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CAPÍTULO 2 – A INVEJA NO SUJEITO

2.3 Inveja como um Desejo

Inveja é um termo latino (invidere) que comporta a noção de olhar de soslaio. O termo videre significa ver, olhar e, consequentemente, colocar em “lugar-condição” o outro por meio deste olhar. O prefixo In indica um olhar interno, que abarca a totalidade do objeto olhado. Juntando os componentes que formam a palavra, inveja surge como um olhar que degrada e esfacela o outro, um lugar de decomposição (THEOPHILO, 2011).

Faz-se necessário novamente retomar a distinção entre inveja e ciúme, para se compreender as respectivas funcionalidades. O ciúme é direcionado sobre a relação estabelecida entre um sujeito e um objeto, cujo objetivo é destruir a relação, para apossar-se do objeto. Este objeto pode ser o sujeito tanto quanto o objeto outro da relação que o sujeito estabelecia, na medida em que o sujeito se torna objeto quando é tomado como posse, na imaginação do sujeito ciumento. A inveja consiste, reitera-se, num “não-querer” que o outro possua o objeto17 seja ele sujeito ou

artefato, sendo que não há um objetivo lógico de tomá-lo para si.

Os termos inveja, ciúme, cobiça dizem respeito a desejos, movimentos em direção a algo que se quer ter. Neste sentido, compreende-se que a inveja é uma forma de desejo, direcionada a algum objeto. O desejo é uma espécie de busca,

17Tratar do conceito de objeto na psicanálise é algo complexo. No caso de Freud, ele não chega a

uma definição única e final do conceito, mas a noção de objeto aparece basicamente de dois modos; 1) ligada a noção de pulsão (correlatos das pulsões ou objeto das pulsos) ; 2) objeto ligado à atração e ao amor/ódio (correlatos do amor e do ódio). No caso o objeto é causa do desejo para que o outro não o tenha.

portanto, ao ser alcançado proporciona um nível específico de prazer. Em termos psicanalíticos sabe-se que o desejo busca ser realizado, e por ser desejo do inconsciente, volta como sintoma por meio do recalcado, forcluído, ou denegado18. A

produção deste gozo, que seria a realização do desejo não se processa, pois o que aparece não é o desejo em si, senão o seu sintoma (ALBERONI, 1996).

A inveja do objeto como desejo do inconsciente não produz gozo com o rompimento/destruição do objeto, por que este desejo é puramente um sintoma. Ao romper/destruir o objeto da inveja, o sintoma retorna sobre outro objeto, pois o que se processou não foi a realização do desejo, senão o encerramento do objeto como forma de sintoma. O mesmo ocorre com a cobiça e com o ciúme, em que não se produz a realização do desejo.

Esse processo de focalização do desejo constitui uma ótica funcional aplicada pelo mercado de consumo. É impossível não desejar, logo estamos sempre em busca de um gozo que nunca se alcança. O mercado captou essa dinâmica psíquica do ser humano, e passou a utilizá-lo como ferramenta para seus objetivos. Ao não alcançar o gozo pleno de nossos desejos constroem-se objetos para nossos sintomas, uma vez que desejar é uma função vital.

Diante das possibilidades que a sociedade presente possui em termos de objetos, tem-se aquilo que se deseja em quase tudo. Mas esse “ter” é sintoma, então, novos objetos são produzidos para serem desejados. Nessa ótica, encontra- se um mercado que faz uso da inveja, do ciúme e da cobiça, enlaçando todos, em feixe de objetos a serem desejados ou invejados.

Diz-se que o consumismo é o maior problema do mundo moderno e pós- moderno. Ocorre que se criou o mito do consumismo para velar o real problema: a obsolescência. Sem a constância da obsolescência não seria possível executar o consumismo. Enquanto tenta-se combater o consumismo com políticas de consumo consciente, inventa-se um paliativo para um sintoma que não cessa sem repensar o problema.

18 Recalcado como a estrutura do neurótico; forcluído como a estrutura do psicótico; e denegado

A elaboração do falo é reatualizada neste processo de obsolescência. Quando se depara com a falta do objeto do consumo, não interessa a posse do objeto, mas que o outro não o tenha. Essa perspectiva de circunscrever o desejar e não o objeto do desejo é uma atualização da relação com a falta inicial em que por não se ter o objeto do prazer, busca-se invejar o objeto negado, enquanto objeto de prazer.

A posição de que há um objeto de prazer que nos falta, remonta à imagem do falo, e a forma de atuar sobre essa falta é justamente invejar o objeto. Reconstruir a permanência da falta é o mecanismo de manutenção do consumismo, pois a obsolescência sustenta-se pela falta. Se a falta é fundamental para o dinamismo psíquico no sentido de ser um propulsor, a sua intensidade pode gerar a obsolescência.

A questão estética é uma mescla destes desejos, em que se cria um objeto chamado de corpo ideal, então, o sujeito constrói uma relação de inveja com seu corpo imperfeito que ele busca destruir em prol da cobiça do corpo perfeito (BAUDRILLARD, 1981). São processos sequenciais intercalados, em que a inveja inicial daquele corpo frente ao seu dá lugar à cobiça.

Reconhecer a impossibilidade de um corpo perfeito é algo lógico, pela inexistência de um modelo ao qual se construa o padrão a ser buscado. Modificar o objeto do desejo é dar seguimento ao binômio inveja-cobiça, uma vez que o sintoma extirpado retorna por sobre outro objeto.

