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5.2 A INTRUSA (1908)

5.2.2 A Intrusa: desejos e paradigmas

O romance A Intrusa já carrega em seu título uma prévia do que será a vida de Alice Galba na casa de Argemiro Cláudio de Menezes. A princípio, o rico advogado promete zelar pelo compromisso de nunca mais casar-se, pois amava imensamente sua falecida esposa Maria. Situação complicada para um homem jovem, cheio de ansiedades e desejos a serem contemplados em uma trajetória de sucesso que vinha construindo com dedicação.

Em seguida, a necessidade de uma mulher para lhe cuidar da casa e de sua filha. Ficava cada vez mais complicado conhecer alguém, já que todas gostariam de casar-se com ele. Decidiu criar um anúncio e publicar em um jornal da cidade. Primeira atitude inusitada e inovadora da autora Júlia Lopes de Almeida para, provavelmente, quebrar um paradigma social e provocar perturbações aos críticos e aos leitores.

A mulher no século XIX recriava sua identidade feminina, já que nunca desistiu de tê-la. Todos os detalhes que pudessem agregar a uma nova proposta eficiente de emancipação e valorização sustentariam argumentos contrários. A independência cultural e, principalmente, financeira, destacaria o poder quase extinto da mulher, de forma mais eficiente. Kreps (1992, p. 175) corrobora com essa questão, afirmando que “uma pessoa não existe ‘para’ a outra, mas como um ente distinto como seus próprios direitos para ser valorizado como tal e não apenas como um meio visando a um fim ou um adjunto”.

Destarte, Alice Galba surge como ferramenta desse pensamento moderno e precursor. É uma personagem redonda, aquela que surpreende em suas atitudes, podendo sugerir que representou esse desejo feminino de liberdade social. Discreta e inteligente, sabe o momento certo e os arranjos adequados para seduzir e apaixonar, fazendo com que Argemiro a deseje, mesmo sem perceber:

O que me delicia é sentir a alma dessa criatura, que aqui tenho debaixo do meu teto, sem que nunca os meus olhos a vejam nem de relance... ela se esconde, ao mesmo tempo em que se espalha pela casa toda. É a mulher-violeta, positivamente, não há outra comparação! (p. 75).

Então, a partir do momento em que fora escolhida para cuidar da casa e ajudar na educação de sua neta, a baronesa desatinou e proibiu tal decisão: “Era só o que me faltava... Glória dormir fora de casa, entregue a uma mulher saída Deus sabe de onde! Uma mulher de anúncio! Uma...” (p. 39). O julgamento antecipado e preconceituoso tem raízes seculares, mesmo o discurso sendo construído por outra mulher. A insegurança revela o pior de seus temores.

Argemiro corrobora com essas descrições, para apoiar e, principalmente, não discordar com “mamãe” – jeito carinhoso que decidiu chamar sua sogra: “A senhora repare que esta é uma mulher mercenária, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa disso... o lugar de Maria é insubstituível no meu coração”. (p. 41).

Praticamente, todos os diálogos em torno de Alice e Argemiro acontecem na casa do advogado. A sala, a cozinha e o jardim são os lugares que reuniam as características que delineavam a governanta escolhida por um anúncio de jornal. Aos poucos, flores, móveis consertados, roupas bem lavadas, orçamento em dia, surgiam de forma harmoniosa com sua discrição, pois o combinado era dela não aparecer em hipótese alguma na frente de seu patrão, tanto que ele a desconhecia fisicamente: “Confesso-lhe até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governanta bonita, ou pelo menos graciosa. A beleza sugestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegância”. (p. 21). Não sabia ele que o oposto se revelaria.

Além da ausência de Alice proposta por Argemiro, a educação da filha era prioridade para ele: “A mulher hoje precisa ser instruída, solidamente instruída, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja”. (p. 37). Nesse trecho o desejo de liberdade toma forma e pode representar, não apenas na ficção, mas de fato na vida das leitoras, a provocação do pensamento potencial que cada mulher dispõe em seu percurso profissional. Um agenciamento urgente parece nascer no limite entre o ser e o ter da mulher oitocentista.

O casamento começara a dar sinais de mudança na forma de seu contrato. Havia uma preocupação em relação à possibilidade do divórcio ser aceito no Brasil. Algumas moças ou mulheres recusavam-se em aceitar possíveis anulações:

A manhã era de revelações! Ela acreditara sempre que os laços do matrimônio eram indissolúveis... a grande poesia do casamento parecia-lhe estar na perpetuidade do amor e na perpetuidade do voto. Que era o casamento, então? Um contrato quebradiço sujeito a ser violado ao primeiro amuo? (p. 99).

Ainda, a Constituição de 10 de novembro de 1937 reiterava que o casamento era indissolúvel. Apenas em 1977, por meio da emenda constitucional número 09, regulamentada pela lei 6515 de 26 de dezembro do mesmo ano18 a situação mudou.

