. 24), mesmo que suas palavras de ódio expressassem o contrario, e seu filme tivesse como principio temático norteador apresentar para o público a conduta intolerante ao longo da historia da humanidade.
O argumento principal de Griffith (RAMIREZ, 1972), representado na luta antagônica entre o Capital e o trabalho, retratada no sofrimento de uma jovem ao saber da condena de seu amado por um crime não cometido e o combate à intolerância nos diferentes períodos da história da humanidade, foi inspirado na noticia que circulara nos jornais sobre de um grevista que seria julgado injustamente pela morte de seu patrão. Para isto, ele recorre de forma metafórica a
três estórias da constituição histórica da humanidade para explicar a intolerância humana: 1) A queda de Babilônia, no período do rei Baltasar, e conquista pelo rei do império persa Ciro II o Grande em 539. Baltasar representa o poder tolerante e bondoso, entretanto traído dentro de sua própria corte e levado ao suicídio e morte da pessoa amada. 2) O conflito entre Jesus e os fariseus, seguido pela sua crucificação e morte. 3) A matança realizada pelos católicos na noite de São Bartolomeu dos huguenotes, preparada por Catalina de Médicis e seu filho Carlos IX, na França do século XVI. E por último, no momento presente, a greve dos trabalhadores. Estória, estas, que se unirão umas com as outras pela temática da intolerância, principalmente a religiosa. Estes quatro episódios se sobrepõem pela montagem alternada cada vez mais rápida e de forma não cronológica pela imagem de matiz melodramática da madre e o berço (RIO, 2012). Não há uma apresentação em série de nenhuma das estórias. Pelo contrário, o corte de uma para a outra, intercala sequências de outros planos dentro do mesmo episódio, seguidos pela imagem de Lillian Gish (Figura 17). Griffith utilizou o recurso da montagem paralela, que permitiu intercalar duas linhas de ação distanciadas. O objetivo do diretor foi criar a suspensão no espectador pela estrutura moralizante que abarcava uma reflexão da historia da humanidade desde a perspectiva estética e ideológica do diretor. O distanciamento da ação acarreta no contraste perceptivo, alternando no simbolismo da imagem com a dicotomia: pobres vs ricos; maus vs bons; oprimidos vs exploradores.
Figura 17 – Cena do filme Intolerância (Griffith, 1916)
Fonte: Print Screen elaborado pelo autor (2015)166.
166
Uma das mais representativas da historiografia do cinema, inspirada no poema Out of the cradle endlessly
rocking (1860) do escritor estadunidense Walt Whitman, esta cena representa a transição e o grito intolerante
Griffith com sua obra “[...] separou uma parte do todo, colocando o resto do mundo entre parêntese” (ROSENFELD, 2009, p. 187), de modo que, por meio da seleção de imagem essencialmente importante e interessante do real (o cenário artificialmente construído, tanto dentro como fora do estúdio), a ser captada e apresentada ao espectador. Griffith, por meio da técnica dos close-up e travelings, inspirados no épico italiano Cabiria (1914) de Giovanni Pastrone, ainda que entre os dois filmes, se comparadas, exista diferença de estilo (MASCARELLO, 20016), afasta-se de seus antecessores que apenas copiaram a realidade e a carregaram de uma teatralidade que aos poucos foi “[...] substituída pela intervenção esclarecedora e interpretativa da câmera, que se torna narradora” (ROSENFELD, 2009, p. 1). Assim, o movimento da câmera e não dos atores, como acontecera desde os primeiros registros que temos e que costumamos chamar de “cinema primitivo” até os primeiros “pioneiros do cinema” (KEMP, 2011), marca a diferença entre registro no celuloide e da realidade objetiva, para chamar de arte e linguagem cinematográfica.