O essencial para o mercado atualmente não é propriamente produzir o objeto mais completo, mas nomeá-lo simbolicamente como objeto de desejo. É nesta perspectiva que o mercado de marketing desponta para o sucesso das empresas (BAUDRILLARD, 1981).

O que se produz não são mais propriamente artefatos com uma funcionalidade para uma atividade delimitada. Steven Jobs, ao apresentar o Iphone, não o anunciou como uma ferramenta com as suas funções catalogadas, senão

como uma interface capaz de conectar pessoas. Trata-se justamente de produzir um artefato como uma forma de cultura na busca de realização do sintoma do desejo. Estar conectado com outras pessoas e com uma rede de informações, mesmo estando sozinho, constitui uma forma de ter em mãos a possibilidade de sanar o sintoma acerca do não-saber oriundo da incerteza do neurótico.

Justamente as carências mais emergenciais foram sanadas com a criação de uma interface entre os sistemas de informação. A informação não é mais invejada, mas cobiçada e tomada para si por meio da interface. As possibilidades de atendimento aos sintomas se expandem e se lançam na criatividade do possuidor do objeto. Assim, o próprio corpo confunde-se no mundo dos objetos desejados, sem uma diferenciação precisa do que é humano e do que é objeto. No desejar, comandado pela inveja, o objeto passa a ser corpo e o corpo passa a ser objeto.

O humano passa a ser obsoleto, inicialmente em partes localizadas, tal como o cabelo, a roupa, a unha. Posteriormente, o corpo ganha uma noção de totalidade e os afetos passam a ser obsoletos, no sentido de terem um caráter de falta. A depressão é a expressão mais pertinente de algo que falta, de que algo não é possível de ser possuído. A clínica aponta nesse sentido através da pergunta do paciente: “por que eu tenho que sofrer isso?”. Essa pergunta comporta a inveja dos outros não terem a doença, mas supostamente terem o objeto que ao sujeito depressivo falta.

Repensar a relação da inveja para com os objetos é fundamental para o ético exercício da psicologia. Não seria propriamente possibilitar a posse do objeto faltante, ou buscar esse objeto impossível, mas permitir ao sujeito a invenção de sua posição no mundo. Essa invenção mantém a falta do objeto e o dinamismo psíquico, mas não torna os objetos obsoletos dada a sua procedência: eles não se originam de um outro, mas são produtos da minha invenção, da minha identidade. Assim não se busca suprir a falta com um complemento que vem do outro, senão do próprio exercício no mundo.

É sobre essa dimensão econômica, que comanda o social, que a inveja manifesta sua intensidade nas relações entre as pessoas. A inveja acontece numa

relação mediada por objetos que perfazem a cultura em todas as dimensões de organização da vida. A falta como elemento central da inveja torna-se a questão da necessidade que, por sua vez, move a sociedade. Não basta suprir as necessidades, mas criar novas necessidades das quais as pessoas sentem falta para viver um padrão de felicidade criado culturalmente segundo a economia dos objetos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como atesta a psicanálise, não é um lugar de competição que o invejoso busca, mas unicamente um lugar de expectador da ruína do outro produzido pelo seu desejo. Desejar é uma condição própria do ser humano, não meramente como um afeto adicional das suas relações, senão uma função vital. Invejar denunciando em tempos atrás como um afeto malicioso, danoso, quando não demoníaco, assume atualmente um status de ferramenta de mercado. Mais do que isso, denuncia a dinamicidade do psiquismo humano.

Tal como a angústia, a inveja desdobra-se sobre as relações humanas deflagrando conflitos que dinamizam as próprias relações e nos impulsionam a desejar. Condicionar esse desejo para a lógica do mercado, possivelmente não seja a forma mais adequada para o sujeito desejante, pois o desejo passa a ser externo a si.

Se a inveja é meramente um afeto, logo pode ser excluída das possibilidades de existir, portanto, pode-se negar o desejo. Ela é um afeto, mas é também um desejo. É um afeto porque afeta um objeto e ao sujeito que o produz. E é um desejo por que é imanente ao ser humano, e possui um sentido de atuação-movimento em direção a algo.

Enquanto o ciúme visa manter somente para si o objeto que se tem, a inveja, em não querer que o outro tenha o objeto configurando, ambas as formas de relação com o objeto. Essa relação que se estabelece com o objeto não é meramente um afeto pelo fato de ser desejo do inconsciente, configurando um modo de ser.

Para a psicanálise, a inveja é parte estrutural e sua manifestação que ocorre por meio das relações dos objetos é apenas sintoma, e não desejo a ser realizado. Ao colocá-la como um modo de ser, que diz respeito a uma estrutura, pode-se pensar em eximir o sujeito da culpa de seus sintomas, uma vez que são oriundos de um inconsciente. Contudo, eximir a culpa de seus sintomas não significa negá-lo

como sujeito invejoso, pois o inconsciente é parte deste sujeito que manifesta os sintomas.

É por isso que a inveja está presente em toda a história da humanidade: ela é um desejo do inconsciente direcionado para a destruição do objeto. Destruir é uma propriedade do ser humano que visa construir algo novo, seja meramente tirando o sentido de objeto ou reconstruindo este objeto.

Ao vivenciar o contexto do presente, permanecem muitas questões que merecem ser pesquisadas, sobretudo, com um distanciamento da vida cotidiana do presente. De que forma a inveja condiciona os modos de viver das pessoas numa perspectiva do presente para o futuro? O destino da humanidade é influenciado pela inveja, como característica que está presente nas decisões e opções políticas, econômicas e sociais? É possível alguém viver sem sentir inveja? E, por fim, como medir a intensidade da inveja para compreender como um sintoma precisa ser tratado?

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