Capítulo II: Homicídio no Morro da Favela
II.1 Introdução
Ao relacionarmos o homicídio e a sua divulgação na imprensa carioca do início do século XX alguns questionamentos vieram à tona. Entre estes, um em particular foi sensível para o desenvolvimento da pesquisa. Um de nossos principais objetivos foi compreender como os periódicos apresentavam os homicidas. Em outras palavras, pretendíamos entender como a imprensa narrava os assassinatos praticados por indivíduos situados em diferentes esferas sociais.
Visando este objetivo, neste capítulo nos debruçaremos sobre os homicídios noticiados na imprensa e que tiveram como cenário os morros cariocas. Mais precisamente, daremos maior publicidade para os crimes ocorridos no morro da Favela. De acordo com Ana Gomes Porto, “os crimes passionais eram muito noticiados, mas não estavam entre os únicos considerados como sensacionais” 177. Deste modo, podemos inserir os crimes ocorridos nos morros da cidade nesta tipologia, pois quando os homicídios eclodiam nessas localidades a imprensa imediatamente destinava uma atenção especial na construção destes relatos.
Assim sendo, neste capítulo almejamos entender como eram traçados os perfis dos assassinos e/ou acusados de homicídio oriundos das classes menos favorecidas do Rio de Janeiro no início do século XX. Para tanto, optou-se por investigar os crimes desenlaçados nos morros da cidade do Rio de Janeiro. Como veremos no decorrer do capítulo, os jornais não descreveram somente os homicidas pertencentes a estas comunidades, mas também os demais habitantes dessas regiões. Os contornos traçados pelos jornalistas nos revelam que os impressos estigmatizavam os indivíduos situados nas classes menos favorecidas, principalmente os que viviam nos morros cariocas.
A partir dos relatos apresentados, argumento que a imprensa se esforçava em representar os habitantes dos morros como indivíduos propensos para a prática de crimes. Ressalto que esta atitude também esteve presente em algumas crônicas analisadas. Orestes Barbosa observa que havia uma grande predisposição para a existência de crimes hediondos na sociedade brasileira. Para o cronista essa aptidão
69 advinha da miséria que assolava grande parte da população. Nos dizeres de Barbosa, “os crimes nascem da falta de dinheiro no homem que se vê abandonado pela mulher que foge da fome” 178
.
No entanto, alguns trabalhos já tinham contestado este tipo de perspectiva adotada por Orestes Barbosa. Entre os intelectuais que tinham como mote o estudo da criminalidade na sociedade brasileira num período de intensas transformações urbanas, destacava-se Aurelino Leal. No seu trabalho em que versava sobre as principais causas que levavam os indivíduos a cometerem crimes, o então futuro chefe de polícia do Distrito Federal defendeu um ponto de vista que contraria o postulado sugerido por Barbosa. Aurelino Leal argumentou que as dificuldades materiais seriam apenas fatores secundários no recrutamento dos indivíduos pelo mundo do crime. Com isso, a miséria significaria somente um “veículo capaz de conduzir inclinações latentes, mas que não seriam patenteadas sem o auxílio” 179
.
Nota-se uma significativa diferença entre os autores no que tange ao modo de conceber a relação dos populares com a perpetração de crimes. Ao passo que Orestes Barbosa advertiu que a pobreza levava os indivíduos a cometerem os assassinatos, Aurelino Leal buscou relativizar a correlação entre a escassez de recursos e a predisposição para a execução de crimes.
Tentarei evidenciar que essa maneira de representar os mais pobres não era exclusividade de Orestes, mas estava largamente difundida na imprensa carioca, sobretudo se formos levar em consideração a análise das notícias dos homicídios desfechados em uma das regiões mais carentes da cidade do Rio de Janeiro, ou seja, o tão mal afamado Morro da Favela180.
Esta pesquisa também se dedica a investigar o Morro da Favela como objeto de estudo. São poucos os trabalhos acadêmicos que versaram sobre esta localidade, sendo um tema que, nas palavras de Rômulo Mattos, “carece de historicidade” 181
. Visando enriquecer o debate historiográfico acerca do Rio de Janeiro do início do século XX, neste capítulo examinaremos as notícias dos assassinatos que foram perpetrados no
178 BARBOSA, Orestes. Op., Cit., p. 25.
179 LEAL, Aurelino. Estudos da Sociologia e Psicologia Criminal. Bahia: Reis e Comp. Editores, 1902,
p.44.
180
Existe uma clara ambiguidade no posicionamento de Orestes Barbosa. Sua ascendência popular colaborava para a predisposição em tratar de temáticas focadas nas imagens do submundo. Se por um lado, o cronista concede espaço para a divulgação de práticas culturais das camadas populares, por outro, ele reforça os estereótipos construídos contra estes mesmos grupos e ao seu modo de vida.
70 Morro da Favela. Com este fito foram analisados alguns dos principais jornais veiculados na cidade do Rio de Janeiro.
Em primeiro lugar, iremos nos dedicar exclusivamente ao noticiário criminal exibido nas páginas dos periódicos da Capital Federal. Especialmente, daremos maior atenção para as matérias que trataram do Morro da Favela. Posteriormente, abordaremos algumas crônicas sobre este morro. Em seguida, no terceiro capítulo, analisaremos como os jornais da grande imprensa narraram o assassinato de um policial nesse local. Por fim, iremos cotejar as reportagens desse crime com os depoimentos presentes no processo criminal. Dessa maneira, um de nossos objetivos consistirá em dialogar com estas distintas fontes, ou seja, buscaremos evidenciar algumas congruências e outras disparidades entre essas narrativas.
II.2 Noticiário criminal: a representação do Morro da Favela nas páginas dos