Todos que moravam e frequentavam a casa de Argemiro percebiam que Alice já tomara conta daquele lugar: “A mesa estava bem posta; desde que Alice entrara não deixara de haver flores e frutas no jantar”. (p. 49). Também há aqueles que não desejavam importunar o advogado: “Deus me livre! Seu doutor parece que está enfeitiçado... não admite que a gente diga nada. Também ela pode fazer o que quiser”! (p. 109). Nesse ponto as intrigas surgiam como incessantes provocações e desafiavam o humor e a paciência do viúvo.

Entretanto, ele começara a perceber a presença de Alice, senti-la, mesmo na ausência: “A verdade, que ele sentia que o penetrava por todos os poros, era que a sua casa nunca lhe parecera tão aconchegante. Havia um conforto novo, um aroma de malva ou de pomar florido, melhor luz, melhor ar”. (p. 73). Uma antítese de sentimentos que Argemiro não se dera conta do envolvimento que a governanta despertava.

Havia uma agitação de desejos incontidos no personagem Argemiro, esses mais descritos pela autora. Em relação à Alba, esses desejos eram traduzidos em ações sutis, como: “Desde que esta mulher entrou em minha casa eu sou outro homem, muito mais tranquilo e muito mais feliz. Nunca a vejo, mas a sinto; a sua alma de moça enche essas salas vazias de juventude e de alegria”. (p. 129). A docilidade feminina aliada à sedução desencadearam interditos amorosos que ambos desconheciam.

Argemiro estava seduzido pelos desejos imperceptíveis de Alice. Ele tentava se esquivar dos grilhões do amor, mas não conseguia:

“Desejo e amor encontram-se em campos opostos. O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. Fiéis a sua natureza, o amor se empenharia em perpetuar o desejo, enquanto este se esquivaria aos grilhões do amor.” (BAUMAN, 2004, p.25).

18 Até o ano de 1977, quem casava, permanecia com um vínculo jurídico para o resto da vida. Caso a

convivência fosse insuportável, poderia ser pedido o 'desquite', que interrompia com os deveres conjugais e terminava com a sociedade conjugal. Disponível em:<https://ibdfam.jusbrasil.com.br/noticias/2273698/a- trajetoria-do-divorcio-no-brasil-a-consolidacao-do-estado-democratico-de-direito >. Acesso em: 22 jan. 2017.

A governanta sabia o queria. Era inteligente e astuta, não apenas para impressionar, mas porque era de sua natureza feminina. Diferente de sua ex-mulher, Alice tinha identidade própria e uma personalidade definida, construída em vivências familiares, dificuldades financeiras e um profundo otimismo da vida.

Esses aspectos refletiam em sua presença/ausência, e, tal como o desejo, sublinha Giorgi (1990) é ter a certeza na ausência da ausência, isto é, quando não se tem o que se quer, se deseja. Reconhecer que não se tem o que se quer acontece com Argemiro em relação à Alice: ele a quer, mas ainda não sabe.

As transformações que a paixão fabrica na identidade do apaixonado, as ilusórias similitudes na convivência das personagens são significativas e perturbadoras: “Eu estava mofado, tinha bolor na alma. Depois sentindo a influência dela, percebendo os seus gostos finos, que em tudo se demonstravam, comecei a exigir de mim hábitos mais corteses e a tratar minha pessoa com mais consideração e maior carinho”. (p. 130). Desejar ser desejado era o que Argemiro voltou a querer. Alice fez isso com ele, pois sua vicissitude o animava, deram ânimo depois de um longo período de luto.

Começam, então, os sintomas que o desejo provoca: “Se não a queria ver antes por prudência, não a quero ver agora, por egoísmo, para não desfazer esta ilusão agradável e esquisita, mas bem sincera”. (p. 131). A fuga da realidade faz com que a imagem criada se perpetue, transfigurando a mulher dos sonhos: “A minha governanta é perfeita! Se tem defeitos, nunca os deixa transparecer... nem é possível que os tenha...”. (p. 170). A beleza começou a ser traduzida em gestos sutis e sedutores.

“Só se alegra quando entra em casa... já não olha com o mesmo olhar saudoso para o retrato de Maria. Se a governanta sai, estando ele em casa, logo se aborrece. É esquisito. Não a ouve... não a vê, mas sente-a”! (p. 159). Quando Foucault (1985) afirma que há uma estrutura no desejo, isto é, um objeto de desejo e uma inquietação: como transformar esse objeto em sujeito de seus prazeres, demonstra o quanto Argemiro vive em conflito quando percebe a importância de Alice em sua vida. Ela se torna o sujeito de seus prazeres.

