4. Realização da Prática Profissional
4.3. Área 4 Desenvolvimento Profissional
4.3.1. A Disciplina
4.3.1.1. Introdução
A problemática da falta de disciplina ganhou, nos últimos anos, dimensão e contornos diferentes, tornando-se num dos problemas que mais aflige os professores. Deste modo, os docentes vêem-se obrigados a adotar atitudes pouco coerentes com a sua função de educadores, o que, por vezes, lhes provoca situações de mal-estar e os deixa psicologicamente afetados: são os conteúdos que não são cumpridos, é a relação pedagógica que não funciona, é a sua própria conduta como professor que é posta em causa (Estrela, 1994).
A falta de disciplina que inequivocamente existe e provoca desequilíbrios importantes ao normal funcionamento da aula é normalmente atribuída aos alunos (Estrela, 1994). Contudo, as causas de comportamentos inapropriados ultrapassam o universo dos alunos e centram-se, por vezes, na atuação dos próprios professores.
Daqui decorre que a falta de disciplina não pode ser vista como existindo em si mesma, como uma qualidade inerente ao próprio comportamento, mas
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deve ser analisada e compreendida no contexto da relação pedagógica em que a situação ocorre e é categorizada enquanto tal. É no contexto da relação pedagógica que o professor categoriza alguém ou algum ato como sendo indisciplinado e, sendo assim, ao mesmo tempo que emerge a relatividade deste conceito, é todo o contexto pedagógico que aparece implicado na situação e não apenas o sujeito que praticou um dado ato (Carita & Fernandes, 2012, p. 17).
Assim sendo, pareceu-me importante procurar conhecer as razões que conduzem à falta de disciplina nas aulas, e qual a postura que o professor deve adotar para remediar e/ou controlar este tipo de comportamentos, uma vez que esta problemática assume um papel primordial para o estabelecimento de um bom clima de aula, no sentido de criar um ambiente propício às aprendizagens dos alunos. Deste modo, o recurso a entrevistas individuais afigurou-se no método mais apropriado para obter as informações necessárias.
4.3.1.2. Temática
“Indisciplina”, “mau comportamento”, falta de respeito”, são expressões habitualmente pronunciadas pelos diversos intervenientes do processo educativo. Contudo, a falta de disciplina não é um conceito de fácil definição, sendo suscetível de múltiplas interpretações.
Corroborando com esta linha de pensamentos, Estrela & Amado (2000) referem que a clarificação deste conceito não é simples nem pacífica, já que estão envolvidos quadros de referência multidisciplinares, ângulos diversos através dos quais este fenómeno pode ser perspetivado, e tomadas de posição relativamente a paradigmas de abordagem que estão longe de ser consensuais, pois consoante o paradigma em que nos posicionamos temos tendência a dar mais ênfase a uns aspetos em detrimento de outros.
A falta de disciplina diz respeito às atitudes e comportamentos que ocorrem na sala de aula e que impedem ou dificultam o decorrer do processo de ensino e aprendizagem (Silva, Nossa & Silvério, 2000). Trata-se de um
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conflito entre as necessidades do aluno e as da turma ou da autoridade que o professor representa (Curvin & Mendler, cit. por Oliveira, 2002, p. 98).
Ademais, e completando o pensamento destes autores, Amado (2000) considera que este conceito constitui-se como um fenómeno relacional e interativo, que se concretiza no incumprimento das regras que presidem, orientam e estabelecem as condições das tarefas na aula, e, ainda no desrespeito de normas e valores que fundamentam o bom convívio entre pares e a relação com o professor.
Resultante destas constatações, facilmente se percebe que os problemas relativos à falta de disciplina produzem efeitos negativos no processo de ensino e aprendizagem.
Neste âmbito, o controlo disciplinar na sala de aula torna-se uma das tarefas mais difíceis com que o professor se depara (Oliveira, 2002), ao qual este tem que responder prontamente, muitas vezes sem ter preparação para tal. E se, em tempos anteriores, a eficácia do professor no processo de ensino e aprendizagem assentava apenas no plano cognitivo, hoje, o seu sucesso centra-se também na relação pedagógica que ele consegue estabelecer com os alunos.
Amado (2001, p. 223) refere que a utilização de estratégias desajustadas ou uma relação pedagógica problemática podem estar na origem de comportamentos inadequados dos alunos. Através de um estudo baseado na observação direta de aulas concluiu que “se há alunos que se portam bem numas disciplinas e noutras não, a culpa não é só dos alunos, não é só da turma, mas é também dos professores.” Os professores não devem atribuir a culpa exclusivamente aos alunos, porquanto não se podem esquecer que as causas de comportamentos inapropriados devem ser procuradas tanto no professor como nos alunos.
Resolver problemas de disciplina nem sempre é uma tarefa fácil. Deste modo, mais do que remediar é necessário prevenir estes problemas. Sampaio (cit. por Oliveira, 2002, p. 108) refere mesmo que a falta de disciplina deverá sempre fazer parte de uma preocupação preventiva e não constituir-se como uma situação que se banaliza e que se vai tentando resolver. Todavia, a
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prevenção dos problemas disciplinares passam por uma multiplicidade de estratégias que, inevitavelmente, só com a prática, e atendendo às particularidades da turma, se consegue perceber quais as que melhor se adequam ao contexto específico.
4.3.1.3. Metodologia 4.3.1.3.1. Amostra
A amostra foi constituída por seis professores de Educação Física da Escola Secundária de Ermesinde - três professores experientes e três professores estagiários.
4.3.1.3.2. Instrumento e Procedimentos
Como meio de recolha de dados foram realizadas entrevistas individuais, permitindo-me um conhecimento mais profundo das situações em estudo, nomeadamente das perceções, opiniões e conhecimentos dos professores a respeito da problemática da falta de disciplina. De referir que as entrevistas foram agendadas de acordo com a disponibilidade dos entrevistados e realizadas com base num guião orientador.
Para a elaboração da entrevista utilizei perguntas diretas, para as quais obtive respostas não estruturadas, permitido ao entrevistado expor a sua opinião e conhecimento sem quaisquer tipo de exigência ou limitação. Assim sendo, optei por orientar a resposta do entrevistado em itens fechados, visto que permitem ao mesmo a escolha de várias respostas.
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