Griffith consegue sintetizar os trabalhos anteriores em seu filme167
e superá-los com uma nova forma narrativa, já não mais nas personagens com gesticulações teatrais, mas com o uso partícipe e dramático da câmera que permite novos movimentos, ângulos funcionais, principalmente com a montagem final dos fragmentos filmados (PEREIRA, 1981), mediante um processo dialético de negação e superação. Se seus antecessores deram ao espectador os registros documentais da vida cotidiana e posteriormente a possibilidade de viajar ao mundo da imaginação e da fantasia (não até pular da cadeira assustados pela arma que atravessa a fronteira que separa o imaginário do real168), agora com Griffith cabia ao espectador participar, “entrar” no cenário, “caminhar” dentro do mundo criado para seu deleite pelo movimento da câmera solta, atenta a todos os pontos de vistas.
Para a época, na qual o cinema apenas mostrava a imagem em movimento, a catarse neste filme se enraíza na complexidade discursiva que apresentou este diretor para o próprio
167 Destacam-se dois filmes em especial. O nascimento de uma nação/The birth of a nation (1915). Disponível
em: <https://www.youtube.com/watch?v=I3kmVgQHIEY > e Intolerância/Intolerance
(1916). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=SoaF8_dlqQA >. Acesso em: 24/04/2105.
168 Referência à obra da Edison films, de Edwin S. Porter. O grande roubo do trem/The great train robbery
(1903). Na sequência final, quando um dos vilões vira-se para a plateia, após 11 minutos e 14 sequências de um plano só, aponta sua arma em uma imagem em Plano Médio Curto (PMC) e atira. Portanto, nessa cena, fica marcada a capacidade que o cinema tem, desde seu início, de emocionar e oferecer a adrenalina da violência hollywoodiana que herdaria o cinema atual. Disponível em:
<https://www.youtube.com/watch?v=BINBZE5XFR4>. Acesso em: 24/04/2015. Esta cena a que se faz alusão apenas será repetida no cinema no filme Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia/Bring Me the Head
of Alfredo Garcia (1974), de Sam Peckinpah. Disponível em:
público daquele momento, levando-o a sentir um clímax de tensão na sequencia final de cada episodio que mesmo distante em tempos e ações se metamorfoseiam com seu movimento incessante que une presente e futuro em uma só estória discursiva que supera a fragmentação das partes pela fusão coesiva e coerente do todo na obra. A partir da análise do filme, pode-se afirmar também que, no referente à catarse que procura a transformação da consciência social, o filme deixa a mudança e a reflexão de transformação no idealismo religioso e nas concessões morais da sociedade burguesa. Entretanto se na analise psicológica da arte torna- se difícil saber se o filme de Griffith conseguiu a reflexão social esperada pelo diretor, segundo o apresentado por Vigotski (1999b) é possível se fazer uma analise do efeito catártico da reação estética do filme ao se estudar a estrutura interna da obra e a intencionalidade do criador, pois como explica Gunning, na montagem paralela de Griffith, percebemos “a mão do narrador, à medida que ele nos leva de um lugar para outro tecendo uma nova continuidade narrativa” (GUNNING apud Mascarello, 2006, p. 47). Destarte as estórias que fluíram sem consistência, separadas, lentas e tranquilas, pouco a pouco se aproximarão e como fontes geradoras de energia chegaram ao clímax máximo da explosão de emoções violentas, e aqui radica o efeito suscitado pela catarse.
Após a análise do filme Intolerance (1916) de Griffith se conclui que, se por um lado a intencionalidade do diretor não foi compreendida no momento de sua apresentação como aponta a crítica cinematográfica pela estrutura demasiado complexa e com altas pretensões intelectuais e moralizantes para a sociedade. Por outro suas mensagens perdem-se na percepção da parafernália decorativa e exibicionista da arquitetura que compõe a produção. Também há se reconhecer que, embora Griffith neste filme como narrador e criador da obra, por meio da linguagem e do estilo estético, peça para que o espectador reconheça os contrastes e antagonismos simbólicos da realidade, prosseguindo com a tomada de consciência e conclusões a partir da índole moral e o pensamento da sociedade burguesa, este filme representou dentro da historiografia do cinema mundial um monumento ao talento deste diretor como roteirista, diretor e criador de planos e montagens, influenciando mais o cinema revolucionário soviético do que o próprio cinema americano.