O padre Assunção observava as mudanças tanto físicas quanto psicológicas de Argemiro: “Ama-a... ele ainda não o sabe... mas a verdade é que ela já lá está dentro...”. (p. 165). Alice conquistou o amor do advogado na singularidade de sua presença/ausência, traduzindo o desejo que ele sentia por ela:

Para mim basta-me a sua representação, neste aroma, peculiar dela e que paira sutilmente por toda a minha casa; nesta ordem, que me facilita a vida, e no gosto com que ela embeleza tudo em que toca e em que pousa a vista. É uma educada.

Parece-me que ela deve ter estudado à sombra de castanheiros ingleses, entre campos de tulipas e jacintos, tão diversa ela me parece ser das outras mulheres. (p. 170).

Os sentimentos são expressos por um homem, partem de um ponto de vista masculino, mas, provavelmente, a autora expressa dessa forma o desejo do poder feminino na representatividade de Alice: “Nunca a vi, mas a conheço, adivinhei-a; abstraí da personalidade. Ela é o meu conforto; a minha segurança, a minha felicidade”. (p. 209). O “adivinhar” simplifica argumentos e reproduz o desejo contido, aquele que sobrevive de uma atração pouco explicável.

Há um trecho que, de certa forma, propõe construir uma identidade de mulher consciente dos seus direitos e autenticidade em suas atitudes: “Aquela criatura que tenho em casa não é uma mulher; é uma alma, que não constrange absolutamente em nada. Amo a liberdade sobretudo!” (p. 161). O desejo de ser livre em relação às ideias, aos direitos legais, ao amor, à paixão, entre tantos outros negados às mulheres, faz-se articulado em sutis expressões, para que sejam compreendidas em seu duplo sentido.

Até o momento em que Argemiro não conhecia Alice, imaginava e via defeitos, como: uma perna mais curta que a outra, muito branca, um pouco corcunda, entre outros que imaginava. Com passar do tempo e das provas de sedução inconscientes que Alice deixava pela casa, Argemiro foi construindo uma personalidade diferente, e quando a viu, já apaixonado, percebeu que se enganara quanto à beleza física. A paixão a transformou em uma bela moça. Em vista disso, pela primeira vez, Argemiro procurou, através das venezianas do seu quarto, ver se descortinava pelo menos o vulto da sua governanta: “Aumentara-lhe a curiosidade pela sua pessoa. Sentia um enorme desejo de matar a saudade de uma desconhecida!” (p. 215). E completou a devoção, com elogios significativos, comparando-a, como sempre, a cheiros e sabores: “Ela é deliciosa! E aspirava num deleite o aroma que vinha dela, aquele cheiro de cidrilha, de malva ou flor de fruta e que constituía já uma das suas necessidades”. (p.228).

Por fim, após saber o que sua sogra fizera com Alice, Argemiro decidiu pedi-la em casamento, até porque, quando se aproximaram pela primeira vez: “Alice levantou com espanto os olhos para Argemiro. Ele os fixou com ternura. Estremeceram ambos”. (p. 228). O tremor de ambos é característica própria de indivíduos atraídos pelo desejo. Bataille (1987, p. 86) afirma que “o objeto do desejo não poderia ter respondido à expectativa masculina, não poderia ter provocado a conquista, sobretudo a preferência, se, antes de se esquivar, não se tivesse feito notar pela expressão ou pelos adornos”. É de fato uma teoria recorrente,

entretanto, no caso de Alice isso não acontece, pois o advogado pouco a percebeu na entrevista e nunca mais lhe pusera os olhos. Desse modo, o oposto acontece na narrativa: a sua ausência o seduz.

Dentro de uma análise microscópica, o narrador está em terceira pessoa e é onisciente, conhece profundamente os sentimentos das personagens. Por meio do discurso direto os protagonistas expressam ao leitor seus dramas e aflições. Moisés (2006) afirma que o romance apresenta uma visão global do mundo, recriando uma realidade, reconstrói o fluxo de consciência com meios próprios, e Júlia Lopes de Almeida o engendra com uma linguagem coesa e dinâmica, recorrendo a vocábulos adequados à proposta inovadora de seu estilo.

O tempo é marcado por amanheceres e entardeceres iluminados por descrições detalhadas, já que o olhar de Alice é detalhista e articuloso. Meses se passam desde sua vinda para a casa de Argemiro e não há nenhuma data comemorativa para sinalizar alguma outra demarcação temporal. A casa do advogado Argemiro e as ruas do Cosme Velho são o palco do romance. As salas e a cozinha são os cômodos mais citados e onde a maioria dos diálogos acontece. As refeições que acontecem são recursos de vasculhar a intimidade de Alice, para tanto, as flores, as louças, os cheiros, a limpeza são detalhes que agregam a personalidade da personagem.

Júlia Lopes de Almeida perpetuou nesse romance o desejo inquieto de uma mulher autêntica e inteligente, que apesar das intempéries da vida, soube ser resiliente, manteve a essência feminina e sedutora que pertence a todas as mulheres.